Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

Há quanto tempo você tem lido que precisa aprender a usar o tal do BIG DATA? De quantos eventos você participou com a intenção de entender, aprender ou ampliar sua compreensão sobre o tema? E o que de fato você já conseguiu fazer com tanta informação?

Há pouco mais de dois anos, em Madri, assisti ao Rafat Ali (CEO da Skift) explicar detalhadamente como abrir mão de ações de mídia massificadas para usar o marketing direcionado a partir do big data de empresas como Google e Facebook. Ensinou passo a passo como fazer, e ao final sorriu e disse – por mais que eu explique, ainda é cedo para que vocês entendam o quanto isso é importante e vai mudar a forma de vender qualquer coisa no mundo.

Pouco antes de escrever este texto, leio a notícia que o AirBnB adicionou R$ 2,5 bilhões ao PIB brasileiro em 2016, o ano em que a crise econômica se acentuou, apesar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo final de semana, a FGV indica aumento de 35,9% nas passagens aéreas, entre junho e setembro, após o início da cobrança de bagagens despachadas. As pesquisas da FGV consideram as passagens efetivamente vendidas, nas rotas mais procuradas. Dois relatórios confiáveis, cujos dados são abertos e a metodologia é clara e divulgada.

Por outro lado, os dados oficiais indicam aumento menor no preço das passagens, já que consideram a média de todos os trechos. Nas redes sociais, a maioria das pessoas que compartilhou essa notícia usou de ironia para indicar que, mais uma vez, o consumidor é levado ao engano por manipulação de dados. Outra informação que me deixa curiosa é o volume de visitantes da feira da Abav. Três responsáveis por stands com quem conversei (stands que entregavam algo que poderia ser considerado “brinde”) indicaram que menos de 50% das pessoas que os abordaram eram, de fato, agente de viagens. Mas, naturalmente, os relatórios oficiais vão indicar que foram mais de 20 mil visitantes e essa informação será utilizada nos argumentos de venda para o próximo ano.

A questão aqui é como os dados, “big ou little”, são tratados.

Listar perguntas em forma de questionário não é fazer pesquisa. Menos ainda copiar um formulário online, tirando o logotipo do concorrente. Avaliar um produto somente pela opinião de quem compra em uma dada região também não é correto. Pesquisa é uma atividade importante e que deve ser acompanhada por quem sabe o que está fazendo, escolhendo a metodologia adequada aos objetivos do interessado.

Portanto, duas recomendações – não acredite nos dados que chegam a você sem o endosso de instituições confiáveis (lembre-se, estamos em tempos de pós-verdade) e, sempre que possível, procure as informações contraditórias para poder formar sua opinião. E mais ainda (eu sei, já disse isso, mas não custa repetir): não é porque sempre foi assim que precisa continuar sendo.

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

One thought on “Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

  1. Ah, querida “Profe”… confiar em dados de fontes “confiáveis” já é difícil, quanto mais de uma indústria que sequer consegue estabelecer padrões contábeis!
    Estou com você nessa: tenho os dois pés atrás com os relatórios do nosso setor. MAs quer saber? Taí uma ótima oportunidade de aproximar a Academia do Turismo, não é? Bjos

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