Uma carta (de amor) a Guilherme Paulus

Prezado Guilherme

Oi!

Já fomos apresentados, há muito tempo, e em diferentes circunstâncias – pelo Raffaini, na época de Caesar Park, pela Lúcia Mello, como Blue Tree, pela Heloísa Prass, e por vários e diferentes amigos que temos em comum. Não creio que você se lembre particularmente de mim. Mas acho que ninguém que trabalhe em turismo no Brasil poderia se esquecer de você.

Eu estava fora do país, de férias, e guardei vários e-mails para ler depois, com calma. Em um deles, a newsletter diária da Panrotas, do dia 07 de julho passado, aparecia sua foto e a manchete “Precisamos ver os números do setor”. O link da nota está aqui.

No texto, atribui-se a você a fala “os cursos nas faculdades de Turismo praticamente acabaram. Temos muitas poucas escolas de hotelaria. Como faz para aprender? Cabe a nós reivindicar isso”. Eu fiquei vários dias pensando nisso. Vários dias. E por isso resolvi escrever esta carta, aberta, na expectativa que você possa me responder.

Eu acho que fiquei feliz demais ao ler o NÓS vinculado ao REIVINDICAR. Mesmo. Será que finalmente um dos principais líderes do turismo brasileiro, se não o principal, vai assumir essa posição?

Depois fiquei pensando – não é bem assim. Vou me explicar, e se você não me entender, me avisa, que no ofício de professora, eu tento de outra forma.

Para mim, Guilherme, as suas ideias e os seus comandos definem o Turismo brasileiro. Mesmo, de verdade e sem ser puxa saco. Muito ao contrário, até. O que a CVC determinar, costuma acontecer. E isso tem aspectos ótimos.

Sabe quantas pessoas aprenderam a viajar com a CVC? Inúmeras. Mas em milhões. E quantas pessoas jamais teriam viajado se não fossem as condições da CVC? Outra quantidade imensa.

Coleciono relatos, inclusive os meus, de possibilidades que alcancei graças aos preços baixos e condições imperdíveis. Mas você, como eu e vários colegas, sabemos a que isso se deve. O quase que absoluto poder de negociação da sua empresa. Se em algum momento os diretores da CVC desistirem de vender um destino brasileiro, pode contar os dias, e o destino quebra. Literalmente.

Ao negociar pensando no cliente CVC, os hotéis brasileiros fazem preços que hoje não pagam sua manutenção. E, portanto, se esforçam para manter a qualidade dos serviços e produtos oferecidos. As margens vão se reduzindo, e, lá na ponta, os salários ficam baixos. Como muita gente precisa trabalhar, aceita o que for oferecido – antes ter salário do que não ter, você já deve ter ouvido isso.

E não é só hotel né? Tem os traslados, os passeios, os guias – há uma cadeia complexa de prestadores de serviço que são ativados no momento em que um pacote da CVC é estruturado. E tem seus preços pressionados. E aí, naturalmente, os guias vão pedir gorjetas no final, e levar para restaurantes e lojas em que recebem comissão. E a maioria das pessoas vê, mas prefere fingir que não.

A essa altura você já desistiu da minha carta, né, Guilherme? Mas estou acabando. O que eu quero dizer é que qualquer jovem, hoje em dia, tem acesso a muita informação, e sabe que viajar não é mais tão complicado como era na nossa época. E se não é complicado, quanto melhor o salário dele, mais ele vai viajar. Estudar fora, passar um ano fazendo mochilão, essas coisas que meus alunos amam. Mas trabalhar com turismo, sem final de semana, e ganhando pouco? Qual a razão?

É por isso que os cursos fecharam. Por que os alunos não se interessam por uma área tão mal remunerada, tão cheia de promessas e potencial, mas com pouca realização. Se os salários dos funcionários do turismo são baixos, nem te conto os dos professores. Tem colegas meus, com mestrado e doutorado, que ganham menos de R$ 40,00 por hora. Tem gente, que, com esforço, está ganhando R$ 150,00 por dia. Para manter uma família. É muito desanimador.

