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14 de maio de 2012

Excelente reportagem hoje no Estadão sobre as agruras pelas quais passou a GAP (roupas e acessórios) nos Estados Unidos na última década. Dentre a relação de erros cometidos pela direção da empresa o maior foi, segundo a maioria dos especialistas ouvidos, seguir os passos de concorrentes em vez de seguir sua própria história e valores.

É a velha máxima que o remédio que cura João pode acabar matando José, portanto, as empresas devem tomar muito cuidado com as fórmulas de sucesso que copiam ou emulam, já que os detalhes de cada operação e suas consequencias de longo prazo são muitas vezes imprevisíveis.

As respostas estão muitas vezes escondidas em algum canto da própria casa, não é preciso ir muito longe para buscar correções. Isso também vale para fusões, aquisições, alianças comerciais e afins. Ou não?

Guayaquil 1990

13 de maio de 2012

História antiga demais…com apenas 22 anos de idade nas costas o Vicente Truzzi me deu a responsabilidade de tocar o departamento receptivo da Fenix operadora. Ainda um moleque inexperiente eu acreditava que dava prá mudar tudo, fazer tudo diferente e do meu jeito num passe de mágica. Enorme engano.

A atribuição mais urgente que recebi ao assumir o cargo foi sair pela América do Sul recebendo os pagamentos em atraso de várias operadoras que mandavam seus passageiros ao Brasil. Tarefa dura e complicada, batismo de fogo nos meus negócios internacionais. Ao montar a agenda daquela viagem descobri que o orçamento de passagens estava curto e teria que fazer tudo em um só “tiro”, subindo da Argentina até a Venezuela em 20 dias, parando 2 dias no máximo em cada cidade. Coisa de maluco mesmo.

Num Domingo no começo de Maio eu me encontrava em Guayaquil, maior cidade do Equador e um inferno quente, úmido e diferente de tudo o que eu já tinha visto. Acordei cedo, tentei dar uma caminhada pela cidade vazia (apenas as igrejas estavam cheias de fiéis) e logo voltei ao Gran Hotel Colón empapado de suor. Numa época sem internet e celular fiquei perambulando pelo lobby até a hora do almoço, quando saí em busca de um restaurante que não fosse o triste buffet no mezaninno, povoado com alguns viajantes desgarrados como eu.

Encontrei um bonito lugar feito de tijolos vermelhos e terracota, escuro e fresco em contraste com o calor surreal que fazia na rua. Ainda era cedo e consegui uma mesinha pequena num dos cantos do salão, pedi o cardápio e comecei a fazer tudo lentamente, na vã esperança de prolongar ao máximo a experiência fora do hotel. Nisso começaram a chegar famílias animadas, todas com suas matriarcas bem-vestidas e maquiadas sendo o centro das atenções e carinhos. Me dei conta que era Dia da Mães e eu estava ali, longe da minha, de minha família e da farta mesa do interior. Me deu um nó na garganta e uma necessidade de largar o lugar e sumir. Segurei firme, almocei e continuei minha observação daquelas pessoas felizes e entrosadas.

Quando voltei ao hotel me dei o luxo de ligar para a casa da Dona Cilene, senti a alegria na sua voz por falar comigo e desejei um lindo dia para ela. Desliguei triste mas satisfeito, relembrei os bons momentos em família e me prometi estar em casa para a próxima reunião familiar. Quebrei muitas vezes depois a promessa da presença, seja por casualidades do trabalho ou por outras obrigações que vieram com a família e os filhos, mas jamais deixei de lembrar que certas datas precisam ficar marcadas a fogo em nossos corações.

Mãe, feliz dia e um beijão do seu filho mais velho!

(Só prá constar: enquanto escrevo aqui na sala minha mãe está preparando uma deliciosa e fumegante feijoada que borbulha na cozinha)

Projeto X

11 de maio de 2012

Semana passada em São Petersburgo fizemos uma maratona de museus e palácios belíssimos. A cidade se descortina numa enorme galeria à disposição dos turistas ávidos por capturar as belezas da Rússia pré-revolucionária, em especial do período compreendido entre os séculos XVIII e XIX.

Em minhas andanças pelos corredores intermináveis de cada museu comecei a notar que as “monitoras” ou “seguranças” de cada sala eram dignas senhoras vestidas com o recato e correção que o ambiente pede. Todas (ou quase) maquiadas, quietas e de certa forma solenes, mas sempre com uma característica inquietante: ares extremamente tristes. Sim, não consegui ver um sorriso sequer naqueles rostos marcados pelo tempo impiedoso e vento gélido das tundras. De todas estas mulheres a percepção mais nítida é o olhar um pouco embaçado, quase suplicante por alguma emoção tentadora que vire suas vidas de cabeça prá baixo, que faça do Hermitage apenas um lugar longínquo em suas lembranças.

