passado e presente no hotel ca’d’oro, em são paulo

Um jogo de sombras entre o passado e o presente. Esta é a minha definição pretensiosamente “poética” para o Hotel Ca’d’Oro, reinaugurado há dois anos no número 129 da rua Augusta, no centro de São Paulo. Bem ao gosto e hábito paulistanos, a reforma de quase sete anos botou abaixo o edifício principal e o anexo do antigo e opulento Grand Hotel Ca’d’Oro, erguido em 1961, e colocou no lugar duas torres de fachada espelhada, uma residencial e outra comercial.

Antigo Gran Ca’d’Oro foi jogado “na chon” e deu origem a duas torres | Foto: Fernando Torres

É sob este conceito mixed-use, que o hotel Ca’d’Oro revive. A propriedade ocupa o térreo e o primeiro andar do edifício comercial, onde ficam a recepção, o restaurante e a administração. Já os apartamentos estão entre o 20º e 27º andar. O trecho entre o 2º e o 19º é de escritórios e salas comerciais, com entrada e acesso totalmente independentes – isto é, hóspedes e executivos não se cruzam em nenhum momento. Parece confuso? Na prática, tudo funciona bem, como pude comprovar na minha agradável hospedagem por lá no último fim de semana.

Mario Robert Spolaor, chefe dos mensageiros: funcionário desde 1979 | Foto: Fernando Torres

O Ca’d’Oro renovado é igual, mas é diferente: conserva vestígios do passado (vide o chefe dos mensageiros, acima), ao mesmo tempo em que se posiciona na realidade do presente. Busca o público de jovens executivos, mas carrega consigo o peso da marca que hospedou nomes como Nelson Mandela, Pablo Neruda, Jorge Amado, Luciano Pavarotti, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Di Cavalcanti (que tentou pagar as diárias com permuta de quadros), reis e presidentes.

“O Grand Hotel foi o primeiro cinco-estrelas de São Paulo. Mas essa imagem não combina mais com o centro, que, embora esteja vivendo um grande processo de revitalização, atrai um tipo de hóspede que não solicita alto luxo. Por isso, o novo projeto foi por uma linha um pouco mais modesta, porém, sem perder a elegância”, diz o gerente-geral Fabrizio Guzzoni, neto e herdeiro do fundador da marca, o patriarca italiano Fabrizio Guzzoni.

A busca pela elegância e pelos tempos de glamour se percebe no bar e restaurante Ca’d’Oro, um salão de ares europeus, com estofados capitonê de veludo verde e um impressionante piano de cauda Erard, de 1860, feito de marchetaria. Além disso, obras de arte europeias, como a escultura do condottiero italiano Bartolomeo Colleoni, que, de tão “macho”, reza a lenda, tinha três testículos. O desjejum tem um bufê contido e polido e uma atmosfera onde todos falam baixinho e prezam por hábitos corteses.

Fundado em 1953 (prelúdio do primeiro hotel da grife, aberto em 1956, na região da República), o restaurante Ca’d’Oro homenageia os pratos de outrora no menu do almoço e do jantar. Fabrizio, o neto, trouxe de volta à cena clássicos como codornas com polenta, casoncelli de vitelo, coelho ao vinho branco e pato a Colleoni (servido com três figos, em referência àquilo de você sabe quem), além de risotos, ossobuco e carpaccio, verdadeiras excentricidades para a São Paulo daquela época. Mas quem reina absoluto entre as mesas é o Gran bollito misto alla Piemontese, servido em um gueridom, espécie de mesa e carrinho. Trata-se um cozido misto de carnes e legumes, montado e servido à mesa e acompanhado de molhos verde, de raiz-forte e de mostarda. Um verdadeiro ritual!

Bar serve até hoje caipirinha de grife, responsável por inserir o drinque popular em
restaurantes frequentados pela alta roda paulistana | Foto: Fernando Torres

Já o Ca’d’Oro 2.0 fica mais evidente elevador acima. A começar do número de acomodações, 147 apartamentos de padrão executivo divididos em cinco categorias, de 27 m² a 56 m². Para efeito de comparação, antes eram mais de 400 unidades, cobertas por tapetes persas, douradices rococós e muita pompa e circunstância. Assinado pela arquiteta Patrícia Anastassiadis, o design de interiores buscou atualizar a imagem clássica europeia, com cortinas e estofados de linho, papel de parede discreto e uma delicada peseira de cama em crochê azul-bebê.

Mas o ponto alto mesmo é a vista estonteante para o centro de São Paulo. A depender do apartamento, vê-se o Minhocão, ora o edifício Copan, o Farol Santander ou o cilíndrico edifício Ipiranga, prédio do antigo hotel Hilton e, atualmente, sede do Tribunal de Justiça – tudo emoldurado pela Serra da Cantareira. Ainda mais deslumbrante é a vista a partir da área de lazer, no 27º andar. O espaço compreende academia de ginástica, sauna, solário e piscina climatizada em granito. Ao ar livre, lembra um oásis suspenso, em plena metrópole.

Meu veredito? Fiquei bastante impressionado com a capacidade camaleônica da marca Ca’d’Oro, capaz de, em pleno 2019, ser administrada com classe pela mesma família fundadora, sem intervenções de nenhuma bandeira, ao contrário de hotelões como o Maksoud Plaza, por exemplo, atualmente administrado pela Accor. A ocupação, segundo a gerência, é de 60% a 70%, dentro do percentual médio da hotelaria paulistana.

Piscina e solário na cobertura: oásis
com vista para a metrópole| Foto: Leandro Siqueira

Há quem torça o nariz para a localização, já que a região do Baixo Augusta ainda tem seus deméritos noturnos. Nada que um Uber ou similar não resolva. De dia, porém, adorei o pretexto para descobrir ou redescobrir, a pé mesmo, o centro pulsante. Para os próximos anos, a região ainda deve ganhar o Parque Augusta, conhecido como a última área verde do entorno.

Na próxima semana, a inspector Carla Lencastre fala do Grupo Selina, rede panamenha que acaba de incorporar um hotel na Lapa, ajudando a revitalizar a região central do Rio.

