Tenho alguns amigos que esbanjam uma cultura muito vasta e conhecimentos tão diferentes dos meus que sempre que os encontro fico fascinado tentando absorver seus jargões e experiências.
O Ruy é aficcionado por aviões, helicópteros, lanchas, jet-skis e cana-de-açucar. Entende de plantio, colheita, preços e também é muito bom no manche de um avião ou helicóptero em manobras sensacionais. O Luis é gourmet inveterado, dono de uma adega de muita responsa e maluco por carros alemães. A lista de amigos com gostos ecléticos é extensa, mas tem um que me coloca no chinelo como o cara mais viajado e cheio das experiências mais inusitadas.
O Edgard Calfat é o único cara que eu conheço que já colocou os pés em Peshawar. Vcs tem idéia onde fica Peshawar? O Edgard estava em Shengzhen quando o porto começou, nos princípios da era Deng. O Edgard tinha um escritório em Kowlon e outro em Manhattan e já foi convidado da família real do Kuwait para uma semana de férias. O cara já fez jantares nababescos para centenas de convidados e já cozinhou um delicioso risotto para este pobre mortal aqui. Quando a gente conversa ele conta as histórias mais legais sobre os lugares mais malucos, sempre com riqueza de detalhes e enorme bom humor, jamais demonstrando qualquer traço de presunção ou arrogância. Charutos, vinhos, especiarias…todo bom peixe morre pela boca e assim como eu o Edgard está em eterna briga com a dieta, mas jamais abre mão das boas coisas da vida.
Hoje os casais jantaram juntos e o Edgard começou a noite meio cabisbiaxo. Ele teve uns piripaques há algumas semanas e tem que tomar uns medicamentos fortes por um tempo, e os efeitos colaterais o deixam preocupado. Além disso sinto que as limitações impostas pelos médicos e pela Vera em sua dieta, bebidas e afins o incomodam ainda mais, e o Edgard não deixou por menos: “o remédio não me deixa muito animado”, “o remédio me tira o sono”…o remédio isso, o remédio aquilo.
No final do jantar chega a conta e o Edgard começa a procurar os óculos prá conseguir enxergar o valor enquanto saca o cartão da carteira. “Pô Edgard, não tá conseguindo mais enxergar nem a conta?” Ele me olha e responde “é esse remédio que me faz enxergar mal”, aí não aguentei: “pô Edgard, assim também não! Daqui a pouco até unha encravada é efeito colateral! Pára de enrolar a gente!”
O Edgard me olhou sério bem no fundo dos olhos e caiu na risada. Por trás do riso tava aquele sorriso maroto de quem andou disparando a desculpa do efeito colateral a torto e a direito nos últimos dias, mas hoje ele foi desmascarado! Não vejo a hora dele voltar a beber e comer como gente grande, é um companheiro imbatível na arte de entreter e viajar nas viagens!




