Um relato de experiencia com etnoturismo

Por Lei Xiao

Fotos de Priscila Alves Pereira

Assim como a maioria dos adolescentes, quando completei meus 18 anos, comecei a minha vida de responsabilidades. Até então, viajar para mim era ir para a praia aos finais de semana para pegar sol ou ir até pontos turísticos em outras cidades para comer, dormir e tirar fotos.  Mas há 3 anos conheci o professor Jorge Machado e as coisas começaram a mudar. Ele me mostrou o mundo indigenista e nos ensinou com muito cuidado os dramas que esse povo vivia e vive no brasil. Depois de 4 meses de contato em aulas e material de estudo, ele nos levou para os jogos indígenas que aconteceu naquele ano em Bertioga, São Paulo. Dali começou a minha experiencia com etnoturismo, fora dos livros do Darci Ribeiro.

Lembro-me da primeira vez que pisei na reserva Rio Silveira em Bertioga, estava cheia de receios e curiosidades, olhava para os Tupi-Guaranis com certo distanciamento, para não dizer que via eles como peças de museus, que não poderiam ser corrompidos com meus costumes “de cidade”. Alguns meses depois, o professor nos levou para uma experiência de estadia na aldeia, ficamos quase uma semana, e desta vez tínhamos um cronograma de atividades pré-estabelecidas, tinha o momento de conversa com o Pajé e o Cacique, momento de plantio, momentos lúdicos de brincadeira com os moradores da aldeia. Nos levaram para tomar banho de cachoeira, andamos pelo meio da mata, com a orientação de índio experiente claro, até porque na mata tem animais selvagens e o imprescindível é zelar pela segurança do visitante andando pelo caminho correto. 

Desta vez, com mais de 40 pessoas na expedição e mais desinibida, já tive coragem de conversar, mas confesso que no fundo ainda carregava muitos julgamentos do tipo: “Por que eles jogam lixo pela aldeia? Por que esse povo não planta? Por que eles são tão fechados e não conversam? ”.  

Na terceira estadia na Aldeia, um ano depois, fomos em 8 pessoas, tive mais humildade e comecei a buscar conhecimentos antes de julgar, perguntei o nome das coisas, significado dos seus nomes, a percepção deles sobre a vida na cidade, tomei nota de muitas histórias e lendas, apreendi muitas palavras em guarani e comecei a sentir o ritmo de vida tão respeitosa com a natureza que eles carregavam. Entendi que o lixo não estava jogado pelas ruas, e sim sendo juntadas para irem à fogueira logo logo, já que não existia sistema de coleta de lixo diariamente. Apreendi que ali não se plantava, por que estão em uma área de proteção permanente onde o desmatamento era proibido, enquanto que as áreas desmatadas estão inférteis ao plantio. Depois disso fiquei um ano me dedicando ao trabalho e a busca pela espiritualidade, o que incrivelmente mudou mais uma vez o meu olhar sobre esse povoado no meu retorno à aldeia há cerca de um mês.

Nesta última estadia, muito diferente das idas anteriores me senti em casa, não mais como turista visitante, não mais como um estranho no paraíso. A experiencia do contato foi como estar em um internato, onde a metodologia de ensino era de imersão sobre a cultura guarani, senti a presença de Nhanderu (a forma como os guaranis chamam o deus ou poder supremo criador de tudo) em cada passo que dei na aldeia, em cada ar que inspirei e cada gota de água que bebi. Senti da família do Pajé (como se chamam o líder espiritual) o amor, o acolhimento e o cuidado fraterno. Entendi o porquê desse povo fazer tanta questão de lutar pela demarcação das suas terras, lutar pela preservação da natureza. Desta vez apreendi que todas as noites se faz meditação com cantos e pajelança na casa de reza. Todas as manhãs se acorda com o raiar do sol e o canto dos pássaros. Toda vez que nasce uma criança o deus lhe concede um nome através do Pajé, sempre ligado a alguma atividade/ trabalho que a criança viria desempenhar por toda a sua vida.

Esses valores só foram percebidos depois de 3 anos de contato e idas à aldeia. Acredito que turismo étnico responsável é isso, é vivenciar, absorver e digerir.  Quando carregamos o respeito sobre o local visitado e o respeito sobre nossas próprias barreiras culturais o retorno da experiencia vem de forma lenta, gradual e gratificante.

Postagens Relacionadas

Published by

Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP). Neste espaço, abro espaço para alunos se expressarem sobre os mais variados temas envolvendo a indústria de viagens.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *