Arquivo da Categoria ‘Amigos’

Efeito Colateral

domingo, 17 de julho de 2011

Tenho alguns amigos que esbanjam uma cultura muito vasta e conhecimentos tão diferentes dos meus que sempre que os encontro fico fascinado tentando absorver seus jargões e experiências.

O Ruy é aficcionado por aviões, helicópteros, lanchas, jet-skis e cana-de-açucar. Entende de plantio, colheita, preços e também é muito bom no manche de um avião ou helicóptero em manobras sensacionais. O Luis é gourmet inveterado, dono de uma adega de muita responsa e maluco por carros alemães. A lista de amigos com gostos ecléticos é extensa, mas tem um que me coloca no chinelo como o cara mais viajado e cheio das experiências mais inusitadas.

O Edgard Calfat é o único cara que eu conheço que já colocou os pés em Peshawar. Vcs tem idéia onde fica Peshawar? O Edgard estava em Shengzhen quando o porto começou, nos princípios da era Deng. O Edgard tinha um escritório em Kowlon e outro em Manhattan e já foi convidado da família real do Kuwait para uma semana de férias. O cara já fez jantares nababescos para centenas de convidados e já cozinhou um delicioso risotto para este pobre mortal aqui. Quando a gente conversa ele conta as histórias mais legais sobre os lugares mais malucos, sempre com riqueza de detalhes e enorme bom humor, jamais demonstrando qualquer traço de presunção ou arrogância. Charutos, vinhos, especiarias…todo bom peixe morre pela boca e assim como eu o Edgard está em eterna briga com a dieta, mas jamais abre mão das boas coisas da vida.

Hoje os casais jantaram juntos e o Edgard começou a noite meio cabisbiaxo. Ele teve uns piripaques há algumas semanas e tem que tomar uns medicamentos fortes por um tempo, e os efeitos colaterais o deixam preocupado. Além disso sinto que as limitações impostas pelos médicos e pela Vera em sua dieta, bebidas e afins o incomodam ainda mais, e o Edgard não deixou por menos: “o remédio não me deixa muito animado”, “o remédio me tira o sono”…o remédio isso, o remédio aquilo.

No final do jantar chega a conta e o Edgard começa a procurar os óculos prá conseguir enxergar o valor enquanto saca o cartão da carteira. “Pô Edgard, não tá conseguindo mais enxergar nem a conta?” Ele me olha e responde “é esse remédio que me faz enxergar mal”, aí não aguentei: “pô Edgard, assim também não! Daqui a pouco até unha encravada é efeito colateral! Pára de enrolar a gente!”

O Edgard me olhou sério bem no fundo dos olhos e caiu na risada. Por trás do riso tava aquele sorriso maroto de quem andou disparando a desculpa do efeito colateral a torto e a direito nos últimos dias, mas hoje ele foi desmascarado! Não vejo a hora dele voltar a beber e comer como gente grande, é um companheiro imbatível na arte de entreter e viajar nas viagens!

Uma Família!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Há quanto tempo você não vê uma familia assim: o filho faz um carinho na cabeça do pai ao passar perto dele; a mãe beija as filhas e a namorada do filho e as abraça apertado e carinhosamente; as filhas veem os pais dançarem na frente de todo mundo e batem palmas e pulam prá dentro da dança; a bebida e a comida e o cigarro e as risadas são divididos e apreciados sem culpa, pressa ou formalidades; a mãe cozinha para um batalhão e trata os convidados em sua casa como se fossem velhos e íntimos conhecidos, com um sorriso genuíno e amoroso.

Esta família é a família Tslides! Gregos atenienses “de raiz”, simples, cuidadosos e atenciosos, mas, acima de tudo, gente que adora os seus irmãos, pais, filhos e amigos, contagiando de maneira ímpar todos à sua volta. Não será fácil explicar aqui o jantar de ontem à noite no terraço da simples e linda cobertura, cheia de plantas e mimos, com vista para a cidade cintilante a seu redor. Entradas típicas, bebidas de todos os tipos, travessas coloridas cheias de comida cheirosa, fumegante e deliciosa, música alta e muitas risadas!

Também é inexplicável a energia e cuidado que nos foram dispensados por estes amigos que tenho o privilégio de conviver e, além da convivênia, fazer negócios e dividir momentos bons e difíceis. Se existe um negócio ideal, ele está sustentado sobre fortes pilares de honra, atenção e comprometimento com o bem-estar dos outros além do nosso próprio bem-estar. Ao Georges, Fruhly, Rhula e Stelios só posso deixar um enorme MUITO OBRIGADO do fundo do coração e estas fotos que mostram um pouquinho do que as palavras não conseguem expressar.

Carta ao Artur

sábado, 14 de maio de 2011

Eu o conheci antes de você me conhecer. Em 1995 fiz meu primeiro evento como gerente do Inter-Travel no Rio de Janeiro (Almirante Barroso, 52) e lá estava você, o “homem do Panrotas” que cobria e escrevia. Falei pro Gustavo e Marcelo colarem em você e sacarem se estava curtindo o lançamento do nosso produto. Daí meia hora os caras voltam e dizem que “esse jornalista é fogo! Só olha e não comenta nada!” Desde aquele dia, há 16 anos, sempre fiquei com a impressão (que hoje é uma sólida certeza) de que você vê muito mais do que escreve, ouve muito mais do que fala e entende muito mais do que explica.

Os anos passaram e por coincidências e acasos nos aproximamos, muitas vezes trombando em eventos e em outras poucas ocasiões para entrevistas e conversas sobre o mercado, planos e resultados. Guardarei sempre boas memórias de seu humor ácido, sua implacável verve com o erro alheio e o temível silêncio que muitas vezes é gritante e revelador. De tanto perturbá-lo você me deu esse espaço para escrever, e quando digo “deu” é porque deu mesmo! Não interfere em assuntos, não reclama das polêmicas, não tenta apaziguar ânimos ou cercear qualquer traço e letra.

Como jornalista de pedigree você parece entender muito mais e melhor que todos o valor das idéias contraditórias, das rusgas e da crítica como forma de empurrar corações à frente e mentes ao alto. Caro editor-chefe, blogueiro e incansável brigador: parabéns por seus 20 anos de carreira nesta casa e que não venham apenas mais 20 anos, mas que continue vindo a informação quente, apolítica e direta. O crescimento editorial do Panrotas sob seu comando e bençãos do Guillermo é notável, este é hoje um veículo maduro e referencial, o farol que faz muitos navegantes se aventurarem em mar revolto.

Você é o faroleiro, você mantém essa luz acesa e essa é sua missão mais importante. Um forte abraço de seu companheiro blogueiro!

Minha Turma

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mais uma gringa muito engraçada entrou prá minha turma de amigos este ano. Quando comecei a pesquisar uma DMC com foco em incentivos na Espanha recebi diversas indicações de amigos e parceiros de negócios, até que em Novembro passado eu estava numa reunião com vários representantes internacionais em Barcelona e a Phillippa Durrant (Presidente da “The DMC Group” de NYC) me chamou de lado e disse: “Se você não escolher a Another Konzept vou ficar muito decepcionada com você!”. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo intrigado com a “chamada” da Phillippa e resolvi checar a AK, sempre tendo em mente a frase de um velho amigo meu que diz que “Jacaré não anda com Girafa”, ou seja, a gente deve acreditar que afinidades e empatia são muito importantes prá quase tudo na vida.

Depois de algumas conversas muito animadas e mais pesquisas resolvi seguir minha intuição e fechei negócio com esta empresa tocada por 2 alemãs radicadas na Catalunha há 22 anos. Além das duas sócias o escritório tem mais 10 mulheres e vocês já podem imaginar que nenhum homem dá pitaco naquele terreiro, mas o importante é que são criativas, divertidas, profissionais e muito descoladas. Quando o assunto é produzir um incentivo de impacto com atividades, luzes, música e comida, com alma e tempero espanhol, elas dão show.

