Minhas pulgas de estimação

Eu demorei para voltar aqui, e retomar o assunto da “carta de amor” que mandei ao Guilherme Paulus e que ele, muito gentilmente, me respondeu (se você não sabe o que é, clique aqui).

A mensagem hoje não é diretamente para o Guilherme, mas sim para todos aqueles que entendem ser necessária uma mudança generalizada, a começar pela forma de entender a formação na área e, consequentemente, a atuação profissional de alguém que escolhe este setor.

Como eu amo listas, eu organizei as minhas pulgas de estimação. Elas vivem atrás das minhas orelhas, há anos.

  1. Os diferentes salários

Não vou discordar que há cargos e salários diferentes para pessoas com especializações e experiências diferentes no setor. O que incomoda é que raramente o salário bom fica com o formado em Turismo. São engenheiros, advogados, administradores, entre outros, que são diretamente contratados para posições mais valorizadas. O argumento, que é até muito justo, convenhamos, é que o formado em Turismo não tem algumas competências básicas para atuar na gestão (por exemplo, nas questões financeiras). Há responsabilidade por parte das universidades? Sim, e como. Muita. (E isso merece muita discussão, prometo retomar oportunamente.) Mas é justamente por isso que a formação na área perde a atratividade. Se o jovem já sabe de antemão que a formação em Turismo vai oferecê-lo (dados de 2017) uma média salarial de dois mil reais depois de cinco anos de formado, é melhor ir de cara para o telemarketing que paga mil e quinhentos com nenhuma experiência.

  1. O baixo salário generalizado

Vai ser difícil desmentir essa. Exceção aos donos e diretores, o setor paga mal. Pode não ser o pior de todos, porque na ponderação de vantagens, os descontos, vantagens de viagens e hospedagens, o bem estar emocional que muitas das atividades oferecem, fazem com que ainda seja interessante estar na área. E passada uma certa idade, vem a acomodação e aí muita gente que poderia ganhar bem mais se acomoda por achar que não tem chance na migração de áreas. E não havendo estímulo à qualificação constante dos funcionários com mais tempo de casa, em momentos de crise, há demissões em massa para contratação de quem aceitar o rebaixado novo salário. Hoje temos excelentes profissionais desempregados, e boas empresas prestando serviços ruins para poder sobreviver a esse momento terrível pelo qual o país passa.

  1. Cabeças balançando para políticos ridículos

Usar a palavra ridículo pareceu pesado? Então pense que nas últimas semanas foi noticiado que o Ministro do Turismo privilegiou sua própria família em repasse de recursos, considerando que o orçamento geral do MTur foi cortado em quase 85%, portanto, um acinte para dizer o mínimo. E que o irmão do secretário de turismo de São Paulo foi identificado em uma gravação sobre cobrança de propina. Ok, ok, é o irmão, mas sabemos bem que os laços familiares na política são fortes.

Em praticamente nenhum outro setor, quando alguém assume a pasta, é necessário explicar tudo desde o começo. Mas no Turismo, é sempre tanta gente aventureira que até cansa. E se cerca de gente ruim, como conselheiro. E desanima os funcionários de carreira, que não veem a hora de migrar internamente. E fazem pouco ou quase nada para que o setor seja levado a sério no quesito recursos públicos e atenção política. A política de turismo no Brasil é, fundamentalmente, uma grande brincadeira. (Acham que eu exagero? Vão lá ler o Plano Nacional de Turismo e vejam que os pouco ambiciosos redatores acham que, em 2020, seremos a terceira maior economia de turismo do mundo. Talvez do mundo em que eles vivem, porque não deve ser nesse…)

  1. Os exemplos mal escolhidos

Eu sei que teve ministro e muito professor querendo comparar o Brasil à Espanha, ao México, à França. Agora parece que Portugal é o bom exemplo. Mas nenhum destes países tem realidades políticas, sociais e geográficas como o Brasil. Não dá para comparar um país do tamanho de Portugal, e com a proximidade de grandes centros emissores, com o Brasil. Não dá. Temos que melhorar nosso benchmarking, mas mais que isso, temos que melhorar (e muito) nosso discurso.

