Minhas pulgas de estimação

Eu demorei para voltar aqui, e retomar o assunto da “carta de amor” que mandei ao Guilherme Paulus e que ele, muito gentilmente, me respondeu (se você não sabe o que é, clique aqui).

A mensagem hoje não é diretamente para o Guilherme, mas sim para todos aqueles que entendem ser necessária uma mudança generalizada, a começar pela forma de entender a formação na área e, consequentemente, a atuação profissional de alguém que escolhe este setor.

Como eu amo listas, eu organizei as minhas pulgas de estimação. Elas vivem atrás das minhas orelhas, há anos.

  1. Os diferentes salários

Não vou discordar que há cargos e salários diferentes para pessoas com especializações e experiências diferentes no setor. O que incomoda é que raramente o salário bom fica com o formado em Turismo. São engenheiros, advogados, administradores, entre outros, que são diretamente contratados para posições mais valorizadas. O argumento, que é até muito justo, convenhamos, é que o formado em Turismo não tem algumas competências básicas para atuar na gestão (por exemplo, nas questões financeiras). Há responsabilidade por parte das universidades? Sim, e como. Muita. (E isso merece muita discussão, prometo retomar oportunamente.) Mas é justamente por isso que a formação na área perde a atratividade. Se o jovem já sabe de antemão que a formação em Turismo vai oferecê-lo (dados de 2017) uma média salarial de dois mil reais depois de cinco anos de formado, é melhor ir de cara para o telemarketing que paga mil e quinhentos com nenhuma experiência.

  1. O baixo salário generalizado

Vai ser difícil desmentir essa. Exceção aos donos e diretores, o setor paga mal. Pode não ser o pior de todos, porque na ponderação de vantagens, os descontos, vantagens de viagens e hospedagens, o bem estar emocional que muitas das atividades oferecem, fazem com que ainda seja interessante estar na área. E passada uma certa idade, vem a acomodação e aí muita gente que poderia ganhar bem mais se acomoda por achar que não tem chance na migração de áreas. E não havendo estímulo à qualificação constante dos funcionários com mais tempo de casa, em momentos de crise, há demissões em massa para contratação de quem aceitar o rebaixado novo salário. Hoje temos excelentes profissionais desempregados, e boas empresas prestando serviços ruins para poder sobreviver a esse momento terrível pelo qual o país passa.

  1. Cabeças balançando para políticos ridículos

Usar a palavra ridículo pareceu pesado? Então pense que nas últimas semanas foi noticiado que o Ministro do Turismo privilegiou sua própria família em repasse de recursos, considerando que o orçamento geral do MTur foi cortado em quase 85%, portanto, um acinte para dizer o mínimo. E que o irmão do secretário de turismo de São Paulo foi identificado em uma gravação sobre cobrança de propina. Ok, ok, é o irmão, mas sabemos bem que os laços familiares na política são fortes.

Em praticamente nenhum outro setor, quando alguém assume a pasta, é necessário explicar tudo desde o começo. Mas no Turismo, é sempre tanta gente aventureira que até cansa. E se cerca de gente ruim, como conselheiro. E desanima os funcionários de carreira, que não veem a hora de migrar internamente. E fazem pouco ou quase nada para que o setor seja levado a sério no quesito recursos públicos e atenção política. A política de turismo no Brasil é, fundamentalmente, uma grande brincadeira. (Acham que eu exagero? Vão lá ler o Plano Nacional de Turismo e vejam que os pouco ambiciosos redatores acham que, em 2020, seremos a terceira maior economia de turismo do mundo. Talvez do mundo em que eles vivem, porque não deve ser nesse…)

  1. Os exemplos mal escolhidos

Eu sei que teve ministro e muito professor querendo comparar o Brasil à Espanha, ao México, à França. Agora parece que Portugal é o bom exemplo. Mas nenhum destes países tem realidades políticas, sociais e geográficas como o Brasil. Não dá para comparar um país do tamanho de Portugal, e com a proximidade de grandes centros emissores, com o Brasil. Não dá. Temos que melhorar nosso benchmarking, mas mais que isso, temos que melhorar (e muito) nosso discurso.

No fundo, o que eu acho é que nos contentamos com pouco, muito pouco. Qualquer frase melhor estruturada e dita em tom de autoridade vira verdade. Pesquisar e verificar as fontes, e testar os resultados, seria mais interessante, mas dá mais trabalho. Ir fazendo do jeito que dá, como sempre foi, sem que ninguém perceba, parece ser melhor. Não é. E a grande demonstração vai se manifestar na queda generalizada de gente boa disposta a trabalhar na área. Teremos que nos contentar com aquele monte de gente que, por não saber direito o que fazer da vida, decidiu estudar e trabalhar com turismo – porque parecia mais legal e não tinha matemática.

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

2 thoughts on “Minhas pulgas de estimação

  1. Professora Aldrigui, como sempre, seus textos nos provocam a pensar!!

    Gostaria de trazer um antipulgas pra você, mas o fato é que neste país está mais fácil elas se transformarem em carrapatos!

    De fato não sei a quem culpar os salários! A faculdade me pareceu óbvio, porque não concordamos QUEM estamos formando: um guia de turismo, um profissional de agência, um gestor público.. enfim forma-se um profissional sem ter certeza do que ele será, isso traz enormes consequências.

    Pra mim os salários são proporcionais ao que a pessoa é capaz de produzir. Se é injusto o pagamento ou salário, será que o problema não é a vaga de trabalho? Teria o profissional outra remuneração em um local onde pudesse mostrar seu potencial?

    Fico feliz por termos 01 Guilherme Paulus, mas acho que caberiam muito mais empresários. Está pra nascer! Acho que o grande GAP da nossa formação é que faltam empreendedores no turismo, não funcionários. Para algumas vagas de trabalho com algumas semanas de treinamento, vale mais o sangue nos olhos do que a formação!

    Cabeças balançando para políticos e gestores políticos: a gestão pública do turismo no Brasil é uma piada, aliás o capitalismo no Brasil é uma piada. O ambiente de negócios para uma empresa no Brasil não cabe no raciocínio de quem vive num país livre. Nossos gestores de turismo são os palhaços do circo.

    E só pra terminar não vamos esquecer os número do setor! Este pra mim é o triunfo da ignorância. Como pode algo que representa mais de 10% do PIB estar invisível a nossa sociedade. Faturamos os mesmo ou mais que o Petróleo no Brasil, onde está a nossa TURISBRÁS. Provavelmente bancando dinheiro em cuecas, malas, aposentadorias e toda máquina incompetente do nosso poder público.

    Já me convenci que o grande problema do turismo no Brasil está no setor público, resta soar vozes mais contundentes a isso!

    Gde Abs

  2. Infelizmente essa é a grande realidade, mesmo para aqueles que entram numa faculdade de turismo como primeira opção, sabem que na verdade serão meros vendedores de alguma agência de shopping, sobrando pouquíssimo tempo e dinheiro para praticar o que tanto prega.
    Desanimador.

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