Voltando ao que interessa, a Katrin (uma das sócias) está no Brasil esta semana e está sendo uma das visitas mais divertidas que recebemos nos últimos tempos. Prá começar, ela achou São Paulo uma cidade bonita (!) de enormes contrastes e grande diversidade; fica tirando fotos de todas as coisas com seu Blackberry e posta imediatamente em seu Facebook, sempre fazendo propaganda positiva da comida (tirou fotos de todos os pratos que comeu e não foram poucos), das caipirinhas (provou várias, sempre com a desculpa que não tinha “fixado” o gosto ainda), das agências que visitamos e das pessoas. Além de tudo isso a Katrin quis tomar café-da-manhã numa padoca (imaginem uma gringa loira de 1.80M chegando no balcão e pedindo uma canoa na chapa e uma média), entrou em duas missas no Domingo (uma na igreja do Colégio São Luis e outra na Al. Franca) prá ver “que tipo de pessoas vai à missa”, fez amizade com uns alemães no hotel em que está hospedada e organizou uma van prá irem todos a uma churrascaria. Comprovando minha tese que os gringos se divertem por aqui muito mais que nós, a Katrin está triste porque vai embora amanhã, pois não conseguiu ir a um jogo de futebol nem a um ensaio de escola de samba (veio na época errada), mas comprou uma penca de Havaianas prá dar de presente, 2 garrafas de cachaça e 2 livros de culinária “Dona Benta”.

Ela também me pediu prá arrumar um saco de 1kg de polvilho azedo prá ela fazer pão-de-queijo prá família em Barcelona, mas aí achei que ela já tá exagerando e disse “não”! Já imaginaram a quizumba que vai ser no aeroporto “El Prat” essa mulher chegando com um saco cheio de pó branco e fino dentro da mala? Melhor ela curtir o pão-de-queijo sempre que estiver por aqui, algo que creio se tornará frequente. É cada maluco (a) que me aparece!

Outros carnavais…

quarta-feira, 2 de março de 2011

Todo mundo tem histórias antigas guardadas a sete-chaves, causos cabeludos que pouca gente conhece e segredos que são quase invioláveis (segredo inviolável não existe). Quando esses causos se referem aos outros, tudo bem, o problema é quando os outros tem uma lista de causos em que nós somos os protagonistas e, em geral, preferíamos que a coisa não tivesse acontecido.

No carnaval de 1985 eu ainda era um adolescente rebelde de 16 anos, naquela fase difícil que tudo que os mais velhos falam não é bom e tudo o que seus amigos dizem é lei. O combinação da idade, morar no interior e ter uma turma completamente irresponsável de amigos gerava sempre algum tipo de confusão, desde as menores (por menor entende-se trancar o portão da escola por fora com todo mundo dentro em dia de prova) até as médias (fazer guerra com rojões entre duas “equipes” em praça pública) e as realmente capiciosas e impublicávies. Pois naquele carnaval que já vai longe as comemorações começaram cedo, logo na 1ª semana de aula em Fevereiro.

A idéia de um dos meus brilhantes amigos foi comprar um Dodge Dart marron bem velho, serrar a capota e fazer um mini “trio-elétrico” no Dojão, dividindo custos e diversão em partes iguais. Lógico que nossos pais nem sonhavam com uma coisa dessas, ninguém tinha carteira de habilitação e o tal carro não tinha documentos. Durante 2 semanas trabalhamos escondidos na montagem do carrão, que foi carinhosamente apelidado de “pistola” e recebeu um toca fitas (de gaveta) Rio de Janeiro e um equalizador Tojo, além de várias caixas de som Arlen. A pintura foi estilizada com spray e lá fomos nós na semana pré-carnaval, passeando pelas avenidas da cidade, uns 8 moleques empoleirados no pobre Dojão, gastando uma fortuna que não tinhamos para encher o tanque daquele bebum.

