Sobre a honra e o abandono

janeiro 17th, 2012

Tenho acompanhado as notícias sobre as ações junto aos moradores de rua em São Paulo, mais especificamente o que se chama “cracolândia”.  Volto esta semana para o Brasil e antes de voltar, em conversas com amigos aqui, e notícias que acompanho, resolvi refletir sobre o assunto.  Não se trata de nenhum estudo ou pesquisa.

No Japão, o governo local ou da região cuida dos poucos que precisam de ajuda para sobreviver.  No Japão, mais especificamente na cidade de Tóquio que conheço, o numero de homeless é muito pouco, mas tem.  Mas, não tem mendigo e nem drogado.  Provavelmente porque mendigar é vergonhoso e lugar de drogado é na recuperação.  Também nunca vi crianças na rua. Quando são órfãos ou carentes financeiramente, o governo as recolhe em instituições que servem de lar e de onde frequentam escolas.  E, nestas décadas de vivência no Japão, até agora só vi uma mulher sem teto.

Os moradores de rua geralmente são por opção, que não gostam de “amarras” da sociedade.  O governo os recolhe, mas eles insistem em se virar sozinhos. Uma boa parte são aqueles que não tem condições de pagar aluguel e muitos recusam ajuda mesmo do governo, por achar vergonhoso.  Não querem voltar para a família, porque é desonra voltar para casa sem ter conquistado o sucesso ou ter amealhado uma boa poupança para a família. 

Preferem viver no anonimato a depender do governo ou de alguém.  Para vocês terem uma ideia, uma vez, quando fui fazer minha corrida no Parque Yoyogi, vi na estação do metrô um senhor sentado, em cima de papelão, com sua maleta.  Era visível que era morador de rua, com seu pequeno pertence.  Fiquei com pena e comprei alguns sanduíches e bebida e lhe entreguei, mas este senhor recusou-se a aceitar! Disse que não podia aceitar porque não teria como pagar ou retribuir. 

Insisti mas não teve jeito, tive que comer tudo e lá se foi a gordurinha que iria perder correndo…  Como ganho muitos doces e comida, peço para levar para um local onde tem varias casinhas de papelão dos sem-tetos.  O pessoal de casa divide em sacolas e coloca na rua, junto a estas casinhas.  Vocês não acreditariam,  eles não pegam de imediato, deixam um tempo para ver se alguém vai pegar.  Depois, um mais corajoso arrisca a apanhar uma sacolinha – só uma – e nem verifica o conteúdo.  Pega e vai para seu espaço.  Daí a pouco aparece um outro e assim um após outro, como se tivesse uma regra invisível.

Alguns tem seus carrinhos, como de super mercado, mas muito poucos, só vi dois até agora.  Ouvi dizer que praticamente não se vê estes desabrigados nas cidades do interior, porque o governo local obriga-os a serem cuidados, porque é vergonhoso para a cidade ver gente sem amparo. 

E, realmente, o governo precisa cumprir esta parte, de suprir as necessidades de comer, cuidados com a saúde e ter teto. Agora, não consegue obrigar a se inserir na sociedade produtiva, voltar ao lar, etc.,  devido a questão de honra, que é provavelmente fator mais forte à decisão de morar na rua, no anonimato.

Vejo vocês logo…amanhã levanto às 5:00H direto para o aeroporto !  Boa semana a todos.

 

A magia da Fé e da Esperança

janeiro 10th, 2012

A chegada do Ano Novo no Japão é celebrada com rituais seculares pelo povo de norte a sul do país.  É misto de xintoísmo, budismo e antigos costumes que trazem à tona a influência da tradição, cada vez menos notada no cotidiano. 

O ritual começa com uma limpeza geral de residências a escritórios, escolas, campos de atletismo – enfim tudo, com canais de TVs apresentando vários programas sobre produtos e instruções que facilitam a limpeza. Tudo para começar o novo ano livre do que possa dificultar a entrada da prosperidade que precisa de espaço livre e limpo.  Inclusive vi os poucos moradores de rua limpando seu espaço e desfazendo-se de coisas que foram juntando.  

O Japão moderno, da tecnologia de ponta, dos iPads e celulares mirabolantes e das grandes marcas como Chanel, Prada, entre outros, transforma-se em um país de hábitos milenares, numa profusão de superstições que chamo de magia da fé e da esperança porque tudo converge para a crença de que os rituais são os passos certos para atrair a felicidade.  

É o enfeite na porta de entrada que convida a prosperidade a entrar, filas e filas nos templos para orações, assim como orações sob intenso frio nas cataratas em neve. É comer “oseti”, comida baseada na oferenda aos deuses, com ingrediente e variedades que invocam requisitos para a felicidade: saúde, fecundidade, trabalho, prosperidade, pujança. 