E para minha maior tristeza, um dia ouvi um moço que trabalha com (ou para) você, dizendo que não se importa com a formação da pessoa não. O que importa é se ela tiver “sangue nos olhos para vender os pacotes”. Ou seja, vocês não combinaram bem os discursos. Mas como eu disse, eu prefiro o seu.

Eu sei, de verdade, que você acredita em trabalho, acredita no turismo e acredita no Brasil. Aqui, a gente combina bem. Eu acredito em tudo isso.

Se você puder, Guilherme, chame seus amigos e comece a pensar que a grande mudança do Turismo brasileiro está nas suas mãos. Os passos para melhorar as condições de trabalho, tornar as funções mais atraentes, incluir práticas responsáveis e convidar mais gente para se inspirar pelo brilho dos seus olhos dependem, primeiro, de você.

Eu sou uma apaixonada, como você bem percebeu. Sou brava, mas apaixonada. E eu acredito que você vai receber essa carta de espírito aberto e considerar começar uma mudança.

 

Com todo meu carinho,

 

 

Mariana

 

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

22 thoughts on “Uma carta (de amor) a Guilherme Paulus

  1. Terminei de ler sua carta comovido e motivado, Mariana. O Turismo antes de mais nada é um negócio e no mundo dos negócios não há mocinhos ou bandidos – apenas os que ganham e perdem dinheiro. É fato que parte das grandes margens das empresas bilionárias está na baixa remuneração e “aperto” do fornecedor. Por outro lado, outras empresas remuneram muito bem e têm margens maiores com menor volume. É questão de opção : vc, eu, a Lucia Mello e tantos outros estamos nesse setor mais por amor que por sonho de enriquecimento. O que precisamos, de fato, é dar espaço para outros apaixonados entrarem nesse setor porque quem está atras de grana vai trabalhar com tecnologia (e quem sabe ganhar muito dinheiro numa OTA….). Beijo!

    1. Nem toda paixão sobrevive à falta de perspectiva, querido Gustavo. Acho que precisamos aprender a estimular e recompensar amor e dedicação com melhores salários e bons planos de carreira. Obrigada por passar por aqui!

  2. Olá Mariana,
    Muito bom o texto… Reflete bem a satisfação de quem atua no setor por paixão e vício… Porque muitas das vezes esse assunto parece mais um vício que amor, trabalho com a regionalização do Turismo em uma região do Vale do ribeira e caso você me autorize gostaria de usar a sua publicação em uma reunião próxima que terei, pois ela fala tudo que é necessário ser falado quando pensamos em perspectivas ao futuro da nossa função.

    1. Oi Denys, este texto e os demais do blog são públicos. Pode utilizá-los sempre, apenas preservando a indicação de autoria.
      Obrigada por escrever!

  3. Parabéns Prof. Mariana, Trade turístico e nós Turismólogos precisamos deste apoio e força do Setor Empresarial em valorizar os alunos e os cursos de turismo. Mão de obra cada vez menos qualificada e os mais antigos saindo do setor pela baixa remuneração. Nem sempre só o digital era resolver.
    Belas palavras, sem senti representado no seu belo texto.
    Abraços.
    Arruda

  4. Parabéns Prof. Mariana, Trade turístico e nós Turismólogos precisamos deste apoio e força do Setor Empresarial em valorizar os alunos e os cursos de turismo. Mão de obra cada vez menos qualificada e os mais antigos saindo do setor pela baixa remuneração. Nem sempre só o digital era resolver.
    Belas palavras, me senti representado no seu belo texto.
    Abraços.
    Arruda