No fundo, o que eu acho é que nos contentamos com pouco, muito pouco. Qualquer frase melhor estruturada e dita em tom de autoridade vira verdade. Pesquisar e verificar as fontes, e testar os resultados, seria mais interessante, mas dá mais trabalho. Ir fazendo do jeito que dá, como sempre foi, sem que ninguém perceba, parece ser melhor. Não é. E a grande demonstração vai se manifestar na queda generalizada de gente boa disposta a trabalhar na área. Teremos que nos contentar com aquele monte de gente que, por não saber direito o que fazer da vida, decidiu estudar e trabalhar com turismo – porque parecia mais legal e não tinha matemática.

Guilherme Paulus responde

Confissão: eu sabia que ele iria me responder, por uma razão muito simples – por mais espinhoso que seja o assunto, é algo que precisa ser discutido. E como uma pessoa sensata, inteligente e competente, não apenas responde mas me instiga a pensar um pouco mais. Ou melhor, convida a todos para pensarmos juntos.

Obrigada, Guilherme, por seu tempo. E pelas palavras. Farei comentários no próximo post.

Olá, Mariana.

Obrigado pela carta e pelas palavras dirigidas a mim. Fico muito feliz em receber esse tipo de feedback, especialmente como um líder desse setor que tanto me orgulha nesses mais de 40 anos de estrada.

Concordo com o texto em muitas partes, mas reitero meu pensamento na referida matéria sobre os números do setor. As escolas profissionalizantes, assim como grandes universidades públicas e particulares precisam de incentivo, de políticas voltadas para o Turismo.
A exemplo de Portugal, que tornou o Turismo uma de suas grandes fontes de renda e transformou o cenário econômico do país.
O Ministério do Turismo, aqui no Brasil, é um grande parceiro, mas por conta da troca de governos, os ministros não conseguem, muitas vezes, dar continuidade aos projetos nessa área.

Sobre a CVC, hoje a operadora é considerada uma das líderes mundiais em seu segmento. Alcançou patamares que nenhuma empresa genuinamente brasileira talvez tenha alcançado. E dentro
desse mérito, há milhares de empregos gerados direta e indiretamente. Em todos os níveis de cargos e salários e com relações comerciais bastante saudáveis para ambos os lados.

O Turismo paga pouco? Para algumas funções pode ser que sim, como em outros setores. Há o advogado sênior, há o pleno, há o analista, há o assistente. Há o engenheiro, o arquiteto, o mestre de obras, o pedreiro. No Turismo é exatamente igual. Há diretores, gerentes comerciais, líderes de turismo que são muito bem remunerados (mais até do que em grandes conglomerados econômicos). Existem muitos profissionais que precisam, inclusive, estudar fora do país, acumular experiência e bagagem para, depois, voltar ao Brasil com melhores remunerações.

Há salários e salários para cada atribuição. Para se ter ideia, temos hotéis com vagas abertas em diversos cargos e que não conseguimos preencher por falta de profissionais com qualificação na área. A culpa é do empresário? Não. Há interessados? Sempre. Nós ouvimos isso dos próprios jovens.

O Turismo não paga mal. Basta perguntar aos funcionários que tem vontade de vencer na suas respectivas funções. Quando eu falo que trabalhar com turismo é 95% de transpiração e 5% de inspiração, pode crer que é a mesma equação para muitas outras áreas. A paixão pelo que se faz pode levar o ser humano ao triunfo. Eu acredito no Brasil, no Turismo e na garra do brasileiro.

Que comecem as mudanças e que tenham início com mais investimento do governo em políticas educacionais de qualidade. A educação é a base de tudo. Como representante do nosso setor em diversos órgãos e associações, luto diariamente pela democratização do Turismo, pelos direitos, pela aprovação de bons projetos de lei e por um turismo acessível, sustentável e rentável a
todos que dependem dele como profissão. 

Um grande abraço,
Guilherme Paulus

Outro abraço carinhoso, Guilherme! Nossa conversa continuará!

Uma carta (de amor) a Guilherme Paulus

Prezado Guilherme

Oi!

Já fomos apresentados, há muito tempo, e em diferentes circunstâncias – pelo Raffaini, na época de Caesar Park, pela Lúcia Mello, como Blue Tree, pela Heloísa Prass, e por vários e diferentes amigos que temos em comum. Não creio que você se lembre particularmente de mim. Mas acho que ninguém que trabalhe em turismo no Brasil poderia se esquecer de você.

Eu estava fora do país, de férias, e guardei vários e-mails para ler depois, com calma. Em um deles, a newsletter diária da Panrotas, do dia 07 de julho passado, aparecia sua foto e a manchete “Precisamos ver os números do setor”. O link da nota está aqui.

