Passado e presente no hotel Ca’d’Oro, em são paulo

Um jogo de sombras entre o passado e o presente. Esta é a minha definição pretensiosamente “poética” para o Hotel Ca’d’Oro, reinaugurado há dois anos no número 129 da rua Augusta, no centro de São Paulo. Bem ao gosto e hábito paulistanos, a reforma de quase sete anos botou abaixo o edifício principal e o anexo do antigo e opulento Grand Hotel Ca’d’Oro, erguido em 1961, e colocou no lugar duas torres de fachada espelhada, uma residencial e outra comercial.

Antigo Grand Ca’d’Oro foi jogado “na chon” e substituído por duas novas torres | Foto: Fernando Torres

A demolição de um bem urbano é triste. Porém, foi este conceito mixed-use que viabilizou o renascimento do Hotel Ca’d’Oro. A propriedade ocupa hoje o térreo e o primeiro andar do edifício comercial, onde ficam a recepção, o restaurante e a administração. Já os apartamentos estão entre o 20º e o 27º andar. O trecho entre o 2º e o 19º é de escritórios e salas comerciais, com entrada e acesso totalmente independentes – isto é, hóspedes e executivos não se cruzam em nenhum momento. Parece confuso? Na prática, tudo funciona bem, como pude comprovar na minha hospedagem por lá no último fim de semana, a convite do hotel.

Mario Robert Spolaor, chefe dos mensageiros: funcionário desde 1979 | Foto: Fernando Torres

O Ca’d’Oro renovado é igual, mas é diferente: conserva vestígios do passado (vide o chefe dos mensageiros, acima), ao mesmo tempo em que se posiciona na realidade do presente. Busca o público de jovens executivos, enquanto carrega o peso da marca que hospedou nomes como Nelson Mandela, Pablo Neruda, Jorge Amado, Luciano Pavarotti, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Di Cavalcanti (que tentou pagar as diárias com permuta de quadros), reis e presidentes.

“O Grand Hotel foi o primeiro cinco-estrelas de São Paulo. Mas essa imagem não combina mais com o centro, que, embora esteja vivendo um grande processo de revitalização, atrai um tipo de hóspede que não solicita alto luxo. Por isso, o novo projeto foi por uma linha um pouco mais modesta, de quatro-estrelas, mas sem perder a elegância”, diz o gerente-geral Fabrizio Guzzoni, neto e herdeiro do fundador da marca, o patriarca italiano Fabrizio Guzzoni). Ele, o neto, fez questão de levar este Inspector para conhecer melhor o hotel, enquanto contava histórias e todo o processo de transformação do Ca’d’Oro.

A busca pela elegância e pelos tempos de glamour se percebe no bar e restaurante Ca’d’Oro, um salão de ares europeus, com estofados capitonê de veludo verde e um impressionante piano de cauda Erard, de 1860, feito em marchetaria. Além disso, obras de arte europeias, como a escultura do condottiero italiano Bartolomeo Colleoni, que, de tão “macho”, reza a lenda, tinha três testículos.

Fundado em 1953 (prelúdio do primeiro hotel da grife, aberto em 1956, na região da República), o restaurante Ca’d’Oro homenageia os pratos de outrora, do norte da Itália, no menu do almoço e do jantar. Fabrizio, o neto, trouxe de volta à cena clássicos como codornas com polenta, casoncelli de vitelo, coelho ao vinho branco e pato a Colleoni (servido com três figos, em referência àquilo de você sabe quem), além de risotos, ossobuco e carpaccio, verdadeiras excentricidades para a São Paulo daquela época. Mas quem reina absoluto é o Gran bollito misto alla Piemontese, servido em um gueridom, espécie de mesa e carrinho. Trata-se de um cozido misto de carnes e legumes, servido e montado à mesa e acompanhado de molhos verde, de raiz-forte e de mostarda. Um verdadeiro ritual!

