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Temporada ou Tempestade?

domingo, 5 de junho de 2011

Estou ensaiando este post já faz alguns dias e a capa do Estadão de hoje foi o empurrãozinho que faltava para eu me lançar a esta aventura. Já aviso que será controverso, suscitará críticas, colocará algumas pessoas para pensar e outras para dormir. A responsabilidade do blog é essa mesma: opinar, refletir, errar ou acertar, mas oferecer uma visão imparcial e livre. Vamos nessa!

Estamos à beira de uma crise no mercado de turismo! Pronto, falei. Em conversas reservadas com operadores, consolidadores, companhias aéreas e amigos fiquei sabendo que a temporada de Julho não será nem de perto tão boa como se esperava e as causas para um desempenho ruim não estão fundamentadas em dificuldades econômicas passadas pelos consumidores, o problema está na ganância de companhias aéreas, hotéis, operadores e agências. Nenhum consumidor é tão otário assim de achar que um pacote para uma estação de esqui em Julho deva custar o mesmo que uma semana em Aspen ou Vail na temporada de neve americana, assim como quem pode ir à Disney em Maio ou Setembro não vai encarar pacotes de U$2,500 em Juho, enquanto no site da American dá prá encontrar lugares a U$900 para venda direta ao consumidor. Resumindo: teremos uma crise gerada pela expectativa de que na “alta temporada” (termo que está envelhecendo e perdendo sentido) o passageiro pode ser esfolado. Isso não vai acontecer e quem fez pesadas “pré-compras” de assentos, hotéis, etc vai ter que pedalar muito para conseguir desovar seus enormes estoques.

O envelopamento do Estadão de Domingo (hoje) pela CVC é uma mostra de que as coisas não vão bem. Ofertando lugares a preço de baixa para viajar na alta, destinos de A a Z para todos os gostos e bolsos, a gigante mostra que tem muita força para provocar vendas, mas nos bastidores mostra também que tem um enorme desafio nos próximos 50 dias. Se a CVC é a ponta visível desse iceberg, precisamos prestar atenção em toda a turma que se dedicou a vender enormes volumes financiados nos últimos anos: quando o tal “pedal” das vendas começa a girar em falso ou ficar mais pesado o corpo tem que fazer um enorme esforço para sair apenas um pouco do lugar, e isso provoca desequilíbrios e dores.

Vamos acompanhar atentamente quais serão os reflexos de médio prazo para o mercado em geral, mas tenho a sensação que veremos muita gente de língua de fora logo-logo. Quem vai se safar? Quem vende pouco financiado, quem vende para públicos mais abastados e não gasta tanto em divulgação, quem não entrega “tarifa operadora” a preço de banana sem incluir o terrestre, quem se recusa a baixar margens em troca de grandes volumes. Quantos são estes últimos?

Equações

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Voltando à lista de temas recorrentes em minhas conversas com agentes, amigos e empresários, um dos mais discutidos é o dilema entre crescimento e rentabilidade. Com a economia aparentando um vigor inabalável, os defensores de estratégias mais conservadoras são acuados por aqueles que não se contentam apenas com saltos de “dois dígitos”, mas sim com pulos de “dois dígitos ALTOS”. Ambas correntes dispõem de estratégias distintas, porém, fáceis de identificar:

1) Os ARROJADOS veem este momento como uma janela de oportunidade para ampliar sua esfera de influência, aventurar-se em áreas que se mostram promissoras e vários deles vislumbram no crescimento uma oportunidade subliminar de vender suas empresas para grandes grupos ou abrir seu capital no futuro. Para essa turma o lema é investir pesadamente em novos canais de distribuição, pontos-de-vendas ao consumidor final, aquisição de novas empesas, publicidade e novos produtos. Em contrapartida, são empresas que precisam diminuir um pouco suas margens operacionais para continuar atraindo grandes volumes de vendas, além de terem de buscar caixa abundante através de aportes de seus acionistas ou de terceiros, criando um endividamento vinculado a seu poder de vendas, que ao final é dependente da situação macroeconômica.

2) Os CONSERVADORES apostam na especialização de suas empresas, no aprofundamento de suas raízes em áreas onde possuem grande expertise e uma distribuição cativa. Muitos sabem que podem se tornar vítimas dos grandes “tubarões”, mas suas operações são enxutas, com baixo ou nenhum endividamento e geralmente bem rentáveis. Seus investimentos estão mais concentrados em tecnologia, capacitação de pessoal e na fidelização de sua base distribuidora, com investimentos de publicidade ocupando um lugar de menor destaque. Por assumirem menores riscos estão menos expostos às consequências de um “downturn” e geralmente são os empresários que já vivenciaram algumas das grandes crises passadas. Sua aparente “inércia” não os credencia e serem alvos em grandes transações, portanto, essas empresas podem deixar passar excelentes oportunidades de consagrar seus acionistas e dirigentes.

