Arquivo de maio de 2011

QUANTA INCOERÊNCIA…

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sou um mero observador e me considero apreciador das características do povo brasileiro, mas, em contraponto, também sou um crítico chato ao registrar suas incompreensíveis incoerências…

Numa lógica invertida de premiar a incompetência, somos o povo que valoriza o derrotado e execra o vencedor.

- Geralmente, torcemos para o mais fraco, para o lutador que está perdendo, não por pena dele, mas por desejarmos que consiga surpreender e inesperadamente vencer a luta, apenas pelo gosto de ver o melhor lutador derrotado.

- Discriminamos acintosamente os bem sucedidos. Rico no Brasil é visto como alguém que “recebeu alguma herança” ou “ganhou na loteria” ou, pior, “deve ter roubado”… Não vemos os bem sucedidos como exemplos a serem seguidos, pois partimos do pressuposto de que sua riqueza “não foi produzida, mas recebida de mão-beijada”.

- A predileção do brasileiro pelo perdedor e pelo demérito do vencedor é quase uma religião, ao ponto de homenagearmos o aniversário de enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, com um feriado, e ignorarmos solenemente o feito de Pedro Álvares Cabral, no dia seguinte, em que realizou a façanha de descobrir nosso país. Para desmerecer ainda mais a sua descoberta, nos divertimos com a ideia de que o fez por mero acaso, ou por estar “perdido no oceano”…

Somos o povo que deseja uma vida digna para todos, mas valorizamos o ócio e desmerecemos o trabalho.

- Diante do que deveria ser um fato corriqueiro e natural, dizemos: “Coitado do João, teve que trabalhar hoje”…, sem nos dar conta que, na realidade, coitados são os desempregados que sonham em ter a oportunidade do João.

- Alguns desocupados passam 3 meses de férias, dentro de uma confortável casa, sem fazer nada útil ou interessante e isso ainda atrai milhões de tele-espectadores, que assistem toda essa inércia, para transformá-los em “celebridades” instantâneas.

- Como eu já disse aqui antes, o Brasil é o único lugar do mundo onde se paga mais caro a um trabalhador para ele tirar férias, do que o valor que se paga para ele trabalhar. Com isso, enviamos ao inconsciente coletivo a informação: “Não trabalhar é 33,3% mais rentável do que trabalhar”.

Somos o povo que apoia ilegalidades, com a mesma naturalidade que cobra, dos outros, o cumprimento às leis.

- Piscamos os faróis para alertar os carros (que vem em sentido contrário), sobre uma fiscalização da polícia rodoviária, reduzindo assim a chance de um louco no volante ser impedido de seguir viagem.

- Utilizamos o twitter para nos avisar de blitz da Lei Seca e, assim, evitarmos a fiscalização que nós mesmos apoiamos, desde que pegue “outras pessoas”.

- Somos os cidadãos que recriminam a corrupção na política, mas que oferecem a “cervejinha” pro guarda de trânsito, para evitar uma multa.

Somos um povo que muitas vezes nega sua própria identidade, sem sequer perceber isso.

- Num país de lindas negras, morenas e mulatas, as mulheres brasileiras decidiram ser loiras com cabelos lisos e os salões de beleza conseguem nos transformar em um país quase nórdico…

- Somos o povo do anglicismo, preferimos falar “site” à sítio na internet, “deletar” soa mais compreensível do que apagar, “know-how”, “expert” e “network” têm mais aceitação e uso do que conhecimento, especialista e relacionamemto…

- Valorizamos a moeda estrangeira, gostamos do Dollar e adoramos o Euro, mesmo quando eles desvalorizam tanto e por tanto tempo, que o governo brasileiro tem que agir para evitar a supervalorização do poderoso Real.

Praticamos pequenos delitos, mas achamos um verdadeiro absurdo quando praticados pelos outros.

- Apesar de adorar uma fila, por considerar que “se tem fila, deve ser bom”, o brasileiro não perde uma oportunidade de furá-la. Quase como se fila fosse uma inteligente invenção da sociedade civilizada, para organizar a plebe (que são todos os outros), pois todo brasileiro se julga individualmente mais importante do que o todo.

