Guilherme Paulus responde

Confissão: eu sabia que ele iria me responder, por uma razão muito simples – por mais espinhoso que seja o assunto, é algo que precisa ser discutido. E como uma pessoa sensata, inteligente e competente, não apenas responde mas me instiga a pensar um pouco mais. Ou melhor, convida a todos para pensarmos juntos.

Obrigada, Guilherme, por seu tempo. E pelas palavras. Farei comentários no próximo post.

Olá, Mariana.

Obrigado pela carta e pelas palavras dirigidas a mim. Fico muito feliz em receber esse tipo de feedback, especialmente como um líder desse setor que tanto me orgulha nesses mais de 40 anos de estrada.

Concordo com o texto em muitas partes, mas reitero meu pensamento na referida matéria sobre os números do setor. As escolas profissionalizantes, assim como grandes universidades públicas e particulares precisam de incentivo, de políticas voltadas para o Turismo.
A exemplo de Portugal, que tornou o Turismo uma de suas grandes fontes de renda e transformou o cenário econômico do país.
O Ministério do Turismo, aqui no Brasil, é um grande parceiro, mas por conta da troca de governos, os ministros não conseguem, muitas vezes, dar continuidade aos projetos nessa área.

Sobre a CVC, hoje a operadora é considerada uma das líderes mundiais em seu segmento. Alcançou patamares que nenhuma empresa genuinamente brasileira talvez tenha alcançado. E dentro
desse mérito, há milhares de empregos gerados direta e indiretamente. Em todos os níveis de cargos e salários e com relações comerciais bastante saudáveis para ambos os lados.

O Turismo paga pouco? Para algumas funções pode ser que sim, como em outros setores. Há o advogado sênior, há o pleno, há o analista, há o assistente. Há o engenheiro, o arquiteto, o mestre de obras, o pedreiro. No Turismo é exatamente igual. Há diretores, gerentes comerciais, líderes de turismo que são muito bem remunerados (mais até do que em grandes conglomerados econômicos). Existem muitos profissionais que precisam, inclusive, estudar fora do país, acumular experiência e bagagem para, depois, voltar ao Brasil com melhores remunerações.

Há salários e salários para cada atribuição. Para se ter ideia, temos hotéis com vagas abertas em diversos cargos e que não conseguimos preencher por falta de profissionais com qualificação na área. A culpa é do empresário? Não. Há interessados? Sempre. Nós ouvimos isso dos próprios jovens.

O Turismo não paga mal. Basta perguntar aos funcionários que tem vontade de vencer na suas respectivas funções. Quando eu falo que trabalhar com turismo é 95% de transpiração e 5% de inspiração, pode crer que é a mesma equação para muitas outras áreas. A paixão pelo que se faz pode levar o ser humano ao triunfo. Eu acredito no Brasil, no Turismo e na garra do brasileiro.

Que comecem as mudanças e que tenham início com mais investimento do governo em políticas educacionais de qualidade. A educação é a base de tudo. Como representante do nosso setor em diversos órgãos e associações, luto diariamente pela democratização do Turismo, pelos direitos, pela aprovação de bons projetos de lei e por um turismo acessível, sustentável e rentável a
todos que dependem dele como profissão. 

Um grande abraço,
Guilherme Paulus

Outro abraço carinhoso, Guilherme! Nossa conversa continuará!

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

12 thoughts on “Guilherme Paulus responde

  1. Espetacular a resposta do Senhor Guilherme, o qual tive a oportunidade de conhecê-lo quando fui caixa do Banco Nacional na rua Senador Fláquer em Santo André no ano de 1986. E posso dizer que junto ao meu pai foi um dos que me inspiraram a atuar nesta área encantadora que é o turismo.
    Estou na área desde 1989, já tendo atuando em vários segmentos do setor, e precisamos unir forças para realmente transformar nosso setor mais influente, gerando emprego, renda, inclusão social, desenvolvimento e preservação.
    Todos sofremos com escassez de recursos, sejam humanos, financeiros, etc..
    Que esta saudável discussão traga benefícios a todos.
    Parabéns à ambos Sr. Guilherme e Professora Mariana

  2. Prezados, boa tarde.

    Discordo com o Guilherme quando ele diz que faltam profissionais qualificados no setor. Eu tenho 22 anos de experiência na area, sou formada, estou cursando a segunda pós graduação, tenho fluência em uma língua estrangeira , já morei fora, tenho vivência na prática no Turismo, e nem assim meu salário é dos melhores. Profissionais qualificados temos sim, e muitos. O que falta são sim os empresários abrirem a mão, e deixarem de pensar apenas em seus bolsos.

