Mais fake numbers (ou esqueceram de combinar com os russos?)

Desde ontem, 8/2/2018, a imprensa está avida por números do Carnaval. E tem muita gente séria colaborando com os dados.

Quando são divulgados de maneira independente, e o repórter não tem tempo de verificar a veracidade ou plausibilidade, muita gente nem desconfia. Mas quando a gente vai anotando e fazendo as contas, chegamos a cenários como o que descrevo abaixo.

– A plataforma AirBnB divulgou dados indicando que 158 mil pessoas fizeram reservas para passar o Carnaval em São Paulo (confiabilidade: alta);

– A ABIH espera que a ocupação hoteleira da cidade atinja 45% durante o Carnaval (confiabilidade: média, já que nem todos os hotéis da cidade são associados)

– A SPTuris informa que a cidade possui 410 hotéis e 42.000 UHs (confiabilidade: alta);

– A SPTuris informa, já há algum tempo, que a média de turistas que visita a cidade e fica em casa de parentes é de 30% (confiabilidade: média, esse número pode variar sempre);

– A CET indica que 1,9 milhão de veículos deixarão a cidade, o que nos leva a, no mínimo, 3,8 milhões de pessoas a menos no período (confiabilidade: média)

Cabe lembrar que uma parte significativa dos paulistanos não estará aqui – cerca de 25% dos moradores. Pela pirâmide etária, há dois grupos que praticamente não participam – idosos acima de 80 anos e crianças menores de cinco anos, além de que estas últimas não entram em conta de gastos por pessoa. Há uma boa parte de paulistanos que não gosta de Carnaval e não sairá de casa para a festa na rua. E tem o pessoal hospitalizado, que entra no calculo da população, mas não pode ir sambar este ano.

A prefeitura, em diferentes canais, verbalizou que o Carnaval de São Paulo deve ter 7 milhões de pessoas, dos quais 30% são turistas. Não fez destaque metodológico indicando que a mesma pessoa está sendo contada todos os dias, de modo que o leitor considera que são 7 milhões de indivíduos. Alguns jornais foram mais contidos e disseram 4,8 milhões de pessoas.

Às contas, então:

Conta um – Se forem 7 milhões de pessoas, 30% de turistas equivalem a 2,1 milhões. Subtrai-se 160 mil do Airbnb e 840 mil (40%) que podem ficar em casa de parentes. Então tem-se 1,1 milhão se hospedando em hotel. Se apenas 45% está ocupado, tem-se então 18.900 UHs com pessoas. Isso dá cerca de 58 pessoas por quarto.

Conta dois – Tome-se  4,8 milhões de pessoas, e mantendo as proporções. 30% de turistas serão 1,44 milhão de indivíduos. 576 mil (40%) vão para casa de parentes. Então sobram 704 mil turistas, ocupando 45% dos quartos de hotel, o que reduz um pouco a turma em cada em quarto para “apenas” 37 pessoas.

Qualquer uma das duas hipóteses é tão descaradamente exagerada que mesmo que se considere que a mesma pessoa foi contada 4 vezes, ainda assim fala-se de quartos duplos com mais de 5 pessoas por noite, o que quase nenhum hotel de São Paulo aceita.

As fontes dos dados estão listadas nos links abaixo, para quem quiser conferir.

Quem sabe no ano que vem a gente combina antes, ou faz um curso de matemática básica para não correr o risco de passar tanta vergonha.

Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/02/feriado-de-carnaval-tera-rodizio-suspenso-estradas-lotadas-e-muito-calor-em-sp.shtml

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,folia-de-rua-surpreende-ate-os-blocos-se-consolida-em-sp-e-reune-milhoes,70002178023

Globo http://g1.globo.com/sao-paulo/sptv-2edicao/videos/t/edicoes/v/turistas-de-carnaval-devem-preencher-45-dos-quartos-de-hoteis-em-sp/6481067/

 

O mau hábito de inventar dados

Uma característica comum a quase todos os alunos que cursam Turismo é uma certa ojeriza a números e dados estatísticos. Algumas pesquisas feitas com graduandos e graduados indicam que, no processo de escolha do curso, a ausência de disciplinas “com sangue” ou “com números” foi fator decisivo. Traumas com as disciplinas tradicionais do ensino fundamental e médio podem explicar. Porém, essa característica nos trouxe a uma realidade triste – temos um péssimo desempenho na coleta, análise, e disseminação de dados.