Com minha observação veio o desejo incontrolável de fotografá-las, mas ao tentar fazê-lo de forma amistosa fui rechaçado por duas vezes, como se tivesse pedindo para que se despissem. Comecei então a fazer fotos de longe, sorrateiras e às vezes mal focadas. Sei que incorri no pecado da intromissão alheia, mas creio que o fiz por uma boa causa. Após recolher todas as fotos e dar um tratamento mínimo nas mesmas estou postando um mosaico com as “vovós do museu”, parte do meu “Projeto X”, ultra-secreto, na Rússia.

Assim como coloquei as fotos, fiquei imaginando uma história que faça sentido na vida destas senhoras, e ela é mais ou menos assim: todas as tardes um grupo de senhoras russas se reúne num pequeno pub da Nevsky Prospect para uma rodada de vodca após o almoço. Uma vez terminados os brindes elas saem sorrateiramente em direção ao Museu Hermitage, onde aproveitam as horas livres da tarde para um pequeno cochilo e manter seu álibi de pensionistas de parcos recursos e pouca vitalidade. Quando batem 18 horas no grande relógio do salão principal elas deixam discretamente o museu, sozinhas ou em pares, e dirigem-se a uma estreita e escura casa que margeia os jardins de inverno do palácio. Neste local secreto deixam seus pesados casacos e luvas no térreo e sobem animadamente pela escada ao piso superior, onde a luz estroboscópica e o globo de espelhos dão o tom para a pesada música eletrônica que sai das caixas no teto. Esparramam-se pelos sofás e divãs à volta do palco, pedem mais vodca e petiscos de arenque defumado; quando o torpor começa a formigar seus dedos e afrouxar suas vergonhas batem palmas e assoviam, enquanto um stripper entra na sala vestido de oficial do exército vermelho e começa seu show sensual. Voltam para casa novamente sós e agasalhadas, voltam para suas pequenas salas e cozinhas com cheiro de repolho e batata; enquanto o mundo as olha com um misto de pena e compaixão elas guardam um sorriso secreto de vontade saciada em seus rostos gelados.

O Mendigo

9 de maio de 2012

Existem situações cotidianas que nos fazem repensar valores. São fragmentos da vida comum que passam à frente de nossos olhos e jamais descolam da retina, penetram no cérebro e se fundem à nossa alma tornando-se de alguma forma parte de nós. Semana passada presenciei uma destas situações, assisti ao vivo um momento de pura poesia, magia, dor e compaixão, um emaranhado de coisas em uma fração de tempo, uns poucos segundos que se evaporaram mas deixaram sua marca.

Estava em Istanbul no dia 1º de Maio e no fim da tarde nosso grupo se dispersou para fazer algumas compras no luxuoso distrito de Niçantasi. Fui sozinho até uma loja comprar algumas coisas para meus filhos e depois iniciei a caminhada de volta ao hotel Divan, um percurso de uns 2km pela principal avenida de Taksim. As ruas ainda estavam fechadas com cavaletes e grades de ferro, uma precaução da polícia local para evitar os frequentes tumultos do dia do Trabalho em Istanbul, onde os turcos despejam sua ira contra os imperialistas, reformadores, capitalistas e todos os outros demônios que regem nossa vida cotidiana.

Na minha caminhada a passos não muito rápidos cruzei com estudantes, trabalhadores, senhores portando bandeiras vermelhas e panfletos de protesto, policiais ainda tensos e cansados pelo longo dia de vigilia e uma enorme fauna de tipos comuns ou nem tanto. Também passaram por mim indo na mesma direção que eu mulheres jovens com seus cigarros, estudantes barulhentos e os mesmos bichos que vinham em sentido contrário, como se todos fossem a mesma pessoa refletida num enorme espelho. Fui ultrapassado por um jovem alto, magro e barbudo de calças jeans surradas, tênis sujos, jaqueta de couro e cabelos longos. Tinha uma barba grande e levava um cigarro aceso entre os dedos enquanto dava passos largos e firmes. Só pude ver suas costas mas imaginei um desses milhões de tipos urbanos grunges, meio roqueiros e meio publicitários, um filho talvez amoroso ou um raivoso cantor de rock. Fui andando uns 10 passos atrás do cabeludo quando a cena aconteceu.