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Hotéis butique em Santiago do Chile

A poucas horas de voo das principais capitais brasileiras, Santiago do Chile tem uma pequena coleção de hotelões, como Ritz-Carlton, W e Mandarin Oriental (ainda em fase de branding). Mas a lista de hotéis butique também não decepciona e ainda garante mais personalidade e originalidade na estadia. Veja as minhas escolhas durante duas recentes passagens pela cidade:

Luciano K
Instalado em um edifício art déco de 1920, é uma joia arquitetônica, espetada no bairro Lastarria, o primo hipster da Vila Madalena. O prédio, construído pelo célebre arquiteto chileno Luciano Kulczewski, já foi o mais alto do país e o primeiro a ter elevador e calefação. Reinaugurado em 2015, manteve a encantadora cápsula de ferro do elevador, o mármore da escadaria, os pisos e as portas de vidro e madeira.

As 38 acomodações são divididas em quatro categorias: standard, superior, deluxe – na qual me hospedei, com banheira revestida em madeira que dá vista para o Parque Florestal e para o rio Mapocho – e duas suítes. Os quartos têm ar moderno e refinado, em tons de azul, bancadas em mármore branco, portas de vidro com mosaico no banheiro e o melhor blecaute de hotel da vida.

Para o banho de banheira, amenidades inspiradas no mundo do vinho | Foto: Fernando Torres

O terraço, também com vista para o verde urbano, passa uma atmosfera descolada, com cardápio de comidinhas, drinques – não perca o welcome drink! – e uma “piscininha amor” ao ar livre para os dias de verão. Já o térreo conta com espaço onde é servido o desjejum e um bar/lounge de drinques mais intimista. Todos os espaços são abertos a não hóspedes. A sauna fica no primeiro piso.

Detalhe que me chamou a atenção: as flores naturais no quarto
Ponto fraco: a piscininha é realmente “inha”

Ladera Hotel

Fachada com segunda pele de aço sobre o vidro premiada em Paris | Foto: Fernando Torres

A fachada toda modernosa, com segunda pele de aço vazado sobre o vidro, entrega o conceito design da propriedade, sob o comando do renomado estúdio Larraín – o projeto venceu o prêmio internacional Prix Versailles 2017, na categoria melhor fachada de hotéis. Interior adentro, a estética de vanguarda predomina no hall social, no jardim de inverno e nos 36 apartamentos.

O Ladera está instalado em trecho residencial do bairro Providência, com mansões à la Jardim Europa por todo o canto e a poucos passos do Parque Metropolitano, onde fica o Cerro San Cristóbal. As opções de comércio, incluindo restaurantes, ficam do outro lado da avenida Costanera, que margeia o rio Mapocho. Para transitar de lá para cá, o hotel empresta bicicletas gratuitamente.

O hóspede também conta com a comodidade de bebidas e snacks do frigobar inclusos na diária, bem como um lanche da tarde, muito bem servido, por sinal. O restaurante do hotel, aberto ao público, e o serviço de quarto atendem bem a demanda de quem chega cansado do Valle Nevado e não quer botar o pé pra fora. Ah, e o café da manhã é servido a (quase) qualquer hora do dia!

No rooftop, a piscina com bordas de vidro acena para a vista de 360 graus, incluindo a imponente torre Sky Costanera, com a cordilheira dos Andes ao fundo. A piscina não é aquecida, problema contornado pela jacuzzi do SPA no térreo. E também pela ducha Vichy, um aparelho com cinco jatos de água horizontais, que se posicionam na região dos chacras, estimulando a circulação e o relaxamento.

Welcome candy apples na recepção: mimo inusitado de boas-vindas | Foto: Fernando Torres

Detalhe que me chamou a atenção: as inusitadas maçãs de amor de boas-vindas na recepção
Ponto fraco: a localização pode ser um problema para quem quer tudo à porta

Leia aqui sobre o hotel-vinícola Vik Chile, a 140 km de Santiago

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Natal Luz no novo Wood Hotel, em Gramado

Com mais de 80% da economia voltada ao turismo*, Gramado é modelo nacional em gestão e infraestrutura hoteleira. E a cidade gaúcha acaba de ganhar outra propriedade digna de nota. Aberto em outubro, em uma rua perpendicular à avenida Borges de Medeiros, o Wood Hotel pertence ao grupo Casa da Montanha, que detém mais duas opções de hospedagem no município e o glamping Parador Casa da Montanha, em Cambará do Sul. A inauguração veio em hora estratégica, dias antes da abertura do Natal Luz, a temporada mais concorrida do ano atualmente.

A madeira dá as ordens no design, a começar da fachada em estilo bávaro | Foto: Fernando Torres

O Hotel Inspectors foi convidado para conhecer e “inspecionar” a novidade. Saímos de lá bem impressionados. Com apenas 23 aposentos, o Wood é o que se pode chamar de hotel design, repleto de detalhes e de uma atmosfera que expira entre referências locais e universais.

Como o próprio nome sugere, é a madeira (wood) em estado bruto que dá as ordens. A começar da fachada em estilo bávaro, característica da serra gaúcha. No lobby, boto reparo no caprichado teto sobre a área do bar, rebaixado com blocos irregulares de madeira, o que proporciona efeito de profundidade. Mas há outros pontos de atenção, type o painel Topomorfose, da artista Heloisa Crocco, que envolve a lareira; o teto de ripas, também desniveladas, logo na entrada; a mesa de tronco, no living; a tapeçaria de lã de ovelha da slow designer Ines Schertel; a árvore de Natal de madeira, toda clean, sem bolas e firulas.

Teto do lounge rebaixado com blocos e ripas desnivelados de madeira | Foto: Fernando Torres

Elevador acima, também revestido em madeira, o hotel detém apenas duas suítes, com banheira de porcelana e um painel que se transforma em beliche. Essas unidades são pensadas para acomodar famílias de até quatro pessoas – mas, a meu ver, a jacuzzi propicia um clima beeeem romântico para casais que privilegiam o estilo que se convencionou chamar de “lifestyle”.