No texto, atribui-se a você a fala “os cursos nas faculdades de Turismo praticamente acabaram. Temos muitas poucas escolas de hotelaria. Como faz para aprender? Cabe a nós reivindicar isso”. Eu fiquei vários dias pensando nisso. Vários dias. E por isso resolvi escrever esta carta, aberta, na expectativa que você possa me responder.

Eu acho que fiquei feliz demais ao ler o NÓS vinculado ao REIVINDICAR. Mesmo. Será que finalmente um dos principais líderes do turismo brasileiro, se não o principal, vai assumir essa posição?

Depois fiquei pensando – não é bem assim. Vou me explicar, e se você não me entender, me avisa, que no ofício de professora, eu tento de outra forma.

Para mim, Guilherme, as suas ideias e os seus comandos definem o Turismo brasileiro. Mesmo, de verdade e sem ser puxa saco. Muito ao contrário, até. O que a CVC determinar, costuma acontecer. E isso tem aspectos ótimos.

Sabe quantas pessoas aprenderam a viajar com a CVC? Inúmeras. Mas em milhões. E quantas pessoas jamais teriam viajado se não fossem as condições da CVC? Outra quantidade imensa.

Coleciono relatos, inclusive os meus, de possibilidades que alcancei graças aos preços baixos e condições imperdíveis. Mas você, como eu e vários colegas, sabemos a que isso se deve. O quase que absoluto poder de negociação da sua empresa. Se em algum momento os diretores da CVC desistirem de vender um destino brasileiro, pode contar os dias, e o destino quebra. Literalmente.

Ao negociar pensando no cliente CVC, os hotéis brasileiros fazem preços que hoje não pagam sua manutenção. E, portanto, se esforçam para manter a qualidade dos serviços e produtos oferecidos. As margens vão se reduzindo, e, lá na ponta, os salários ficam baixos. Como muita gente precisa trabalhar, aceita o que for oferecido – antes ter salário do que não ter, você já deve ter ouvido isso.

E não é só hotel né? Tem os traslados, os passeios, os guias – há uma cadeia complexa de prestadores de serviço que são ativados no momento em que um pacote da CVC é estruturado. E tem seus preços pressionados. E aí, naturalmente, os guias vão pedir gorjetas no final, e levar para restaurantes e lojas em que recebem comissão. E a maioria das pessoas vê, mas prefere fingir que não.

A essa altura você já desistiu da minha carta, né, Guilherme? Mas estou acabando. O que eu quero dizer é que qualquer jovem, hoje em dia, tem acesso a muita informação, e sabe que viajar não é mais tão complicado como era na nossa época. E se não é complicado, quanto melhor o salário dele, mais ele vai viajar. Estudar fora, passar um ano fazendo mochilão, essas coisas que meus alunos amam. Mas trabalhar com turismo, sem final de semana, e ganhando pouco? Qual a razão?

É por isso que os cursos fecharam. Por que os alunos não se interessam por uma área tão mal remunerada, tão cheia de promessas e potencial, mas com pouca realização. Se os salários dos funcionários do turismo são baixos, nem te conto os dos professores. Tem colegas meus, com mestrado e doutorado, que ganham menos de R$ 40,00 por hora. Tem gente, que, com esforço, está ganhando R$ 150,00 por dia. Para manter uma família. É muito desanimador.

E para minha maior tristeza, um dia ouvi um moço que trabalha com (ou para) você, dizendo que não se importa com a formação da pessoa não. O que importa é se ela tiver “sangue nos olhos para vender os pacotes”. Ou seja, vocês não combinaram bem os discursos. Mas como eu disse, eu prefiro o seu.

Eu sei, de verdade, que você acredita em trabalho, acredita no turismo e acredita no Brasil. Aqui, a gente combina bem. Eu acredito em tudo isso.

Se você puder, Guilherme, chame seus amigos e comece a pensar que a grande mudança do Turismo brasileiro está nas suas mãos. Os passos para melhorar as condições de trabalho, tornar as funções mais atraentes, incluir práticas responsáveis e convidar mais gente para se inspirar pelo brilho dos seus olhos dependem, primeiro, de você.

Eu sou uma apaixonada, como você bem percebeu. Sou brava, mas apaixonada. E eu acredito que você vai receber essa carta de espírito aberto e considerar começar uma mudança.

