Onde está a nossa Oprah?

Pode ser que , ainda em clima de férias ou recesso de final de ano, você tenha retomado seus e-mails e compromissos somente na segunda-feira dia 09 e não tenha tido chance de saber o que aconteceu na premiação do Globo de Ouro. Mas eu acredito que você, eu e quase todos os que dedicam seu tempo lendo este texto não só leram sobre o tema, mas já viram trechos do discurso de Oprah Winfrey no dia 08, ao receber o prêmio Cecil B. DeMille em homenagem à sua carreira.

Forte, contundente, emocionante e verdadeiro são alguns dos adjetivos que cabem ao discurso. Se você não viu, clique e leia na íntegra. Se você viu, sabe que isso é só mais uma das peças iniciais de um movimento que eu considero sem volta. Time’s Up. Livremente traduzido como “chega!”, a campanha reforça a necessidade imediata de rever o papel atribuído às mulheres em todos os setores da sociedade.

Naturalmente, sendo mulher e dedicando grande parte do meu tempo a entender a questão de gênero e diversidade, necessariamente reflito sobre o setor em que atuo. O turismo de maneira geral não deveria ser um setor machista, mas é. Reflexo natural da sociedade em que vivemos. A universidade, então, que deveria, por origem, ser um espaço para a exaltação da diversidade, é mais machista e preconceituosa do que muitos imaginam.

Mas, Time’s Up! Temos que encontrar a nossa Oprah, representando as mulheres, negras, vítimas de violência (física, mas principalmente verbal e moral) para levantar a bandeira das causas que vem sendo seguidamente negligenciadas. E, para começar, precisamos cobrar a presença de mais mulheres nas associações, nos conselhos, nas comissões organizadoras, na lista de palestrantes, na lista de convidados, na lista de homenageados.  Em qualquer dos papéis, sempre há mulheres capazes de representar muito bem ideias e segmentos.

Uma dica – não se deixe empoeirar com as ideias do século passado. Já é 2018, e só com mulheres e homens fenomenais, para seguir as palavras de Oprah, é que teremos melhores exemplos e mais inspiração para seguirmos mudando esse mundo.

Lista de desejos para qualquer dia do ano

Final de ano, e de repente parece que tudo fica mais leve, mais fácil de encarar, mais positivo. A energia das duas últimas semanas do ano me chama a atenção – estamos quase todos muito cansados, mas encontramos disposição para diferentes comemorações, e somos tomados de um certo espírito de boa vontade. Tem quem acredite na magia do Natal, e outros que preferem depositar a esperança no Ano Novo. Para mim, de verdade, tanto faz. Sou da turma que acredita na fé, independentemente de como ela se manifesta.

Então, com um misto de bom humor e ironia, divido com você uma lista de desejos para mentalizar em alguma noite especial. Mas pode ser durante o dia também.

  1. Mais viagens

Que mais gente faça planos de viajar, e viaje mais vezes no ano, para um monte de lugares diferentes. Mas que sejam viagens de verdade, de carro, ônibus ou avião, e não as viagens na maionese em que muita gente embarcou nesse ano. Em especial, não se deixe levar em viagens equivocadas na hora de votar. Esse ano vai ser difícil não querer viajar para outro planeta, mas pelo menos no assunto eleições – lembre-se que somos muitos, e diferentes.

 

  1. Mais diversidade

De tudo – de comida, de paixões, de drinks, mas principalmente de ideias e de pessoas. 2018 vai ficar marcado como o ano em que, pelo menos no turismo, demos mais espaço para mulheres, para negros, gays, lésbicas, transgêneros, e quem mais for diferente do padrão branco – homem – hetero. Se você percebeu que é repetição, e não é refrão de música, passa para outra.

 

  1. Mais coragem

Abrir mão de planos, mudar o rumo da vida, descobrir novos destinos, ir para onde você nunca imaginou – encare! E tenha coragem também de denunciar abusos – especialmente assédio moral e sexual. Fale, denuncie, encare. E se precisar de ajuda, lembre-se que sempre há alguém que pode te orientar (inclusive aqui, neste canal!). Não se deixe diminuir por ninguém, nunca.