Na 6ª feira de carnaval havia o tradicional “Bloco das Piranhas”, que se apossava da avenida 9 de Julho. O bloco era composto de homens travestidos de mulher que vinham de todas as partes da cidade e até das redondezas, e era um bloco enorme e famoso. Com certeza a gente ia passear com o Pistola na avenida, mas havia o receio da polícia resolver prender o carro numa blitz, pelos motivos que já mencionei acima. A engenhosa saída que encontramos foi colocar um adulto dirigindo o Pistola durante a duração do bloco, assim ninguém corria o risco de ir parar na delegacia. A gente só precisava encontrar o tal motorista. Não podia ser alguém responsável, não podia ser da família, enfim, restavam poucas alternativas e o tempo estava minguando.

Já tinhamos desistido de achar o tal motorista e íamos em direção à avenida empoleirados sobre nossa lancha, quando vimos um cara que era lavador de carros e que sempre fazia uns bicos no bairro. Paramos o carro do lado dele, oferecemos uns trocados e ele aceitou ser o condutor durante a farra, sem muito entusiasmo. Assim que entramos com o Pistola na avenida foi uma grande festa! O som rolava alto e além do nosso carro tinha outro de uma turma rival, uns provocando os outros e as “piranhas” passeando pela avenida, numa cena dantesca.

De repente, bem no meio da muvuca, o Pistola morreu! Morreu completamente, apagou e não dava qualquer sinal de vida. Olhamos pro motorista e ele disse que o melhor que podíamos fazer era descer e empurrar o trambolho prá pegar no tranco; e quando descemos tomamos a mais sonora vaia da multidão ao redor. Mal sabíamos que o mais vergonhoso ainda estava por vir. Assim que começamos a empurrar o carro o motor pegou e O MOTORISTA FUGIU.

Sim meus caros leitores, fomos enganados e traídos pelo lavador de carros! O cara deu partida, acelerou e saiu voando pela avenida, deixando os bobos se olhando sem carro e sem documentos! Para encurtar uma história longa, na terça-feira de carnaval o Pistola foi encontrado na Vila Virgínia, em perfeito estado. Dias depois alguém encontrou o lavador de carros e partiu prá cima dele, mas o cara foi enfático: “o carrão fez o maior suceso em toda a cidade, fui com ele a todos os bailes que pude e quando ia devolver prá vocês acabou a gasolina”. Como o cara era barra-pesada a coisa morreu por ali mesmo, mas a gente nunca mais esqueceu a dor de passar o carnaval a pé e sendo a piada da cidade depois de tanto planejamento e entusiasmo. Tenho certeza que foi esse triste acontecimento que fez minha chama carnavalesca minguar e nunca mais encarei a folia de Momo do mesmo jeito…

Não Vendemos!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Cheguei ontem de BUE por volta de 1/2 noite e saí direto do aeroporto para o litoral norte. Trouxe com a gente a Karen Shackman, presidente de uma das DMCs (destination management company) mais prestigiosas dos Estados Unidos, uma sul-africana radicada na América há mais de 20 anos, classuda, culta e super-viajada. Durante todo o trajeto noturno de Guarulhos até aqui pude perceber que ela estava um pouco desconfortável, nem tanto com os sacolejos e curvas, mas principalmente com a total falta de referência sobre o que ia encontrar quando chegasse. Após quase 2 horas na estrada chegamos a Camburizinho e nos acomodamos na pousada para um merecido descanso, com instruções para que ela descansasse e nos encontrasse hoje às 10:30 da manhã para o café.

Ao nos encontrarmos hoje cedo a Karen estava absolutamente chocada. Não acreditava na beleza das montanhas ao nosso redor, no céu azul de doer e no calor forte e constante em contraste com sua gélida NYC. Disse que a pousada é linda, que o café-da-manhã é mais que suficiente, adorou ir caminhando pelas ruelas poeirentas até a areia e ficou embasbacada com a beleza do mar, com os vendedores de bugigangas e comida, com a total tranquilidade e relaxamanto à sua volta.