Detrás de uma mureta baixa de pedra que ladeava uma pracinha gramada saltou um mendigo muito sujo e maltrapilho, um desses tipos que nos fazem ter a repulsa como primeira reação. O mendigo foi na direção do barbudo e vendo o cigarro preso entre seus dedos fez aquele gesto universal de pedir uma bituca ou, quem sabe com muita sorte, um “crivo” novo em folha para saciar sua vontade. Olhando a cena de uns 10 metros de distância, diminuí o passo e pensei rapidamente: “Esse mendigo tá pedindo cigarro prô cara errado”, e já fiquei esperando uma reação entre indiferença ou rechaço, mas nada além daquilo.

O barbudo parou. O barbudo grunge tirou um maço do bolso da jaqueta de couro e puxou uns 5 cigarros com a mão ossuda de dedos longos. Entregou o tesouro nas mãos do mendigo que olhava vidrado e surpreso o outro homem. O mendigo pediu fogo. O barbudo grunge e cabeludo tirou um isqueiro do mesmo bolso, acendeu o cigarro do mendigo e juntos deram longos tragos em seus cigarros. Passei por eles neste instante e fui brindado com o sorriso de satisfação do mendigo. Eram dois amigos unidos pelo vício, pessoas de mundos tão distantes e tão próximos em seus desejos primários.

Continuei andando em direção ao hotel, preferi não olhar para trás a fim de evitar quebrar a magia do momento. O jovem barbudo não passou mais por mim, deve ter tomado outro caminho ou talvez ficou trocando uma idéia com seu novo chapa. Apertei o passo e refiz todos os momentos em minha cabeça, filmei cada quadro com precisão para evitar perder a história que viria para este blog. Hoje ela está aqui, do outro lado do mundo, eternizada em sua simplicidade e poesia. É sempre muito bom voltar prá casa!

Moskva

7 de maio de 2012

Cidade surpreendente, movimentada, agradável e cosmopolita. Estou impressionado com Moscou em todos os aspectos, realmente superou minhas expectativas. As fotos mostram clichês e também resgatam momentos de sorte: acompanhei o último ensaio para o “Desfile da Vitória”, que é celebrado dia 9 de Maio. Peguei um tempo lindo de muito sol alternado com algumas nuvens. Sem mais delongas, aí vão as imagens de uma metrópole que merece ser revisitada e explorada com mais calma. Obrigado Turkish Airlines e Russkie-Prostori por toda a organização!

 

São Petersburgo

5 de maio de 2012

Saímos hoje de São Petersburgo rumo a Moscou. Deixamos atrás de nós uma belíssima cidade com ares venezianos e parisienses, palácios de famílias abastadas na memória e um vento contínuo e cortante nos rostos gelados. Trazemos conosco boas memórias, fotos e risadas.

Minha Istanbul

3 de maio de 2012

Foi minha 5ª viagem a Istanbul nos últimos 4 anos. Foi a mais rápida delas. Foi surpreendente, como sempre. Imagens valem mais que mil palavras, aí vai uma seleção diferente para vocês, espero que todos gostem.

Contrastes

28 de abril de 2012

Aqui estão as fotos de minha incursão pela Índia na semana passada. Uma terra de contrastes dramáticos, hotéis espetaculares e gente sempre hospitaleira.

 

No visa? No Way!

25 de abril de 2012

Ninguém gosta de perder receita. Nossos custos normalmente se adaptam às nossas receitas, por isso quanto mais dinheiro o cidadão ganha mais ele gasta e mais difícil fica prá cortar gastos e poupar de forma consistente. É da natureza humana!

Se é assim com os homens, também é assim com as empresas, autarquias, repartições públicas, governos…ninguém consegue reduzir gastos e trabalhar num patamar de receita inferior, é sempre uma espiral crescente. Dessa forma, cravo com um nível razoável de certeza que é muito improvável e quase impossível que o governo americano inclua o Brasil no “visa waiver program”, uma vez que a motivação econômica do visto supera sobremaneira os eventuais benefícios com o turismo liberado a qualquer viajante interessado. Vamos aos fatos?

O governo americano emite 16 tipos diferentes de vistos em seus consulados e arrecada por volta de U$150 milhões anualmente com o processo dos vistos somente no Brasil. Este dinheiro é o grande motor do financiamento dos escritórios diplomáticos e também vai para o departamento de “Homeland Security” na forma de investimentos em segurança de fronteiras, aeroportos, etc. Hoje os vistos podem ser emitidos com duração de até 10 anos para turistas, porém, como a regra mudou há pouco tempo (menos de 3 anos) ainda existem muitos turistas com os antigos vistos com validade de 5 anos (eu sou um destes indivíduos). O serviço diplomático também informou há alguns meses que em média rejeita 6% das aplicações de visto, ou seja, a esmagadora maioria dos solicitantes consegue autorização para entrar nos Estados Unidos.