    Renata Silva

  3. Interessante e necessário esse debate. Estamos precisando disso. Entretanto, a afirmação do Guilherme de que “faltam profissionais qualificados” soa a clichê! Faltam profissionais porque as empresas querem contratar “Einsteins” com salário de “gari” e aí a conta não fecha! Num cenário devastador como o atual, duvido que haja falta de profissionais qualificados. Sem falsa modéstia, eu mesmo, com 41 anos de experiência em quase todos os segmentos do turismo, fluente em dois idiomas e com vasta rede de relacionamento, estou desempregado há exatos 17 meses! repito: 17 meses! Já fui recusado para cargos comerciais básicos em redes hoteleiras, e até mesmo na CVC. Afinal, o que o mercado espera dos candidatos? O que há de errado? A idade? O excesso de experiência? A falta de formação acadêmica? Talvez tudo isso, mas a questão que permanece em aberto é: precisamos alinhar os discursos, ou continuaremos a culpar uns aos outros sem sair do lugar. Parabéns pelo post.

  4. Renata, você é como eu: tenho 13 anos na área, mas, pelo jeito, somos os “pedreiros” do Turismo.

    Boa sorte para nós, que não estamos investindo em ações, e “não estamos transpirando” o suficiente.

  5. “O Turismo paga pouco? Para algumas funções pode ser que sim, como em outros setores. Há o advogado sênior, há o pleno, há o analista, há o assistente. Há o engenheiro, o arquiteto, o mestre de obras, o pedreiro. No Turismo é exatamente igual. Há diretores, gerentes comerciais, líderes de turismo que são muito bem remunerados (mais até do que em grandes conglomerados econômicos). Existem muitos profissionais que precisam, inclusive, estudar fora do país, acumular experiência e bagagem para, depois, voltar ao Brasil com melhores remunerações.”

    Acredito que isso seja ótimo para debate. No Turismo é igual sim, existem Diretores, Gerentes Comerciais e Líderes de Turismo, mas uma coisa me intriga: Desses, qual o percentual de graduados em Turismo que as empresas contratam? Muitos dos Diretores de grandes empresas do Turismo que fui apresentado, ou chegaram a meu conhecimento, não são formados em Turismo. São formados em Engenharia, formados em Administração, ou qualquer outra área. Então, qual o incentivo ao estudante de Turismo, para qual razão ele deveria se graduar na área ao invés de partir para Marketing, por exemplo, e depois ir procurar emprego no Turismo? Não estou falando de necessidade de reserva de mercado – coisa muito comum no mercado brasileiro pela falta de vontade de governantes, associações e sindicatos – mas incentivo dentro das empresas de turismo na contração de profissionais da área para cargos mais elevados?

    Vou dar um exemplo: A maior parte dos guias locais que trabalhei tem graduação em geografia, administração ou marketing, e, as vezes, história. Mas nunca em Turismo. Acho interessante esse cenário em que pedimos mais presença do graduado/graduando em Turismo, com palavras bonitas e um belo discurso em um momento “especial” para o mercado, mas no final de tudo volta a excluir o especialista.

    Sejamos francos, o mercado de turismo no Brasil persiste com dois apesares: apesar do negócio de turismo não ser voltado para o turismo (este poderia ser substituído por um vaso, que o modelo de negócio se daria da mesma forma, mostrando que não se respeita, em momento algum, as particularidades do “produto”) e apesar de existirem pessoas com formação no produto (estas, são tratadas como um problema a ser adaptado, como incapazes de entender que o Brasil não encontra uma monetarização para eles).

    Triste momento para ser brasileiro por milhões de razões.

  6. Com todo respeito a trajetória do Sr. Guilherme e das empresas que construiu e dos empregos que gerou.

    A resposta não responde nada. A mesma falácia vazia, responsabilizando terceiros pelos problemas, vício aliás da corrente política do empresário. O famoso “jogar para a torcida”, sem uma aplicação real e efetiva.

    Falta educação? Não tem, se alie a uma faculdade e forme e construa a sua equipe. Além disso, outros que comentaram já demonstraram que não é verdade. Os empresários querem profissionais capacitados com salário de estagiários. Faça-me rir.

