Mais fake numbers (ou esqueceram de combinar com os russos?)

Desde ontem, 8/2/2018, a imprensa está avida por números do Carnaval. E tem muita gente séria colaborando com os dados.

Quando são divulgados de maneira independente, e o repórter não tem tempo de verificar a veracidade ou plausibilidade, muita gente nem desconfia. Mas quando a gente vai anotando e fazendo as contas, chegamos a cenários como o que descrevo abaixo.

– A plataforma AirBnB divulgou dados indicando que 158 mil pessoas fizeram reservas para passar o Carnaval em São Paulo (confiabilidade: alta);

– A ABIH espera que a ocupação hoteleira da cidade atinja 45% durante o Carnaval (confiabilidade: média, já que nem todos os hotéis da cidade são associados)

– A SPTuris informa que a cidade possui 410 hotéis e 42.000 UHs (confiabilidade: alta);

– A SPTuris informa, já há algum tempo, que a média de turistas que visita a cidade e fica em casa de parentes é de 30% (confiabilidade: média, esse número pode variar sempre);

– A CET indica que 1,9 milhão de veículos deixarão a cidade, o que nos leva a, no mínimo, 3,8 milhões de pessoas a menos no período (confiabilidade: média)

Cabe lembrar que uma parte significativa dos paulistanos não estará aqui – cerca de 25% dos moradores. Pela pirâmide etária, há dois grupos que praticamente não participam – idosos acima de 80 anos e crianças menores de cinco anos, além de que estas últimas não entram em conta de gastos por pessoa. Há uma boa parte de paulistanos que não gosta de Carnaval e não sairá de casa para a festa na rua. E tem o pessoal hospitalizado, que entra no calculo da população, mas não pode ir sambar este ano.

A prefeitura, em diferentes canais, verbalizou que o Carnaval de São Paulo deve ter 7 milhões de pessoas, dos quais 30% são turistas. Não fez destaque metodológico indicando que a mesma pessoa está sendo contada todos os dias, de modo que o leitor considera que são 7 milhões de indivíduos. Alguns jornais foram mais contidos e disseram 4,8 milhões de pessoas.

Às contas, então:

Conta um – Se forem 7 milhões de pessoas, 30% de turistas equivalem a 2,1 milhões. Subtrai-se 160 mil do Airbnb e 840 mil (40%) que podem ficar em casa de parentes. Então tem-se 1,1 milhão se hospedando em hotel. Se apenas 45% está ocupado, tem-se então 18.900 UHs com pessoas. Isso dá cerca de 58 pessoas por quarto.

Conta dois – Tome-se  4,8 milhões de pessoas, e mantendo as proporções. 30% de turistas serão 1,44 milhão de indivíduos. 576 mil (40%) vão para casa de parentes. Então sobram 704 mil turistas, ocupando 45% dos quartos de hotel, o que reduz um pouco a turma em cada em quarto para “apenas” 37 pessoas.

Qualquer uma das duas hipóteses é tão descaradamente exagerada que mesmo que se considere que a mesma pessoa foi contada 4 vezes, ainda assim fala-se de quartos duplos com mais de 5 pessoas por noite, o que quase nenhum hotel de São Paulo aceita.

As fontes dos dados estão listadas nos links abaixo, para quem quiser conferir.

Quem sabe no ano que vem a gente combina antes, ou faz um curso de matemática básica para não correr o risco de passar tanta vergonha.

Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/02/feriado-de-carnaval-tera-rodizio-suspenso-estradas-lotadas-e-muito-calor-em-sp.shtml

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,folia-de-rua-surpreende-ate-os-blocos-se-consolida-em-sp-e-reune-milhoes,70002178023

Globo http://g1.globo.com/sao-paulo/sptv-2edicao/videos/t/edicoes/v/turistas-de-carnaval-devem-preencher-45-dos-quartos-de-hoteis-em-sp/6481067/

 

O mau hábito de inventar dados

Uma característica comum a quase todos os alunos que cursam Turismo é uma certa ojeriza a números e dados estatísticos. Algumas pesquisas feitas com graduandos e graduados indicam que, no processo de escolha do curso, a ausência de disciplinas “com sangue” ou “com números” foi fator decisivo. Traumas com as disciplinas tradicionais do ensino fundamental e médio podem explicar. Porém, essa característica nos trouxe a uma realidade triste – temos um péssimo desempenho na coleta, análise, e disseminação de dados.

E isso vai se espalhando e contaminando o setor a um ponto que chega a ser embaraçoso.

Lembro-me de ouvir uma “autoridade” do turismo dizendo que, ao conversar com a imprensa sobre números dos grandes eventos de São Paulo, bastava dizer que “havia mais de 300 pessoas”. E complementava “a imprensa só quer um número para fazer manchete, e ninguém vai ficar conferindo”. Não foi ontem, nem ano passado, mas veio de alguém que eu respeitava.

De maneira geral, os dados do turismo são mentirosos. OPS. São estimativas. Quer dizer, ninguém está lá contando de fato, e então são feitas projeções. Em cima de outras projeções. Que foram também projetadas sobre dados que alguém “achava que”.

Há exceções, sem dúvida. Tome-se por exemplo o setor de transporte aéreo e de cruzeiros marítimos – muito difícil duvidar dos dados produzidos em função da quantidade de regulações necessárias. Agora, pense a hotelaria. Especialmente a pequena hotelaria – o hábito é esconder dados. Não revelar, por questões de medo da concorrência ou a sonegação de impostos. Pergunte aos diferentes Conventions Bureaus e secretarias de turismo o quanto é difícil conseguir os boletins de ocupação.

Mas o mais divertido foi ler um texto do jornalista Artur Rodrigues, da Folha de S. Paulo (07/02/2018) indicando que a prefeitura de São Paulo juntou um monte de dados e divulga resultados que são, realmente, duvidosos. Ele diz que “o número divulgado por Doria é equivalente às populações de Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS) juntas, cujas estimativas para 2017 feitas pelo IBGE são de 2,5 milhões e 1,5 milhões, respectivamente. A estimativa da prefeitura é como se um em cada três moradores da capital paulista tivesse ido para a folia”.

Cabe resgatar, também, matérias que duvidavam da quantidade de pessoas nas manifestações políticas de anos atrás. Por elas, soubemos que na Av. Paulista, por exemplo, se cada metro quadrado for ocupado por 4 pessoas, cabem no máximo 540 mil pessoas. (A avenida tem 2.700m de extensão por 50m de largura, incluindo pistas, calçadas e canteiros e SEM descontar arvores, postes, etc.). Se a gente “der um passinho para frente” e se apertar, vamos para 8 pessoas por metro quadrado e aí teremos pouquinho mais de 1 milhão de pessoas.

Portanto, tem certas mentiras com pernas curtíssimas. Outras, precisa de um pouco de bom senso para duvidar. Mas em todos os casos, precisamos mesmo é de profissionais sérios e dispostos a compartilhar dados e informações verdadeiras que nos levem a gerar dados confiáveis para que o setor seja mais respeitado.

 

 

 

Onde está a nossa Oprah?

Pode ser que , ainda em clima de férias ou recesso de final de ano, você tenha retomado seus e-mails e compromissos somente na segunda-feira dia 09 e não tenha tido chance de saber o que aconteceu na premiação do Globo de Ouro. Mas eu acredito que você, eu e quase todos os que dedicam seu tempo lendo este texto não só leram sobre o tema, mas já viram trechos do discurso de Oprah Winfrey no dia 08, ao receber o prêmio Cecil B. DeMille em homenagem à sua carreira.

Forte, contundente, emocionante e verdadeiro são alguns dos adjetivos que cabem ao discurso. Se você não viu, clique e leia na íntegra. Se você viu, sabe que isso é só mais uma das peças iniciais de um movimento que eu considero sem volta. Time’s Up. Livremente traduzido como “chega!”, a campanha reforça a necessidade imediata de rever o papel atribuído às mulheres em todos os setores da sociedade.