O deslumbramento continuou por todo o dia, com as óbvias (talvez não para nós, brasileiros) constatações que ninguém nas lojas e botecos fala inglês, que a gente pode abrir uma conta na barraca e pagar tudo no fim do dia e que não há barulho de lanchas, jet-skis e buzinas neste pedaço do litoral. Após assistir ao por-do-sol em meio à chuva de verão que logo passou, a Karen foi direto na jugular: “que bom que vocês não vendem isso no mercado externo!”. Minha cara de espanto inicial a motivou ainda mais: “Sidney, o mundo está virando uma planície chata, pasteurizada e inundada por Starbucks, McDonalds, Blackberries e Zaras. Ninguém se dá conta que viviamos muito bem sem toda essa massificação, esse turismo desenfreado…enquanto vocês, brasileiros, puderem ter um lugar para chamarem de “seu”, curtam isso a cada instante! Aproveitem essas praias, florestas e campos para repensar seu país, avaliar sua cultura e planejar um turismo cada vez menos industrializado e cada vez mais personalizado e real.”

Após essa reflexão espontânea, controversa e tão assertiva, ela deu uma boa risada (na realidade a Karen não ri, ela sorri com menos comedimento) e emendou: “prometo que não vou contar lá em New York que estive por aqui e que descobri um pedaço de litoral encantador, vou guardar as memórias que puder daqui e espero voltar um dia e encontrar as coisas mais ou menos como estão agora; agora me diz uma coisa: o que faz aquele moço batendo naquela tabuinha e carregando aquele varal?” Pronto, agora era a hora de mais uma descoberta…”bijuzeiro? Chega aqui por favor?”

6º Sentido

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Existem situações que exigem decisões que não estamos preparados para tomar. Em geral, elas residem em áreas que nosso conhecimento não atinge ou acontecem em momentos que nossa cabeça está distraída com outros afazeres e não damos o devido tempo e atenção para formar uma opinião antes de puxar o gatilho.

Situações assim acabam sendo reolvidas por instinto, por “feeling” ou até mesmo pelo aclamado e ainda misterioso 6º sentido.

Já contei essa história para algumas pessoas, mas cabe trazê-la à tona publicamente: em 2007 eu estava começando a fortalecer os negócios da Avant Garde e resolvi ir até Barcelona para participar da EIBTM (Events & Incentives Business Travel Mart) como visitante individual, sem nenhuma pompa. Me hospedei em um pequeno hotel na Rambla Cataluña e logo cedinho na manhã de 3ª feira fui ao encontro de um grande DMC que estava hospedado no hotel Casa Fuster, imponente 5 estrelas em estilo “Gaudi/Catalão”. Chovia forte e às 8 em ponto já estávamos confortavelmente acomodados no salão de café, começando a esgrimar em cima de um acordo de representação. Era um homem agradável, muito experiente e de grande sucesso em seu país, dono de contatos e influência política no mundo dos incentivos. Após 1 hora de embate ficaram poucas arestas a aparar e demos por encerrada a reunião.

Ele me convidou para rachar um táxi até o centro de convenções, uma ótima idéia que nos daria mais algum tempo para finalizar o que fosse necessário. Ao sairmos para a calçada, sob a marquise da recepção do hotel, percebemos a enorme fila de almas esperando tristemente pelos escassos táxis no horário de pico. Meu companheiro não teve dúvidas: ao ver um destes veículos parando 10 metros à frente da entrada do hotel, correu e pulou prá dentro assim que a porta se abriu.

Nessa hora gelei. Logo após o gelo veio um calor estranho no pescoço, misto de vergonha e indecisão, enquanto ele se agitava e me chamava prá dentro do carro. Entrei sem olhar prá trás ou para os lados, me afundei no banco e comecei a viajar para um outro lugar. Pensei nas pessoas que estavam naquela fila, no tempo e na paciência de cada um deles, nos rostos que possivelmente me encarariam quando chegassem bem mais tarde e molhados à feira.