 

Com todo meu carinho,

 

 

Mariana

 

Interesse Turístico?

No dia 29/05 o Jornal Panrotas divulgou notícia sobre os Municípios de Interesse Turístico em tom otimista, vinculando a outorga do título à promoção, quando na verdade uma pequena parte dessa verba poderá ter esse fim. O principal uso dos recursos públicos estaduais vinculados ao desenvolvimento do turismo estadual são vinculados a obras.

Por mais que pareça sério e interessante, a proposta da gestão estadual do turismo não se sustenta e não consegue se justificar, a não ser pelas fortes alianças políticas e pela dependência histórica de alguns municípios, que se tiverem as verbas do “turismo” canceladas, simplesmente quebram.

Do lado do Governo do Estado, a concessão de verbas se dá muito mais na alínea de obras, e muitas vezes registrou-se pavimentação, iluminação pública e a inacreditável e risível construção de pórticos e portais como investimentos voltados à atração de turistas. O controle do uso e aplicação de recursos é muito similar ao de qualquer área que atue na construção civil – métricas específicas e prazos controlados.

De turismo mesmo, quase nada. O Estado convida para participação em feiras, mas os municípios raras vezes apresentam produtos – seguem levando seus folders envernizados e roteiros de pouco apelo comercial.

Do lado dos municípios, a forte articulação dos deputados estaduais e seus assessores para garantir o título, contratação de empresas que atestam o potencial turístico com argumentos muito frágeis e fotos, muitas fotos.

Dados de verdade, não existem – não se comprovou até hoje como o uso dos recursos ampliou a geração de empregos em turismo, aumentou a arrecadação de impostos e de fato, atraiu o interesse do público. É um chute absurdo atrás do outro, sem fundamentação séria e muito menos evidências que possam ser utilizadas para modelar um programa de desenvolvimento estadual do turismo.

Mas, humildes que somos, comemoramos R$ 550 mil reais por município, ou, no dialeto corrente, uma mochila de dinheiro. Turismo nunca vai ser importante para São Paulo.

Quem responde pela irresponsabilidade?

Grande parte do meu trabalho depende, hoje, da internet. O meu e o de milhões de outras pessoas. Em média, fico 10 horas por dia em frente ao computador lendo artigos, relatórios, pesquisas, entrevistas, notícias e posts que tratam, direta e indiretamente, do setor de turismo. A parte mais rica, hoje em dia, são os grupos de discussão com curadoria especializada – isto é, grupos em que alguém filtra as notícias segundo um dado critério previamente apresentado, e os participantes contribuem debatendo ou trazendo notícias e/ou dados complementares. Eu mesma já organizei um para compartilhar dados com os meus alunos e colegas de área com interesses similares.

Nessa atuação constante de leitura e filtro, há muita repetição, muita notícia requentada, muitas análises superficiais e – obviamente – muitos dados distorcidos, que transformam mentiras em verdades convenientes.

Com o tempo, todos vamos aprendendo a separar o real do imaginário, o demagógico do possível, e muito do que é falso se perde. Porém, quando se lida com jovens estudantes, cujo intervalo de atenção e concentração é menor e que se fixam em manchetes ou frases repetidas por professores, acredito ser necessário destacar que não podemos ser irresponsáveis.

Imagine se nossa área envolvesse risco à saúde ou segurança pública. Esse é o paralelo que me norteia, muitas vezes. Eu gostaria que um dentista em formação fosse muito bem treinado em aplicar anestesias e fazer obturações, da mesma forma que espero que um médico seja um grande conhecedor de sintomas, e que um engenheiro saiba, por exemplo, projetar uma ciclovia sobre o mar que não desabe na primeira ressaca.

Da mesma forma, eu gostaria que os alunos que estudam turismo fossem orientados a entender a atividade dentro de um contexto mais amplo, e não apenas sob os interesses de um pequeno grupo. Que investimentos estrangeiros, por exemplo, implicam na geração de empregos, arrecadação de impostos, estímulo à competitividade e, como em qualquer área, remuneração de capital (sim, parte do lucro volta para o país de origem, e é assim que funciona em qualquer área). É muito triste saber de professores que são “veemente contra a presença das redes internacionais no país”.