Que tal nós dois, nesta banheira de espuma? | Foto: Fernando Torres

Como estava solito, hospedei-me na categoria Room, com uma bela varanda de frente para a rua. Embora não muito grande, o quarto tem detalhes fofos e se esmera em tornar a hospedagem agradável. A começar do cupcake de boas-vindas, disposto em uma tábua feita com exclusividade pela Monã, da vizinha Canela. O frigobar e o minibar de nuts e frutas secas são inclusos na diária e repostos diariamente, bem como as cápsulas de café espresso (alô, alô, Mari Campos!). O ambiente exala o energizante aromatizador de canela, e frases espirituosas dão o tom às amenidades, como a da embalagem do secador de cabelo (“Seu bad hair day termina aqui”).  Os produtos de banho são da L’Occitane.

À noite, na abertura de cama, bombons e uma garrafa de água filtrada recebem o hóspede com pantufas e lençóis Trussardi. Destaque ainda para as minúcias high-tech. Sensores de luz instalados no piso acendem com o movimento de passos, para que ninguém se preocupe em acender a luz. Tomadas mil e saídas USB também proliferam, tanto na cabeceira da cama, quanto em toda a extensão do bar.

É ali, aliás, que está o coração do Wood Hotel. Sob as rédeas do chef Rodrigo Bellora, do premiado Valle Rústico, de Garibaldi (RS), a cozinha do Wood Restaurante & Lounge Bar envereda pelo conceito farm to table, com valorização de ingredientes frescos de produtores locais. O cardápio privilegia pratos regionais com releituras globais, como costela laqueada com demi-glace de butiá (fruta típica da região), capeletti in brodo de aves e polenta na chapa com ragu de bochecha bovina.

Café depois das 11h? Que comam brioches (com ovo mollet e toucinho, pf)! | Foto: Fernando Torres

O esmero também se vê no café da manhã, em sistema de bufê, mas com uma disposição elegante, sem a excessiva quantidade erroneamente confundida com fartura. Para quem gosta de acordar tarde, boa notícia: o desjejum à la carte se estende até 17h, com itens como brioche + ovo mollet  + toucinho ou focaccia com cogumelos.

Para 2019, está prevista a inauguração das unidades do Wood Residences, que terão serviço de camareira do hotel e acesso privilegiado ao restaurante. Senti falta de uma área de lazer. Os hóspedes podem utilizar a piscina e a jacuzzi cobertas do hotel Casa da Montanha, a exatos 180 metros, e uma academia parceira, também na vizinhança. Mas embora as instalações do hotel-irmão sejam boas, não é prático – pense em um dia de chuva, por exemplo – e o deslocamento não condiz com o alto nível das acomodações do Wood. Veredito: um ofurô e/ou uma pequena piscina cairiam muito bem.

*dados da Gramadotur

O jornalista viajou a convite do grupo Casa da Montanha e da Avianca Brasil

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Volta ao passado em hotéis fazenda no Brasil

Ao longo dos séculos 18 e 19, tropeiros e mineradores cruzavam às matas brasileiras de ponta a ponta, deixando atrás deles rastros de civilização – e uma grande vocação turística. É que a casa-grande das antigas fazendas se transformou em hotel, com piso, paredes e móveis da mesma época em que foram erguidas. Tudo regado à histórica hospitalidade do interior: café passado na hora, licor de jabuticaba e comidas típicas.

Fazenda Fonte Limpa, em Santana dos Montes (MG), de 1742: tombamento histórico | Foto: Fernando Torres

Minas Gerais é uma das campeãs em fazendas históricas. Só o pacato vilarejo Santana dos Montes tem 14 delas, sendo que algumas já descobriram o filão turístico. A Fazenda Fonte Limpa saiu na frente: datada de 1742, foi restaurada nos anos 1990 e abriu as portas para hóspedes em 1997. A casa e a senzala originais, tombadas pelo Patrimônio Histórico, servem comida mineira preparada no fogão à lenha e abrigam boate, biblioteca, capela e um museu da centenária família Nogueira, com vestidos de festa, fotos e documentos. O complexo ainda possui piscinas, sauna, ofurô, salões de jogos, academia e promove cavalgadas pelos arredores nas noites de lua cheia.

Fazenda da Chácara, em Santana dos Montes (MG): casarão de 1741 é porta de entrada para acomodações modernas | Foto: Fernando Torres

Também no município, a Fazenda da Chácara fica em uma área de 126 hectares. Conserva o casarão principal, de 1741, como área de lazer e convivência, mas investe em 28 acomodações modernas e uma taberna para jantares e serestas. Imperdível mesmo é a visita à vizinha Fazenda do Guarará, do mesmo proprietário. Embalado pela cachaça produzida no alambique da fazenda, o fazendeiro Aloísio Pereira gosta de perambular pessoalmente com os visitantes pelos vinhedos de uvas Cabernet, Merlot e Syrah, as plantações de patchouli, o estábulo de criação de gado para leite, o lago de pesca esportiva e, finalmente, a área de produção da cerveja artesanal Loba e da cachaça Itaverense.

Outra dos meus hotéis fazenda preferidos fica em Itu, a Fazenda Capoava, a cerca de 100 km de São Paulo. Erguida em 1750, a casa bandeirista e era um dos maiores engenhos de cana-de-açúcar do século 18; de plantação de café, no século 19; e de gado, nos anos 1930. Só em 2000, a Capoava virou hotel, mantendo a sede principal de taipa e pilão, a capela anexa ao alpendre e as edificações construídas pelos imigrantes italianos, logo após a Abolição.

Restaurante da Fazenda Capoava, em Itu (SP): delícias da culinária caipira | Foto: Fernando Torres

A infraestrutura atual inclui novos chalés, piscina, sauna, quadras de tênis, massoterapia e stand up paddle em um dos cinco lagos que circundam a propriedade. Vale ainda conhecer os arredores, como a Ilha dos Macacos, habitat de macacos-prego, tucanos-toco, araras-canindé e outros animais silvestres, e percorrer a cavalo a trilha de 14 quilômetros que leva ao Armazém do Limoeiro da Concórdia, antiga mercearia que vendia de tudo no século 19. Depois de se empanturrar com as velhas delícias da culinária brasileira, como leitão assado à pururuca, vaca atolada, pão de abobrinha e bolo de milho, a viola caipira anima a noite com o ritmo repentista cururu.