 

  1. Menos malas

Além de a passagem aérea ficar mais barata com menos bagagem, você passa a viajar mais leve. E se você deixar de conviver com gente mala, então, nem te conto a alegria. Abrir mão de malas, no começo, parece estranho. Você fica achando que tem algo faltando, mas quando toma consciência, na verdade está é sobrando espaço para ser feliz. #menosmalasem2018

 

Fazer diferente é mais difícil do que parece. Mas a gente tenta, e muitas vezes, consegue.

 

Muito obrigada por sua companhia, seus comentários e críticas. É na troca que aprendemos mais. Que bons momentos se sucedam, todos os dias!

Lições de um bom evento internacional

 

Entre 06 e 08/11/2017 tive a felicidade de participar, mais uma vez, da WTM Londres, o evento que está posicionado entre os três melhores do mundo quando se trata de turismo. Como não foi a primeira vez, o deslumbramento com a dimensão da feira e o volume de visitantes ocupa menos espaço mental e é possível fazer mais análises e comparações, as quais divido com você que está lendo esse texto.

Em primeiro lugar, ranking – importa de fato saber se é o primeiro, segundo ou terceiro mais importante evento do mundo? E quais são os aspectos que devem ser levados em consideração para dizer se é ou não o melhor? Bom, para mim, o elemento crucial que determina a importância de um evento é o quanto ele de fato tem de representatividade e qual o envolvimento dos diferentes interessados no evento. Com isso, até onde me consta, WTM Londres, FITUR Madrid e ITB Berlim cumprem essa função de forma profissional. E um único motivo explica isso – nos três eventos estão presentes as grandes organizações do turismo, como UNWTO (OMT), WTTC, PATA, IATA e similares, estão líderes de governos em todos os níveis, pesquisadores de alta produtividade e, efetivamente, os empresários do setor – pequenos, médios e grandes.

Particularmente, nesta WTM Londres, o evento mais concorrido e que gerou mais notas de imprensa foi o Ministers Summit, realizado na manhã do dia 07. Ministros de Turismo de vários países estavam presentes no círculo central ou na área restrita, a convite do Secretário Geral da UNWTO, e também representantes do parlamento britânico e do parlamento europeu, CEOs de companhias de cruzeiros, hotéis, aviação e AirBnB. O tema – overtourism – e a necessidade de ações efetivas para reverter quadros como os que se vê em Barcelona, Amsterdam e Veneza, e também medidas que possam evitar situações similares em outro destino. (Não, o Brasil não estava representado no painel, caso você ainda tenha dúvidas).

A programação de conferências foi extensa e cobriu praticamente todos os temas atuais, com grande concentração em mídias e influência digital, coleta, análise, interpretação e uso de dados para geração de inteligência de mercado, boas práticas de turismo responsável e responsabilidade social corporativa, e muito mais. No último dia, eventos especiais para estudantes de turismo, como estratégia de integração de talentos e apresentação das muitas oportunidades de carreira que o setor oferece – pelo menos 400 universitários disputaram um lugar na conferência ITT Future You, algo que eu, infelizmente, ainda não vi acontecer no Brasil.

Finalmente, a qualidade técnica dos estandes e da apresentação profissional de destinos, produtos e tecnologia. Mesmo sendo um excelente momento para reencontrar colegas e parceiros, a feira é o momento em que PRODUTOS são apresentados com o grande objetivo de realizar NEGÓCIOS. Os horários de reunião são respeitados, as pessoas entendem a necessidade de discutir preços, contratos, garantias, oportunidades e diferenciais. Não é uma festa. A festa vem depois, após o expediente.

E finalmente, a cidade acolhe o evento – o sistema público de transporte se prepara para o aumento no número de visitantes, há sinalização especializada, há deslocamento de efetivo (segurança, informação, promoção) para os locais de conexão e de entrada no evento. Há sinalização impressa, sonora e com a ajuda de pessoas. Londres funciona. Provavelmente por reconhecer a importância do evento, independentemente de sua temática. O espaço de eventos funciona. O conceito do evento funciona.

É um grande aprendizado. Especialmente por saber que em eventos assim as pessoas estão juntas com um mesmo foco.

 

Aqui no Brasil, entretanto, ainda estamos nos debatendo para não afundar. Pesquisadores distantes e alienados, fechados em círculos e falando para si mesmos; políticos desinteressados e sem nenhum compromisso com a causa, ou melhor, comprometidos apenas com a próxima eleição; e empresários brigando com os efeitos incontroláveis da inovação. Uma pena.

Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

Há quanto tempo você tem lido que precisa aprender a usar o tal do BIG DATA? De quantos eventos você participou com a intenção de entender, aprender ou ampliar sua compreensão sobre o tema? E o que de fato você já conseguiu fazer com tanta informação?

Há pouco mais de dois anos, em Madri, assisti ao Rafat Ali (CEO da Skift) explicar detalhadamente como abrir mão de ações de mídia massificadas para usar o marketing direcionado a partir do big data de empresas como Google e Facebook. Ensinou passo a passo como fazer, e ao final sorriu e disse – por mais que eu explique, ainda é cedo para que vocês entendam o quanto isso é importante e vai mudar a forma de vender qualquer coisa no mundo.

Pouco antes de escrever este texto, leio a notícia que o AirBnB adicionou R$ 2,5 bilhões ao PIB brasileiro em 2016, o ano em que a crise econômica se acentuou, apesar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo final de semana, a FGV indica aumento de 35,9% nas passagens aéreas, entre junho e setembro, após o início da cobrança de bagagens despachadas. As pesquisas da FGV consideram as passagens efetivamente vendidas, nas rotas mais procuradas. Dois relatórios confiáveis, cujos dados são abertos e a metodologia é clara e divulgada.

Por outro lado, os dados oficiais indicam aumento menor no preço das passagens, já que consideram a média de todos os trechos. Nas redes sociais, a maioria das pessoas que compartilhou essa notícia usou de ironia para indicar que, mais uma vez, o consumidor é levado ao engano por manipulação de dados. Outra informação que me deixa curiosa é o volume de visitantes da feira da Abav. Três responsáveis por stands com quem conversei (stands que entregavam algo que poderia ser considerado “brinde”) indicaram que menos de 50% das pessoas que os abordaram eram, de fato, agente de viagens. Mas, naturalmente, os relatórios oficiais vão indicar que foram mais de 20 mil visitantes e essa informação será utilizada nos argumentos de venda para o próximo ano.

A questão aqui é como os dados, “big ou little”, são tratados.

Listar perguntas em forma de questionário não é fazer pesquisa. Menos ainda copiar um formulário online, tirando o logotipo do concorrente. Avaliar um produto somente pela opinião de quem compra em uma dada região também não é correto. Pesquisa é uma atividade importante e que deve ser acompanhada por quem sabe o que está fazendo, escolhendo a metodologia adequada aos objetivos do interessado.

Portanto, duas recomendações – não acredite nos dados que chegam a você sem o endosso de instituições confiáveis (lembre-se, estamos em tempos de pós-verdade) e, sempre que possível, procure as informações contraditórias para poder formar sua opinião. E mais ainda (eu sei, já disse isso, mas não custa repetir): não é porque sempre foi assim que precisa continuar sendo.

AIRBNB – Uma aula

Formada em Turismo, professora de hospedagem, ex-funcionária de uma rede conhecida por sua excelência em serviços, contumaz observadora dos detalhes que fazem da hotelaria esse campo apaixonante, eu confesso que sempre olhei o Airbnb como a ideia mais genial de todos os tempos.

E genial não apenas no sentido de ser algo que deixou seus criadores milionários. Isso é lindo e todo mundo inveja – eu inclusive. Mas o genial para mim é o quanto a criação e rápido crescimento do Airbnb indica que o turismo é algo desejável e buscado por muita gente, ao mesmo tempo em que faz circular um dinheiro que muda a vida de várias pessoas.

Diversos mapas de locais turísticos indicam que as ofertas de casas (listings) não estão especificamente nas áreas onde se concentram os hotéis de luxo. Há uma distribuição geográfica muito mais ampla. O preço, em geral mais barato que o dos hotéis, corresponde ao que você tem acesso – quanto mais luxuoso e com serviço, mais caro. Quanto mais simples, mais barato. E os negócios do entorno – mercadinhos, padarias, lojas, entre outros – se beneficiam desse novo fluxo de pessoas.

Eu estou agora em Nairobi, capital do Quênia. Vim a trabalho, emendei um pouco de lazer, o que chamam atualmente de BLEISURE. Para o trabalho, precisava estar do lado de uma escola que tem turismo como conteúdo obrigatório. Escolhi ficar bem perto, o que me deixou, portanto, bem longe das atrações turísticas.