As discussões que unem as duas correntes de ação e pensamento são o custo de fazer negócios no Brasil, a baixa qualificação da mão-de-obra e as pressões cambiais que fazem o negócio do turismo cada vez mais volumoso mas cujo faturamento “por ticket ou passageiro” esteja bem aquém do ideal. Ao final, o que temos acompanhado é um embate sem hora marcada para terminar e até o momento os “agressivos” parecem levar a melhor; já os conservadores começam a perceber que precisam sair um pouco mais da zona de conforto, porém farejam no médio prazo uma fumaça ainda tênue, que os faz agarrarem-se a suas conhecidas equações.

Minha análise é que não existe certo ou errado desde que as empresas apliquem suas estratégias com muita disciplina e vislumbrando que no setor de serviços o maior patrimônio que dispõem é sua marca e reputação. O que ainda não sei ao certo é se as empresas estão realmente focadas no seu REAL VALOR, mas vamos seguir monitorando…

Caia no Mundo!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma das perguntas recorrentes no meu dia-a-dia é como estruturar uma boa grade de prestadores de serviços internacionais no segmento de turismo. Companhias aéreas, DMCs (Destination Management Companies), locadoras, hotéis, restaurantes…todos juntos formam uma enorme rede de empresas às quais as agências e operadoras entregam seus passageiros e são estas empresas que, ao final, traduzirão a venda em sucesso ou fracasso.

Não existe fórmula definitiva, cada empresa tem sua cultura e métodos próprios, mas o bom senso (que sempre deve imperar) reza que em qualquer lugar do mundo essas regras aqui embaixo são fundamentais:

1) Não acredite apenas em quem fala de sí próprio. A melhor propaganda é feita por clientes, concorrentes e “empresas de referência”. Se não conheço um operador no Congo, tento encontrar no Brasil e no mundo empresas que operem naquele destino e que me mostrem quem são “os caras” naquele mercado.

2) Para preço não existe milagre: não adianta tentar subverter esta regra. O prestador mais barato em seu mercado ou categoria nunca será o melhor. Em serviços a fórmula chinesa de fazer sempre mais, mais rápido e do mesmo jeito não funciona, pois quem “aperta os parafusos” não são máquinas, mas pessoas.

3) Não se monta produto ou operação sem conhecer tudo pessoalmente: a regra de São Tomé é “imexível”! As noções de “excelente”, “bom”, “ruim”, “regular” variam de pessoa para pessoa e o que serve para mim pode não satisfazer outrém. Copiar um programa e lançar sem testá-lo ou esmiuçar cada detalhe da operação é irresponsabilidade.

4) A gente só conhece mesmo quem é bom na hora do aperto: de novo, o papel bonito e o material de marketing aceitam qualquer coisa. É em situações de emergência ou de dificuldade que o seu parceiro de verdade se mostra por inteiro. Seja para segurar a bucha de um vôo cancelado, um escorregão seguido de fratura na porta do hotel, o ônibus que quebrou e o guia que ficou doente.

5) Todos os procedimentos devem ser documentados: ao contratar qualquer produto no exterior precisamos mostrar que somos sérios para poder cobrar seriedade. O “fio de bigode” ainda existe sim, mas nenhum passageiro vai acreditar que tudo vai dar certo sem ver o preto cravado no branco. Checklists, paamentos, reconfirmações, telefones de contatos, endereços, planos de contingencia. Tudo deve estar sempre disponível a todos os envolvidos numa operação.

6) Feedback constante: reclamar quando algo não saiu como combinado, explicar situações vexatórias que poderiam ser evitadas, exigir explicações e justificativas para problemas todo mundo sabe fazer. O inverso é ainda mais importante: elogiar uma conduta diferenciada, escrever para um guia que teve atuação excelente, ligar para o diretor da cia aérea quando um funcionário fez de tudo para resolver seu problema. Feedback dado é retribuído e nós aprendemos muito mais com o que nos contam de nós mesmos do que a imagem que vemos no espelho.