    Continuidade de governo? Pelo amor de Deus, está provado que alternância é a melhor coisa. Perpetuar governos só gera concentração e dominação. O que precisamos são de políticas públicas que sejam supra-partidárias e que sejam cumpridas sem favorecimento de A, B ou C.

    Não lembro do Sr. Guilherme, como integrante de vários conselhos, lutar pela democratização na aplicação das verbas públicas de publicidade para serem aplicadas para incentivar pequenas e locais empresas a crescerem.

    A participação do turismo no PIB do país não se deve a ações de gestão pública. Ledo engano. Isso sempre existiu. O crescimento abrupto nos últimos anos deveu-se praticamente a ausência de ações terroristas em solo Português o que trouxe uma enxurrada de novos turistas, mas que está longe se ser o que recuperará o país. Mesmo quadro de crescimento teve Espanha e Itália/Grécia em menor número.

    Por último, louvar a carta da Blogueira e Professora Sra. Mariana Aldrigui, que disse a verdade, mas que foi cuidadosa para não comprar uma briga com um gigante.

  7. Discordo da afirmação feita pelo “observador” no comentário acima, quando diz que o crescimento abrupto (sic) do turismo português se deve à ausência de atos de terrorismo naquele país. Só quem desconhece as políticas públicas de turismo do país lusitano pode usar tal argumento. Portuga vive do Turismo há décadas, mesmo antes do mundo ter problemas tão frequentes com o terrorismo. A Direção Geral de Turismo (similar ao nosso Ministério) tem quase um século de existência, o que prova que há cem anos, pelo menos, Portugal reconhece na atividade turística uma força econômica estratégica. Poucos países podem afirmar isso há tanto tempo. Em 2004, numa reunião que tive em Lisboa com o Secretário de Promoção Turística português, ele mostrou números que davam conta de que Portugal investia mais apenas para divulgar o país no mercado norte americano, do que o Brasil (Embratur) investia para promover o país no MUNDO INTEIRO. Ou seja, o sucesso de Portugal no Turismo deve-se a uma política pública persistente, com foco e objetivos claros, com regras e normas perenes e investimento maciço. Isso se chama competência e visão estratégica e nada tem a ver com a ausência de terrorismo. Os números vêm crescendo também com a recuperação da economia portuguesa, que deixou a fase aguda da crise há dois ou três anos.

    1. A iniciativa do governo para tornar o turismo mola propulsora, fez com que Portugal chegasse entre 06 e 07% do PIB do Turismo até 2012. Esse número já foi para 2016 em torno de 16%.

      Lembrando que a economia portuguesa em 2015 teve uma queda de 13% em um só ano contra um aumento de 06% de 2012 para 2014 e diferente do que você avalia ainda está em uma situação frágil. 2016 já houve uma recuperação e 2017 anunciasse com um leve aumento.

      Em 2017, Portugal deve anunciar pela primeira vez em um século o alcance da taxa de ocupação ideal, recebendo algo como 21 milhões de visitantes e diversas matérias e pesquisas em Portugal e na Europa apontam a questão segurança como fator decisório importante para esse aumento.

      Não quero desqualificar a importância do turismo português e suas campanhas de comunicação, planos de posicionamento, reforma de seus monumentos e principalmente a requalificação de seu parque hoteleiro, que junto com o aumento de voos impulsionou o crescimento também.

      Agora citar o crescimento de Portugal como um resultado da política pública por si só me parece utópico.

      1. Meu caro Observador,
        Observe que em nenhum momento eu afirmei que os resultados do turismo de Portugal se devem, apenas, ao crescimento da economia (que ainda engatinha). O que eu disse e reafirmo, é que os consistentes resultados do Turismo em Portugal são fruto de um conjunto de ações e investimentos feitos ao longo de décadas. Assim sendo, se não é correto apontar a leve recuperação econômica como fator decisivo (pois não o é de fato), também não procede o comentário de que isso se deve ao baixo risco de ocorrência de ações terroristas, que é apenas um fator circunstancial a somar-se a outros, bem mais impactantes, de ordem estrutural. Como disse, Portugal colhe os frutos de um conjunto de políticas públicas e privadas efetivadas ao longo de décadas, persistência e continuidade que o Brasil nunca experimentou no Turismo. No mais, concordo com sua análise, e o mais importante é que temos muito a aprender com os Lusitanos nesse quesito. E digo mais: ainda há um tremendo inventário turístico em Portugal esperando para ser explorado e promovido (principalmente no norte/nordeste do país), e quando e se isso ocorrer, os resultados da atividade como mola propulsora da economia e da geração de empregos nos trarão notícias ainda mais surpreendentes. Falta apenas que, lá como cá, a política rasteira de alguns autarcas seja substituída por planos estratégicos elaborados por gente com vontade de quebrar paradigmas. Um abraço.