Não é fácil competir com as piscinas naturais e as barreiras de corais de Maragogi, no litoral norte alagoano. Mas a Fazenda Marrecas consegue se sair muito bem. A viagem pelo tempo começa a partir do casarão principal, datado de 1780, que mescla as arquiteturas árabe e portuguesa, na época do governo do português Marquês de Pombal – as paredes são erguidas em torno de armação parecida com uma gaiola de madeira. Outro atrativo histórico é o Engenho Marrecas, cujos registros mais antigos são de 1849. Embora seja uma construção recente, a capela também tem apelo histórico: foi inspirada nas igrejas coloniais de Ouro Preto (MG) e na capela do Forte Brum, em Recife (PE), com peças sacras adquiridas em Roma, sino fabricado em Portugal e altar trazido de Olinda (PE).

Capela da Fazenda Marrecas, com o casarão ao fundo, em Maragogi (AL): cenografia de cinema e novela | Foto: divulgação

Cenográfica, a fazenda serviu de locação para a novela global A Indomada, em 1997 (alô, Canal Viva!), e também do longa Joana Francesa, de Cacá Diegues, de 1973. Só depois dessa fama midiática é que os proprietários decidiam transformá-la em pousada rural, em 2002. Um dos pontos altos dessa fase é a gastronomia, com pratos típicos da culinária nordestina. É o caso das geleias de caju, jaca e banana, bem como a tradicional cachaça envelhecida, ainda produzida no antigo engenho de cana-de-açúcar.

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Gastronomia e day-use nos hotéis Sol Ipanema e Praia Ipanema

Dia desses, em uma escapada ao Rio de Janeiro, fui convidado a conhecer dois restaurantes em hotéis na avenida Vieira Souto: o Masserini Osteria di Mare, no hotel Sol Ipanema, e o Espaço 7zero6, no hotel Praia Ipanema. Quem conhece o Rio de outros carnavais sabe que os edifícios são praticamente duas instituições cariocas, da era em que os espigões disputavam a melhor vista do morro Dois Irmãos – mesmo quando eles resolvem se esconder, caso da foto acima.

Descobri durante a visita que eles estão entrelaçados não apenas pelo CEP. Foram também construídos pelos mesmos empresários, os irmãos Jorge, Nicolau e Ésper Chami, descendentes de sírios fugidos da Primeira Guerra, e até hoje são administrados por membros da família. O Sol Ipanema, mais sisudo, foi fundado em 1973, na altura do posto 9, sendo o primeiro hotel da orla Ipanema-Leblon, com 90 apartamentos distribuídos em 17 andares. A propriedade já viveu dias de glória: nos anos 1970, era ponto de encontro da turma de Sônia Braga, no intervalo das gravações de Gabriela e Dancin’ Days – hoje, pede uma reforma, especialmente no acanhado rooftop, que desperdiça o potencial da vista escandalosa. Já o Praia Ipanema, quase na divisa com o Leblon, é de 1981 e fez a cabeça de gente como Clodovil e as escritoras Ruth Rocha e Lya Luft. Mais ensolarado, mais bem conservado e de arquitetura mais privilegiada, ainda acena com o louro de ter todos os cem aposentos, bem confortáveis, com vista para o mar.

Polvo, foccacia, vinho branco e Ipanema: quer combinação mais perfeita? | Foto: Fernando Torres

Mas vamos à gastronomia. Com a assinatura do chef Rafael Marmelo (ex-Pici), o Masserini Osteria di Mare foi inaugurado há pouco menos de um ano no primeiro andar do Sol Ipanema, em substituição à filial do Gabbiano, da Barra. A culinária, como o próprio nome diz, envereda pela Itália marítima, o que já se espreita na bela decoração em azul, com temas navais, e pela vista das ilhas Cagarras e da praia lotada, separadas pelo janelão envidraçado e pelo ar-condicionado. (A propósito, Lulu Santos estava por lá e parece ter curtido.)

Um olho no mar e outro no pescado, escolhemos como antipasti o polvo marinado, acompanhado de focaccia. Serve muito bem duas pessoas, mas o anfitrião insistiu para que experimentássemos a cesta de pães artesanais, servidos com sardela, presunto de Parma, azeitonas marinadas, parmesão e geleia de pimenta-dedo-de-moça. Duas entradas irretocáveis, que reduzem a chance de pedir primi piatti e secondi piatti, como mandam os italianos.

Agora com vinho rosé, Gamberoni al Jorge (no destaque) e risoto de moqueca: entre o clássico e o arretado | Foto: Fernando Torres

Torci o nariz para a escolha de prato do meu companheiro de viagem: risoto de moqueca, com leite de coco, dendê e camarões. Paguei a língua. A arriscada invenção apresentava frescor no paladar e uma surpreendente leveza, como se fizesse apenas uma citação bibliográfica ao ardor baiano. Meu pedido foi o Gamberoni al Jorge, criação do fundador do hotel: camarões salteados na manteiga, flambados no uísque e servidos com arroz puxado no próprio molho. Com quase 45 anos de história, pode soar um pouco fora de moda, mas, ao invés disso, mantém a elegância da cozinha clássica, além de ser muito saboroso.

O Espaço 7zero6, por sua vez, fica no rooftop do hotel Praia Ipanema. A área, inclusive, foi renovada há alguns anos, com piscina de borda infinita e vista de 360 graus, sem concorrência, para o mar, a lagoa Rodrigo de Freitas, o Corcovado. Com cara de lounge, tem sofás espalhados entre as mesas, bar e cadeiras ao ar livre. O sorridente chef Kadu Soares comanda a cozinha e exibe no currículo passagem pelo Le Jules Verne, de Alain Ducasse, no segundo andar da torre Eiffel.

Linguine com camarões do Espaço 7zero6: sabores equilibrados com vista panorâmica | Foto: Fernando Torres

O cardápio é enxuto, com duas opções de saladas, dois sanduíches e sete pratos principais, privilegiando ingredientes leves, ideais para o almoço tardio – até porque, com aquele visual, a melhor hora da visita é durante o dia, de preferência, em um formato day-use, com direito ao uso da piscina e de um quarto. Fomos na sugestão do chef: uma honesta burrata de entrada, seguida por por um prato recém-chegado ao cardápio: linguine com camarões ao molho bisque, com gengibre, coentro e pimenta-dedo-de-moça. São todos ingredientes da vez, diga-se de passagem, mas bastante equilibrados na composição. Permita-se uma sobremesa, também novidade: o suflê de chocolate com raspas de limão e flor de sal. E permita-se também um drinque, como um grand finale, agradecendo ao Cristo por estar na Cidade Maravilhosa. Anote: a carta é assinada por Alex Mesquita, da cachaça Leblon.