O bom agente, em qualquer lugar do mundo, é aquele que atinge um nível de reconhecimento e atenção de seus parceiros que os faz trabalhar com satisfação, mesmo que sob duras exigências e condições. A melhor forma de construir uma reputação aqui no Brasil e ao redor do planeta é seguindo a primeira regrinha lá de cima: deixemos que os outros falem bem da gente.

O Meu é Maior!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Há algumas semanas foi aberta a temporada de exibicionismo hedonista no mercado de viagens corporativas. Com o fechamento do ano batendo às portas muita gente saiu correndo para divulgar que “cresceu”, “aumentou”, “superou metas”, “contratou dezenas”, “lançou tendências”, etc. etc. etc.

Muitos comes-e-bebes, muitas fotos sorridentes e abraços apertados mas nenhum sinal de cautela ou apreensão com os custos crescentes e com o dólar extremamente depreciado, que faz muita gente trabalhar mais para ganhar bem menos. Também não vemos menções a qualquer estratégia que tenha sido equivocada ou ponderações sobre o resultado do fim das comissões aéreas, taxas de adoção de reservas online, impacto do faturamento hoteleiro sobre os back offices e no fluxo de caixa das TMCs.

Enfim, parece que a regra do jogo não é ser melhor, mais eficiente, focado e rentável. As bolas da vez são o crescimento inevitável da economia, a robustez do fundamentos econômicos e as previsões de céu claro e calmo. O marketing e as aparências dominam o cenário e aí surgem as inevitáveis comparações em que agências olham prás outras e dizem “meu call center é maior que o seu”, “minha carteira é mais robusta”, “eu vendo mais que o concorrente tal” e assim por diante. Sem querer ser estraga-prazeres (e já sendo, como sempre), é sempre bom lembrar que a coisa tá muito mais feia do que muita gente quer admitir. Os custos seguem escalando, a mão-de-obra é cada vez mais escassa e de qualidade duvidosa, as receitas sofrem inevitáveis pressões, o crescimento esbarra no gargalo aéreo iminente e o faturamento ainda é uma ferida aberta que sangra o fluxo de caixa das agências. Talvez fosse melhor menos pompa e menos barulho, até mesmo porque as companhias aéreas estão de olho nessa gastança de fim-de-ano, em que são convidadas para muita boca-livre quando até há uns 5 anos atrás quem convidava eram elas. Quem te viu, quem te vê…

O Poder de Fazer!

domingo, 21 de novembro de 2010

Sou fã de “gente que faz”. Nesta 2ª feira terei a honra de participar do III Seminário AVIESP em Campinas e não poderia deixar de registrar como a AVIESP se tornou uma associação forte, ativa e definitivamente inovadora em sua forma de atuação. Enquanto uns brigam e outros se lamentam o pessoal do interior pisa fundo no acelerador e consegue vitórias expressivas para a causa das agências, mostrando o poder de fazer, a força do trabalho!

Em 2010 foram seminários de capacitação de agentes, campanhas pela valorização das agências de viagem com mídia de 1ª qualidade, convênios com seguradoras, instituições de crédito ao consumidor e pacotes tecnológicos. A lista é extensa, robusta e mostra uma capacidade de realização invejável. Parabéns à AVIESP e ao interior de São Paulo, região que sustenta boa parte do crescimento do PIB do nosso país e que tem no trabalho sério uma característica marcante.

Voltando do interior testemunharei o resultado de mais um trabalho sério de gente que não aceita a mesmice e não deita sobre os louros de vitórias passadas. Ao entrar em seu 25º ano (o aniversário é em 2011) a Designer Tours mostra um vigor e capacidade de renovação invejáveis, desenvolvendo projetos de ampliação de seus negócios de maneira incansável, séria e bem planejada. Já quero deixar aqui, antes do dia maluco e corrido que teremos amanhã, meu abraço carinhoso à Deusa, Olga, Silvia, Wilson e toda a equipe desta operadora especial. Falando em “especial”, um beijo prá incansável e absolutamente “pilhada” Chris Kler! Que venha mais uma semana de grandes agitos!

Tem que arder!

sábado, 13 de novembro de 2010

Esta semana tive a honra de passar uma manhã discorrendo sobre alguns destinos “exóticos” para a equipe de uma grande operadora de São Paulo. Comecei às 9:00 e quando era 9:20 uma das moças que me escutavam perguntou se eu não queria que ligassem o ar-condicionado. Foi aí que me dei conta que já estava com a testa gotejando e talvez minha aparência despertasse um pouco de desconforto. Aceitei a gentileza e continuei falando pelos cotovelos, passando a régua no assunto por volta de 13:00. Quando saia para pegar o elevador fui cumprimentado por alguns dos assistentes que disseram ter gostado bastante do conteúdo e da forma, e me pediram prá voltar mais vezes. Pronto, o dia estava ganho!