A casa é, na verdade, uma casa compartilhada de fato. Mas é a cobertura de um prédio bem legal, só que sem elevador. Há 10 suítes em dois andares. Se meus cálculos não forem tão ruins, o espaço tem mais de 300m2. Subi carregando minhas malas, e cheguei sem folego. Abriram a porta e eu ganhei um abraço. UM ABRAÇO! Foi sensacional. (E não, não estou sugerindo que vocês saiam abraçando turistas, mas o que eu recebi veio em ótimo momento).

O americano que mora aqui pegou minha mala e mochila e levou para o quarto. A outra hóspede, que eu acho que é nigeriana (mas não tenho certeza), me levou água. Mostraram tudo. Foi fofo.

Quando saí do quarto depois de me acomodar, começamos a conversar sobre tudo. Já tenho dicas importantes sobre segurança, sobre onde não ir, sobre o que comer e onde estão as baladas animadas. Expliquei que meu dinheiro é contado, pois resolvi ficar o máximo de tempo possível na África, o que me impede de cometer grandes excessos, e aí recebi as dicas de onde comer bem e barato e que caminhos buscar numa cidade em que não existe transporte público e o trânsito é, de verdade, muito pior que SP.

Pode ser só uma experiência, mas tem se mostrado sensacional. E ainda não se passaram 24 horas. Já achei espaço para críticas? Certamente. É o tal do olhar para os detalhes que comentei no início. Mas não tem melhor forma de aprender do que essa – estando aqui e entendendo o que cada um que vem gosta e não gosta.  E garanto que terei muita coisa nova para compartilhar com meus alunos quando eu voltar.

x – x – x – x

Registro aqui o agradecimento à equipe AirBnB-Brasil pelo apoio neste trecho da minha viagem pela África.

Mais barulho que dados

Já tem um tempo que me incomoda demais a quantidade de “autoridades” falando das ameaças da economia compartilhada, especialmente o AirBnB, para os estabelecimentos tradicionais do turismo.

Pois bem, chega hoje a notícia de um relatório feito pela Expedia com viajantes europeus e o resumo é simples – 67% dos britânicos preferiram ficar em hotéis, e 66% dos alemães também. Apenas 6% de britânicos e 10% de alemães preferiram hospedagem alternativa.  Quem respondeu a pesquisa viaja no mínimo 3 vezes ao ano a negócios e pelo menos 9 dias por ano em férias, de modo que são considerado grandes consumidores de serviços hoteleiros.

Alemães e britânicos gastam cerca de 31% do orçamento da viagem em hospedagem, e franceses gastam 22%. A pesquisa ainda indica que, em função da proximidade dos países e destinos, a despesa com hospedagem é a maior entre os gastos dos turistas, e que hotéis tradicionais seguem sendo a opção entre quatro tipos de clientes, de diferentes faixas etárias e comportamentos de consumo.

O que eu quero dizer com isso? Simples – onde estão as pesquisas que demonstram efetivamente como se comporta o consumidor de hospedagem no Brasil? São confiáveis ou são feitas na base do achismo e da invenção, como sempre? Quando estes senhores resolverem arcar com custos de boas pesquisas, provavelmente vão ter dados surpreendentes e que podem, muito certamente, contradizer suas crenças.

E de repente vão descobrir que não é a oferta de acomodação alternativa, mas sim a falta de bom trabalho na captação de novos mercados e atração de clientes.

Os detalhes da pesquisa estão aqui

Ideias para copiar

Entre os dias 02 e 06 de maio aconteceu em Lucerna, na Suíça, o World Tourism Forum of Lucerne, que é composto por um fórum e quatro eventos paralelos. O que faz este evento ser considerado um dos mais importantes do mundo, alinhado com a Assembleia Geral da UNWTO e o WTTC Summit é o fato de que, entre os três, é o único que conseguiu integrar efetivamente a noção de que a discussão do futuro do turismo passa, necessariamente, pela integração com quem vai comandar a atividade neste mesmo futuro. O slogan do evento é “Onde os líderes globais do turismo e hospitalidade se encontram com a nova geração”.

A maioria dos participantes do evento é convidada, muito embora seja possível pagar para participar. A seleção dos convidados é feita em função de seu papel no país ou organização que representa e sua capacidade de transmitir as informações do fórum à comunidade de turismo.