        1. Meu Caro Rui,

          Sem dúvida o trabalho consistente de uma política pública apartidária é o que faz com que os projetos em todas as áreas sejam vitoriosos.

          Portugal, vem trabalhando a muito tempo, com energia e afinco e os resultados estão aí. Indiscutíveis. Só salientei que o impulso maior, foi turbinado pelos fatores de requalificação e segurança.

          Mas entendo e concordo. A sorte favorece a mente preparada. Eles se prepararam e agora colhem.

          Forte abraço

  8. Com relação à afirmação de que o turismo emprega profissionais com outras formações que não o curso superior de turismo é preciso refletir que a atividade turística, dada a sua abrangência e horizontalidade, não é, em si, uma profissão, mas uma geradora (ou absorvedora) de profissões. Empresas de turismo precisam de advogados, de administradores, de marketeiros, de guias de turismo e de tantos outros profissionais com formações variadas. Assim, ser Turismólogo não garante emprego no setor, a não ser em funções muito específicas que exijam essa formação. O que ocorreu foi que no início da década passada, quando vingou a crença de que o turismo seria a salvação do Brasil e resolveria todos os seus problemas, criou-se um modismos que resultou no aumento predatório dos cursos de turismo, que chegaram a formar, segundo pude ler num levantamento da época, mais de 20.000 profissionais/ano, sem se preocupar se o mercado poderia absorver toda essa massa de trabalho. Com a realidade mostrando sua cara ao longo dos últimos anos, muitos cursos fecharam por falta de candidatos. Entretanto, alguns bons cursos de turismo continuam a formar excelentes profissionais, os quais, muitas vezes depois de buscarem complementar sua formação superior básica, disputam um mercado que ainda precisa aprender a dar-lhes valor. Isso não significa, como disse, que não haja espaço e necessidade de profissionais com as mais variadas profissões. Precisamos desmistificar esse debate, ou continuaremos a correr em círculos.

  9. Acompanhei a carta da Prof.Mariana e aguardei ansiosamente uma resposta do Sr.Guilherme Paulus, que enquanto profissional de sucesso é referência no setor, levando em consideração o que é a CVC hoje. Mas concordo com alguns comentários, quando dizem que os profissionais do turismo não são bem remunerados e sobra experiência por aí. Eu também faço parte desse time, com 26 anos de trabalho dedicados ao turismo, nas mais variadas funções e tendo inclusive já trabalhado na CVC, em franqueados.

    Ocorre que nessa ambição desmedida de crescer, abrir lojas, aumentar o faturamento, os empresários se esquecem de que o material humano necessário para o sucesso do seu negócio, precisa sim ser valorizado. Vemos funcionários predadores, que se esquecem da ética nesses momentos e em nome de aumentar sua produtividade, ignoram regras básicas da boa convivência profissional, como por exemplo respeitar o espaço e os clientes dos outros. Isso acontece muito dentro das lojas CVC e sendo inclusive incentivados pelos superiores, porque funcionário bom, é aquele que bate as metas, independente do que tenha feito para isso. Não acredito que os fins justifiquem os meios nesse caso. Acho feio, raso e pequeno. Lamento!

    Penso que os profissionais precisam ser valorizados pela experiência que acumulam, pelo investimento feito na carreira, pela responsabilidade com a empresa e seu bom andamento. Estamos cansados de ver nosso piso salarial reduzir cada vez mais e as comissões pagas beirando o ridículo.

    Como incentivar os novos profissionais dessa forma? A equação não fecha. Se clientes satisfeitos voltam e compram mais, funcionários satisfeitos, produzem muito mais, se dedicam muito mais e nessa roda vida, todos saem ganhando! E me perdoem os otimistas, ninguém trabalha nessa área por amor, porque amor não paga conta e não sustenta uma casa. Muitos aqui estão porque escolheram esse caminho lá atrás no início da vida profissional e abraçaram a causa, se especializaram e esperam até hoje que alguém, algum dia, valorize toda nossa trajetória.

    Parabéns por levantar o debate, Prof. Mariana. Já é um começo.

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