Lições de um bom evento internacional

 

Entre 06 e 08/11/2017 tive a felicidade de participar, mais uma vez, da WTM Londres, o evento que está posicionado entre os três melhores do mundo quando se trata de turismo. Como não foi a primeira vez, o deslumbramento com a dimensão da feira e o volume de visitantes ocupa menos espaço mental e é possível fazer mais análises e comparações, as quais divido com você que está lendo esse texto.

Em primeiro lugar, ranking – importa de fato saber se é o primeiro, segundo ou terceiro mais importante evento do mundo? E quais são os aspectos que devem ser levados em consideração para dizer se é ou não o melhor? Bom, para mim, o elemento crucial que determina a importância de um evento é o quanto ele de fato tem de representatividade e qual o envolvimento dos diferentes interessados no evento. Com isso, até onde me consta, WTM Londres, FITUR Madrid e ITB Berlim cumprem essa função de forma profissional. E um único motivo explica isso – nos três eventos estão presentes as grandes organizações do turismo, como UNWTO (OMT), WTTC, PATA, IATA e similares, estão líderes de governos em todos os níveis, pesquisadores de alta produtividade e, efetivamente, os empresários do setor – pequenos, médios e grandes.

Particularmente, nesta WTM Londres, o evento mais concorrido e que gerou mais notas de imprensa foi o Ministers Summit, realizado na manhã do dia 07. Ministros de Turismo de vários países estavam presentes no círculo central ou na área restrita, a convite do Secretário Geral da UNWTO, e também representantes do parlamento britânico e do parlamento europeu, CEOs de companhias de cruzeiros, hotéis, aviação e AirBnB. O tema – overtourism – e a necessidade de ações efetivas para reverter quadros como os que se vê em Barcelona, Amsterdam e Veneza, e também medidas que possam evitar situações similares em outro destino. (Não, o Brasil não estava representado no painel, caso você ainda tenha dúvidas).

A programação de conferências foi extensa e cobriu praticamente todos os temas atuais, com grande concentração em mídias e influência digital, coleta, análise, interpretação e uso de dados para geração de inteligência de mercado, boas práticas de turismo responsável e responsabilidade social corporativa, e muito mais. No último dia, eventos especiais para estudantes de turismo, como estratégia de integração de talentos e apresentação das muitas oportunidades de carreira que o setor oferece – pelo menos 400 universitários disputaram um lugar na conferência ITT Future You, algo que eu, infelizmente, ainda não vi acontecer no Brasil.

Finalmente, a qualidade técnica dos estandes e da apresentação profissional de destinos, produtos e tecnologia. Mesmo sendo um excelente momento para reencontrar colegas e parceiros, a feira é o momento em que PRODUTOS são apresentados com o grande objetivo de realizar NEGÓCIOS. Os horários de reunião são respeitados, as pessoas entendem a necessidade de discutir preços, contratos, garantias, oportunidades e diferenciais. Não é uma festa. A festa vem depois, após o expediente.

E finalmente, a cidade acolhe o evento – o sistema público de transporte se prepara para o aumento no número de visitantes, há sinalização especializada, há deslocamento de efetivo (segurança, informação, promoção) para os locais de conexão e de entrada no evento. Há sinalização impressa, sonora e com a ajuda de pessoas. Londres funciona. Provavelmente por reconhecer a importância do evento, independentemente de sua temática. O espaço de eventos funciona. O conceito do evento funciona.

É um grande aprendizado. Especialmente por saber que em eventos assim as pessoas estão juntas com um mesmo foco.

 

Aqui no Brasil, entretanto, ainda estamos nos debatendo para não afundar. Pesquisadores distantes e alienados, fechados em círculos e falando para si mesmos; políticos desinteressados e sem nenhum compromisso com a causa, ou melhor, comprometidos apenas com a próxima eleição; e empresários brigando com os efeitos incontroláveis da inovação. Uma pena.

Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

Há quanto tempo você tem lido que precisa aprender a usar o tal do BIG DATA? De quantos eventos você participou com a intenção de entender, aprender ou ampliar sua compreensão sobre o tema? E o que de fato você já conseguiu fazer com tanta informação?

