Tenho acompanhado as notícias sobre as ações junto aos moradores de rua em São Paulo, mais especificamente o que se chama “cracolândia”. Volto esta semana para o Brasil e antes de voltar, em conversas com amigos aqui, e notícias que acompanho, resolvi refletir sobre o assunto. Não se trata de nenhum estudo ou pesquisa.
No Japão, o governo local ou da região cuida dos poucos que precisam de ajuda para sobreviver. No Japão, mais especificamente na cidade de Tóquio que conheço, o numero de homeless é muito pouco, mas tem. Mas, não tem mendigo e nem drogado. Provavelmente porque mendigar é vergonhoso e lugar de drogado é na recuperação. Também nunca vi crianças na rua. Quando são órfãos ou carentes financeiramente, o governo as recolhe em instituições que servem de lar e de onde frequentam escolas. E, nestas décadas de vivência no Japão, até agora só vi uma mulher sem teto.
Os moradores de rua geralmente são por opção, que não gostam de “amarras” da sociedade. O governo os recolhe, mas eles insistem em se virar sozinhos. Uma boa parte são aqueles que não tem condições de pagar aluguel e muitos recusam ajuda mesmo do governo, por achar vergonhoso. Não querem voltar para a família, porque é desonra voltar para casa sem ter conquistado o sucesso ou ter amealhado uma boa poupança para a família.
Preferem viver no anonimato a depender do governo ou de alguém. Para vocês terem uma ideia, uma vez, quando fui fazer minha corrida no Parque Yoyogi, vi na estação do metrô um senhor sentado, em cima de papelão, com sua maleta. Era visível que era morador de rua, com seu pequeno pertence. Fiquei com pena e comprei alguns sanduíches e bebida e lhe entreguei, mas este senhor recusou-se a aceitar! Disse que não podia aceitar porque não teria como pagar ou retribuir.
Insisti mas não teve jeito, tive que comer tudo e lá se foi a gordurinha que iria perder correndo… Como ganho muitos doces e comida, peço para levar para um local onde tem varias casinhas de papelão dos sem-tetos. O pessoal de casa divide em sacolas e coloca na rua, junto a estas casinhas. Vocês não acreditariam, eles não pegam de imediato, deixam um tempo para ver se alguém vai pegar. Depois, um mais corajoso arrisca a apanhar uma sacolinha – só uma – e nem verifica o conteúdo. Pega e vai para seu espaço. Daí a pouco aparece um outro e assim um após outro, como se tivesse uma regra invisível.
Alguns tem seus carrinhos, como de super mercado, mas muito poucos, só vi dois até agora. Ouvi dizer que praticamente não se vê estes desabrigados nas cidades do interior, porque o governo local obriga-os a serem cuidados, porque é vergonhoso para a cidade ver gente sem amparo.
E, realmente, o governo precisa cumprir esta parte, de suprir as necessidades de comer, cuidados com a saúde e ter teto. Agora, não consegue obrigar a se inserir na sociedade produtiva, voltar ao lar, etc., devido a questão de honra, que é provavelmente fator mais forte à decisão de morar na rua, no anonimato.
Vejo vocês logo…amanhã levanto às 5:00H direto para o aeroporto ! Boa semana a todos.