A participação latino-americana ainda é muito pequena, o que pode ser um reflexo do compromisso regional com o turismo. As ilhas do Caribe e seus representantes são mais interessadas no tema e, portanto, enviam seus representantes, e pode-se entender que isso se dá pela importância econômica da atividade.

Sob o tema “mantenha-se relevante em tempos incertos”, o fórum abordou assuntos polêmicos e procurou debater “as questões que não queremos tratar”. Em breve, apresento uma síntese das discussões.

Foram dois eventos paralelos, no entanto, que se destacaram ao meu olhar de professora: o Career Planning Session e o Next Generation Day.

No primeiro, os membros do conselho consultivo indicam um tema amplo que é divulgado com dois anos de antecedência, e alunos de todas as universidades parceiras devem submeter um estudo, e os oito melhores são convidados a participar de uma sessão de planejamento de carreira conduzida pela Korn Ferry e parceiros. Os três melhores recebem também prêmios e reconhecimento público das autoridades presentes. Todos saem de lá praticamente empregados, dependendo apenas do tempo necessário para conclusão de seu curso.

Acima, os oito alunos selecionados para o WTFL 2017.

Já no Next Generation Day, quinze CEOs são convidados para indicar o funcionário que é considerado destaque – um jovem talento – e que vai ser um dos responsáveis por conduzir a empresa a este “futuro” que a cada dia é menos previsível. Estes jovens participam de uma competição submetendo ideias que devem ser possíveis de aplicação imediata em empresas do setor. O autor ou autora da melhor ideia é convidado a se juntar ao conselho do Fórum para ajudar a adequá-lo aos cenários futuros. Da mesma forma, todos os jovens talentos são apresentados às autoridades presentes e fortalecem sua rede de relacionamento. Detalhe – filhos e herdeiros não podem ser indicados.

Os quinze jovens talentos representando governo e empresas privadas.

Eu desconheço abordagens similares aqui no Brasil. Mais que isso, eu não me lembro de ter visto um evento enxergar os estudantes e os jovens talentos da mesma forma e dar eles tratamento equivalente aos outros convidados – por vezes, sequer são autorizados a participar de eventos, seja pelo valor impeditivo das inscrições, seja pela forma como são (mal) recebidos.

Por outro lado, sempre é tempo de compartilhar ideias e esperar que alguém se inspire.

 

Quem responde pela irresponsabilidade?

Grande parte do meu trabalho depende, hoje, da internet. O meu e o de milhões de outras pessoas. Em média, fico 10 horas por dia em frente ao computador lendo artigos, relatórios, pesquisas, entrevistas, notícias e posts que tratam, direta e indiretamente, do setor de turismo. A parte mais rica, hoje em dia, são os grupos de discussão com curadoria especializada – isto é, grupos em que alguém filtra as notícias segundo um dado critério previamente apresentado, e os participantes contribuem debatendo ou trazendo notícias e/ou dados complementares. Eu mesma já organizei um para compartilhar dados com os meus alunos e colegas de área com interesses similares.

Nessa atuação constante de leitura e filtro, há muita repetição, muita notícia requentada, muitas análises superficiais e – obviamente – muitos dados distorcidos, que transformam mentiras em verdades convenientes.

Com o tempo, todos vamos aprendendo a separar o real do imaginário, o demagógico do possível, e muito do que é falso se perde. Porém, quando se lida com jovens estudantes, cujo intervalo de atenção e concentração é menor e que se fixam em manchetes ou frases repetidas por professores, acredito ser necessário destacar que não podemos ser irresponsáveis.

Imagine se nossa área envolvesse risco à saúde ou segurança pública. Esse é o paralelo que me norteia, muitas vezes. Eu gostaria que um dentista em formação fosse muito bem treinado em aplicar anestesias e fazer obturações, da mesma forma que espero que um médico seja um grande conhecedor de sintomas, e que um engenheiro saiba, por exemplo, projetar uma ciclovia sobre o mar que não desabe na primeira ressaca.