E isso vai se espalhando e contaminando o setor a um ponto que chega a ser embaraçoso.

Lembro-me de ouvir uma “autoridade” do turismo dizendo que, ao conversar com a imprensa sobre números dos grandes eventos de São Paulo, bastava dizer que “havia mais de 300 pessoas”. E complementava “a imprensa só quer um número para fazer manchete, e ninguém vai ficar conferindo”. Não foi ontem, nem ano passado, mas veio de alguém que eu respeitava.

De maneira geral, os dados do turismo são mentirosos. OPS. São estimativas. Quer dizer, ninguém está lá contando de fato, e então são feitas projeções. Em cima de outras projeções. Que foram também projetadas sobre dados que alguém “achava que”.

Há exceções, sem dúvida. Tome-se por exemplo o setor de transporte aéreo e de cruzeiros marítimos – muito difícil duvidar dos dados produzidos em função da quantidade de regulações necessárias. Agora, pense a hotelaria. Especialmente a pequena hotelaria – o hábito é esconder dados. Não revelar, por questões de medo da concorrência ou a sonegação de impostos. Pergunte aos diferentes Conventions Bureaus e secretarias de turismo o quanto é difícil conseguir os boletins de ocupação.

Mas o mais divertido foi ler um texto do jornalista Artur Rodrigues, da Folha de S. Paulo (07/02/2018) indicando que a prefeitura de São Paulo juntou um monte de dados e divulga resultados que são, realmente, duvidosos. Ele diz que “o número divulgado por Doria é equivalente às populações de Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS) juntas, cujas estimativas para 2017 feitas pelo IBGE são de 2,5 milhões e 1,5 milhões, respectivamente. A estimativa da prefeitura é como se um em cada três moradores da capital paulista tivesse ido para a folia”.

Cabe resgatar, também, matérias que duvidavam da quantidade de pessoas nas manifestações políticas de anos atrás. Por elas, soubemos que na Av. Paulista, por exemplo, se cada metro quadrado for ocupado por 4 pessoas, cabem no máximo 540 mil pessoas. (A avenida tem 2.700m de extensão por 50m de largura, incluindo pistas, calçadas e canteiros e SEM descontar arvores, postes, etc.). Se a gente “der um passinho para frente” e se apertar, vamos para 8 pessoas por metro quadrado e aí teremos pouquinho mais de 1 milhão de pessoas.

Portanto, tem certas mentiras com pernas curtíssimas. Outras, precisa de um pouco de bom senso para duvidar. Mas em todos os casos, precisamos mesmo é de profissionais sérios e dispostos a compartilhar dados e informações verdadeiras que nos levem a gerar dados confiáveis para que o setor seja mais respeitado.

 

 

 

Efeito bola de neve – quem dá o passo inicial?

Embora não seja usual vivermos a experiência da neve no Brasil, o conceito de neve, bolas de neve, bonecos de neve e avalanches nos são apresentados desde muito pequenos, quando assistíamos a desenhos animados e ríamos dos personagens que escorregavam (ou eram empurrados) e iam rolando e formando uma imensa bola de neve que caía, na maioria das vezes, suavemente na base da montanha, e o personagem em geral saía vivo e se chacoalhando.

Nos casos de avalanches reais, o que se sabe (e espero que ninguém precise experimentar) é que conforme algo comece a rolar lá em cima da montanha,  vai ganhando velocidade e volume, arrastando (muitas vezes destruindo) tudo o que vem pela frente. O efeito tende a ser devastador.