Naturalmente, sendo mulher e dedicando grande parte do meu tempo a entender a questão de gênero e diversidade, necessariamente reflito sobre o setor em que atuo. O turismo de maneira geral não deveria ser um setor machista, mas é. Reflexo natural da sociedade em que vivemos. A universidade, então, que deveria, por origem, ser um espaço para a exaltação da diversidade, é mais machista e preconceituosa do que muitos imaginam.

Mas, Time’s Up! Temos que encontrar a nossa Oprah, representando as mulheres, negras, vítimas de violência (física, mas principalmente verbal e moral) para levantar a bandeira das causas que vem sendo seguidamente negligenciadas. E, para começar, precisamos cobrar a presença de mais mulheres nas associações, nos conselhos, nas comissões organizadoras, na lista de palestrantes, na lista de convidados, na lista de homenageados.  Em qualquer dos papéis, sempre há mulheres capazes de representar muito bem ideias e segmentos.

Uma dica – não se deixe empoeirar com as ideias do século passado. Já é 2018, e só com mulheres e homens fenomenais, para seguir as palavras de Oprah, é que teremos melhores exemplos e mais inspiração para seguirmos mudando esse mundo.

Lições de um bom evento internacional

 

Entre 06 e 08/11/2017 tive a felicidade de participar, mais uma vez, da WTM Londres, o evento que está posicionado entre os três melhores do mundo quando se trata de turismo. Como não foi a primeira vez, o deslumbramento com a dimensão da feira e o volume de visitantes ocupa menos espaço mental e é possível fazer mais análises e comparações, as quais divido com você que está lendo esse texto.

Em primeiro lugar, ranking – importa de fato saber se é o primeiro, segundo ou terceiro mais importante evento do mundo? E quais são os aspectos que devem ser levados em consideração para dizer se é ou não o melhor? Bom, para mim, o elemento crucial que determina a importância de um evento é o quanto ele de fato tem de representatividade e qual o envolvimento dos diferentes interessados no evento. Com isso, até onde me consta, WTM Londres, FITUR Madrid e ITB Berlim cumprem essa função de forma profissional. E um único motivo explica isso – nos três eventos estão presentes as grandes organizações do turismo, como UNWTO (OMT), WTTC, PATA, IATA e similares, estão líderes de governos em todos os níveis, pesquisadores de alta produtividade e, efetivamente, os empresários do setor – pequenos, médios e grandes.

Particularmente, nesta WTM Londres, o evento mais concorrido e que gerou mais notas de imprensa foi o Ministers Summit, realizado na manhã do dia 07. Ministros de Turismo de vários países estavam presentes no círculo central ou na área restrita, a convite do Secretário Geral da UNWTO, e também representantes do parlamento britânico e do parlamento europeu, CEOs de companhias de cruzeiros, hotéis, aviação e AirBnB. O tema – overtourism – e a necessidade de ações efetivas para reverter quadros como os que se vê em Barcelona, Amsterdam e Veneza, e também medidas que possam evitar situações similares em outro destino. (Não, o Brasil não estava representado no painel, caso você ainda tenha dúvidas).

A programação de conferências foi extensa e cobriu praticamente todos os temas atuais, com grande concentração em mídias e influência digital, coleta, análise, interpretação e uso de dados para geração de inteligência de mercado, boas práticas de turismo responsável e responsabilidade social corporativa, e muito mais. No último dia, eventos especiais para estudantes de turismo, como estratégia de integração de talentos e apresentação das muitas oportunidades de carreira que o setor oferece – pelo menos 400 universitários disputaram um lugar na conferência ITT Future You, algo que eu, infelizmente, ainda não vi acontecer no Brasil.

Finalmente, a qualidade técnica dos estandes e da apresentação profissional de destinos, produtos e tecnologia. Mesmo sendo um excelente momento para reencontrar colegas e parceiros, a feira é o momento em que PRODUTOS são apresentados com o grande objetivo de realizar NEGÓCIOS. Os horários de reunião são respeitados, as pessoas entendem a necessidade de discutir preços, contratos, garantias, oportunidades e diferenciais. Não é uma festa. A festa vem depois, após o expediente.