Por isso, as ovas de peixes para fartura e fertilidade (ovas geram muitos peixes); camarão para preservar a humildade, porque camarão cozido se dobra;  raiz de lótus simbolizando o Buda; a raiz da bardana, para aprofundar as raízes da família; ovo tipo omelete que remete à riqueza pela cor dourada, assim como castanhas cozidas em dourado; feijão preto para trabalho com qualidade e intenso até ficar preto sob sol e poeira; nabo branco simbolizando vida limpa, entre outros.

Neste ano em especial, os rituais uniram os japoneses na esperança da recuperação das dores do terremoto de 11 de março de 2011 e na fé de que poderão ser de novo felizes.  A magia da superstição, fé e esperança fortaleceram os laços entre as pessoas no mesmo propósito, com a tristeza dando lugar à alegria e emanando energia positiva.

E o mesmo se aplica às empresas.  A equipe unida com laços fortes, com fé e crença no seu potencial, na da equipe e da organização, e com todos motivados a gerar resultados e metas em comum. Este sentimento provoca uma energia tão forte e positiva que é capaz de produzir maior produtividade e criatividade.

Por isso, tomara pudéssemos viver todos os dias do ano com a mesma alegria, esperança e fé do primeiro dia do ano… e, pensando bem, basta querer que assim seja!

 

 

Santos FC fortalecendo a imagem do Brasil no Japão

dezembro 16th, 2011

Um dia, de repente, ligo a TV em Tóquio e ouço falar do futebol brasileiro, de Pelé e de como Brasil é representativo quando o assunto é futebol.

E o tema foi ficando mais frequente com amigos do Brasil me contatando para reservar entradas para o jogo do Santos no campeonato mundial  interclubes.  No dia 13, terça, estava no aeroporto aguardando a chegada de minha mãe, de São Paulo, quando repentinamente o aeroporto de Narita se transformou no aeroporto de Cumbica, com a torcida brasileira que estava chegando, alegres e barulhentos, apesar de quase 30 horas de viagem São Paulo – Tóquio.  A energia do torcedor – e nessa hora não importa se homem ou mulher – é tão contagiante que sem querer entramos no samba do entusiasmo.  Também pudera, segundo informação do Guilherme Figueiredo da Futebol Tour que organizou a vinda de 300 torcedores, eram mais de 3.000 santistas que chegaram, somados a tantas centenas de nikkeis brasileiros residentes no Japão que disputaram também a compra das entradas dos jogos.

 Nesse ambiente do futebol, o grande destaque é sem dúvida Neymar.  Pelé é o embaixador do futebol e seus comentários sobre o Neymar atraíram muito a atenção dos amantes de futebol no Japão.  Fala-se do seu talento, como uma reedição do talento do Pelé, com dotes peculiares que o diferencia dos demais jogadores, despontando como a mais nova estrela.  Ouvi comentários na TV japonesa que não é apenas a sua técnica, mas talento nato, como Mozart era com a música.  No dia do jogo – em que o Santos ganhou de 3 x 1 do Kashiwa do Japão, cada passo do Neymar era acompanhado pelo comentarista que às vezes até parecia ser mais brasileiro do que japonês de tanto que se deixava impressionar com os passos e as marcações sobre o Neymar.  Felizmente e para meu alivio também, o Santos ganhou.  Vamos ver agora no domingo, contra o Barcelona.

 Nota-se que o Barcelona tem mais projeção do que o Santos no Japão, mas isso tem explicação.  O Barcelona tem trabalhado na exposição de sua marca e de seus jogadores, fazendo tours e divulgações pela Ásia. Fizeram no Japão, na Coreia, e neste ano, na China, expondo o seu clube e seus ídolos.  Aqui no Japão, ao chegar, convidaram meninos e meninas, amantes  do futebol, das regiões afetadas pelo terremoto, para assistirem os treinos, presenteando-os com uniformes do clube e os ídolos tirando fotos com estes jovens, criando laços.

Aqui fica uma mensagem para o turismo, através do futebol.  Mesmo com a fama, com super stars, é muito importante estar presente nos mercados, promover e criar laços com os países para brotar o interesse e o afeto pelo país, produto ou pelo clube de futebol.  Porque torcida é isso, é relação de amor e de afeto com o clube.  E isso se aplica também no turismo.  Quanto mais divulgamos, mostramos as coisas boas que temos, mais somos amados e lembrados.  Como hoje, quando me surpreendi  no sushi-bar, onde jantava com brasileiros.  O sushi-man ouvindo nossa conversa, identificou-se como fã do Brasil por já ter trabalhado numa radio que tocava muita música brasileira.  Senti que as oportunidades estão aí de promover o turismo do Brasil, inclusive no Japão.

 Nesta época de Natal e Ano Novo, temos uma excelente oportunidade de também praticarmos a nossa aproximação, estarmos presentes, de alguma forma – junto da família, amigos, colegas, clientes, com o mercado –  seja abraçando, enviando uma mensagem de Natal ou mesmo dando um alô por telefone – para expressar nossos laços de que “estamos juntos”.

E, vamos Santos, engrandecer o nome de nosso país em terras nipônicas!!