Há pouco mais de dois anos, em Madri, assisti ao Rafat Ali (CEO da Skift) explicar detalhadamente como abrir mão de ações de mídia massificadas para usar o marketing direcionado a partir do big data de empresas como Google e Facebook. Ensinou passo a passo como fazer, e ao final sorriu e disse – por mais que eu explique, ainda é cedo para que vocês entendam o quanto isso é importante e vai mudar a forma de vender qualquer coisa no mundo.

Pouco antes de escrever este texto, leio a notícia que o AirBnB adicionou R$ 2,5 bilhões ao PIB brasileiro em 2016, o ano em que a crise econômica se acentuou, apesar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo final de semana, a FGV indica aumento de 35,9% nas passagens aéreas, entre junho e setembro, após o início da cobrança de bagagens despachadas. As pesquisas da FGV consideram as passagens efetivamente vendidas, nas rotas mais procuradas. Dois relatórios confiáveis, cujos dados são abertos e a metodologia é clara e divulgada.

Por outro lado, os dados oficiais indicam aumento menor no preço das passagens, já que consideram a média de todos os trechos. Nas redes sociais, a maioria das pessoas que compartilhou essa notícia usou de ironia para indicar que, mais uma vez, o consumidor é levado ao engano por manipulação de dados. Outra informação que me deixa curiosa é o volume de visitantes da feira da Abav. Três responsáveis por stands com quem conversei (stands que entregavam algo que poderia ser considerado “brinde”) indicaram que menos de 50% das pessoas que os abordaram eram, de fato, agente de viagens. Mas, naturalmente, os relatórios oficiais vão indicar que foram mais de 20 mil visitantes e essa informação será utilizada nos argumentos de venda para o próximo ano.

A questão aqui é como os dados, “big ou little”, são tratados.

Listar perguntas em forma de questionário não é fazer pesquisa. Menos ainda copiar um formulário online, tirando o logotipo do concorrente. Avaliar um produto somente pela opinião de quem compra em uma dada região também não é correto. Pesquisa é uma atividade importante e que deve ser acompanhada por quem sabe o que está fazendo, escolhendo a metodologia adequada aos objetivos do interessado.

Portanto, duas recomendações – não acredite nos dados que chegam a você sem o endosso de instituições confiáveis (lembre-se, estamos em tempos de pós-verdade) e, sempre que possível, procure as informações contraditórias para poder formar sua opinião. E mais ainda (eu sei, já disse isso, mas não custa repetir): não é porque sempre foi assim que precisa continuar sendo.

Feliz dia dos discursos questionáveis

Esperei terminar o primeiro dia da 45ª ABAV para fazer o post comemorativo ao Dia Mundial do Turismo. Eu realmente esperava que este dia 27 fosse comemorado adequadamente, como se espera que aconteça nessas ocasiões – menções em discursos e ações específicas voltadas à informação do público em geral.

O esforço da ABAV e BRAZTOA em realizar o evento nesta semana já é um grande mérito, reconheça-se. O empenho e dedicação de Edmar Bull e sua equipe, e a garra de Magda Nassar são dignos de muitas homenagens e reverências. Fazem milagres estes dois líderes que eu admiro. Quem sabe um dia seus pedidos e reivindicações sejam, de fato, ouvidos por quem tem o poder de assinar os documentos do turismo deste país.

Mas a abertura da ABAV, mais uma vez, se descola da realidade – inclusive da realidade que estava ali, dois andares abaixo, com stands mais enxutos, com dimensão menor que outras edições, mas com público aparentemente muito mais interessado e disposto a atuar pelo turismo brasileiro.

A começar pelo fato de que eram 12 homens e 1 mulher, sendo que muitos deles ocuparam um espaço cênico apenas, sem direito a fala. Entre eles o atual secretário de turismo do estado de São Paulo. Subiu e desceu calado, um pouco tímido eu diria, do palco. Não faz sentido, e mais gente precisa se manifestar contra esse domínio masculino, branco e hétero.