E finalmente, a cidade acolhe o evento – o sistema público de transporte se prepara para o aumento no número de visitantes, há sinalização especializada, há deslocamento de efetivo (segurança, informação, promoção) para os locais de conexão e de entrada no evento. Há sinalização impressa, sonora e com a ajuda de pessoas. Londres funciona. Provavelmente por reconhecer a importância do evento, independentemente de sua temática. O espaço de eventos funciona. O conceito do evento funciona.

É um grande aprendizado. Especialmente por saber que em eventos assim as pessoas estão juntas com um mesmo foco.

 

Aqui no Brasil, entretanto, ainda estamos nos debatendo para não afundar. Pesquisadores distantes e alienados, fechados em círculos e falando para si mesmos; políticos desinteressados e sem nenhum compromisso com a causa, ou melhor, comprometidos apenas com a próxima eleição; e empresários brigando com os efeitos incontroláveis da inovação. Uma pena.

Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

Há quanto tempo você tem lido que precisa aprender a usar o tal do BIG DATA? De quantos eventos você participou com a intenção de entender, aprender ou ampliar sua compreensão sobre o tema? E o que de fato você já conseguiu fazer com tanta informação?

Há pouco mais de dois anos, em Madri, assisti ao Rafat Ali (CEO da Skift) explicar detalhadamente como abrir mão de ações de mídia massificadas para usar o marketing direcionado a partir do big data de empresas como Google e Facebook. Ensinou passo a passo como fazer, e ao final sorriu e disse – por mais que eu explique, ainda é cedo para que vocês entendam o quanto isso é importante e vai mudar a forma de vender qualquer coisa no mundo.

Pouco antes de escrever este texto, leio a notícia que o AirBnB adicionou R$ 2,5 bilhões ao PIB brasileiro em 2016, o ano em que a crise econômica se acentuou, apesar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo final de semana, a FGV indica aumento de 35,9% nas passagens aéreas, entre junho e setembro, após o início da cobrança de bagagens despachadas. As pesquisas da FGV consideram as passagens efetivamente vendidas, nas rotas mais procuradas. Dois relatórios confiáveis, cujos dados são abertos e a metodologia é clara e divulgada.

Por outro lado, os dados oficiais indicam aumento menor no preço das passagens, já que consideram a média de todos os trechos. Nas redes sociais, a maioria das pessoas que compartilhou essa notícia usou de ironia para indicar que, mais uma vez, o consumidor é levado ao engano por manipulação de dados. Outra informação que me deixa curiosa é o volume de visitantes da feira da Abav. Três responsáveis por stands com quem conversei (stands que entregavam algo que poderia ser considerado “brinde”) indicaram que menos de 50% das pessoas que os abordaram eram, de fato, agente de viagens. Mas, naturalmente, os relatórios oficiais vão indicar que foram mais de 20 mil visitantes e essa informação será utilizada nos argumentos de venda para o próximo ano.

A questão aqui é como os dados, “big ou little”, são tratados.

Listar perguntas em forma de questionário não é fazer pesquisa. Menos ainda copiar um formulário online, tirando o logotipo do concorrente. Avaliar um produto somente pela opinião de quem compra em uma dada região também não é correto. Pesquisa é uma atividade importante e que deve ser acompanhada por quem sabe o que está fazendo, escolhendo a metodologia adequada aos objetivos do interessado.

Portanto, duas recomendações – não acredite nos dados que chegam a você sem o endosso de instituições confiáveis (lembre-se, estamos em tempos de pós-verdade) e, sempre que possível, procure as informações contraditórias para poder formar sua opinião. E mais ainda (eu sei, já disse isso, mas não custa repetir): não é porque sempre foi assim que precisa continuar sendo.

Feliz dia dos discursos questionáveis

Esperei terminar o primeiro dia da 45ª ABAV para fazer o post comemorativo ao Dia Mundial do Turismo. Eu realmente esperava que este dia 27 fosse comemorado adequadamente, como se espera que aconteça nessas ocasiões – menções em discursos e ações específicas voltadas à informação do público em geral.