No ano de 2011 foram aproximadamente 1,2 milhões de turistas brasileiros aos Estados Unidos. Se considerarmos que foram emitidos quase 1 milhão de vistos no mesmo período podemos dizer que as autorizações “potenciais acumuladas” (vistos de múltipla entrada e longa duração) devem estar hoje em 3 ou 4 milhões de indivíduos. Isso quer dizer que o processo de visto não apenas insere os turistas num determinado ano, mas acaba por “empilhar” turistas potenciais por um prazo bem mais longo. Dessa forma, fica difícil defender que a queda do visto aumentará significativamente o número de turistas pois hoje o potencial de viajantes já supera até mesmo a oferta de vôos, sem contar que a “regra dos 10 anos” fará a inserção de mais uns 3 milhões de passageiros potenciais nos próximos anos.

Outro ponto a considerar é até onde vai a desconexão entre o potencial de gasto dos brasileiros (e consequente arrecadação de impostos nos EUA) e os objetivos do departamento de “Homeland Security”. Por mais que os aspectos econômicos sejam compensadores, a centro-direita americana não compra a idéia de liberar a entrada de latinos de forma indiscriminada no país e não aceita um afrouxamento nas “medidas de segurança” em vigor com mais intensidade nos últimos 11 anos. Eles querem os ricos que podem gastar sem trazer problemas e o visto serve exatamente como uma “peneira” que seleciona estes bons clientes potenciais.

Finalmente, fica a pergunta aos operadores, companhias aéreas e gurus do turismo: quantos passageiros a mais é factível embarcar anualmente com a isenção do visto? Suspeito que não sejam tantos assim e, mesmo que o número seja tentador, os efeitos desta abertura poderiam trazer danos colaterais desagradáveis, tais como a diminuição das margens operacionais por passageiro, estrangulamento ainda maior dos vôos (com consequente aumento de preços) e um sério déficit em transações correntes entre os dois países.

Noves fora, a recente decisão de abrir mais escritórios de vistos e a simplificação do processo são respostas para esticar um pouco mais o “mercado potencial”, mas são exatamente medidas que dizem as intenções de médio a longo prazos do governo americano: No visa? No way!

Tropical

18 de abril de 2012

Manga, jaca, cajú, tangerina, fruta-do-conde, melancia, tamarindo e mamão. Paineira, ipê, samambaia e castanheira. Capim-gordura, carrapicho e grama. A temperatura não baixa dos 30ºC à noite, a umidade beira os 90%, o sol quente cozinha os miolos e provoca um suor constante.

Não estou na Amazônia nem no Mato Grosso ou Tocantins. Aqui em Kumarakon o aeroporto mais perto é em Cochin, no extremo sul da Índia, um pouco antes daquele bico do continente que aponta para Bangladesh. Tenho um misto de surpresa e desapontamento. Em meus devaneios de aventureiro esperava algo mais radical, mais rústico e impactante. Fui brindado com boas estradas, infra-estrutura parecida com a brasileira e todas aquelas comodidades e aparatos que estão nivelando o mundo como um enorme trator de esteira: celulares em abundância, tv a cabo em qualquer birosca, motos em profusão e produtos chineses plastificados em cada canto.

As atrações do estado de Kerala são suas florestas tropicais, o enorme lago de Kumarakon e a antiga cidade colonial de Kochi, um distrito dentro da grande metrópole. Temos a mesma sensação de estar em Salvador sem seus morros, uma espécie de Recife sem a imponente orla. Os hotéis tentam imitar, em sua maioria, as tendências americanas e européias, de forma que perdem boa parte de seu charme e apelo. Sou um purista. gosto de hotéis “heritage” nos lugares onde visito e a modernidade em lugares como este atrapalha, enfim, espero que este pedaço da Índia não se perca em imitações de outros modelos e lugares.

O motivo deste post, entretanto, é a tropicalidade deste lugar. É como se um pedaço do nosso Centro-Oeste tivesse sido arrancado do Brasil e replantado no coração da Ásia. É uma sensação familiar que já vivi no Vietnã, Peru e Equador. Para os gringos todo pássaro é novidade, toda fruta é um deleite. Entendo agora o motivo do fascínio de ingleses, holandeses e franceses por estas paragens, são os mesmos atributos que fizeram do Brasil e da América Latina seu destino preferido durante a colonização. Hoje a noite vou a Delhi e será espantosa a diferença cultural, geográfica e e climática. Sairei da floresta para a aridez, deixarei os indianos de pele quase negra e cabelos curtos para encontrar outros de barbas longas, turbantes coloridos e feições mais rudes. Esta é, enfim, a beleza da Índia e de países como o Brasil: a diversidade estonteante, impactante e surpreendente que nos faz sempre querer voltar e conhecer um pouco mais.