Lá no interior a gente aprendia que só se podia gastar o que se tinha. Pagar a vista era o correto, mas se fosse a prazo tinha que pagar em dia. Dinheiro emprestado se devolvia e se o negócio fosse ruim era melhor não fazer do que perder dinheiro. Tudo isso fazia parte da sabedoria popular e as leis econômicas não seguiam os grandes gurus, a gente apostava mesmo no bom senso.
As coisas mudaram muito mais rápido do que gostaríamos e para um rumo que não entendemos. Hoje em dia estar “alavancado” (devendo, em português bem claro) é uma “quase obrigação” das empresas. Prejuízos são parte da vida e os ciclos econômicos não andam emprelhados com os resultados. Tá tudo doido demais!
Como podemos explicar que num momento de ocupação recorde de aeronaves a Gol perdeu mais de R$500 milhões só em um trimestre? E a TAM, como pode ter perdido outros R$620 milhões no período?
Ah, mas foi o câmbio! Câmbio? Se o dólar cai as companhias aéreas reclamam que as receitas atreladas à moeda americana caem e isso impacta o resultado. Se o dólar sobe é culpa dele o aumento do custo do leasing, combustível e parking. Interessante que todas essas empresas possuem sofisticados sistemas de tarifas e complicadas equações para operar “heading”, ou seja, não são administradas por neófitos ou inocentes e dispõem de amplo conhecimento de mecanismos de proteção contra oscilações nos seus insumos, seja para um lado ou outro.
Me assusta ainda mais saber que no período mencionado foram feitas várias promoções com reduções de tarifas, troca de milhas com grandes descontos e tudo isso aconteceu bem no meio da temporada de Julho, quando era prá ter havido uma receita ainda maior que os crescimentos apresentados. Se a ocupação estava alta e os custos empinavam com o câmbio, o certo não era ter subido as tarifas? Dá prá entender de outra forma? Eu, um leigo e simplista caipira do interior não entendo. Faço contas e só chego à conclusão que o problema deve estar no tal de “mercado”. Esse ser sem cara, sem sobrenome ou residência fixa adora pregar peças nos outros, seja para justificar enormes aumentos nas ações de empresas ou para fazê-las despencar retumbantemente em momentos inapropriados.
A questão fundamental é: para alguém que perde sempre tem alguém ganhando, a perda não é disseminada uniformemente. Quem será que ganha cada vez que estas enormes perdas são lançadas nos livros? Seriam especuladores que estão posicionados contra as empresas? Seriam fundos detentores de enormes lotes de opções de ações, seriam grupos interessados em anunciar uma reversão dos prejuízos em momento mais oportuno? São tantas perguntas e nenhuma resposta…nem lá no interior a gente tem um causo ou ditado que explique tudo isso.