O esforço da ABAV e BRAZTOA em realizar o evento nesta semana já é um grande mérito, reconheça-se. O empenho e dedicação de Edmar Bull e sua equipe, e a garra de Magda Nassar são dignos de muitas homenagens e reverências. Fazem milagres estes dois líderes que eu admiro. Quem sabe um dia seus pedidos e reivindicações sejam, de fato, ouvidos por quem tem o poder de assinar os documentos do turismo deste país.

Mas a abertura da ABAV, mais uma vez, se descola da realidade – inclusive da realidade que estava ali, dois andares abaixo, com stands mais enxutos, com dimensão menor que outras edições, mas com público aparentemente muito mais interessado e disposto a atuar pelo turismo brasileiro.

A começar pelo fato de que eram 12 homens e 1 mulher, sendo que muitos deles ocuparam um espaço cênico apenas, sem direito a fala. Entre eles o atual secretário de turismo do estado de São Paulo. Subiu e desceu calado, um pouco tímido eu diria, do palco. Não faz sentido, e mais gente precisa se manifestar contra esse domínio masculino, branco e hétero.

O presidente dos Correios fez uma fala que deveria ter arrepiado os agentes de viagem presentes – ou fui só eu que o ouvi dizendo que há um movimento para que as agências de correio vendam passagens e pacotes? Isso depois de a plateia assistir a 13 obliterações de selos com imagens turísticas do país. Ninguém explicou de fato, mas obliteração é o ato de colar e carimbar um selo para que ele possa ser exposto no Museu dos Correios. As treze vezes foram uma delicadeza para que os componentes da solenidade levassem para casa uma lembrancinha… Selo, gente. Selo, em tempos de correspondência eletrônica decadente, e cada vez mais áudios de WhatsApp.

Em seguida, a solenidade vira palanque político. O presidente da Embratur, declarado candidato à prefeitura de Florianópolis, o ministro do Turismo, candidato ao senado pelo estado de Alagoas e cabo eleitoral confesso do atual prefeito de São Paulo, e o próprio, que chegou atrasado, atrapalhou o discurso do ministro, rompeu o protocolo e fez discurso de campanha para presidência.

Em todos os discursos, a condenação veemente de qualquer realização passada, e uma quantidade de sugestões que a gente sabe que não vão dar certo. O ministro, por exemplo, indica que só agora o presidente reconhece a importância econômica do turismo – deve ser por oposição, já que o orçamento da pasta foi reduzido em 85%. As falas são repetitivas, demagógicas, muitas vezes construindo um cenário inviável, mas plausível. A audiência aplaudiu, mas sem nenhum entusiasmo.

Seria incrível, um dia, que as falas coincidissem com a realidade. Que alguém de fato anunciasse melhores números do setor, melhores salários, mais empregos para quem escolhe essa carreira, maior presença internacional dos destinos brasileiros. Mas a gente sabe que são só palavras. Infelizmente.

Ainda assim, em diferentes lugares do mundo, e do Brasil, o turismo aconteceu. E muita gente foi muito feliz hoje, por estar em lugares diferentes, experimentar sabores novos, viver experiências inesquecíveis e voltar com vontade de viajar mais. Vamos celebrar as viagens, vamos torcer para que, apesar dos mentirosos contumazes que se apropriam de palavras vazias, o turismo cresça de forma sustentável no país.

O mesmo problema

Oficialmente, a 22ª Assembleia Geral da UNWTO começou hoje, dia 13, embora as atividades estejam acontecendo desde segunda-feira, dia 11. Participaram da cerimônia de abertura os mais de 1300 representantes das delegações oficiais, dos membros afiliados, das universidades e também os convidados do governo local.

A delegação brasileira é composta por duas pessoas apenas – o secretário executivo e o assessor especial de relações internacionais do Ministério do Turismo. Embora eu ainda não saiba o motivo, diria que o ministro não veio por excesso de problemas familiares. (Sim, é ironia).

