Sonhos de um bangalô em Bora Bora (e os desafios para mantê-los)

É difícil ficar indiferente à água azul turquesa da laguna de Bora Bora, a ilha mais famosa da Polinésia Francesa. Da janela do avião se vê as pequenas ilhotas, chamadas de motus, que cercam a ilha principal com suas linhas de bangalôs sobre a água. Parecem tentáculos de um polvo entre os corais da laguna. Dormir ao menos uma noite, se possível duas, em um desses bangalôs é desejo comum a turistas de diversas partes do mundo. Quem chega à distante Bora Bora para realizar o sonho invariavelmente espera encontrar uma hospedagem de alta qualidade. E é neste ponto que os hotéis em Bora Bora enfrentam hoje seu maior desafio.

O Monte Otemanu, símbolo de Bora Bora, 727 metros acima do mar. Foto de Carla Lencastre

Entre o final da última década do século passada e a primeira deste século, o turismo no Taiti e em outras ilhas do Arquipélago da Sociedade estava em alta. O impacto do 11 de Setembro foi sentido (americanos representam um terço dos visitantes) e os números despencaram. Voltaram a se recuperar nos anos seguintes, lentamente, e tiveram outra grande queda, ainda maior, no início desta década. O mundo e os turistas mudaram, surgiram novos destinos, o padrão de qualidade exigido hoje é outro. A Polinésia Francesa ficou mais ou menos no mesmo lugar. Sua beleza exuberante continua a mesma que fascinou o pintor Paul Gauguin no século 19. Os hotéis seguem os mesmos de anos atrás. O Tahiti Tourisme, agência nacional de promoção do destino, começou a trabalhar no reposicionamento da marca. O número de visitantes chegou a 184 mil em 2017, um aumento de 3,5% em relação ao ano anterior. Na virada do século, foram quase 260 mil. As redes hoteleiras voltaram a investir. Ainda há muito a ser feito, inclusive no que diz respeito ao serviço.

A cor desta água… Foto de Carla Lencastre

Em uma viagem de duas semanas por quatro ilhas, deu para perceber o quanto a infraestrutura hoteleira está envelhecida, tanto no conceito quanto pelos efeitos físicos do tempo, como a maresia. No item serviço, muitos funcionários parecem desanimados. Em Bora Bora, parada obrigatória de qualquer turista que chega tão longe, conheci mês passado quatro hotéis, de quatro e cinco estrelas. Todos estão em motus em torno da ilha principal e com vista para o Monte Otemanu. É o ponto mais alto da ilha, 727 metros acima do nível do mar.

Bangalôs overwater em Bora Bora. Foto de Carla Lencastre

Por fora, todos os bangalôs overwater são parecidos. A sensação de sair do quarto, descer a escada do deque privativo e entrar na água também é a mesma (ainda que debaixo d’água, de snorkel, seja diferente). É mais fácil identificar um resort pela vista do que pelo bangalô. Mas por dentro o estilo e o estado de conservação são diversos. Dos quatro hotéis visitados em Bora Bora, dois precisam de reformas urgentes para continuar no páreo. Outros dois têm feito o dever de casa.

Vista de um dos bangalôs do novo Conrad Bora Bora Nui. Foto de Carla Lencastre

O Conrad Bora Bora Nui, inaugurado ano passado, ainda tem cheiro de novo. No local funcionava um Hilton, que passou por uma reforma milionária para o upgrade de bandeira. Há bangalôs sobre a água, na praia de areias brancas e nos belos jardins. Com piscina privativa ou não. Alguns estão em uma colina com vista panorâmica.

Um dos quartos do Conrad na Polinésia Francesa. Foto de Carla Lencastre

A decoração é impecável. Tão neutra, elegante e cosmopolita que se as cortinas do quarto estiverem fechadas você pode se esquecer de onde está. É difícil encontrar um porém em um hotel deste nível, ainda mais recém-inaugurado. Se há algum é este: o quarto poderia estar em qualquer hotel de luxo mundo afora. O belo spa no topo de uma colina tem mais cor local, talvez porque todas as salas de tratamento tenham amplas janelas sempre abertas para a Polinésia.

Bangalô com piscina e vista para o Otemanu no bem cuidado St. Regis Bora Bora. Foto de Carla Lencastre

Outro bom exemplo hoteleiro de Bora Bora também pertence a um grande grupo americano: é o St. Regis Bora Bora, administrado pela Marriott International. Inaugurado há mais de dez anos, chama a atenção seu ótimo estado de conservação, graças a obras de renovação anuais, cada vez em uma área diferente do resort. Espalhado por três motus, o St Regis permite que o local se misture aos bangalôs. O ambiente é de uma casa de praia chique e descontraída. O resort é endereço de um spa com grife Clarins e de um restaurante assinado pelo estrelado chef Jean-Georges Vongerichten, o mesmo do paulistano Palácio Tangará.

O lago de ninfeias do Pearl Beach. Foto de Carla Lencastre

As marcas do tempo se fazem notar em outros dois resorts, o Bora Bora Pearl Beach e o Sofitel Bora Bora Private Island. Ambos estão em cenários deslumbrantes, mas muito desgastados. E planejam reformas. O Pearl Beach, com um romântico spa em meio a um lago de ninfeias, pretende fechar em 2019 e recomeçar.