Há também professores ignorando a formação cultural e a pressão da mídia, e dizendo que “nenhum brasileiro poderia fazer uma viagem internacional sem antes conhecer o seu país”. Sim, desse jeito mesmo. E às vezes pior.

Advogam pelo fim da exigência bilateral de vistos sem levar em conta os cenários internacionais, falam de atração de visitantes de mercados distantes e sem aderência ao produto brasileiro, tratam de questões antigas e se esquecem de sair do “quadradinho” para ver que nem tudo o que afeta o turismo é decidido pelos profissionais da área.

Em maior ou menor grau, a transmissão de informações equivocadas, sem a posterior correção, é uma grande irresponsabilidade. E todos devemos ser cuidadosos ao aceitar e replicar tais “inabaláveis verdades absolutas”.

Lá fora é melhor? (reloaded)

Nesta semana, eu tive a chance de conhecer representantes de uma universidade européia que oferece um curso chamado International Tourism & Leisure. É possível concluir o curso em 3 anos. Sem conhecer os professores e o conteúdo, é muito rápido avaliar algo como bom ou ruim. Mas minha atenção ficou presa nos nomes das disciplinas, e compartilho com vocês, com a seguinte provocação – se o seu curso tivesse estas disciplinas e professores que dominassem estes assuntos, você estaria melhor preparado para atuar no setor?

Fundamentos de Negócios

Fundamentos de Inteligência de Negócios (Business Intelligence)

Ferramentas digitais

Gestão empreendedora

Culturas mundiais

Princípios de Marketing

Inglês para Turismo

Idioma eletivo (Francês, Alemão, Espanhol, Chinês)

Fundamentos do Turismo

Cultura e Arte

Turismo Internacional

Mercados emergentes – América Latina

Tópicos de Negócios Asiáticos

Fundamentos da Análise de Negócios

Gestão de marca pessoal (personal branding)

Comércio internacional

Relações internacionais com os EUA, Reino Unido e Commomwealth

Tecnologia e Viagens

Aviação

Mercados emergentes: Rússia e Europa Oriental

Gestão de Relações com o Consumidor (CRM)

Mídias Sociais

Projeto Internacional

Resolução Ética de Problemas

Comunicações Interculturais

Intercâmbio (prática, o aluno viaja para outro país)

Capital Intelectual

Cálculo de Preço e Orçamento

Gestão de Viagens

Vendas e CRM para Turismo e Lazer

Ferramentas para Design de Serviços

“A Empresa Conectada”

Portfolio

Empreendedorismo em Turismo

Estágio internacional (1 semestre, obrigatório, não remunerado)

 

 

 

Preste atenção ao Fórum Panrotas

 

Este blog foi lançado no Fórum Panrotas de 2016, e desde então, constituiu-se em um espaço muito interessante de trocas. As estatísticas indicam mais de 25 mil visualizações das postagens e mais de dois mil comentários (nem todos simpáticos, verdade seja dita, mas a maioria muito legal e estimulante).

Nos dias 13 e 14 de março, a décima quinta edição do Fórum acontece no Grand Hyatt. Mais uma vez, será um evento tratando dos temas mais “quentes” e  gerando muito debate na platéia. O que me chama a atenção, desde a primeira edição, é que quase não se vêem professores participando. Algumas vezes, solicitei aos diretores da Panrotas que oferecessem convites a colegas, em troca de avaliações ou comentários, ou mesmo proposta de projetos. Para decepção de todos, alguns não enviaram as avaliações, outros participaram só de uma ou duas palestras, e outros ainda nem foram, desprezando o convite e impedindo que alguém mais interessado participasse. (Justiça seja feita – sei de professores que participam do Fórum assiduamente, desde sua primeira edição – e que se atualizam e atualizam seus alunos por conta disso, mas não passam de cinco num universo de 1500 inscritos).

Neste ano, alguns alunos interessados estarão na platéia. Vai ser bem interessante, tenho certeza.

Em menos de dois dias vão aprender sobre os temas que realmente movem o turismo brasileiro, e vão perceber que pouco sabem da vida real; mais que isso, vão aprender sobre organização de eventos, área de eventos em hotéis, gastronomia para eventos, logística de entrada e saída em sala, brindes, promoção de destinos, enfim – um mini curso de turismo condensado em dois dias.

Aceitaremos quaisquer desculpas – é caro, é longe, são dois dias, bla bla bla, mimimi.

Mas… É a sua área.

