Lições de um bom evento internacional

 

Entre 06 e 08/11/2017 tive a felicidade de participar, mais uma vez, da WTM Londres, o evento que está posicionado entre os três melhores do mundo quando se trata de turismo. Como não foi a primeira vez, o deslumbramento com a dimensão da feira e o volume de visitantes ocupa menos espaço mental e é possível fazer mais análises e comparações, as quais divido com você que está lendo esse texto.

Em primeiro lugar, ranking – importa de fato saber se é o primeiro, segundo ou terceiro mais importante evento do mundo? E quais são os aspectos que devem ser levados em consideração para dizer se é ou não o melhor? Bom, para mim, o elemento crucial que determina a importância de um evento é o quanto ele de fato tem de representatividade e qual o envolvimento dos diferentes interessados no evento. Com isso, até onde me consta, WTM Londres, FITUR Madrid e ITB Berlim cumprem essa função de forma profissional. E um único motivo explica isso – nos três eventos estão presentes as grandes organizações do turismo, como UNWTO (OMT), WTTC, PATA, IATA e similares, estão líderes de governos em todos os níveis, pesquisadores de alta produtividade e, efetivamente, os empresários do setor – pequenos, médios e grandes.

Particularmente, nesta WTM Londres, o evento mais concorrido e que gerou mais notas de imprensa foi o Ministers Summit, realizado na manhã do dia 07. Ministros de Turismo de vários países estavam presentes no círculo central ou na área restrita, a convite do Secretário Geral da UNWTO, e também representantes do parlamento britânico e do parlamento europeu, CEOs de companhias de cruzeiros, hotéis, aviação e AirBnB. O tema – overtourism – e a necessidade de ações efetivas para reverter quadros como os que se vê em Barcelona, Amsterdam e Veneza, e também medidas que possam evitar situações similares em outro destino. (Não, o Brasil não estava representado no painel, caso você ainda tenha dúvidas).

A programação de conferências foi extensa e cobriu praticamente todos os temas atuais, com grande concentração em mídias e influência digital, coleta, análise, interpretação e uso de dados para geração de inteligência de mercado, boas práticas de turismo responsável e responsabilidade social corporativa, e muito mais. No último dia, eventos especiais para estudantes de turismo, como estratégia de integração de talentos e apresentação das muitas oportunidades de carreira que o setor oferece – pelo menos 400 universitários disputaram um lugar na conferência ITT Future You, algo que eu, infelizmente, ainda não vi acontecer no Brasil.

Finalmente, a qualidade técnica dos estandes e da apresentação profissional de destinos, produtos e tecnologia. Mesmo sendo um excelente momento para reencontrar colegas e parceiros, a feira é o momento em que PRODUTOS são apresentados com o grande objetivo de realizar NEGÓCIOS. Os horários de reunião são respeitados, as pessoas entendem a necessidade de discutir preços, contratos, garantias, oportunidades e diferenciais. Não é uma festa. A festa vem depois, após o expediente.

E finalmente, a cidade acolhe o evento – o sistema público de transporte se prepara para o aumento no número de visitantes, há sinalização especializada, há deslocamento de efetivo (segurança, informação, promoção) para os locais de conexão e de entrada no evento. Há sinalização impressa, sonora e com a ajuda de pessoas. Londres funciona. Provavelmente por reconhecer a importância do evento, independentemente de sua temática. O espaço de eventos funciona. O conceito do evento funciona.

É um grande aprendizado. Especialmente por saber que em eventos assim as pessoas estão juntas com um mesmo foco.

 

Aqui no Brasil, entretanto, ainda estamos nos debatendo para não afundar. Pesquisadores distantes e alienados, fechados em círculos e falando para si mesmos; políticos desinteressados e sem nenhum compromisso com a causa, ou melhor, comprometidos apenas com a próxima eleição; e empresários brigando com os efeitos incontroláveis da inovação. Uma pena.

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

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