- Falamos no celular como poucos no mundo, falamos muito, falamos alto, falamos em qualquer lugar. Não satisfeitos em incomodar e ignorar qualquer pessoa que esteja presente, tagarelamos no celular e no nextel em público, dentro do elevador, dentro do taxi e do ônibus, dirigindo o carro e durante reuniôes. Há até quem atenda o celular “rapidinho” dentro do cinema, do teatro ou do show, embora não admita este procedimento dos outros.

- Entramos no metrô e no elevador antes das pessoas saírem, bloqueamos as escadas e esteiras rolantes impedindo a passagem de quem está com mais pressa e sempre temos um forte argumento pra isso: “as pessoas demoram muito a sair do metrô” ou “a escada rolante é que tem que andar”.

Somos mal-educados no trânsito e apesar de reconhecermos essa incivilidade, nada fazemos para mudar.

- Exigimos respeito à faixa de pedestre, mas somente quando nós é que vamos atravessá-la.

- Furamos o sinal (farol ou semáforo) de trânsito, quando “estamos com pressa”, mas não o fazemos, mesmo com pressa, se houver um guarda de trânsito nas prpximidades.

- Fechamos o cruzamento, para ganhar apenas 2 minutos, apesar de atrasar 20 minutos o trajeto de tantos outros, mesmo que essa atitude nos aborreça tanto, quando estamos entre os motoristas prejudicados.

Para que não digam que acordei muito pessimista hoje (adianto que é verdade), postarei em breve sobre as virtudes deste mesmo povo, apesar dessas e de muitas outras incoerências em seu comportamento.

O fato é que a origem histórica deste tipo de procedimento, já bastante estudado por sociológos de todas as correntes ideológicas, acabou por gerar, em nosso país, esta cultura da absoluta priorização do indivíduo, que prevalece sempre acima do bem comum.

Mas isto é conversa para outro texto…

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QUANTO CUSTA O SERVIÇO DA SUA AGÊNCIA?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O assunto está na ordem do dia, nas agências de gestão de viagens corporativas e nas empresas consumidoras de viagens: qual o preço “razoável” do serviço da agência?

Numa época em que as comissões das cias. aéreas estão caindo como dominós, o “transaction fee” tende a ser a forma de remuneração dominante para os agentes corporativos.

Apesar disso, a “briga de foice no escuro” continua, ou seja, a concorrência cada vez mais agressiva entre as grandes agências está gerando situações inimagináveis, como “fee” de R$ 0,01 (sim, transaction fee de 1 centavo)…!?

O alegado argumento de que esse tipo de procedimento comercial da agência significa 1) postura autofágica, 2) concorrência desleal, 3) prostituição do mercado ou 4) falta de ética, não resiste a uma análise um pouco mais desapaixonada do processo.

1) Nenhum empresário, em sã consciência, cobraria um valor inexequível por seu serviço. Se cobra R$ 0,01 por transação, sua remuneração há de ter outra origem.

2) Não existe “concorrência desleal”. Concorrência nada tem a ver com lealdade, pois são conceitos conflitantes. Ou concorre ou é leal. A prática de ambos, ao mesmo tempo, traduz-se em cartelização.

3) Cobrar um valor extremamente barato por um serviço, costuma ser confundido, de forma jocosa, com o ato de bagunçar (ou “prostituir”) o mercado. Na realidade, a prática de preços baixos é uma constante nas economias de mercado.

4) Comportamento ético na precificação de um produto é cobrar (pelo lado da agência) e pagar (pelo lado do cliente) um valor justo pelo serviço prestado. Entenda-se por justo o valor que ambos negociarem livremente, num ambiente de livre concorrência e transparência de informações comerciais, leia-se com regras claras sobre a mesa.

Numa indústria em que a criatividade comercial é virtualmente infinita e todos os “players” estão buscando maximizar a rentabidade de seu negócio, comissões (ainda existem), RAVs, RACs e transaction fees recebem a companhia de “over-commissions”, incentivos por segmentos, “up fronts” e outras formas de remuneração.

O fato é que os especialistas em “procurement”, compradores das empresas clientes, em sua busca incessante por preços (fees) reduzidos, acabam por estimular novas formas de remuneração, que apesar de fazer o negócio andar, acirra a cada vez mais feroz disputa pelo mercado de gestão de viagens.

Como, após a internet, não existe mais desinformado no mercado, este procedimento aproxima-se do velho “me engana que eu gosto”, ou alguém acha que é possível trabalhar de graça?

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