Efeito bola de neve – quem dá o passo inicial?

Embora não seja usual vivermos a experiência da neve no Brasil, o conceito de neve, bolas de neve, bonecos de neve e avalanches nos são apresentados desde muito pequenos, quando assistíamos a desenhos animados e ríamos dos personagens que escorregavam (ou eram empurrados) e iam rolando e formando uma imensa bola de neve que caía, na maioria das vezes, suavemente na base da montanha, e o personagem em geral saía vivo e se chacoalhando.

Nos casos de avalanches reais, o que se sabe (e espero que ninguém precise experimentar) é que conforme algo comece a rolar lá em cima da montanha,  vai ganhando velocidade e volume, arrastando (muitas vezes destruindo) tudo o que vem pela frente. O efeito tende a ser devastador.

O uso da expressão “efeito bola de neve” é variado, e recentemente os pesquisadores e ativistas do turismo sustentável indicam que tais práticas, iniciadas pelos indivíduos, ainda que pequenas, podem estimular o efeito bola de neve no turismo – isto é – ser replicado a um ponto que não seja mais possível imaginar como era o turismo antes disso.

Há que se pensar na mesma lógica em relação aos empregos e estágios em nosso já combalido setor, recheado de práticas condenáveis e muitas vezes repetidas e até estimuladas.

Seria lindo imaginar o dia em que os anúncios das vagas sejam coerentes com as funções que serão exercidas; que a remuneração seja condizente com as competências solicitadas, e que respeite os diferentes níveis de instrução e de investimento na carreira, como também o tempo de experiência em funções equivalentes; respeito à qualidade de vida e à necessidade de descanso para recuperação efetiva da capacidade de produção, especialmente quando se fala em desempenho intelectual.

Tem sido extremamente desolador, para ser simplista, acompanhar diferentes relatos de ex-empregados e ex-estagiários, relatando não apenas situações de abuso de poder, assédio moral, falta de transparência nos processos de evolução na carreira, como também perceber a sensação de medo que acomete quem depende dos salários, baixos, e que prefere se calar ou replicar falsos relatos a correr o risco de perder sua vaga ou “ter seu currículo manchado” com uma demissão.

Não tenho soluções ideais, mas acredito que os pequenos gestos em busca de melhores condições – em todas as empresas – podem nos ajudar a recuperar a atratividade do setor, que hoje perde muita gente justamente por essa característica cruel.

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Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de Turismo na Universidade de São Paulo (USP)

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