Leia mais sobre outros restaurantes de hotel no Rio de Janeiro.

Leia mais sobre os hotéis na Praia do Futuro, em Fortaleza.

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Estreamos a cama do novíssimo Fasano BH!

Com ou sem crise, o Brasil está no radar do alto luxo hoteleiro. E não apenas na lista de investidores estrangeiros, como a rede canadense Four Seasons, que, finalmente, irá quebrar o jejum tupiniquim no dia 15 de outubro, com o Four Seasons São Paulo. O zum-zum-zum da vez é o grupo brasileiro Fasano: ao mesmo tempo em que debuta o aniversário de 15 anos do hotel em São Paulo, a marca inaugurou, no dia 28 de setembro, o Fasano Belo Horizonte, o sexto empreendimento no setor. Isso menos de um ano depois de abrir uma unidade em Angra dos Reis e já na contagem regressiva para a estreia do Fasano Salvador, marcada para dezembro.

Fachada do hotel tem tijolos de terracota e revestimento de chapas de alumínio | Foto: Fernando Torres

A chegada à capital mineira é o capítulo final de uma novela. Planejado para antes da Copa de 2014, o Fasano BH, inicialmente, se instalaria na praça da Liberdade, epicentro cultural da cidade. Não deu certo, devido a questões ligadas à licitação do imóvel. O grupo, então, decidiu investir em Lourdes, o bairro mais nobre de Belo Horizonte, onde ergueu um prédio de 12 andares praticamente do zero. A abertura levou quase dois anos além do previsto. Mas valeu a pena esperar, como pudemos comprovar em nosso check-in, logo na primeira semana, com direito a “batismo” de cama.

Legitimada pelo serviço discreto e elegante, a marca mantém o alto padrão em Belo Horizonte. O tom atemporal – clássico e, ao mesmo tempo, contemporâneo – se insinua já na fachada, que mescla tijolos de terracota ao revestimento de chapas de alumínio. Na sequência, o lobby se revela sem meias palavras. A decoração sóbria e refinada tem muita madeira, piso em mármore travertino bruto, luminosidade natural sobre jabuticabeiras indoor e um toque de mineiridade, a exemplo das gamelas de fazenda, que acolhem arranjos de flores.

Jabuticabeiras sob a luz natural na antessala do restaurante Gero, que estreia em hotéis | Foto: Fernando Torres

O DNA mineiro continua elevador acima, nos 77 apartamentos, com diárias que saem a partir de R$ 975 e áreas a partir de 27 m². Fiquei hospedado no confortável apartamento deluxe (35 m²), abraçado por lençóis Trussardi de 300 fios e uma infinidade de travesseiros de plumas de ganso. A atmosfera é clean, puxada para o bege, com cortinas e tapetes de linho, calçadeiras e poltronas de couro, peças de decoração em pedra-sabão. Senti falta de obras de arte e de flores, especialmente nas suítes, que poderiam “esquentar” e personalizar o ambiente monocromático. Nos banheiros, o acabamento é impecável, totalmente recoberto em mármore travertino e box de vidro até o teto, em todas as categorias. Somente as suítes têm banheiras – no caso da Penthouse, de 110 m², há ainda uma jacuzzi na varanda. As amenidades são de marca própria, com óleo de Argan.

Suíte Penthouse: inspiração mineira com escala monocromática | Foto: Fernando Torres

O spa fica na cobertura, no 12º andar, integrado à piscina de mármore, climatizada e aberta (é claro que fiz uso desta belezura!). O menu de tratamentos segue a linha dos outros hotéis Fasano, com produtos de aromaterapia da linha By Samia. Escolhi a massagem Deep Tissue, a quatro mãos e, voilá!, entrou para o segundo lugar do ranking de melhor terapia do meu mundo. Nos pacotes de day spa e alguns tratamentos, o cliente pode utilizar a sauna e a piscina, ao contrário do Fasano de Ipanema, onde o acesso é apenas para hóspedes. Esta, aliás, é uma decisão acertada da rede para se adequar ao mercado de Belo Horizonte, uma cidade que, ao contrário do Rio, tem uma demanda turística reprimida, dependendo, portanto, da aderência dos próprios moradores.

Piscina na cobertura: integrada ao spa, é aberta ao público de clientes | Foto: Fernando Torres

A estratégia se repete no lobby, concebido para ser ocupado pela cidade, seja para um drinque de negócios no bar ou o jantar no restaurante Gero, o primeiro do portfólio Fasano acoplado a um hotel. A cozinha, de pegada italiana clássica, é comandada pelo chef Fábio Aiello, que serve pratos como ravióli de vitelo, penne com pecorino, filé com trufas negras e foie gras, tiramisù. Tudo muito saboroso e elegante, sem afetações. E também uma mineiridade: a carta de cachaças, harmonizada com os pratos (o frigobar também tem um exemplar da cachaça Vale Verde). No primeiro andar, o Fasano traz de São Paulo a marca Baretto, com agenda de jazz, pop rock e discotecagem, de quinta a sábado. A expectativa é que vire point da turma que gosta de ver e ser vista.

Lobby bar, ao fundo: expectativa é ter aderência dos moradores | Foto: Fernando Torres

Walking distance – o que fazer na região
O novo Fasano está localizado a duas quadras do principal centro gastronômico de BH. Os restaurantes em destaque são o contemporâneo Glouton, do chef Leo Paixão; Alma Chef, do francês Emmanuel Ruz (uma estrela Michelin); Trindade, de comida brasileira, e Taste-Vin, uma entidade da cozinha francesa. Para fazer compras, não precisa nem sair do quarteirão: o hotel está ao lado da loja da Animale. As redondezas do bairro arborizado também abrigam as butiques das grifes mineiras Vivaz, Barbara Bela e Zak e uma unidade da Le Lis Blanc. Entre uma compra e outra, vale se esbaldar nas receitas argentinas da sorveteria Alessa. E, claro, fazer uma corrida curta de táxi até a praça da Liberdade para conferir as atrações do circuito cultural.