O presidente dos Correios fez uma fala que deveria ter arrepiado os agentes de viagem presentes – ou fui só eu que o ouvi dizendo que há um movimento para que as agências de correio vendam passagens e pacotes? Isso depois de a plateia assistir a 13 obliterações de selos com imagens turísticas do país. Ninguém explicou de fato, mas obliteração é o ato de colar e carimbar um selo para que ele possa ser exposto no Museu dos Correios. As treze vezes foram uma delicadeza para que os componentes da solenidade levassem para casa uma lembrancinha… Selo, gente. Selo, em tempos de correspondência eletrônica decadente, e cada vez mais áudios de WhatsApp.

Em seguida, a solenidade vira palanque político. O presidente da Embratur, declarado candidato à prefeitura de Florianópolis, o ministro do Turismo, candidato ao senado pelo estado de Alagoas e cabo eleitoral confesso do atual prefeito de São Paulo, e o próprio, que chegou atrasado, atrapalhou o discurso do ministro, rompeu o protocolo e fez discurso de campanha para presidência.

Em todos os discursos, a condenação veemente de qualquer realização passada, e uma quantidade de sugestões que a gente sabe que não vão dar certo. O ministro, por exemplo, indica que só agora o presidente reconhece a importância econômica do turismo – deve ser por oposição, já que o orçamento da pasta foi reduzido em 85%. As falas são repetitivas, demagógicas, muitas vezes construindo um cenário inviável, mas plausível. A audiência aplaudiu, mas sem nenhum entusiasmo.

Seria incrível, um dia, que as falas coincidissem com a realidade. Que alguém de fato anunciasse melhores números do setor, melhores salários, mais empregos para quem escolhe essa carreira, maior presença internacional dos destinos brasileiros. Mas a gente sabe que são só palavras. Infelizmente.

Ainda assim, em diferentes lugares do mundo, e do Brasil, o turismo aconteceu. E muita gente foi muito feliz hoje, por estar em lugares diferentes, experimentar sabores novos, viver experiências inesquecíveis e voltar com vontade de viajar mais. Vamos celebrar as viagens, vamos torcer para que, apesar dos mentirosos contumazes que se apropriam de palavras vazias, o turismo cresça de forma sustentável no país.

O mesmo problema

Oficialmente, a 22ª Assembleia Geral da UNWTO começou hoje, dia 13, embora as atividades estejam acontecendo desde segunda-feira, dia 11. Participaram da cerimônia de abertura os mais de 1300 representantes das delegações oficiais, dos membros afiliados, das universidades e também os convidados do governo local.

A delegação brasileira é composta por duas pessoas apenas – o secretário executivo e o assessor especial de relações internacionais do Ministério do Turismo. Embora eu ainda não saiba o motivo, diria que o ministro não veio por excesso de problemas familiares. (Sim, é ironia).

Dois grandes temas se discutem nesse evento:

– na pauta oficial do evento, voltada para a geração de conteúdo e compromissos, estão as relações entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ou SDGs) e sua relação com o Turismo, na busca de estabelecer parcerias para o desenvolvimento de fato;

– na discussão política e nas articulações constantes, a manutenção ou não do resultado das eleições para o novo secretário geral, que substituirá o incansável Taleb Rifai. Em maio, o representante da Georgia, Zurab Pololikashvili, foi eleito para substituir Rifai. Entre os muitos argumentos presentes, que vão de fraude na eleição até a incapacidade de comunicação de Zurab em inglês, o que mais chama a atenção é que ele não tem nenhuma relação prévia com Turismo e sequer tem dimensão dos desafios reais da atividade.

Os ministros que falaram hoje na primeira sessão ecoaram a mesma insatisfação já velha conhecida – mesmo sendo ministros de estado, raras são as vezes que participam da elaboração de políticas e conseguem ser ouvidos para pautar as grandes questões de seus países, especialmente em relação à preservação de recursos e sustentabilidade.

A se pensar, então – se até para conduzir as discussões do turismo mundial as lideranças estão considerando alguém sem experiência real, e levando em conta a quantidade de casos que sabemos existir de não qualificados na função(pensem só no fato de praticamente todos os nossos ministros do turismo nunca tinham atuado na área), o futuro do turismo (no Brasil e no mundo) não vai poder contar muito com o setor político…

 

Quando o mundo se encontra para discutir Turismo

Chengdu, China – 10 de setembro de 2017

Para qualquer pessoa que more na América do Sul, chegar a Chengdu (China) não é tarefa simples. Com o excelente serviço da Qatar Airways, o deslocamento de quase 28 horas é menos impactante, até porque é a rota mais inteligente saindo do Brasil. A conexão em Doha é muito tranquila, o aeroporto Hamad é, talvez, um dos mais modernos do mundo, com detalhes de muito bom gosto aliados à alta tecnologia.