Fazer o que gostamos é um privilégio, principalmente quando este gosto está associado à nossa profissão ou negócio. É difícil prá mim encarar o trabalho como “trabalho”, mas nem sempre foi assim. O que nunca mudou foi minha disposição em entregar o melhor que posso, desde quando comecei lá no interior em 1987. Não vou ficar contando história velha e longa, mas hoje em dia olho prá trás e me pergunto de onde vinha tanta energia para visitar umas 200 agências por mês no interior, me locomovendo de ônibus e me hospedando em hotéis nublados. São inesquecíveis os almoços em rodoviárias, as porcadas em Bady Bassitt e o velho Del Fiol em Tatuí. Se não tenho mais aquele pique, tampouco entendo a moçada jovem que reclama de tudo e encara o trabalho como um “favor aos seus patrões”, pois são inteligentes, preparados e bons demais no que fazem.

Sem generalizar, penso que está faltando mais humildade, paciência e, acima de tudo, preparo para as adversidades a nossos jovens profissionais. Os jovens reclamam que precisam de mais treinamento e mais confiança de seus superiores, mas não entregam seu suor e garra na mesma medida. Acham que estão acima das barreiras naturais que se apresentam, talvez pelo simples fato de terem saído de uma boa unversidade ou terem passado um tempo morando fora do país.

Já as empresas têm uma boa parcela de culpa nessa área, pois reclamam que não conseguem formar profissionais engajados e apaixonados, mas insistem em selecionar por critérios meramente acadêmicos e não oferecem desafios às “ovelhas negras”, que muitas vezes são os que mais carregam “sangue nos olhos”. Empresas vencedoras tem que exigir postura e atitudes vencedoras, não devem se acanhar em cobrar apenas o melhor de todos os que estão dentro dos seus barcos.

Li uma frase ótima agora à tarde, que acho que serve muito bem para ilustrar minhas palavras: “O mundo não é mais o mesmo desde que o Merthiolate parou de arder”. Muito boa, prá turma pensar no feriadão!

Panacéia

terça-feira, 9 de novembro de 2010

De acordo com a enciclopédia livre Wikipédia “Na mitologia grega Panaceia (ou Panacea em latim) era a deusa da cura. O termo Panacéia também é muito utilizado com o significado de remédio para todos os males.”

No Brasil usamos termos chulos como “estouro de boiada” e “maria vai com as outras” com propósito parecido, principalmente quando todo mundo resolve seguir o remédio milagroso que acreditam estar salvando apenas uns poucos felizardos que o conhecem. Antes que alguém ache que endoidei, comecei assim meio torto prá dizer com todas as letras: tem gente demais achando que viagens de incentivo é a última coca-cola do deserto e essa história vai acabar tendo um final agridoce.

Somente no último ano eu fiz uma conta rápida e identifiquei 12 novas agências que se dizem “especializadas em eventos e incentivos”, sendo que a própria adição de “eventos” na frente de “incentivos” já é uma baita complicação. Incentivos e eventos são coisas distintas; existe um abismo conceitual, operacional e de resultados entre as duas coisas e penso que muita gente ainda não atinou para isso.

Gostaria de aproveitar a ocasião do SMEC-LA (próxima 3ª feira), Bruce McMillan (próxima 4ª feira, para convidados), EIBTM (29/11 a 02/12) e Congresso Mundial do SITE (4/12 a 6/12) para pedir que todos os “especialistas em incentivos” reflitam sobre como está sendo forjado o segmento no Brasil, se estamos absorvendo de forma correta as melhores idéias e conceitos e, por fim, se estamos vendendo e entregando o produto certo com os resultados que os clientes tem em mente.

Uma das maravilhas do segmento de serviços é que as barreiras de entrada são muito pequenas e simples, com pouco esforço e capital quase todo mundo consegue entrar no jogo e tomar o remédio milagroso. O problema é que nem todo mundo lê a bula e segue as prescrições, e os efeitos colaterais podem derrubar o paciente em vez de curá-lo. Um pouco alarmista, eu sei, mas lá no interior a gente sempre duvida quando sai todo mundo correndo atrás de um balão de São João.