  5. Uau Mariana, parabéns pela clareza do texto e pela mira certeira em um tema de extrema importância para o desenvolvimento do turismo brasileiro. Lembro que ouvi, desse mesmo representante da CVC (que disse que não precisa de colaboradores com formação), que não se preocupava com o desenvolvimento do destino turístico que comercializam, que isso era da alçada do poder público desses locais. Quando perguntei se eles davam algum tipo de retorno/feedback de avaliações dos turistas sobre as localidades que visitaram, ele disse que não, dando a entender que a empresa não realiza avaliação dos turistas em relação a localidade que visitaram, não dão retorno para o destino se os turistas que levaram gostaram ou não do destino, ou se tem pontos a melhorar e ajustar para que a experiência turística seja melhor. Isso não é da alçada da empresa, e sim da comunidade local. Ou seja, o destino se esgotou e não se atualizou, bora para o próximo destino e esquece esse outro. A maior empresa de turismo do Brasil tem que repensar a sua responsabilidade e o seu papel, não cabe mais esse formato parasita. Que seja o inicio de uma discussão e mudança sobre esses modelos antigos de atuação em nosso mercado !

  6. Parabens pela reflexão Mari. Palavras que muitos gostariamos de dizer. Como colega na área acadêmica, com certeza utilizarei o texto para discussão com nossos futuros profissionais. Como profissional do setor, apoio totalmente sua carta de amor e assino embaixo! Bj

  7. prof. Mariana,
    belíssimo texto e visão precisa.
    completa analogia ao setor corporativo, as grandes empresas são a CVC, e os pobres TMCs
    os hotéis, …
    abraços
    Fernando Margoni

  8. Olá Mariana. Finalmente alguém toca na “ferida”. Gostei da Carta de Amor. Não haveria melhor maneira de falar verdades sobre a proteção do amor.
    Parabéns pela inteligência do texto. Coisa de professora e observadora competente.

  9. Sensacional, Mariana!
    Poucas vezes, como bacheral em Turismo e profissional da área há mais de 15 anos, me senti tão lindamente representada.
    Parabéns e obrigada!

  10. Sensacional, Mariana!
    Poucas vezes, como bacharel em Turismo e profissional da área há mais de 15 anos, me senti tão lindamente representada.
    Parabéns e obrigada!

  11. Mariana,

    por isso sou sua fã. Esse “nós” precisa partir dos apaixonados do turismo num eco que faça ensurdecer o empresariado. A comunicação precisa ser alinhada internamente para eles e para o trade.
    Trabalhei na CVC, assisti inúmeras palestras do Guilherme Paulus e prefiro parar por aqui.
    Teve resposta? rs

  12. Bom dia Professora

    Sou um daqueles que se apaixonaram pela atividade quando ela explodiu, lá no final dos anos 90. Me formei em 2004 e DESDE ENTÃO, segui acreditando que o Brasil fosse realmente dar um salto quando o assunto é a atividade turística. As vezes me pego pensando… “o que ainda estou fazendo aqui? Porque ainda estou numa área que não recebe nenhum apoio, a não ser de quem a desenvolve?’
    Trabalho na área pública… prefeitura. E vejo muito o que a senhora escreveu. Quem quer saber de trabalhar finais de semana e feriados para ser mal remunerado? Sou de uma região com um potencial fantástico (Jaraguá do Sul – SC, a 50 km de Joinville, 60 de Blumenau e colado em Pomerode), mas as pessoas ainda preferem o salário da indústria, que paga mal… mas os finais de semana são em casa, ou aproveitando um pacote com vantagens e condições imperdíveis CVC.

    Se for para REIVINDICAR e TRABALHAR JUNTOS pela atividade, pode contar comigo.

    Abraço

  13. MARIANA, achei lógico seu posicionamento,sou da época que se aprendia turismo na prática e não existia Faculdade de Turismo.Sou a favor de um mercado experiente e com qualidade,conheço bem o Guilherme e sua equipe e ainda trabalho no ramo por 35 anos.
    Hoje se faz turismo em massa,sem qualidade qualquer e sem profissionalismo.
    O Brasil não tem gente que se interessa pela nossa própria cultura ,estudo,enriquecimento de ideias,isso não depende de CVC. Vc vai para a Europa um guia tem que fazer faculdade,aqui nem sabe se expressar direito.O que falta no Brasil é investimento cultural.

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