 

Final do ano no Japão

dezembro 2nd, 2011

O calendário já entrou em contagem regressiva e a cidade se prepara para as tão esperadas festas de final de ano.

Também no Japão, as cidades estão colocando lâmpadas natalinas. Mas há algo diferente. Na sociedade onde economizar energia virou hábito e preocupação maior, uma lâmpada natalina significa apagar outras ou substitui-las por opções que puxem menos carga, ou mesmo por velas de diferentes tipos e cores, com o devido cuidado com os possíveis terremotos, que surgem sempre de repente, na calmaria do dia ou da noite.
Desde o tsunami, a vida e o mercado japoneses mudaram, provando que crise é mesmo uma oportunidade de renovar, criar, pensar diferente, encontrar novos espaços. A grande preocupação atual é como gastar menos energia no inverno. Novos produtos ecológicos são comuns e cada dia mais surpreendentes. Outro dia, lançaram um ar condicionado que não precisa de controle remoto. Explico: quando as pessoas, por exemplo, acordam no meio da noite, no frio, precisavam sair procurando o controle remoto. Agora, é possível ligar batendo palmas e em seguida dar ordem: “estou com frio”, e o ar condicionado automaticamente coloca a temperatura no nível fixado; “eco”, e o aparelho regula na temperatura “ecológica” para gasto racional dos recursos; e, se vai dormir, basta dizer “desligar”. Desta forma, como é fácil ligar e desligar, o uso acaba restrito à real necessidade.  Inventaram também máquina de lavar que permite colocar, por exemplo, a camisa já com cabide. A peça sai lisa, dispensando assim gasto de energia e tempo para passar. A camisa, por sua vez, já é confeccionada em fio que poupa ou facilita passar a roupa.

As inovações não param por aí; diariamente há lançamentos de aquecedores que funcionam sem energia elétrica, produtos para vedar as frestas dos ambientes, novos tipos de fios mais quentes, finos e leves, e tudo que a imaginação vai permitindo diante da necessidade de reinventar-se.

O medo da radiação acabou com a agricultura e o gado da região atingida, inclusive das zonas próximas não afetadas. Para ajudar os produtores e garantir segurança, o governo tem treinado os agricultores a medir diariamente o nível de radiação. E, para chamar os consumidores de volta, a mídia, especialmente a TV, faz campanhas muito interessantes, como programas criando novas receitas, produção de filmes, celebridades visitando a região para mostrar a riqueza local, inclusive a cozinha típica. Enfim, as campanhas buscam incentivar o redescobrimento da região para atrair interesse do mercado, não apenas divulgando, mas mostrando novas qualidades ou criando produtos híbridos de padrão superior. Isso porque, nesta situação, a atratividade deve ser clara e muito mais superior. E aí notamos que a criatividade humana não tem limites. Penso até que Deus deu-nos o talento da criatividade para a humanidade estar sempre motivado a buscar um amanhã melhor…

Outra mudança que virou prática do cotidiano é o espírito de contribuir. Pelo espírito de homogeneidade japonês, enquanto a área atingida não seja totalmente recuperada, o resto do Japão está empenhado solidariamente à volta da normalidade. Veem-se diversas formas de contribuir e uma delas chamou atenção por mostrar que tudo pode ser oportunidade.

Os japoneses mandam religiosamente o cartão de ano novo chamado Nen-ga-jyou (mensagem de felicidade pelo novo ano) para a família e todas as pessoas de seu relacionamento. Meu marido, por exemplo, recebe cerca de 400 cartões. Todos que recebem, e aqueles que eventualmente não tinham enviado, fazem-no rapidamente em retribuição. É entregue ao correio até o dia 31 de dezembro e todos os cartões chegam ao seu destino nos três primeiros dias do ano, impreterivelmente. As pessoas ficam ansiosas aguardando a chegada do carteiro para ver que novidades irão trazer. Aqueles que tiveram falecimento de pessoas diretas da família – pais, irmãos, filhos –, no entanto, enviam a partir de outubro outro cartão, avisando que naquele ano não enviarão o cartão de felicitações pelo ano novo devido ao falecimento na família, o que simboliza que a família está em ano de luto.

Para facilitar a confecção dos cartões, o correio envia, seis meses antes, um folheto com modelos. O diferencial desta vez foi exatamente o espírito de contribuição. Você escolhe o design, texto, solicita a confecção e, neste ano, tem-se a opção de incluir, na frente, uma marca de contribuição à região do tsunami. Assim, o próprio correio incentiva a doação. Soube que praticamente 90% dos consumidores concordam em pagar 40% a mais, por cartão enviado, para contribuir com a região atingida. Posteriormente, é feita apresentação sobre como este recurso foi utilizado.

Assim como eu, todo o povo japonês está torcendo para receber cartões de ano novo com esta marca, que significa começar o ano fazendo o bem. Isso é bastante simbólico porque, segundo as crenças japonesas, práticas do dia 1º de janeiro se repetirão ao longo do novo ano.