E os eventos contam com a fala de pessoas cujas idéias levam o turismo brasileiro para frente (e para trás também, infelizmente) e que determinam muito do que a gente vê acontecendo. De uma forma ou de outra, professores de todas as disciplinas teriam que estar mais envolvidos, ouvindo, discutindo, perguntando, e levando de volta para a sala de aula.

E se você é aluno, verifique. Veja em quantos e quais eventos não científicos seus professores participam – Fórum Panrotas, WTM Latin America, ABAV, Panrotas Next, Festival Path, Seminários técnicos da CNC e Fecomércio, entre dezenas de outros. É um indicador interessante de envolvimento com os profissionais da área e com o mundo do trabalho.

 

Você trabalha com o Carnaval?

Das muitas particularidades da área de Turismo, uma delas é, no mínimo, fascinante: a miríade de possibilidades de trabalho. Em diferentes documentos que indicam o que pode fazer um profissional formado em Turismo, a lista passa de 30 subáreas diferentes, se for possível considerar (pelo menos neste ambiente) que eventos e hotelaria são uma subárea e não uma área propriamente dita.

Sete em cada dez alunos, em início de curso, manifestam interesse pela atuação na área de eventos; a maioria dos alunos considera como eventos, antes de ter contato com os professores e os textos da área, os casamentos, os shows e os grandes eventos que aconteceram no país. Há uma aura mágica sobre o setor que atrai os jovens, e certamente é uma das áreas que mais mantém profissionais de turismo empregados, pelo menos enquanto ainda são jovens e muito dispostos.

Porém, poucos são os que  listam o Carnaval como uma área de atuação profissional. Talvez por considerá-lo apenas um feriado ou uma grande festa, e não um mercado efetivo, efervescente e cheio de potencial, a saber:

– profissionalizar os serviços de uma escola de samba para além do período do carnaval em si, isto é, montar loja online, criar identidade e souvenires, organizar e vender os pocket-shows, atuar em formaturas, administrar os projetos sociais;

– profissionalizar a gestão dos blocos, pensando em rotas, segurança, captação de recursos e patrocínio, identidade, venda e licenciamento de marcas;

– atuar com consultoria para hotéis, resorts e cidades menores na organização de carnaval fora de época e festas temáticas sobre o Carnaval;

– colaborar na estruturação de produtos envolvendo o Carnaval brasileiro, ao longo de todo ano, para turistas estrangeiros;

– mapear as fugas do Carnaval, para atender aos turistas que odeiam a ideia da música e folia do período;

– aprofundar as pesquisas históricas e culturais para auxiliar blocos, grupos e escolas de samba na definição de temas e enredos;

– especializar-se na gestão de público, para atuar em parceria com o setor público na distribuição de serviços como banheiros químicos, segurança, limpeza e fornecimento de alimentos e bebidas.

Por agora, vista a fantasia (ou não) e aproveite o feriado, com responsabilidade.

Depois da quarta-feira de cinzas, considere se a alegria do seu carnaval não pode virar sua fonte de renda.

Vale investir?

O ano acadêmico começando, as notícias indicando que talvez a economia melhore, portanto as oportunidades podem voltar a aparecer, especialmente para os mais jovens, e diversos alunos mandam mensagens perguntando o que fazer para complementar sua formação, para que possam ser (ou parecer) mais competitivos em processos de seleção.

Do outro lado, empresários que fizeram milagres para se manter operando, cortando custos, por vezes demitindo funcionários competentes, reduzindo investimentos, enfim, fazendo o necessário para que a crise não destruísse seu negócio. Retomam, muito timidamente, a confiança e já dão mostras de que as coisas vão melhorar.

Vão buscar mais profissionais? Certamente.

O currículo e os cursos desses profissionais vai ter que impressionar? Sim.

Vão pagar mais por formações adicionais ou cursos extras? Tenho certeza que não. E isso não é por não entenderem que o profissional melhor qualificado vale mais. É só porque não há condições, dentro do orçamento da empresa, de aumentar os salários (e os encargos) e também por haver uma grande quantidade de candidatos aceitando salários mais baixos. Antes ter salário do que não ter.

E aí volto à questão dos alunos – o que fazer para “aparecer”? No que investir?