Dois grandes temas se discutem nesse evento:

– na pauta oficial do evento, voltada para a geração de conteúdo e compromissos, estão as relações entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ou SDGs) e sua relação com o Turismo, na busca de estabelecer parcerias para o desenvolvimento de fato;

– na discussão política e nas articulações constantes, a manutenção ou não do resultado das eleições para o novo secretário geral, que substituirá o incansável Taleb Rifai. Em maio, o representante da Georgia, Zurab Pololikashvili, foi eleito para substituir Rifai. Entre os muitos argumentos presentes, que vão de fraude na eleição até a incapacidade de comunicação de Zurab em inglês, o que mais chama a atenção é que ele não tem nenhuma relação prévia com Turismo e sequer tem dimensão dos desafios reais da atividade.

Os ministros que falaram hoje na primeira sessão ecoaram a mesma insatisfação já velha conhecida – mesmo sendo ministros de estado, raras são as vezes que participam da elaboração de políticas e conseguem ser ouvidos para pautar as grandes questões de seus países, especialmente em relação à preservação de recursos e sustentabilidade.

A se pensar, então – se até para conduzir as discussões do turismo mundial as lideranças estão considerando alguém sem experiência real, e levando em conta a quantidade de casos que sabemos existir de não qualificados na função(pensem só no fato de praticamente todos os nossos ministros do turismo nunca tinham atuado na área), o futuro do turismo (no Brasil e no mundo) não vai poder contar muito com o setor político…

 

Quando o mundo se encontra para discutir Turismo

Chengdu, China – 10 de setembro de 2017

Para qualquer pessoa que more na América do Sul, chegar a Chengdu (China) não é tarefa simples. Com o excelente serviço da Qatar Airways, o deslocamento de quase 28 horas é menos impactante, até porque é a rota mais inteligente saindo do Brasil. A conexão em Doha é muito tranquila, o aeroporto Hamad é, talvez, um dos mais modernos do mundo, com detalhes de muito bom gosto aliados à alta tecnologia.

Shuangliu, o aeoroporto de Chengdu, é também bastante moderno (mas não dá para comparar com Hamad). O fato de desembarcar em posição remota já diminui as boas impressões, mas era necessário por conta do desembarque dos ministros que estavam no voo. Ao pé da escada, pelo menos 30 voluntários uniformizados já sorriam para os convidados do evento.

A verificação de passaporte é um tema espinhoso em qualquer país, eu diria. Não seria diferente na China. Havia, no entanto, dois guichês especiais – um somente para portadores do cartão APEC (algo que o Brasil não participou por razões que nem convém comentar aqui para não começarmos a chorar juntos) e outro para os participantes da Assembleia Geral da UNWTO. Sete oficiais (isso, sete) conferiram passaporte, visto e credenciais para participação.

Esta é a segunda vez que participo de um Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo. A primeira, em 2015, foi em Medellín, na Colômbia. Por enquanto, incomparáveis. Os colombianos são hospitaleiros, sorridentes, e o regime político local nos permite manter contato com o mundo.

Em Chengdu há dois exércitos aparentes – um, de voluntários uniformizados que se esforçam para falar inglês (nem sempre conseguem, mas te ajudam mesmo assim) e outro de seguranças protegendo todas as áreas onde as delegações internacionais estão. Não há ambiente em que você possa entrar sem uma credencial eletrônica, sem revistas de segurança e sem muitos olhares dos diferentes agentes presentes para garantir que tudo corra bem.

Legalmente, não é possível acessar os principais sites que nos permite manter contato com o mundo – nada de Facebook, Twitter, Instagram, Google, Gmail, Snapchat. O WhatsApp funciona, mas nem sempre.

Nada disso entretanto, atrapalha. Praticamente todos os países membros da ONU que estão filiados à UNWTO enviaram seus representantes. Cores, roupas, línguas e muita alegria nos reencontros para discutir os muitos temas urgentes do turismo mundial – dos efeitos terríveis dos furacões no Caribe, às necessárias mudanças envolvendo práticas sustentáveis; da confirmação (ou não) do novo secretário-geral a maiores investimentos em educação para o turismo (será?).

Uma pena que praticamente não há brasileiros aqui. Pelo menos, até agora, não vi nenhum.