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Gran Mareiro e Crocobeach: os novos hotéis da Praia do Futuro, em Fortaleza

Com longa faixa de areia branca, mar limpo e espetacular infra de barracas com jeitão de clube, a Praia do Futuro, em Fortaleza, está entre as mais famosas do Nordeste brasileiro. Mas o presente do Futuro ainda é nebuloso. A violência urbana (é praticamente proibitivo circular a pé nas áreas fora do entorno das barracas e dos hotéis), o alto nível de maresia e um mercado imobiliário acomodado são alguns dos entraves que prejudicam o pleno desenvolvimento do turismo na região. Assim, o forte do polo hoteleiro se concentra em Iracema, Meireles ou Mucuripe, onde o mar, embora bonito, geralmente está impróprio para banho. À Praia do Futuro resta a badalação durante o dia, mas o isolamento à noite.

O mar vai dar praia em frente ao hotel: não tem preço | Foto: Fernando Torres

Desde 2001, o hotel Vila Galé reinava absoluto por lá, marcado por quartos envelhecidos*, boa estrutura de lazer e sua própria barraca de praia, tranquila, aberta ao público e reinaugurada há poucos meses. Só que a cena começa a mudar, marcada pela chegada recente de dois hotéis: o Gran Mareiro e o Crocobeach. Ambos são classificados como quatro estrelas e valem o check-in despretensioso e com excelente custo-benefício para quem valoriza a sensação de acordar em frente ao mar que vai dar praia durante o dia.

Parte da piscina sinuosa do Gran Mareiro: área molhada ainda conta com duas jacuzzis | Foto: Fernando Torres

Hospedei-me, em agosto, por três noites no Gran Mareiro, inaugurado em dezembro de 2015, com investimento de quase R$ 100 milhões. Pertencente ao Grupo Mareiro, que possui um hotel em Meireles, o Mareiro, a propriedade tem como ponto forte a agradável piscina ao ar livre, que ocupa toda a extensão do terreno, no térreo. De recorte sinuoso e com trechos rasinhos para as crianças, ela é complementada com duas jacuzzis aquecidas e um bar molhado. Outro destaque é a localização, literalmente em frente à barraca Órbita Blue, inaugurada no segundo semestre de 2016 e que, em ritmo de baladinha, virou “o” point da Praia do Futuro, já demarcando um novo olhar de ocupação para o bairro.

Lobby descontraído e iluminado | Foto: divulgação Gran Mareiro

No interior do hotel, o lobby amplo e iluminado tem decoração descontraída e de bom gosto. Ao contrário dos 270 quartos (14 suítes), que, embora confortáveis e novinhos, soam simplórios  – a peseira amarela soa cafona mesmo. Não é nada tão grave, dá pra superar: reserve um quarto com vista frontal do mar e foque no horizonte. Aproveite para mirar algumas das melhorias implementadas pela prefeitura nos últimos anos: calçadão ampliado, ciclovia, bolsões de estacionamento e areninhas esportivas.

Já que falta bossa nos quartos do Gran Mareiro, foco no horizonte: #apeseiraamarelanao | Foto: Fernando Torres

A apenas 500 m de distância do Gran Mareiro, o hotel Crocobeach foi inaugurado em fevereiro de 2016, como “anexo” à mega barraca homônima, a maior de Fortaleza.  Aliás, eis uma vantagem: os hóspedes têm preços diferenciados nos serviços, como acesso à piscina e aos toboáguas pé na areia, salão de beleza, sauna e espaço de massagem. São 94 quartos por aqui (quatro suítes), com um vislumbre de graça a mais que no concorrente, a maioria deles com varanda e todos bem novos e conservados. A piscina do hotel, porém, é pequena, comparada a do Gran Mareiro.

Embora a piscina do Crocobeach não seja muito grande, os hóspedes têm acesso especial à piscina pé na areia da barraca quase em frente | Foto: divulgação Crocobeach

No quesito gastronomia, ambos servem fausto e delicioso café da manhã incluso na diária e têm restaurantes de bufê no almoço e de opções à la carte à noite. Com pratos bem servidos, são uma mão na roda para quem não quer sair da região. Guarde bem: a única opção para deslocamento à noite é o automóvel, sendo que uma corrida até um dos restaurantes da Varjota ou da avenida Beira-Mar gira entre R$ 15 e R$ 20. Em tempo: em Mucuripe, uma sugestão é provar o menu oriental do Mangostin, restaurante dentro do Gran Marquise, o hotel mais elegante da “velha” Fortaleza.

* O Grupo Vila Galé entrou em contato com o Hotel Inspectors para informar que investiu recentemente R$ 3 milhões na renovação dos quartos e áreas comuns do Vila Galé Fortaleza

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Mais hotéis de luxo na Geórgia, EUA

No meu post mais recente, que você pode ler aqui, falei sobre alguns hotéis no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, relacionados ao filme “E o Vento Levou”, um de meus preferidos na vida – “Frankly, my dear, I don’t give a damn“. Porém, é evidente que a hotelaria da região não se restringe ao tema e à volta ao passado. Na mesma viagem, também fiquei hospedado em dois hotéis de luxo, que renderam experiências incríveis: o Four Seasons Atlanta, na região de Midtown; e o Château Élan, em Braselton, a 40 minutos de carro de Atlanta.

A torre GLG Grand, onde fica o Four Seasons, nos melhores arredores de Atlanta | Foto: divulgação

Não é segredo que a rede Four Seasons escolhe as melhores localizações para se instalar. E, de fato, Midtown Atlanta tem o best of the best da cidade: gastronomia e vida noturna, o pulmão verde Piedmont Park, o Fox Theatre, com musicais da Broadway, e também o centro cultural Woodruff Arts Center, sede do High Museum of Arts, um dos melhores acervos de arte americana no país. A torre art déco do Four Seasons, a GLG Grand, é a mais alta dos arredores, com 186 m e 53 andares, dos quais um terço pertence ao hotel. O átrio não deixa dúvidas sobre a elegância da escolha: uma grande escadaria de mármore espanhol vermelho, lustres de cristal, grandes colunas e mobiliário em estilo europeu.