Um dos bangalôs no jardim do Pearl Beach. Foto de Carla Lencastre

As obras vão incluir o redesenho de todas as áreas comuns e dos bangalôs, atualmente bem ultrapassados, ainda que com simpáticos toques polinésios. A ideia é transformá-lo em um cinco estrelas (hoje tem quatro).

Luz para atrair peixes à noite no Sofitel Private Island. Foto de Carla Lencastre

No Sofitel Private Island, o maior problema é dentro dos bangalôs, com madeiras descascadas, metais corroídos, portas que não fecham. As obras estão previstas para 2019. Agora em maio, a rede francesa AccorHotels vai começar a renovação da propriedade irmã, o Marara. É um resort de quatro estrelas na ilha principal em frente ao motu do Private Island.

E um novo dia amanhece em Bora Bora. Foto de Carla Lencastre

Outros famosos resorts em Bora Bora são Four Seasons, Le Méridien e InterContinental, este com duas propriedades na ilha. Se você visitou algum deles recentemente, compartilhe a opinião com a gente. A caixa de comentários é sua.

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Carla Lencastre

Jornalista especializada em estilo de vida, gastronomia e viagens. Anda pelo mundo desde sempre a passeio e a trabalho. Ex-editora de turismo do jornal O Globo, hoje colabora com diversas publicações no Brasil. Gosta de visitar novos lugares, de rever velhos conhecidos e de contar histórias que levem os outros a viajar. Suas viagens estão em tempo real no Instagram @CarlaLencastre.

6 thoughts on “Sonhos de um bangalô em Bora Bora (e os desafios para mantê-los)

  1. Enfim, um site na área de turismo que realmente presta um serviço isento e independente ao público, sem cheiro de merchandising ou de convite-gentileza (que precise ser retribuído pelo autor da resenha com profusão de elogios e nenhuma crítica necessária e útil ao turista).
    É uma raridade, praticamente impossível na grande imprensa. Adorei o texto da Carla Lencastre para Bora-Bora. Os outros ainda vou ler. Parabéns, continuem firmes, resistam! É uma grande ideia.

    1. Obrigada pelos comentários, Milton. A ideia é justamente é esta: informações úteis para os turistas e os agentes de viagem. Tem muita informação legal nos outros posts também. Passa lá!

  2. Olá, meus queridos amigos do Hotel Inspector. Que tal?
    Estive em duas press trips nesse paraíso espetacular, com duas noites em Bora Bora, hospedados no Four Seasons.
    Também visitei o St. Regis que, juntamente com o Intercontinental Thalasso, formam o ‘Trio dos Cobiçados’ dessa ilha surreal.
    É verdade, e concordo com a Carla, que por ser um dos lugares mais desejados e sonhados na Terra, o padrão de serviço dos hotéis em Bora Bora poderia sim, estar um degrau acima das mais exigentes expectativas globais. Contudo, também enxergo que há um movimento para elevar esses padrões, investimentos em todas os lados (bem realçados na matéria) e até projetos incríveis como as vilas overwater do The Brando, recém abertas, no final do ano passado, dentro da propriedade do Intercontinental Thalasso.

    Minha experiência no Four Seasons foi ótima. É realmente um resort de contemplação e conexão com a natureza estonteante do lugar. Serenidade dá o tom. O SPA tem vista singular do Monte Otemanu e os amenities seguem com maestria os padrões da marca FS. Senti um clima de tranquilidade na praia do FS e um tom mais descolado na do St. Regis. Difícil compará-los pois não estive hospedado no St. Regis (apenas almocei e fiz um tour) mas me parece que os dois disputam arduamente quesito a quesito, sendo quase impossível taxar um ou outro como superior. Nessa disputa do bem, faltou o Thalasso e claro, agora, o The Brando Bora Bora. Mas sempre temos que deixar algumas razões para voltar em destinos que mexem com nossa alma.
    Grande beijo a todos!

  3. Oi Carla,

    Parabéns pelo blog. Vou ler as demais postagens pois acabei de conhece-lo.

    Vou todo ano à Polinésia e conheço quase todos os hotéis. Em Bora Bora, todos.

    Uma pena você não ter conhecido o InterContinental Thalasso e o Four Seasons.

    O Conrad tem vantagem por ser recém reformado. O Four Seasons tem o peso do nome e é uma belíssima propriedade, mas tem crianças demais. O St. Regis é enorme, mas precisa de reformas. O Le Meridien está uma categoria abaixo. Eu voto no Thalasso pela vista, pela piscina, por ser muito bem cuidado e ter um atendimento acima da média. Por algum motivo, tem tarifas melhores que o 4S e Conrad.

    Ano passado conheci as suítes The Brando e são espetaculares.

    Em Tetiaroa, há o único 6 estrelas do Tahiti, o The Brando, que vale a visita, mas as diárias são de 3 mil euros. É difícil justificar uma tarifa dessas, por melhor que seja o hotel.

    Um abraço,
    Andressa

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