Shuangliu, o aeoroporto de Chengdu, é também bastante moderno (mas não dá para comparar com Hamad). O fato de desembarcar em posição remota já diminui as boas impressões, mas era necessário por conta do desembarque dos ministros que estavam no voo. Ao pé da escada, pelo menos 30 voluntários uniformizados já sorriam para os convidados do evento.

A verificação de passaporte é um tema espinhoso em qualquer país, eu diria. Não seria diferente na China. Havia, no entanto, dois guichês especiais – um somente para portadores do cartão APEC (algo que o Brasil não participou por razões que nem convém comentar aqui para não começarmos a chorar juntos) e outro para os participantes da Assembleia Geral da UNWTO. Sete oficiais (isso, sete) conferiram passaporte, visto e credenciais para participação.

Esta é a segunda vez que participo de um Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo. A primeira, em 2015, foi em Medellín, na Colômbia. Por enquanto, incomparáveis. Os colombianos são hospitaleiros, sorridentes, e o regime político local nos permite manter contato com o mundo.

Em Chengdu há dois exércitos aparentes – um, de voluntários uniformizados que se esforçam para falar inglês (nem sempre conseguem, mas te ajudam mesmo assim) e outro de seguranças protegendo todas as áreas onde as delegações internacionais estão. Não há ambiente em que você possa entrar sem uma credencial eletrônica, sem revistas de segurança e sem muitos olhares dos diferentes agentes presentes para garantir que tudo corra bem.

Legalmente, não é possível acessar os principais sites que nos permite manter contato com o mundo – nada de Facebook, Twitter, Instagram, Google, Gmail, Snapchat. O WhatsApp funciona, mas nem sempre.

Nada disso entretanto, atrapalha. Praticamente todos os países membros da ONU que estão filiados à UNWTO enviaram seus representantes. Cores, roupas, línguas e muita alegria nos reencontros para discutir os muitos temas urgentes do turismo mundial – dos efeitos terríveis dos furacões no Caribe, às necessárias mudanças envolvendo práticas sustentáveis; da confirmação (ou não) do novo secretário-geral a maiores investimentos em educação para o turismo (será?).

Uma pena que praticamente não há brasileiros aqui. Pelo menos, até agora, não vi nenhum.

Se as conexões permitirem, a partir de amanhã posto mais informações sobre as principais discussões desta 22a Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo.

Minhas pulgas de estimação

Eu demorei para voltar aqui, e retomar o assunto da “carta de amor” que mandei ao Guilherme Paulus e que ele, muito gentilmente, me respondeu (se você não sabe o que é, clique aqui).

A mensagem hoje não é diretamente para o Guilherme, mas sim para todos aqueles que entendem ser necessária uma mudança generalizada, a começar pela forma de entender a formação na área e, consequentemente, a atuação profissional de alguém que escolhe este setor.

Como eu amo listas, eu organizei as minhas pulgas de estimação. Elas vivem atrás das minhas orelhas, há anos.

  1. Os diferentes salários

Não vou discordar que há cargos e salários diferentes para pessoas com especializações e experiências diferentes no setor. O que incomoda é que raramente o salário bom fica com o formado em Turismo. São engenheiros, advogados, administradores, entre outros, que são diretamente contratados para posições mais valorizadas. O argumento, que é até muito justo, convenhamos, é que o formado em Turismo não tem algumas competências básicas para atuar na gestão (por exemplo, nas questões financeiras). Há responsabilidade por parte das universidades? Sim, e como. Muita. (E isso merece muita discussão, prometo retomar oportunamente.) Mas é justamente por isso que a formação na área perde a atratividade. Se o jovem já sabe de antemão que a formação em Turismo vai oferecê-lo (dados de 2017) uma média salarial de dois mil reais depois de cinco anos de formado, é melhor ir de cara para o telemarketing que paga mil e quinhentos com nenhuma experiência.