Se as conexões permitirem, a partir de amanhã posto mais informações sobre as principais discussões desta 22a Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo.

Minhas pulgas de estimação

Eu demorei para voltar aqui, e retomar o assunto da “carta de amor” que mandei ao Guilherme Paulus e que ele, muito gentilmente, me respondeu (se você não sabe o que é, clique aqui).

A mensagem hoje não é diretamente para o Guilherme, mas sim para todos aqueles que entendem ser necessária uma mudança generalizada, a começar pela forma de entender a formação na área e, consequentemente, a atuação profissional de alguém que escolhe este setor.

Como eu amo listas, eu organizei as minhas pulgas de estimação. Elas vivem atrás das minhas orelhas, há anos.

  1. Os diferentes salários

Não vou discordar que há cargos e salários diferentes para pessoas com especializações e experiências diferentes no setor. O que incomoda é que raramente o salário bom fica com o formado em Turismo. São engenheiros, advogados, administradores, entre outros, que são diretamente contratados para posições mais valorizadas. O argumento, que é até muito justo, convenhamos, é que o formado em Turismo não tem algumas competências básicas para atuar na gestão (por exemplo, nas questões financeiras). Há responsabilidade por parte das universidades? Sim, e como. Muita. (E isso merece muita discussão, prometo retomar oportunamente.) Mas é justamente por isso que a formação na área perde a atratividade. Se o jovem já sabe de antemão que a formação em Turismo vai oferecê-lo (dados de 2017) uma média salarial de dois mil reais depois de cinco anos de formado, é melhor ir de cara para o telemarketing que paga mil e quinhentos com nenhuma experiência.

  1. O baixo salário generalizado

Vai ser difícil desmentir essa. Exceção aos donos e diretores, o setor paga mal. Pode não ser o pior de todos, porque na ponderação de vantagens, os descontos, vantagens de viagens e hospedagens, o bem estar emocional que muitas das atividades oferecem, fazem com que ainda seja interessante estar na área. E passada uma certa idade, vem a acomodação e aí muita gente que poderia ganhar bem mais se acomoda por achar que não tem chance na migração de áreas. E não havendo estímulo à qualificação constante dos funcionários com mais tempo de casa, em momentos de crise, há demissões em massa para contratação de quem aceitar o rebaixado novo salário. Hoje temos excelentes profissionais desempregados, e boas empresas prestando serviços ruins para poder sobreviver a esse momento terrível pelo qual o país passa.

  1. Cabeças balançando para políticos ridículos

Usar a palavra ridículo pareceu pesado? Então pense que nas últimas semanas foi noticiado que o Ministro do Turismo privilegiou sua própria família em repasse de recursos, considerando que o orçamento geral do MTur foi cortado em quase 85%, portanto, um acinte para dizer o mínimo. E que o irmão do secretário de turismo de São Paulo foi identificado em uma gravação sobre cobrança de propina. Ok, ok, é o irmão, mas sabemos bem que os laços familiares na política são fortes.

Em praticamente nenhum outro setor, quando alguém assume a pasta, é necessário explicar tudo desde o começo. Mas no Turismo, é sempre tanta gente aventureira que até cansa. E se cerca de gente ruim, como conselheiro. E desanima os funcionários de carreira, que não veem a hora de migrar internamente. E fazem pouco ou quase nada para que o setor seja levado a sério no quesito recursos públicos e atenção política. A política de turismo no Brasil é, fundamentalmente, uma grande brincadeira. (Acham que eu exagero? Vão lá ler o Plano Nacional de Turismo e vejam que os pouco ambiciosos redatores acham que, em 2020, seremos a terceira maior economia de turismo do mundo. Talvez do mundo em que eles vivem, porque não deve ser nesse…)

  1. Os exemplos mal escolhidos

Eu sei que teve ministro e muito professor querendo comparar o Brasil à Espanha, ao México, à França. Agora parece que Portugal é o bom exemplo. Mas nenhum destes países tem realidades políticas, sociais e geográficas como o Brasil. Não dá para comparar um país do tamanho de Portugal, e com a proximidade de grandes centros emissores, com o Brasil. Não dá. Temos que melhorar nosso benchmarking, mas mais que isso, temos que melhorar (e muito) nosso discurso.

