Muro de Berlim: 20 anos depois, ainda com cicatrizes

Dia 3 de outubro de 2009 marcará o aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim, os 20 anos da pacífica revolução que deu início ao fim da Guerra Fria e a suspensão de cortina de ferro que dividiu o mundo durante décadas.

Uma série de eventos já está ocorrendo por toda a cidade, e uma grande festa está programada para o dia 3 de outubro (site oficial dos eventos: http://www.mauerfall09.de/).

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Exposicao na Alexanderplatz, um dos eventos dos 20 anos da queda do muro

Berlim, apesar de ser uma cidade única, e não mais duas divididas, ainda guarda cicatrizes profundas no seu tecido urbano, que estão sendo aos poucos cobertas, refeitas.

O conjunto de edifícios ligados à Democracia Alemã – Bundestag/Reichstag, sede do parlamento federal e seus anexos/complementos Paulo Loebe, Marie-Elisabeth Luders e Jacob Kaiser – estão estrategicamente localizados em um trecho desta cicatriz, onde antes ficava o muro e a zona militar a seu redor, bem próximo ao Portão de Brandemburgo. Eles foram projetados e estão construídos ligando as duas partes da cidade, por cima do rio Spree, como um curativo.

O Bundestag (nome correto do prédio, mas que é realmente conhecido pelo seu antigo nome, Reichstag) é o mais marcante, pela ótima solução do arquiteto inglês sir Norman Foster, para criar um edifício ultramoderno e ecologicamente eficiente, mantendo e respeitando suas fachadas históricas. Sua emblemática cúpula de vidro é mesmo a joia da coroa, e destino obrigatório de milhares de turistas.
Aberto a visitação gratuita (mas com grande filas, é claro!), se tornou o parlamento mais visitado do mundo com cerca de três milhões de visitantes anuais. Aliás, até o audio guide, em diversas línguas, é gratuito. Gostei muito da tecnologia alemã: o guia tem um sensor que ativa as diversas faixas com as explicações conforme se caminha rampa acima em direção ao topo da cúpula.

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Bundestag

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Das Reichtag – Bundestag (ou Reichstag) por dentro

A vista de cima do domo envidraçado chega a ser melhor que a que se tem na Coluna da Vitória, aquela estátua dourada de um anjo no coração do Tiergarten, o maior parque de Berlim (e na coluna ainda se paga € 2,50 para subir de escadas!). A caminhada rampa acima é muito tranquila e o guia vai explicando cada construção que se pode ver lá do alto, alem da historia do prédio, claro. Prestem atenção na rampa, que na verdade são duas, entrelaçadas, uma para subida e outra para descida.
O grande cone de espelhos (360 no total) no centro do domo tem a função de iluminar o interior do prédio, além de ajudar no controle da temperatura. Ele é como uma escultura que transforma todo o ambiente em uma grande instalação, que reflete o prédio e seus visitantes em ângulos bastante incomuns. Um delírio para fotógrafos como eu, que estou sempre buscando um ângulo inusitado para registrar minhas visões do mundo.

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Eu, três vezes, em um dos ângulos inusitados que o Reichstag proporciona

Mas por todo o resto da área que o muro ocupava ainda existem vazios urbanos que estão sendo pouco a pouco ocupados. São milhares de metros quadrados de terrenos, em áreas valorizadas da cidade, que já estão livres do muro – apenas um trecho dele ainda existe, onde há o memorial do muro – mas que ainda não receberam novas construções. Restos do muro são vendidos aos montes e diz a lenda que pelos menos “dois muros inteiros” já foram vendidos.

Os mais atentos podem notar outras diferenças entre as Berlim ocidental e oriental, como prédios em estilo claramente socialista/comunista e também o próprio sistema de bondes (trams), que existe somente no que era o lado oriental.

A área em torno do Checkpoint Charlie, uma das 7 passagens oficiais, mas a única para visitantes internacionais, o que a tornou a preferida por alemães orientais para tentar fugir do regime comunista, é outra das cicatrizes urbanas, além de um polo de atrações turísticas em torno do muro. Tem o “Snackpoint Charlie” para comer e até um internet cafe chamado “chatpoint Charlie”. Outro interessante é o cara que vende os vistos – são 5 carimbos em uma folha de passaporte: americano, soviético, francês, inglês e o da cidade de Berlim, por € 2,00.
Chama Charlie por ser a terceira das passagens (alfa, bravo, charlie…).
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Pedaço da barreira do muro e outros adornos na entrada do Museu, na area do Checkpoint Charlie

Ainda vai levar anos para curar todas as cicatrizes, mas o eventos programados para o decorrer deste ano também servem para lembrar os difíceis anos vividos pelos alemães em uma cidade dividida por diferentes ideologias. É importante ressaltar que o muro caiu depois de protestos pacíficos, uma revolução popular na qual nenhum tiro sequer foi disparado.

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Quem quer um pedaço do muro?

Jaime Scatena
Fotógrafo e engenheiro
Especial para o Blog PANROTAS Em Viagem

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