  1. O baixo salário generalizado

Vai ser difícil desmentir essa. Exceção aos donos e diretores, o setor paga mal. Pode não ser o pior de todos, porque na ponderação de vantagens, os descontos, vantagens de viagens e hospedagens, o bem estar emocional que muitas das atividades oferecem, fazem com que ainda seja interessante estar na área. E passada uma certa idade, vem a acomodação e aí muita gente que poderia ganhar bem mais se acomoda por achar que não tem chance na migração de áreas. E não havendo estímulo à qualificação constante dos funcionários com mais tempo de casa, em momentos de crise, há demissões em massa para contratação de quem aceitar o rebaixado novo salário. Hoje temos excelentes profissionais desempregados, e boas empresas prestando serviços ruins para poder sobreviver a esse momento terrível pelo qual o país passa.

  1. Cabeças balançando para políticos ridículos

Usar a palavra ridículo pareceu pesado? Então pense que nas últimas semanas foi noticiado que o Ministro do Turismo privilegiou sua própria família em repasse de recursos, considerando que o orçamento geral do MTur foi cortado em quase 85%, portanto, um acinte para dizer o mínimo. E que o irmão do secretário de turismo de São Paulo foi identificado em uma gravação sobre cobrança de propina. Ok, ok, é o irmão, mas sabemos bem que os laços familiares na política são fortes.

Em praticamente nenhum outro setor, quando alguém assume a pasta, é necessário explicar tudo desde o começo. Mas no Turismo, é sempre tanta gente aventureira que até cansa. E se cerca de gente ruim, como conselheiro. E desanima os funcionários de carreira, que não veem a hora de migrar internamente. E fazem pouco ou quase nada para que o setor seja levado a sério no quesito recursos públicos e atenção política. A política de turismo no Brasil é, fundamentalmente, uma grande brincadeira. (Acham que eu exagero? Vão lá ler o Plano Nacional de Turismo e vejam que os pouco ambiciosos redatores acham que, em 2020, seremos a terceira maior economia de turismo do mundo. Talvez do mundo em que eles vivem, porque não deve ser nesse…)

  1. Os exemplos mal escolhidos

Eu sei que teve ministro e muito professor querendo comparar o Brasil à Espanha, ao México, à França. Agora parece que Portugal é o bom exemplo. Mas nenhum destes países tem realidades políticas, sociais e geográficas como o Brasil. Não dá para comparar um país do tamanho de Portugal, e com a proximidade de grandes centros emissores, com o Brasil. Não dá. Temos que melhorar nosso benchmarking, mas mais que isso, temos que melhorar (e muito) nosso discurso.

No fundo, o que eu acho é que nos contentamos com pouco, muito pouco. Qualquer frase melhor estruturada e dita em tom de autoridade vira verdade. Pesquisar e verificar as fontes, e testar os resultados, seria mais interessante, mas dá mais trabalho. Ir fazendo do jeito que dá, como sempre foi, sem que ninguém perceba, parece ser melhor. Não é. E a grande demonstração vai se manifestar na queda generalizada de gente boa disposta a trabalhar na área. Teremos que nos contentar com aquele monte de gente que, por não saber direito o que fazer da vida, decidiu estudar e trabalhar com turismo – porque parecia mais legal e não tinha matemática.

Guilherme Paulus responde

Confissão: eu sabia que ele iria me responder, por uma razão muito simples – por mais espinhoso que seja o assunto, é algo que precisa ser discutido. E como uma pessoa sensata, inteligente e competente, não apenas responde mas me instiga a pensar um pouco mais. Ou melhor, convida a todos para pensarmos juntos.

Obrigada, Guilherme, por seu tempo. E pelas palavras. Farei comentários no próximo post.

Olá, Mariana.

Obrigado pela carta e pelas palavras dirigidas a mim. Fico muito feliz em receber esse tipo de feedback, especialmente como um líder desse setor que tanto me orgulha nesses mais de 40 anos de estrada.

Concordo com o texto em muitas partes, mas reitero meu pensamento na referida matéria sobre os números do setor. As escolas profissionalizantes, assim como grandes universidades públicas e particulares precisam de incentivo, de políticas voltadas para o Turismo.
A exemplo de Portugal, que tornou o Turismo uma de suas grandes fontes de renda e transformou o cenário econômico do país.
O Ministério do Turismo, aqui no Brasil, é um grande parceiro, mas por conta da troca de governos, os ministros não conseguem, muitas vezes, dar continuidade aos projetos nessa área.