O uso da expressão “efeito bola de neve” é variado, e recentemente os pesquisadores e ativistas do turismo sustentável indicam que tais práticas, iniciadas pelos indivíduos, ainda que pequenas, podem estimular o efeito bola de neve no turismo – isto é – ser replicado a um ponto que não seja mais possível imaginar como era o turismo antes disso.

Há que se pensar na mesma lógica em relação aos empregos e estágios em nosso já combalido setor, recheado de práticas condenáveis e muitas vezes repetidas e até estimuladas.

Seria lindo imaginar o dia em que os anúncios das vagas sejam coerentes com as funções que serão exercidas; que a remuneração seja condizente com as competências solicitadas, e que respeite os diferentes níveis de instrução e de investimento na carreira, como também o tempo de experiência em funções equivalentes; respeito à qualidade de vida e à necessidade de descanso para recuperação efetiva da capacidade de produção, especialmente quando se fala em desempenho intelectual.

Tem sido extremamente desolador, para ser simplista, acompanhar diferentes relatos de ex-empregados e ex-estagiários, relatando não apenas situações de abuso de poder, assédio moral, falta de transparência nos processos de evolução na carreira, como também perceber a sensação de medo que acomete quem depende dos salários, baixos, e que prefere se calar ou replicar falsos relatos a correr o risco de perder sua vaga ou “ter seu currículo manchado” com uma demissão.

Não tenho soluções ideais, mas acredito que os pequenos gestos em busca de melhores condições – em todas as empresas – podem nos ajudar a recuperar a atratividade do setor, que hoje perde muita gente justamente por essa característica cruel.

Onde está a nossa Oprah?

Pode ser que , ainda em clima de férias ou recesso de final de ano, você tenha retomado seus e-mails e compromissos somente na segunda-feira dia 09 e não tenha tido chance de saber o que aconteceu na premiação do Globo de Ouro. Mas eu acredito que você, eu e quase todos os que dedicam seu tempo lendo este texto não só leram sobre o tema, mas já viram trechos do discurso de Oprah Winfrey no dia 08, ao receber o prêmio Cecil B. DeMille em homenagem à sua carreira.

Forte, contundente, emocionante e verdadeiro são alguns dos adjetivos que cabem ao discurso. Se você não viu, clique e leia na íntegra. Se você viu, sabe que isso é só mais uma das peças iniciais de um movimento que eu considero sem volta. Time’s Up. Livremente traduzido como “chega!”, a campanha reforça a necessidade imediata de rever o papel atribuído às mulheres em todos os setores da sociedade.

Naturalmente, sendo mulher e dedicando grande parte do meu tempo a entender a questão de gênero e diversidade, necessariamente reflito sobre o setor em que atuo. O turismo de maneira geral não deveria ser um setor machista, mas é. Reflexo natural da sociedade em que vivemos. A universidade, então, que deveria, por origem, ser um espaço para a exaltação da diversidade, é mais machista e preconceituosa do que muitos imaginam.

Mas, Time’s Up! Temos que encontrar a nossa Oprah, representando as mulheres, negras, vítimas de violência (física, mas principalmente verbal e moral) para levantar a bandeira das causas que vem sendo seguidamente negligenciadas. E, para começar, precisamos cobrar a presença de mais mulheres nas associações, nos conselhos, nas comissões organizadoras, na lista de palestrantes, na lista de convidados, na lista de homenageados.  Em qualquer dos papéis, sempre há mulheres capazes de representar muito bem ideias e segmentos.

Uma dica – não se deixe empoeirar com as ideias do século passado. Já é 2018, e só com mulheres e homens fenomenais, para seguir as palavras de Oprah, é que teremos melhores exemplos e mais inspiração para seguirmos mudando esse mundo.

Lista de desejos para qualquer dia do ano

Final de ano, e de repente parece que tudo fica mais leve, mais fácil de encarar, mais positivo. A energia das duas últimas semanas do ano me chama a atenção – estamos quase todos muito cansados, mas encontramos disposição para diferentes comemorações, e somos tomados de um certo espírito de boa vontade. Tem quem acredite na magia do Natal, e outros que preferem depositar a esperança no Ano Novo. Para mim, de verdade, tanto faz. Sou da turma que acredita na fé, independentemente de como ela se manifesta.

