Bem, tudo começou em uma conversa de bar. Apesar de algumas garrafas de Brahma já estarem espalhadas pela mesa, o calor daquele início de noite seguia insuportável. Lá pelas tantas alguém se vira pra mim e pergunta:
- Por que ninguém investe em viagens para jovens?
- Como Assim? Muita gente investe neste público, retruquei.
- Investe nada. Basta abrir as páginas de qualquer jornal ou revista e você verá publicidades com os mesmos temas. Monumentos históricos, personagens de desenhos animados, praias, fotos de navios… as mesmices de sempre. As publicidades de viagens atingem apenas crianças, casais em lua de mel, famílias, terceira idade e, quanto muito, o público GLS. Nunca vi ninguém chamando a atenção deste público entre 18 e 24 anos e que está com grana sobrando pra viajar.
- E como você queria chamar a atenção deles? Perguntei.
E aí veio a resposta que eu não esperava.
- Com sexo!
Fiquei meio desnorteado.
- Sexo? Como assim, sexo? Questionei.
Como o cara é um gênio da publicidade e como toda conversa de bar, por mais inútil que seja, sempre tem um momento de seriedade, veio a explicação.
- Você sabia que “twitter” foi a palavra chave mais buscada no Google em 2009? E você sabia que quando comparamos no Google Trends “twitter” com “sexo”, a busca por “sexo” foi quatro vezes maior que “twitter”? Para quem analisa tendências é fácil perceber o que as pessoas estão procurando.
E continuou:
- Veja a estratégia da AXE. Eles estão focados neste público entre 18 e 24 anos. Os comerciais mostram fantásticas mulheres de biquíni correndo na direção de garotos que acabaram de passar o desodorante. A mensagem subliminar é óbvia: use o produto e se transforme em objeto de desejo. É exatamente o que o público nesta faixa etária está buscando. A AXE sabe explorar o “sex appeal” como ninguém.
O cara engatou a quinta marcha e não parou:
- Sabia que existem hotéis na Jamaica especializados em festas para solteiros? Eles nem aceitam reservas de crianças.
E para piorar a situação ele se vira pra mim e dispara:
- Meu amigo, um dia sua filha vai crescer e vai tentar te convencer a deixa-la viajar com o namorado. Quando isto acontecer é porque a casa já caiu. A decisão de onde ela vai desabar é tua. Se você jogar duro ela vai pra Santos com o namorado, escondida de você e ainda por cima com a ajuda da tua esposa. Quando chegar esta hora, relaxa e manda ela pro Tahiti e deixa o barraco desabar com estilo. E você ainda vai se transformar no grande herói dela.
Conversa de bar é um perigo. Chega uma hora que você até começa a dar razão para algumas bobagens. Confesso que cheguei a pensar na possibilidade do cara estar certo. Se estamos falando que o mercado caminha para nichos, por mais indesejável que seja para algumas pessoas (como eu) encarar esta “visão de mercado”, ela é real e sempre terá consumidores para isto. Mas aquela história da minha filha viajar com o namorado foi demais. Já risquei o Tahiti do meu caderninho.
Mas fiel aos meus princípios tradicionalistas, resolvi apagar da memória toda aquela conversa. Como se estivesse tentando me convencer que este lance de “sex appeal” não é lá uma ferramenta tão forte assim, comecei olhar ao meu redor, os posters nas paredes retratavam uma São Paulo antiga, com bondes, no bar uma discreta luz de neon fazendo publicidade de uma cerveja, guardanapos e apoios para os pratos totalmente discretos, sem mensagens apelativas ou fotos ousadas. Tá vendo, pensei, não é em todo lugar que somos massacrados por mensagens sublimares sobre sexo. Resolvi relaxar, levantei o braço e chamei o garçom:
- Traz outra Brahma!
O cara gritou lá do fundo.
- Acabou, agora só tem DEVASSA!
Aí já é demais. Pedi a conta e fui embora!