A elegante escadaria em mármore espanhol vermelho do Four Seasons Atlanta | Foto: divulgação

Em seus 19 andares, o Four Seasons concentra 226 apartamentos e 18 suítes, com vistas panorâmicas para Midtown. Fiquei hospedado na Luxury Suite, decorada em tons pastel e dourado, com sala de estar, camas king size e salas de banho em mármore e banheira. Além dos mimos cinco-estrelas já conhecidos da marca – amenidades assinadas pela Bulgari, vinho, frutas  de boas-vindas, etc. –, a hospitalidade e o atendimento personalizado impressionam. No desjejum, manifestei ao garçom a curiosidade de saber se o carrot cake, bastante comum em outras partes dos Estados Unidos, também era servido na Geórgia. Mais tarde, a surpresa: quatro cupcakes do sabor mencionado estavam à minha espera em cima da mesinha do living.

Luxury Suite e carrot cakes: seu desejo é uma ordem | Fotos: Fernando Torres

Localizado no térreo, o spa foi outro suprassumo. Fiz uma das melhores tratamentos de que tenho lembrança, o The Midtown Massage, que inclui esfoliação, reflexologia e massagem corporal e no couro cabeludo, seguida de uma taça de prosseco. A área ainda abriga o fitness center, com piscina olímpica coberta e aquecida, banheira de hidromassagem, sauna seca e úmida, academia e um terraço.

Château Élan, em Braselton, inspirado nas construções rurais da França| Foto: Fernando Torres

O resort Château Élan, por sua vez, é a opção para quem quer fugir da cidade. O complexo, em uma área verde de 3,5 mil acres, compreende campo de golfe, piscina, jacuzzi, quadra de tênis, vinhedos, adega e sete restaurantes, dos quais o carro-chefe é o Versailles, especializado na tradicional cozinha americana. A atmosfera das construções remete aos castelos rurais da França do século 16, especialmente o prédio principal, com 250 apartamentos e 25 suítes, todos com decoração ao estilo provençal, nos tons dourado e azul-mediterrâneo. Outra opção de pernoite são as vilas, indicadas para grupos maiores, já que têm de dois a três quartos, cozinha equipada e sala com lareira de LED.

Vocês já sentiram que eu gosto de spa, né?! Pois bem, o do Château Élan fica em um prédio reservado, em estilo mansão de campo francesa, e também pode servir de hospedagem. No caso, sai a mesa para laptop, entra a sala de banho, com banheira e velas aromáticas. O compacto restaurante Fleur-de-Lis dá vida para o lago e a floresta que cercam a área, com pratos de calorias controladas, como a salada de camarão asiático em infusão de chá-verde. O fitness center, por sua vez, oferece aulas de ioga, pilates e hidroginástica na piscina aquecida. É pra desligar o celular e se perder em si mesmo…

No Château Élan, apenas desligue o celular e relaxe | Foto: Fernando Torres

Por ser uma vinícola, a exemplo do Vik Chile, que já falei aqui, o Château Élan também promove diariamente degustações de vinhos locais e realiza tours pelos vinhedos e adegas. A casa detém, atualmente, 29 rótulos e se anuncia como a adega mais premiada da costa Leste nos últimos três anos, com mais de 300 prêmios. Entre os destaques, o elegante e premium Nancy, blend branco das uvas Viognier, Trebbiano, Albarino e Chardonnay; o Les Petits, uma mistura de Petit Verdot e Petit Syrah; e o rosé Summer Wine, produzido a partir da uva Muscadine + essência do néctar de pêssego, a fruta ícone da Geórgia. And the livin’ is easy…

Summer Wine, and the livin’ is easy… | Foto: Fernando Torres

Hotéis que o vento não levou – Georgia, EUA

“O que você vai fazer na Geórgia?”, foi a pergunta que ouvi quando disse que iria passar férias no estado que faz fronteira com a Flórida e, embora tenha o aeroporto mais movimentado do mundo, ainda é tão pouco visitado por brasileiros com fins turísticos. Bem, reconheço que o motivo inicial da viagem era trabalho, mas, ao conseguir esticar por pouco mais de uma semana, nem cogitei ir a outros destinos mais badalados dos Estados Unidos. Preferi passar aqueles dias em meio à atmosfera low-profile de Atlanta e arredores, em busca de vestígios da civilização de Scarlett O’Hara, uma das personagens que mais me fascinam no cinema e na literatura.

Fachada do Georgian Terrace, de 1911, em Midtown | Foto: Fernando Torres

No quesito hotelaria, o assunto tema deste blog, o tour cinematográfico começou com um drinque de bourbon e chá, seguido de jantar, no bar Livingston, no lobby do centenário The Georgian Terrace. O hotel, extremamente bem localizado no trecho de Midtown da Peachtree Street (via arterial que corta praticamente toda Atlanta) hospedou Vivien Leigh (Scarlett), Clark Gable (Rhett Butler) e boa parte do elenco de E o Vento Levou na première do filme em Atlanta, em 1939. Para os fãs, é um deleite!

The Twelve Oaks, a fazenda do songamonga Ashley Wilkes (Leslie Howard), está a cerca de 40 minutos de distância de carro, na cidade de Covington. Não a que aparece no filme, já que este foi filmado na Califórnia, mas uma fazenda de algodão real oficial, de 1836, cujo casarão antebellum serviu de inspiração para Margaret Mitchell, autora do livo E o Vento Levou (off-topic: sua casa, a poucos passos do Georgian Terrace, foi transformada em museu e é atração fundamental para fãs e não fãs da obra).

The Twelve Oaks, o casarão em Covington que inspirou a fazenda homônima de “E o Vento Levou” | Foto: divulgação

Reformada em 2012, The Twelve Oaks funciona hoje como um bed and breakfast, bem ao estilo caloroso e hospitaleiro do Velho Sul. Decoradas com móveis ao estilo do século 19, as suítes contam com confortos bem modernos, tais como lareira com controle remoto e convidativas banheiras vitorianas. Fiquei hospedado na suíte The Frankly Scarlett, em homenagem ao segundo marido da protagonista, mas o encanto maior é com a Magnolia’s Spa Grand Suite, com cama de dossel com cortinas francesas e banheira de cromoterapia.