Então, com um misto de bom humor e ironia, divido com você uma lista de desejos para mentalizar em alguma noite especial. Mas pode ser durante o dia também.

  1. Mais viagens

Que mais gente faça planos de viajar, e viaje mais vezes no ano, para um monte de lugares diferentes. Mas que sejam viagens de verdade, de carro, ônibus ou avião, e não as viagens na maionese em que muita gente embarcou nesse ano. Em especial, não se deixe levar em viagens equivocadas na hora de votar. Esse ano vai ser difícil não querer viajar para outro planeta, mas pelo menos no assunto eleições – lembre-se que somos muitos, e diferentes.

 

  1. Mais diversidade

De tudo – de comida, de paixões, de drinks, mas principalmente de ideias e de pessoas. 2018 vai ficar marcado como o ano em que, pelo menos no turismo, demos mais espaço para mulheres, para negros, gays, lésbicas, transgêneros, e quem mais for diferente do padrão branco – homem – hetero. Se você percebeu que é repetição, e não é refrão de música, passa para outra.

 

  1. Mais coragem

Abrir mão de planos, mudar o rumo da vida, descobrir novos destinos, ir para onde você nunca imaginou – encare! E tenha coragem também de denunciar abusos – especialmente assédio moral e sexual. Fale, denuncie, encare. E se precisar de ajuda, lembre-se que sempre há alguém que pode te orientar (inclusive aqui, neste canal!). Não se deixe diminuir por ninguém, nunca.

 

  1. Menos malas

Além de a passagem aérea ficar mais barata com menos bagagem, você passa a viajar mais leve. E se você deixar de conviver com gente mala, então, nem te conto a alegria. Abrir mão de malas, no começo, parece estranho. Você fica achando que tem algo faltando, mas quando toma consciência, na verdade está é sobrando espaço para ser feliz. #menosmalasem2018

 

Fazer diferente é mais difícil do que parece. Mas a gente tenta, e muitas vezes, consegue.

 

Muito obrigada por sua companhia, seus comentários e críticas. É na troca que aprendemos mais. Que bons momentos se sucedam, todos os dias!

Lições de um bom evento internacional

 

Entre 06 e 08/11/2017 tive a felicidade de participar, mais uma vez, da WTM Londres, o evento que está posicionado entre os três melhores do mundo quando se trata de turismo. Como não foi a primeira vez, o deslumbramento com a dimensão da feira e o volume de visitantes ocupa menos espaço mental e é possível fazer mais análises e comparações, as quais divido com você que está lendo esse texto.

Em primeiro lugar, ranking – importa de fato saber se é o primeiro, segundo ou terceiro mais importante evento do mundo? E quais são os aspectos que devem ser levados em consideração para dizer se é ou não o melhor? Bom, para mim, o elemento crucial que determina a importância de um evento é o quanto ele de fato tem de representatividade e qual o envolvimento dos diferentes interessados no evento. Com isso, até onde me consta, WTM Londres, FITUR Madrid e ITB Berlim cumprem essa função de forma profissional. E um único motivo explica isso – nos três eventos estão presentes as grandes organizações do turismo, como UNWTO (OMT), WTTC, PATA, IATA e similares, estão líderes de governos em todos os níveis, pesquisadores de alta produtividade e, efetivamente, os empresários do setor – pequenos, médios e grandes.

Particularmente, nesta WTM Londres, o evento mais concorrido e que gerou mais notas de imprensa foi o Ministers Summit, realizado na manhã do dia 07. Ministros de Turismo de vários países estavam presentes no círculo central ou na área restrita, a convite do Secretário Geral da UNWTO, e também representantes do parlamento britânico e do parlamento europeu, CEOs de companhias de cruzeiros, hotéis, aviação e AirBnB. O tema – overtourism – e a necessidade de ações efetivas para reverter quadros como os que se vê em Barcelona, Amsterdam e Veneza, e também medidas que possam evitar situações similares em outro destino. (Não, o Brasil não estava representado no painel, caso você ainda tenha dúvidas).