Quando desci daquele carro infame meu negócio com aquele homem estava desfeito. Não toquei no assunto durante o trajeto, aliás, trocamos poucas e monossilábicas palavras. Minha cabeça estava feita: se aquele homem não tinha paciência ou cortesia para entrar numa fila de táxi, que tipo de parceiro comercial ele seria? Quanto tempo iria demorar até ele pular à minha frente ou à frente de um cliente por uns míseros trocados ou minutos de sossego? Respondi mais 2 e-mails seus naquele mesmo dia e finalmente disse que havia pensado melhor e não achava bom fechar um contrato naquele momento. Com certeza ele não entendeu nada, mas torci sinceramente que tivesse entendido tudo.

No dia seguinte achei um parceiro de negócios menor e menos famoso que está comigo até hoje, e que se tornou um grande amigo. Quando contei esta história para um confidente de muitos anos e lutas, ele sorriu e disse: “Sidão, 6º sentido não existe! O problema é que somos mesmo uns tapados: notamos grandes qualidades e defeitos, mas não temos a capacidade de enxergar pequenas coisas que fazem enorme diferença”. Para todos aqueles que esperam um sinal, uma “epifânia” ou um “chamado”, sugiro começar a olhar bem para as pequenas coisas do dia-a-dia; as respostas podem estar muito mais perto do que a gente imagina.

Senhores da Areia

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Jordânia é um pequeno país do Oriente Médio que tinha muito prá dar errado. Escassos recursos naturais, encravado numa região com muitos atritos políticos e militares, fronteiras com uma miríade de países de interesses antagônicos. Apesar de tudo isso, a Jordânia se tornou uma espécie de “santuário” do mundo Árabe, um oásis de relativa tranquilidade e bom senso onde sempre reinou muito sangue quente.

Numa de minhas visitas aproveitei para conhecer em detalhes o país, sempre acompanhado de um bom guia local, articulado, motivado e experiente. Terminamos a viagem no deserto de Wadi Rum, pedaço arenoso e montanhoso que faz fronteira com a Arábia Saudita. Ali tive a oportunidade de conviver com os “reis do deserto”, os beduínos jordanianos. Ao saber do apelido curioso iniciei minhas pesquisas, primeiro através do meu guia Emad e depois com minha amiga Ghada Najar.

Quando o Rei Hussein assumiu o trono do Reino da Jordânia havia uma enorme dificuldade em estabelecer e respeitar fronteiras. Os povos do deserto não reconheciam nem entendiam os limites geográficos, para eles o areião não tem cercas e passaporte é documento de ficção. Como compromisso junto aos ingleses (principais patrocinadores da fundação do Estado), o Rei Hussein tinha que conseguir unificar o país sob uma mesma constituição, evitando que as numerosas tribos nômades minassem suas aspirações de soberania. Em uma atitude corajosa, ousada e inteligentíssima, o Rei chamou os principais representantes dos clãs nômades e ofereceu a eles o comando supremo do exército jordaniano, em troca de sua lealdade e respeito às regras daquela nova nação.

Os beduínos se reuniram e resolveram aceitar a oferta do Rei, que além do comando do exército lhes oferecia liberdade para continuarem sendo nômades e o controle de algumas áreas estratégicas do novo país. Uma dessas áreas é o deserto de Wadi Rum, onde qos manda-chuvas (neste caso não mandam chuva nenhuma!) são estes beduínos. Para fazer um passeio de 4×4 por suas areias, vales cercados de montanhas rochosas e vilarejos poeirentos e seculares é necessário agendar com eles e mais ninguém. São eles que controlam aquele espaço, que o exploram turistica e comercialmente e aplicam regras e leis milenares. Uma vida live, interessante e cheia de fantásticas histórias a desses caras. O que mais me impressionou foram suas casas de 2 andares construídas à margem das estradas, com antena “Sky”, Land Cruiser na garagem e, pasmem, várias tendas cheias de gente morando no quintal! Pois é, os beduínos não aceitam abrir mão de suas tradições, e apesar de terem moradas confortáveis eles se apinham do lado de fora, onde cozinham, convivem, dormem e procriam. As casas só servem quando o tempo fica muito frio e as tendas já não oferecem o conforto necessário para sua sobrevivência.