No fundo, o que eu acho é que nos contentamos com pouco, muito pouco. Qualquer frase melhor estruturada e dita em tom de autoridade vira verdade. Pesquisar e verificar as fontes, e testar os resultados, seria mais interessante, mas dá mais trabalho. Ir fazendo do jeito que dá, como sempre foi, sem que ninguém perceba, parece ser melhor. Não é. E a grande demonstração vai se manifestar na queda generalizada de gente boa disposta a trabalhar na área. Teremos que nos contentar com aquele monte de gente que, por não saber direito o que fazer da vida, decidiu estudar e trabalhar com turismo – porque parecia mais legal e não tinha matemática.

Guilherme Paulus responde

Confissão: eu sabia que ele iria me responder, por uma razão muito simples – por mais espinhoso que seja o assunto, é algo que precisa ser discutido. E como uma pessoa sensata, inteligente e competente, não apenas responde mas me instiga a pensar um pouco mais. Ou melhor, convida a todos para pensarmos juntos.

Obrigada, Guilherme, por seu tempo. E pelas palavras. Farei comentários no próximo post.

Olá, Mariana.

Obrigado pela carta e pelas palavras dirigidas a mim. Fico muito feliz em receber esse tipo de feedback, especialmente como um líder desse setor que tanto me orgulha nesses mais de 40 anos de estrada.

Concordo com o texto em muitas partes, mas reitero meu pensamento na referida matéria sobre os números do setor. As escolas profissionalizantes, assim como grandes universidades públicas e particulares precisam de incentivo, de políticas voltadas para o Turismo.
A exemplo de Portugal, que tornou o Turismo uma de suas grandes fontes de renda e transformou o cenário econômico do país.
O Ministério do Turismo, aqui no Brasil, é um grande parceiro, mas por conta da troca de governos, os ministros não conseguem, muitas vezes, dar continuidade aos projetos nessa área.

Sobre a CVC, hoje a operadora é considerada uma das líderes mundiais em seu segmento. Alcançou patamares que nenhuma empresa genuinamente brasileira talvez tenha alcançado. E dentro
desse mérito, há milhares de empregos gerados direta e indiretamente. Em todos os níveis de cargos e salários e com relações comerciais bastante saudáveis para ambos os lados.

O Turismo paga pouco? Para algumas funções pode ser que sim, como em outros setores. Há o advogado sênior, há o pleno, há o analista, há o assistente. Há o engenheiro, o arquiteto, o mestre de obras, o pedreiro. No Turismo é exatamente igual. Há diretores, gerentes comerciais, líderes de turismo que são muito bem remunerados (mais até do que em grandes conglomerados econômicos). Existem muitos profissionais que precisam, inclusive, estudar fora do país, acumular experiência e bagagem para, depois, voltar ao Brasil com melhores remunerações.

Há salários e salários para cada atribuição. Para se ter ideia, temos hotéis com vagas abertas em diversos cargos e que não conseguimos preencher por falta de profissionais com qualificação na área. A culpa é do empresário? Não. Há interessados? Sempre. Nós ouvimos isso dos próprios jovens.

O Turismo não paga mal. Basta perguntar aos funcionários que tem vontade de vencer na suas respectivas funções. Quando eu falo que trabalhar com turismo é 95% de transpiração e 5% de inspiração, pode crer que é a mesma equação para muitas outras áreas. A paixão pelo que se faz pode levar o ser humano ao triunfo. Eu acredito no Brasil, no Turismo e na garra do brasileiro.

Que comecem as mudanças e que tenham início com mais investimento do governo em políticas educacionais de qualidade. A educação é a base de tudo. Como representante do nosso setor em diversos órgãos e associações, luto diariamente pela democratização do Turismo, pelos direitos, pela aprovação de bons projetos de lei e por um turismo acessível, sustentável e rentável a
todos que dependem dele como profissão. 

Um grande abraço,
Guilherme Paulus

Outro abraço carinhoso, Guilherme! Nossa conversa continuará!