A programação de conferências foi extensa e cobriu praticamente todos os temas atuais, com grande concentração em mídias e influência digital, coleta, análise, interpretação e uso de dados para geração de inteligência de mercado, boas práticas de turismo responsável e responsabilidade social corporativa, e muito mais. No último dia, eventos especiais para estudantes de turismo, como estratégia de integração de talentos e apresentação das muitas oportunidades de carreira que o setor oferece – pelo menos 400 universitários disputaram um lugar na conferência ITT Future You, algo que eu, infelizmente, ainda não vi acontecer no Brasil.

Finalmente, a qualidade técnica dos estandes e da apresentação profissional de destinos, produtos e tecnologia. Mesmo sendo um excelente momento para reencontrar colegas e parceiros, a feira é o momento em que PRODUTOS são apresentados com o grande objetivo de realizar NEGÓCIOS. Os horários de reunião são respeitados, as pessoas entendem a necessidade de discutir preços, contratos, garantias, oportunidades e diferenciais. Não é uma festa. A festa vem depois, após o expediente.

E finalmente, a cidade acolhe o evento – o sistema público de transporte se prepara para o aumento no número de visitantes, há sinalização especializada, há deslocamento de efetivo (segurança, informação, promoção) para os locais de conexão e de entrada no evento. Há sinalização impressa, sonora e com a ajuda de pessoas. Londres funciona. Provavelmente por reconhecer a importância do evento, independentemente de sua temática. O espaço de eventos funciona. O conceito do evento funciona.

É um grande aprendizado. Especialmente por saber que em eventos assim as pessoas estão juntas com um mesmo foco.

 

Aqui no Brasil, entretanto, ainda estamos nos debatendo para não afundar. Pesquisadores distantes e alienados, fechados em círculos e falando para si mesmos; políticos desinteressados e sem nenhum compromisso com a causa, ou melhor, comprometidos apenas com a próxima eleição; e empresários brigando com os efeitos incontroláveis da inovação. Uma pena.

Nem “big”, nem “little” – o problema está um pouco mais embaixo…

Há quanto tempo você tem lido que precisa aprender a usar o tal do BIG DATA? De quantos eventos você participou com a intenção de entender, aprender ou ampliar sua compreensão sobre o tema? E o que de fato você já conseguiu fazer com tanta informação?

Há pouco mais de dois anos, em Madri, assisti ao Rafat Ali (CEO da Skift) explicar detalhadamente como abrir mão de ações de mídia massificadas para usar o marketing direcionado a partir do big data de empresas como Google e Facebook. Ensinou passo a passo como fazer, e ao final sorriu e disse – por mais que eu explique, ainda é cedo para que vocês entendam o quanto isso é importante e vai mudar a forma de vender qualquer coisa no mundo.

Pouco antes de escrever este texto, leio a notícia que o AirBnB adicionou R$ 2,5 bilhões ao PIB brasileiro em 2016, o ano em que a crise econômica se acentuou, apesar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo final de semana, a FGV indica aumento de 35,9% nas passagens aéreas, entre junho e setembro, após o início da cobrança de bagagens despachadas. As pesquisas da FGV consideram as passagens efetivamente vendidas, nas rotas mais procuradas. Dois relatórios confiáveis, cujos dados são abertos e a metodologia é clara e divulgada.

Por outro lado, os dados oficiais indicam aumento menor no preço das passagens, já que consideram a média de todos os trechos. Nas redes sociais, a maioria das pessoas que compartilhou essa notícia usou de ironia para indicar que, mais uma vez, o consumidor é levado ao engano por manipulação de dados. Outra informação que me deixa curiosa é o volume de visitantes da feira da Abav. Três responsáveis por stands com quem conversei (stands que entregavam algo que poderia ser considerado “brinde”) indicaram que menos de 50% das pessoas que os abordaram eram, de fato, agente de viagens. Mas, naturalmente, os relatórios oficiais vão indicar que foram mais de 20 mil visitantes e essa informação será utilizada nos argumentos de venda para o próximo ano.