Magnolia’s Spa Grand Suite: para se sentir como Scarlett – sem espartilho, pfv | Foto: divulgação

De lá, rumei para Savannah, a cidade histórica mais bem preservada dos Estados Unidos. As ruas e casas em estilo cinematográfico foram um presente de Natal do general Sherman ao então presidente Abraham Lincoln, cessando ali a trajetória incendiária e vitoriosa da União (os estados do Norte) sobre a Confederação (estados do Sul) na guerra civil norte-americana, em 1864. Para manter a linha da viagem, me hospedei no bed and breakfast Eliza Thompson House, em um casarão bem no centro, construído em 1847. O hotel se intitula como butique, mas, embora bem confortável, não tem luxos. Os quartos são decorados ao estilo do século 19. O meu tinha vista para o jardim, onde é servido o desjejum. A sala principal é pequena, porém, bem acolhedora, e recepciona os hóspedes ao fim da tarde com vinho e canapés. Outro mimo é o café ou chá servido à noite.

Sala de estar do Eliza Thompson House: vinhos e canapés servidos à noite | Foto: Fernando Torres

O escritor John Kelso, personagem de John Cusack em Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, descreveu Savannah como “uma mistura fantasmagórica de E o Vento Levou com drogas”. A parte das drogas, não sabemos. Porém, de fato, a cidade conserva toda a atmosfera aristocrática da película, além da fama de mal-assombrada. Outras opções para se hospedar e se sentir dentro do filme é a imponente Kehoe House, de 1892, um casarão de tijolos à vista, piso de madeira e lustres de época; e o The Gastonian, exemplar dos anos 1860.

Kehoe House, em Savannah: cidade faz jus à fama de mal-assombrada | Foto: Fernando Torres

Eu deixei meu coração no Fairmont San Francisco

Dentre as várias possibilidades de experiências de viagem, uma das que mais me encanta é a dos hotéis centenários. Por isso, ao “bookar” uma viagem para San Francisco, na Califórnia, os olhinhos brilharam na quantidade de hotelões históricos, cheios de pompa e circunstância.

O mais antigo da cidade é o Palace, na Montgomery Street, que remonta a 1875. Já o Westin St Francis, de 1904, fica na Union Square e deu por concluída uma reforma de US$ 45 milhões em abril de 2018, o que significa o melhor dos mundos (pelo menos do meu): memórias com conforto. Tem também o Ritz-Carlton, em Nob Hill, de 1910; o Whitcomb, na Market Street, de 1916; o InterContinental Mark Hopkins, de 1926, em Nob Hill; e o Kimpton Sir Francis Drake, de 1928.

Todos lindos, mas cismei mesmo com o The Fairmont, ao qual fui apresentado em um almoço promovido pela AccorHotels, que representa a bandeira desde 2016. Instalado em Nob Hill, um dos bairros mais altos da cidade, o palacete em estilo neoclássico estava quase concluído na época do famoso terremoto de 1906. Enquanto as mansões ao seu redor vieram “na chon”, o futuro hotel sobreviveu.

Desde então, muita história rolou por lá. A começar pelo processo de reconstrução do interior, infelizmente, bastante danificado. Stanford White, o arquiteto escolhido para a missão pelos donos – que, aliás, haviam comprado o hotel dos primeiros investidores, a família irlandesa Graham Fair, poucos dias antes do terremoto –, foi assassinado à queima-roupa enquanto jantava em New York.

A escolha, então, recaiu sob a arquiteta Julia Morgan, primeira mulher formada pela École des Beaux-Arts, em Paris. E ela fez um trabalho magnífico com o The Fairmont, que finalmente foi inaugurado em 1907.

Graças a uma reforma realizada há quase duas décadas, o lobby pode ser conferido atualmente de forma muito fiel ao esplendor de Julia, com os mármores originais do piso e das colunas, sem economizar em douradices.

O lobby projetado por Julia Morgan no início do século 20 em todo o seu esplendor

Estão lá também o lendário Venetian Room, onde Tony Bennet apresentou pela primeira vez a música I left my heart in San Francisco, em 1961 – momento eternizado por uma estátua do cantor em frente ao hotel. Reaberto em 2010, a casa também recebeu, com regularidade, nomes como Ella Fitzgerald, Nat King Cole e Tina Turner. O pitoresco Tonga Room & Hurricane Bar, de comida polinésia, também é uma instituição, inaugurado em 1945, na área da antiga piscina. Já o restaurante oficial Laurel Court, anexo ao lobby, ficou fechado por seis décadas e foi reaberto na virada do século. O Fairmont foi ainda o primeiro hotel dos Estados Unidos a oferecer o serviço de concierge, a partir de 1974, cargo ocupado por Tom Wolfe – outro Tom, não o de A Fogueira das Vaidades.

Os 591 apartamentos e suítes se distribuem entre o prédio principal e uma torre de 23 andares, erguida em 1961. Foi onde me hospedei, na categoria Signature Room, com vista para a baía de San Francisco e a Ilha de Alcatraz. Elegante e renovado, o quarto conta com banheiros em mármore, com banheira, e camas superconfortáveis.

Signature Room…

… e a vista para a baía de San Francisco e a ilha de Alcatraz

As suítes se orgulham de terem recebido todos os presidentes dos Estados Unidos desde 1909, além de reis e rainhas e chefes de estado de inúmeros países (brasileiros, inclusive). A mais impressionante de todas é a Penthouse Suite, de 557 m² e inaugurada em 1926. Ela ocupa todo o oitavo andar do prédio principal, tem três passagens secretas e é alugada não apenas para hóspedes, mas também para festas privadas –  acomoda até 130 pessoas –, ao valor de US$ 18 mil a diária.

Em tempo:  o glamour de se hospedar no Fairmont tem custo relativamente acessível. San Francisco é uma cidade conhecida pelo valor alto das diárias. O Fairmont, por motivos óbvios, não é exceção, mas, quando  estive lá, consegui um preço idêntico a outras opções de categoria bem inferior pelos sites de busca. E, olha: vale cada centavo viver esse “golden dream”!