Sobre a CVC, hoje a operadora é considerada uma das líderes mundiais em seu segmento. Alcançou patamares que nenhuma empresa genuinamente brasileira talvez tenha alcançado. E dentro
desse mérito, há milhares de empregos gerados direta e indiretamente. Em todos os níveis de cargos e salários e com relações comerciais bastante saudáveis para ambos os lados.

O Turismo paga pouco? Para algumas funções pode ser que sim, como em outros setores. Há o advogado sênior, há o pleno, há o analista, há o assistente. Há o engenheiro, o arquiteto, o mestre de obras, o pedreiro. No Turismo é exatamente igual. Há diretores, gerentes comerciais, líderes de turismo que são muito bem remunerados (mais até do que em grandes conglomerados econômicos). Existem muitos profissionais que precisam, inclusive, estudar fora do país, acumular experiência e bagagem para, depois, voltar ao Brasil com melhores remunerações.

Há salários e salários para cada atribuição. Para se ter ideia, temos hotéis com vagas abertas em diversos cargos e que não conseguimos preencher por falta de profissionais com qualificação na área. A culpa é do empresário? Não. Há interessados? Sempre. Nós ouvimos isso dos próprios jovens.

O Turismo não paga mal. Basta perguntar aos funcionários que tem vontade de vencer na suas respectivas funções. Quando eu falo que trabalhar com turismo é 95% de transpiração e 5% de inspiração, pode crer que é a mesma equação para muitas outras áreas. A paixão pelo que se faz pode levar o ser humano ao triunfo. Eu acredito no Brasil, no Turismo e na garra do brasileiro.

Que comecem as mudanças e que tenham início com mais investimento do governo em políticas educacionais de qualidade. A educação é a base de tudo. Como representante do nosso setor em diversos órgãos e associações, luto diariamente pela democratização do Turismo, pelos direitos, pela aprovação de bons projetos de lei e por um turismo acessível, sustentável e rentável a
todos que dependem dele como profissão. 

Um grande abraço,
Guilherme Paulus

Outro abraço carinhoso, Guilherme! Nossa conversa continuará!

Uma carta (de amor) a Guilherme Paulus

Prezado Guilherme

Oi!

Já fomos apresentados, há muito tempo, e em diferentes circunstâncias – pelo Raffaini, na época de Caesar Park, pela Lúcia Mello, como Blue Tree, pela Heloísa Prass, e por vários e diferentes amigos que temos em comum. Não creio que você se lembre particularmente de mim. Mas acho que ninguém que trabalhe em turismo no Brasil poderia se esquecer de você.

Eu estava fora do país, de férias, e guardei vários e-mails para ler depois, com calma. Em um deles, a newsletter diária da Panrotas, do dia 07 de julho passado, aparecia sua foto e a manchete “Precisamos ver os números do setor”. O link da nota está aqui.

No texto, atribui-se a você a fala “os cursos nas faculdades de Turismo praticamente acabaram. Temos muitas poucas escolas de hotelaria. Como faz para aprender? Cabe a nós reivindicar isso”. Eu fiquei vários dias pensando nisso. Vários dias. E por isso resolvi escrever esta carta, aberta, na expectativa que você possa me responder.

Eu acho que fiquei feliz demais ao ler o NÓS vinculado ao REIVINDICAR. Mesmo. Será que finalmente um dos principais líderes do turismo brasileiro, se não o principal, vai assumir essa posição?

Depois fiquei pensando – não é bem assim. Vou me explicar, e se você não me entender, me avisa, que no ofício de professora, eu tento de outra forma.

Para mim, Guilherme, as suas ideias e os seus comandos definem o Turismo brasileiro. Mesmo, de verdade e sem ser puxa saco. Muito ao contrário, até. O que a CVC determinar, costuma acontecer. E isso tem aspectos ótimos.

Sabe quantas pessoas aprenderam a viajar com a CVC? Inúmeras. Mas em milhões. E quantas pessoas jamais teriam viajado se não fossem as condições da CVC? Outra quantidade imensa.