A questão aqui é como os dados, “big ou little”, são tratados.

Listar perguntas em forma de questionário não é fazer pesquisa. Menos ainda copiar um formulário online, tirando o logotipo do concorrente. Avaliar um produto somente pela opinião de quem compra em uma dada região também não é correto. Pesquisa é uma atividade importante e que deve ser acompanhada por quem sabe o que está fazendo, escolhendo a metodologia adequada aos objetivos do interessado.

Portanto, duas recomendações – não acredite nos dados que chegam a você sem o endosso de instituições confiáveis (lembre-se, estamos em tempos de pós-verdade) e, sempre que possível, procure as informações contraditórias para poder formar sua opinião. E mais ainda (eu sei, já disse isso, mas não custa repetir): não é porque sempre foi assim que precisa continuar sendo.

Quando o mundo se encontra para discutir Turismo

Chengdu, China – 10 de setembro de 2017

Para qualquer pessoa que more na América do Sul, chegar a Chengdu (China) não é tarefa simples. Com o excelente serviço da Qatar Airways, o deslocamento de quase 28 horas é menos impactante, até porque é a rota mais inteligente saindo do Brasil. A conexão em Doha é muito tranquila, o aeroporto Hamad é, talvez, um dos mais modernos do mundo, com detalhes de muito bom gosto aliados à alta tecnologia.

Shuangliu, o aeoroporto de Chengdu, é também bastante moderno (mas não dá para comparar com Hamad). O fato de desembarcar em posição remota já diminui as boas impressões, mas era necessário por conta do desembarque dos ministros que estavam no voo. Ao pé da escada, pelo menos 30 voluntários uniformizados já sorriam para os convidados do evento.

A verificação de passaporte é um tema espinhoso em qualquer país, eu diria. Não seria diferente na China. Havia, no entanto, dois guichês especiais – um somente para portadores do cartão APEC (algo que o Brasil não participou por razões que nem convém comentar aqui para não começarmos a chorar juntos) e outro para os participantes da Assembleia Geral da UNWTO. Sete oficiais (isso, sete) conferiram passaporte, visto e credenciais para participação.

Esta é a segunda vez que participo de um Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo. A primeira, em 2015, foi em Medellín, na Colômbia. Por enquanto, incomparáveis. Os colombianos são hospitaleiros, sorridentes, e o regime político local nos permite manter contato com o mundo.

Em Chengdu há dois exércitos aparentes – um, de voluntários uniformizados que se esforçam para falar inglês (nem sempre conseguem, mas te ajudam mesmo assim) e outro de seguranças protegendo todas as áreas onde as delegações internacionais estão. Não há ambiente em que você possa entrar sem uma credencial eletrônica, sem revistas de segurança e sem muitos olhares dos diferentes agentes presentes para garantir que tudo corra bem.

Legalmente, não é possível acessar os principais sites que nos permite manter contato com o mundo – nada de Facebook, Twitter, Instagram, Google, Gmail, Snapchat. O WhatsApp funciona, mas nem sempre.

Nada disso entretanto, atrapalha. Praticamente todos os países membros da ONU que estão filiados à UNWTO enviaram seus representantes. Cores, roupas, línguas e muita alegria nos reencontros para discutir os muitos temas urgentes do turismo mundial – dos efeitos terríveis dos furacões no Caribe, às necessárias mudanças envolvendo práticas sustentáveis; da confirmação (ou não) do novo secretário-geral a maiores investimentos em educação para o turismo (será?).

Uma pena que praticamente não há brasileiros aqui. Pelo menos, até agora, não vi nenhum.

Se as conexões permitirem, a partir de amanhã posto mais informações sobre as principais discussões desta 22a Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo.