Bar serve até hoje caipirinha de grife, responsável por inserir o drinque popular em
restaurantes frequentados pela alta-roda paulistana | Foto: Fernando Torres

Já o Ca’d’Oro 2.0 fica mais evidente elevador acima. A começar do número de acomodações, 147 apartamentos de padrão executivo divididos em cinco categorias, de 27 m² a 56 m². Para efeito de comparação, antes eram mais de 400 unidades, cobertas por tapetes persas, douradices rococós e muita pompa e circunstância. Assinado pela arquiteta Patrícia Anastassiadis, o design de interiores buscou atualizar a imagem clássica europeia, com cortinas e estofados de linho, papel de parede discreto e uma delicada peseira de cama em crochê azul-bebê. Senti falta de obras de arte no quarto, mas reconheço que o despojamento clean é mais condizente com a proposta.

O ponto alto mesmo é a vista aberta para o centro de São Paulo. A depender do apartamento, vê-se o Minhocão, ora o edifício Copan, o Farol Santander, a praça Roosevelt ou o cilíndrico edifício Ipiranga, prédio do antigo hotel Hilton e, atualmente, sede do Tribunal de Justiça – tudo emoldurado pela Serra da Cantareira. Ainda mais hipnotizante é a vista a partir da área de lazer, na cobertura. O espaço compreende academia de ginástica, sauna, solário e piscina climatizada em granito. Ao ar livre, lembra um oásis suspenso, em plena metrópole.

Meu veredito? Fiquei bastante impressionado com a veia camaleônica da marca Ca’d’Oro, capaz de, em pleno 2019, se reinventar e ser administrado com classe pela mesma família fundadora, sem intervenções de nenhuma bandeira – ao contrário de hotelões como o Maksoud Plaza, atualmente administrado pela Accor –, e sem se deixar vencer pelo ingratidão do tempo – a exemplo do antigo Othon Palace, na rua Líbero Badaró, que, decadente, fechou as portas em 2008. A ocupação, segundo a gerência, é de 60% a 70%, dentro do percentual médio da hotelaria paulistana.

Piscina e solário na cobertura: oásis com vista para a metrópole

Há quem torça o nariz para a localização, já que a região do Baixo Augusta ainda tem seus deméritos noturnos. Nada que um Uber ou similar não resolva. De dia, porém, adorei o pretexto para descobrir ou redescobrir, a pé mesmo, o centro pulsante. Nos próximos anos, a região ainda deve ganhar o Parque Augusta, conhecido como a última área verde do entorno.

Na próxima semana, a inspector Carla Lencastre fala do Grupo Selina, rede panamenha que acaba de incorporar um hotel na Lapa, ajudando a revitalizar a região central do Rio.

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Fernando Torres

Fernando Torres é jornalista e apaixonado por hotéis e viagens de topos os tipos. Gosta, sim, dos highlights e de desbravar as urbanidades, mas também é vidrado em destinos Lado B – adora as lonjuras da Barra da Tijuca e do Recreio, por exemplo –, onde a hospedagem se justifica por si só. É especializado no segmento de wellness e não resiste a uma massagem no spa.

4 thoughts on “Passado e presente no hotel Ca’d’Oro, em são paulo

  1. Texto maravilhoso que me transferiu para a São Paulo de outrora! Só em celebradas leituras, li descrição tão primorosa e atraente! Este belo empreendimento faz São Paulo renascer, com glória e pompa. Irei certamente me extasiar e encantar com este estabelecimento, na próxima visita a São Paulo. Como paulistana e admiradora das empreitadas boas e surpreendentes, breve me hospedarei no Ca’D’Oro! Parabéns Fabrizio neto! BRAVO!

    1. Olá, Aurélio. Obrigado pela leitura!
      Sim, nossa opinião é independente. Não somos remunerados para escrever sobre nenhum hotel específico. Qualquer eventual post patrocinado será claramente sinalizado. Às vezes pagamos nossas diárias, às vezes somos convidados pelo próprio hotel ou por um órgão de turismo. Em todos os casos, os textos refletem nossa opinião.
      Um abraço!

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