Olhando sem enxergar

Em notícia de 02/06/16, o Portal Panrotas noticia que a CTur vai propor mais recursos à Embratur. Replico aqui o trecho que me chamou a atenção:

(…) o orçamento da Embratur é de US$ 16 milhões. Para exemplificar a representatividade do montante, Parente mencionou o orçamento para promoção turística internacional de países como a Argentina, de US$ 60 milhões, e a Colômbia, de US$ 100 milhões. ‘Ajudando a Embratur, consequentemente, estamos ajudando a divulgação do País lá fora. Não é um gasto, é um investimento. E o retorno vem muito maior. Agora, vamos trabalhar politicamente aqui para que a gente possa agregar mais recursos para a Embratur’, defendeu o presidente da CTur.

Os participantes da reunião lamentaram a repercussão internacional de notícias negativas sobre o Brasil, mas, em geral, concordaram que a Olimpíada do Rio de Janeiro dará excelente oportunidade para melhorar a imagem internacional do Brasil. A Comissão de Turismo programou para o próximo dia 10 uma visita ao Rio de Janeiro, onde integrantes do colegiado acompanharão o andamento das obras dos Jogos Olímpicos.

“Não é gasto, é investimento”.

“Lamentaram a repercussão internacional das notícias negativas sobre o Brasil”.

Não é novidade que a classe política que se envolve com Turismo não entende da área, e isso não é demérito. Os últimos meses (anos) já deixaram claro que para ocupar cargo político é melhor ser político mesmo, para ter (ou não) o estômago necessário para lidar com os caminhos tortuosos das decisões que deveriam levar esse país para frente.

Mas deve haver assessores. Técnicos qualificados, que estudaram ou contrataram consultores para fazer relatórios e embasar as decisões e projetos. É muito achismo. E muita bobagem sendo repetida.

Em sala de aula, lá no primeiro ou no segundo ano da faculdade, explico que, para o turista do hemisfério norte de classe média, o Brasil sequer existe no mapa. E quando aparece, vem com as notícias negativas. Não custa lembrar que por muito tempo, nos canais a cabo de hotéis, o único canal brasileiro era a Record mostrando programas de violência policial e doméstica.

A epidemia de Zika esteve nas capas de diversos jornais, bem como as relações imediatas feitas com as incontáveis falhas na infraestrutura do país (lembre-se que aos olhos do estrangeiro, não há diferença entre Rio de Janeiro e Brasil – é tudo a mesma coisa).

Toda a movimentação em função da crise política e econômica, também gerando manchetes em jornais e revistas com milhares (ou milhões) de leitores, faz com que nem todo mundo seja capaz de diferenciar o clima do Brasil com a de um país em convulsão social.

Não se trata de aumentar a pífia verba da Embratur, ainda que isso seja necessário. O problema é anterior.

Precisamos de dados mais confiáveis nas mãos de assessores competentes, pautando os discursos e projetos do Turismo. Participar de feiras, imprimir folhetos e ficar no casulo do turismo não vai fazer a menor diferença, nem no curto nem no médio prazo.

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É o caso de fazer benchmarking? Sem dúvida – mas com países que fizeram mudanças radicais em sua política de turismo, que modificaram radicalmente a leitura da atividade e usaram de estratégias multissetoriais de longo prazo.

Que destinos estudamos hoje? O Equador, a Croácia e a Tailândia. Se você tiver tempo, vai ali e descobre como eles andam fazendo…

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

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