Coleciono relatos, inclusive os meus, de possibilidades que alcancei graças aos preços baixos e condições imperdíveis. Mas você, como eu e vários colegas, sabemos a que isso se deve. O quase que absoluto poder de negociação da sua empresa. Se em algum momento os diretores da CVC desistirem de vender um destino brasileiro, pode contar os dias, e o destino quebra. Literalmente.

Ao negociar pensando no cliente CVC, os hotéis brasileiros fazem preços que hoje não pagam sua manutenção. E, portanto, se esforçam para manter a qualidade dos serviços e produtos oferecidos. As margens vão se reduzindo, e, lá na ponta, os salários ficam baixos. Como muita gente precisa trabalhar, aceita o que for oferecido – antes ter salário do que não ter, você já deve ter ouvido isso.

E não é só hotel né? Tem os traslados, os passeios, os guias – há uma cadeia complexa de prestadores de serviço que são ativados no momento em que um pacote da CVC é estruturado. E tem seus preços pressionados. E aí, naturalmente, os guias vão pedir gorjetas no final, e levar para restaurantes e lojas em que recebem comissão. E a maioria das pessoas vê, mas prefere fingir que não.

A essa altura você já desistiu da minha carta, né, Guilherme? Mas estou acabando. O que eu quero dizer é que qualquer jovem, hoje em dia, tem acesso a muita informação, e sabe que viajar não é mais tão complicado como era na nossa época. E se não é complicado, quanto melhor o salário dele, mais ele vai viajar. Estudar fora, passar um ano fazendo mochilão, essas coisas que meus alunos amam. Mas trabalhar com turismo, sem final de semana, e ganhando pouco? Qual a razão?

É por isso que os cursos fecharam. Por que os alunos não se interessam por uma área tão mal remunerada, tão cheia de promessas e potencial, mas com pouca realização. Se os salários dos funcionários do turismo são baixos, nem te conto os dos professores. Tem colegas meus, com mestrado e doutorado, que ganham menos de R$ 40,00 por hora. Tem gente, que, com esforço, está ganhando R$ 150,00 por dia. Para manter uma família. É muito desanimador.

E para minha maior tristeza, um dia ouvi um moço que trabalha com (ou para) você, dizendo que não se importa com a formação da pessoa não. O que importa é se ela tiver “sangue nos olhos para vender os pacotes”. Ou seja, vocês não combinaram bem os discursos. Mas como eu disse, eu prefiro o seu.

Eu sei, de verdade, que você acredita em trabalho, acredita no turismo e acredita no Brasil. Aqui, a gente combina bem. Eu acredito em tudo isso.

Se você puder, Guilherme, chame seus amigos e comece a pensar que a grande mudança do Turismo brasileiro está nas suas mãos. Os passos para melhorar as condições de trabalho, tornar as funções mais atraentes, incluir práticas responsáveis e convidar mais gente para se inspirar pelo brilho dos seus olhos dependem, primeiro, de você.

Eu sou uma apaixonada, como você bem percebeu. Sou brava, mas apaixonada. E eu acredito que você vai receber essa carta de espírito aberto e considerar começar uma mudança.

 

Com todo meu carinho,

 

 

Mariana

 

AIRBNB – Uma aula

Formada em Turismo, professora de hospedagem, ex-funcionária de uma rede conhecida por sua excelência em serviços, contumaz observadora dos detalhes que fazem da hotelaria esse campo apaixonante, eu confesso que sempre olhei o Airbnb como a ideia mais genial de todos os tempos.

E genial não apenas no sentido de ser algo que deixou seus criadores milionários. Isso é lindo e todo mundo inveja – eu inclusive. Mas o genial para mim é o quanto a criação e rápido crescimento do Airbnb indica que o turismo é algo desejável e buscado por muita gente, ao mesmo tempo em que faz circular um dinheiro que muda a vida de várias pessoas.

Diversos mapas de locais turísticos indicam que as ofertas de casas (listings) não estão especificamente nas áreas onde se concentram os hotéis de luxo. Há uma distribuição geográfica muito mais ampla. O preço, em geral mais barato que o dos hotéis, corresponde ao que você tem acesso – quanto mais luxuoso e com serviço, mais caro. Quanto mais simples, mais barato. E os negócios do entorno – mercadinhos, padarias, lojas, entre outros – se beneficiam desse novo fluxo de pessoas.