Em duas reuniões que participei com empresários, que reclamavam do fato de terem oferecido cursos para seus funcionários, mas que quase ninguém concluiu, questionei se os cursos aconteciam na hora do trabalho ou fora do horário (e era sempre fora), e se a oferta era uma resposta a um pedido dos funcionários ou uma demanda da empresa apenas. A segunda opção foi a resposta mais comum.

No geral, as pessoas escolhem cursos que, de alguma forma, garantam uma melhoria imediata (ou pelo menos a percepção de melhoria imediata). É por isso que tantos cursos de “aprenda este idioma em um mês” vendem. São fraudes, sabemos, mas vendem. Porque vendem também uma ilusão.

Cursos que vendem prática também seduzem, mas a prática mesmo vem da experiência. O quarto de hotel simulado na escola jamais será o quarto do hotel com hóspede reclamando na recepção, com problemas de ocupação, com restrição de material de limpeza.

Então, o que fazer?

No atual cenário – busque desenvolver competências que sejam úteis em empresas diferentes. Pondere inclusive se não vale a pena investir em cursos fora do país – a depender do valor do investimento, você terá idioma, competências e a experiência internacional em um único produto/investimento.

Não se esqueça também da infinidade de cursos grátis e online, em plataformas como a Coursera. E se estiver um pouco cansado de ouvir falar sempre as mesmas coisas do turismo, pense em um bom curso de gerenciamento de projetos. Vai te ajudar, inclusive, a planejar melhor sua carreira.

Menos alunos a cada ano

Os cursos superiores de Turismo e suas áreas correlatas tiveram sua maior expansão – territorial e em números – na década de 1990. Já no início dos anos 2000, percebeu-se a retração na oferta de cursos de Turismo, compensada pela ampliação dos cursos considerados específicos – especialmente gastronomia e eventos.

Os pesquisadores que buscavam compreender a expansão dos cursos de Turismo, em sua maioria, concluíram que isso aconteceu como resultado da combinação de dois fatores: o estímulo à expansão do ensino superior, uma política do governo FHC, e os baixos custos de implantação do curso – salas de aula, lousas, giz e algum marketing para atrair alunos. Dados do Ministério da Educação registram aumento de 900% no número de vagas entre 1991 e 2001.

A perspectiva de sediar Copa do Mundo e Jogos Olímpicos criou a ilusão de que mais jovens se interessariam pelas carreiras, e, considerando os números da iniciativa privada, diversas universidades públicas instituíram seus cursos, que rapidamente se estabeleceram como referências nas regiões em que estão. Somente na USP, por exemplo, as vagas oferecidas passaram, em 2005, de 30 para 150 (início da oferta da graduação em Lazer e Turismo na EACH, complementando as 30 vagas oferecidas no curso de Turismo da ECA). No estado de São Paulo há ainda as vagas nos curso de Turismo da UNESP, UFSCar e IFSP.

Nas instituições públicas, dificilmente as vagas ficam sem preenchimento. O que vem acontecendo é a queda nas notas mínimas de aprovação – quanto menos alunos interessados, menor a disputa por vaga, e portanto menor competição, o que acaba invariavelmente diminuindo as notas de corte.

Nas universidades privadas, o fator preço da mensalidade e a necessidade de formar turmas com número viável para justificar os custos revelam não apenas a redução de turmas mas, infelizmente, o encerramento (ainda que temporário) da oferta do curso no portfólio da instituição. Diversos colegas professores com severas reduções salariais, ou mesmo desempregados, tendo que buscar outras alternativas para atuação profissional.

A questão – a cada ano, mais pessoas querem e vão viajar, mas menos pessoas se interessam pelas carreiras do turismo. Profissionais do setor não gostariam de ver seus filhos investindo em formação nessa área. O mapeamento dos salários de entrada no setor mostra que são, em sua maioria, desoladores. Ainda assim, há boas oportunidades e carreiras interessantes que não estão sendo ocupadas pelos formados em turismo.

Os gestores de RH já não fazem questão de contratar talentos pela formação, mas sim pela atitude que demonstram, independentemente do curso que escolheram. Devem ser bi ou trilíngues. E se demonstrarem competências de gestão estratégica e financeira, além de domínio das diferentes tecnologias, mais chances.

Portanto, o desafio é modificar e atualizar a formação, para que ela seja válida e necessária às empresas e organizações. Com isso, fica a questão para muitos mais posts nesse espaço – quais serão as mudanças nos cursos de Turismo para que não desapareçam nos próximos anos?