Da mesma forma, eu gostaria que os alunos que estudam turismo fossem orientados a entender a atividade dentro de um contexto mais amplo, e não apenas sob os interesses de um pequeno grupo. Que investimentos estrangeiros, por exemplo, implicam na geração de empregos, arrecadação de impostos, estímulo à competitividade e, como em qualquer área, remuneração de capital (sim, parte do lucro volta para o país de origem, e é assim que funciona em qualquer área). É muito triste saber de professores que são “veemente contra a presença das redes internacionais no país”.

Há também professores ignorando a formação cultural e a pressão da mídia, e dizendo que “nenhum brasileiro poderia fazer uma viagem internacional sem antes conhecer o seu país”. Sim, desse jeito mesmo. E às vezes pior.

Advogam pelo fim da exigência bilateral de vistos sem levar em conta os cenários internacionais, falam de atração de visitantes de mercados distantes e sem aderência ao produto brasileiro, tratam de questões antigas e se esquecem de sair do “quadradinho” para ver que nem tudo o que afeta o turismo é decidido pelos profissionais da área.

Em maior ou menor grau, a transmissão de informações equivocadas, sem a posterior correção, é uma grande irresponsabilidade. E todos devemos ser cuidadosos ao aceitar e replicar tais “inabaláveis verdades absolutas”.

Lá fora é melhor? (reloaded)

Nesta semana, eu tive a chance de conhecer representantes de uma universidade européia que oferece um curso chamado International Tourism & Leisure. É possível concluir o curso em 3 anos. Sem conhecer os professores e o conteúdo, é muito rápido avaliar algo como bom ou ruim. Mas minha atenção ficou presa nos nomes das disciplinas, e compartilho com vocês, com a seguinte provocação – se o seu curso tivesse estas disciplinas e professores que dominassem estes assuntos, você estaria melhor preparado para atuar no setor?

Fundamentos de Negócios

Fundamentos de Inteligência de Negócios (Business Intelligence)

Ferramentas digitais

Gestão empreendedora

Culturas mundiais

Princípios de Marketing

Inglês para Turismo

Idioma eletivo (Francês, Alemão, Espanhol, Chinês)

Fundamentos do Turismo

Cultura e Arte

Turismo Internacional

Mercados emergentes – América Latina

Tópicos de Negócios Asiáticos

Fundamentos da Análise de Negócios

Gestão de marca pessoal (personal branding)

Comércio internacional

Relações internacionais com os EUA, Reino Unido e Commomwealth

Tecnologia e Viagens

Aviação

Mercados emergentes: Rússia e Europa Oriental

Gestão de Relações com o Consumidor (CRM)

Mídias Sociais

Projeto Internacional

Resolução Ética de Problemas

Comunicações Interculturais

Intercâmbio (prática, o aluno viaja para outro país)

Capital Intelectual

Cálculo de Preço e Orçamento

Gestão de Viagens

Vendas e CRM para Turismo e Lazer

Ferramentas para Design de Serviços

“A Empresa Conectada”

Portfolio

Empreendedorismo em Turismo

Estágio internacional (1 semestre, obrigatório, não remunerado)

 

 

 

Recriar ou Melhorar?

Conhecimento não é estático, e não se constrói sozinho, ainda que existam pessoas que achem que são gênios iluminados e independem dos demais. Como diria uma pessoa muito querida – “você não nasceu de chocadeira”, então alguém te ensinou uma série de coisas que foram fundamentais para formar quem você é hoje.

Não ocasionalmente, quando você aprende a pensar sozinho, estrutura algumas críticas e “rompe” com as informações anteriores.  Ainda assim, há uma base sobre a qual você constrói sua crítica para poder chamar de errado o que antes considerava certo.

Nestes tempos de extremismos e maniqueísmos, muita gente entende que quando se começa a criticar o que está colocado, a proposta é unicamente a de destruir tudo e eliminar os porta-vozes das ideias.

Para ser diferente desta massa, podemos tentar ser ponderados e discutir ideias. E minha sugestão, aproveitando a audiência do Portal Panrotas e a disposição dos leitores, é coletar as impressões sobre como fazer com que os cursos de turismo fiquem:

  1. Mais úteis
  2. Mais interessantes e atraentes (pois a cada ano só diminui o número de interessados)
  3. Mais desafiadores
  4. Mais inovadores

Você tem uma sugestão? Poderia compartilhá-la?

Se sim – deixe seu comentário neste link https://goo.gl/forms/PqLHPfZMLJObXzrw2