Eu estou agora em Nairobi, capital do Quênia. Vim a trabalho, emendei um pouco de lazer, o que chamam atualmente de BLEISURE. Para o trabalho, precisava estar do lado de uma escola que tem turismo como conteúdo obrigatório. Escolhi ficar bem perto, o que me deixou, portanto, bem longe das atrações turísticas.

A casa é, na verdade, uma casa compartilhada de fato. Mas é a cobertura de um prédio bem legal, só que sem elevador. Há 10 suítes em dois andares. Se meus cálculos não forem tão ruins, o espaço tem mais de 300m2. Subi carregando minhas malas, e cheguei sem folego. Abriram a porta e eu ganhei um abraço. UM ABRAÇO! Foi sensacional. (E não, não estou sugerindo que vocês saiam abraçando turistas, mas o que eu recebi veio em ótimo momento).

O americano que mora aqui pegou minha mala e mochila e levou para o quarto. A outra hóspede, que eu acho que é nigeriana (mas não tenho certeza), me levou água. Mostraram tudo. Foi fofo.

Quando saí do quarto depois de me acomodar, começamos a conversar sobre tudo. Já tenho dicas importantes sobre segurança, sobre onde não ir, sobre o que comer e onde estão as baladas animadas. Expliquei que meu dinheiro é contado, pois resolvi ficar o máximo de tempo possível na África, o que me impede de cometer grandes excessos, e aí recebi as dicas de onde comer bem e barato e que caminhos buscar numa cidade em que não existe transporte público e o trânsito é, de verdade, muito pior que SP.

Pode ser só uma experiência, mas tem se mostrado sensacional. E ainda não se passaram 24 horas. Já achei espaço para críticas? Certamente. É o tal do olhar para os detalhes que comentei no início. Mas não tem melhor forma de aprender do que essa – estando aqui e entendendo o que cada um que vem gosta e não gosta.  E garanto que terei muita coisa nova para compartilhar com meus alunos quando eu voltar.

x – x – x – x

Registro aqui o agradecimento à equipe AirBnB-Brasil pelo apoio neste trecho da minha viagem pela África.

Interesse Turístico?

No dia 29/05 o Jornal Panrotas divulgou notícia sobre os Municípios de Interesse Turístico em tom otimista, vinculando a outorga do título à promoção, quando na verdade uma pequena parte dessa verba poderá ter esse fim. O principal uso dos recursos públicos estaduais vinculados ao desenvolvimento do turismo estadual são vinculados a obras.

Por mais que pareça sério e interessante, a proposta da gestão estadual do turismo não se sustenta e não consegue se justificar, a não ser pelas fortes alianças políticas e pela dependência histórica de alguns municípios, que se tiverem as verbas do “turismo” canceladas, simplesmente quebram.

Do lado do Governo do Estado, a concessão de verbas se dá muito mais na alínea de obras, e muitas vezes registrou-se pavimentação, iluminação pública e a inacreditável e risível construção de pórticos e portais como investimentos voltados à atração de turistas. O controle do uso e aplicação de recursos é muito similar ao de qualquer área que atue na construção civil – métricas específicas e prazos controlados.

De turismo mesmo, quase nada. O Estado convida para participação em feiras, mas os municípios raras vezes apresentam produtos – seguem levando seus folders envernizados e roteiros de pouco apelo comercial.

Do lado dos municípios, a forte articulação dos deputados estaduais e seus assessores para garantir o título, contratação de empresas que atestam o potencial turístico com argumentos muito frágeis e fotos, muitas fotos.

Dados de verdade, não existem – não se comprovou até hoje como o uso dos recursos ampliou a geração de empregos em turismo, aumentou a arrecadação de impostos e de fato, atraiu o interesse do público. É um chute absurdo atrás do outro, sem fundamentação séria e muito menos evidências que possam ser utilizadas para modelar um programa de desenvolvimento estadual do turismo.

Mas, humildes que somos, comemoramos R$ 550 mil reais por município, ou, no dialeto corrente, uma mochila de dinheiro. Turismo nunca vai ser importante para São Paulo.