Mais barulho que dados

Já tem um tempo que me incomoda demais a quantidade de “autoridades” falando das ameaças da economia compartilhada, especialmente o AirBnB, para os estabelecimentos tradicionais do turismo.

Pois bem, chega hoje a notícia de um relatório feito pela Expedia com viajantes europeus e o resumo é simples – 67% dos britânicos preferiram ficar em hotéis, e 66% dos alemães também. Apenas 6% de britânicos e 10% de alemães preferiram hospedagem alternativa.  Quem respondeu a pesquisa viaja no mínimo 3 vezes ao ano a negócios e pelo menos 9 dias por ano em férias, de modo que são considerado grandes consumidores de serviços hoteleiros.

Alemães e britânicos gastam cerca de 31% do orçamento da viagem em hospedagem, e franceses gastam 22%. A pesquisa ainda indica que, em função da proximidade dos países e destinos, a despesa com hospedagem é a maior entre os gastos dos turistas, e que hotéis tradicionais seguem sendo a opção entre quatro tipos de clientes, de diferentes faixas etárias e comportamentos de consumo.

O que eu quero dizer com isso? Simples – onde estão as pesquisas que demonstram efetivamente como se comporta o consumidor de hospedagem no Brasil? São confiáveis ou são feitas na base do achismo e da invenção, como sempre? Quando estes senhores resolverem arcar com custos de boas pesquisas, provavelmente vão ter dados surpreendentes e que podem, muito certamente, contradizer suas crenças.

E de repente vão descobrir que não é a oferta de acomodação alternativa, mas sim a falta de bom trabalho na captação de novos mercados e atração de clientes.

Os detalhes da pesquisa estão aqui

Você trabalha com o Carnaval?

Das muitas particularidades da área de Turismo, uma delas é, no mínimo, fascinante: a miríade de possibilidades de trabalho. Em diferentes documentos que indicam o que pode fazer um profissional formado em Turismo, a lista passa de 30 subáreas diferentes, se for possível considerar (pelo menos neste ambiente) que eventos e hotelaria são uma subárea e não uma área propriamente dita.

Sete em cada dez alunos, em início de curso, manifestam interesse pela atuação na área de eventos; a maioria dos alunos considera como eventos, antes de ter contato com os professores e os textos da área, os casamentos, os shows e os grandes eventos que aconteceram no país. Há uma aura mágica sobre o setor que atrai os jovens, e certamente é uma das áreas que mais mantém profissionais de turismo empregados, pelo menos enquanto ainda são jovens e muito dispostos.

Porém, poucos são os que  listam o Carnaval como uma área de atuação profissional. Talvez por considerá-lo apenas um feriado ou uma grande festa, e não um mercado efetivo, efervescente e cheio de potencial, a saber:

– profissionalizar os serviços de uma escola de samba para além do período do carnaval em si, isto é, montar loja online, criar identidade e souvenires, organizar e vender os pocket-shows, atuar em formaturas, administrar os projetos sociais;

– profissionalizar a gestão dos blocos, pensando em rotas, segurança, captação de recursos e patrocínio, identidade, venda e licenciamento de marcas;

– atuar com consultoria para hotéis, resorts e cidades menores na organização de carnaval fora de época e festas temáticas sobre o Carnaval;

– colaborar na estruturação de produtos envolvendo o Carnaval brasileiro, ao longo de todo ano, para turistas estrangeiros;

– mapear as fugas do Carnaval, para atender aos turistas que odeiam a ideia da música e folia do período;

– aprofundar as pesquisas históricas e culturais para auxiliar blocos, grupos e escolas de samba na definição de temas e enredos;

– especializar-se na gestão de público, para atuar em parceria com o setor público na distribuição de serviços como banheiros químicos, segurança, limpeza e fornecimento de alimentos e bebidas.

Por agora, vista a fantasia (ou não) e aproveite o feriado, com responsabilidade.

Depois da quarta-feira de cinzas, considere se a alegria do seu carnaval não pode virar sua fonte de renda.