Quanto ao governo, jamais houve um motim na Jordânia sob o comando militar dos beduínos. Para eles a palavra empenhada é dívida eterna, que passa de geração em geração e que separa homens de honra dos “impuros”. É muito louco ver que a guarda de palácios e edifícios governamentais é feita por guardas vestidos em trajes tradicionais e armados de uma longa e curva espada beduína, uma ode à tradição desta gente. Quando for à Jordânia, tente conhecer um pouco mais desse povo fascinante, pois além de Petra, Mar Morto, Aqaba, Jerash e Aman existe uma cultura muito vasta e rica em cada pedra e recanto daquele país rico em homens de honra!

Keep Walking…

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A história do cara aqui ao lado dá um bonito livro, um romance de sucesso ou um bom causo prá contar numa roda de amigos. Meu amigo Mehmet tem 41 anos que parecem 50. A pele foi castigada pelo sol, vento e temperaturas vertiginosas; o inseparável cigarro deu sua contribuição, mas a alma é de um adolescente livre, de ar triste e coração bondoso. Em 2007 estive na Capadócia pela 1ª vez e minha amiga Feyhan havia marcado um “tour” para mim com um guia chamado “Walking Mehmet”. Me veio logo à cabeça o cara de cartola do Johnny Walker, mas fiquei na minha. No dia marcado estava eu tomando café-da-manhã no hotel quando surge o tipo; se apresenta e senta comigo sem cerimônia, pega um naco de pão, toma um café e me olha com olhos vivos e inquietos. “Está pronto?” Eu não estava, mas resolvi não contrariar a criatura. Saimos no sol frio da manhã e ele disparou a andar. Inocente, perguntei “Onde começa nosso tour?” Na 1a boa risada daquele dia Mehmet respondeu: “vc acha que me chamam de Walking por que? O tour já começou!” e lá fomos nós embrenhando em picadas, escalando as paredes de rocha vulcânica esfarelenta, ele como uma cabra montesa, eu muito próximo de um tombo com sérias escoriações.

Por 4 horas “viajei” por vales luminosos, entre pedras pontiagudas e parreiras carregadas. Eu vivi aquele lugar, pisei seus vales, ouvi sua história e senti seu vento como em nenhuma outra paragem deste mundo; estive longe de estradas, de buzinas, de turistas barulhentos. Cada fruta do caminho era colhida por Mehmet para virar suco em seu boteco, um ramo de arbustos secos foi pego para servir de vassoura, uvas passas eram colhidas e comidas enquanto andávamos e conversávamos sobre a vida. Mulher holandesa muito loira, família há séculos na Capadócia, mulçumano, amante da natureza, andarilho livre e inquieto. Aprendeu inglês na raça, arranha holandês e alemão, tem mais amigos espalhados pelo mundo que qualquer Facebook pode suportar. No guia Lonely Planet Walking Mehmet é famoso; no Frommers e no Fodors ele também já apareceu; sua vida é levar gente como a gente prá andar por sua terra, faz disso seu sustento material e sua terapia ocupacional. Para Mehmet o passeio tem hora prá começar, nunca prá acabar, pois “enquanto o turista quer andar ele está querendo dividir seus momentos comigo, e isso é uma honra”.

Mantivemos correspondência e trocamos idéias estes anos, ele foi conhecer a Holanda e a familia da mulher (detestou), eu rodei o mundo e mudei de vida. Estivemos agora em Setembro de volta à Capadócia depois de 3 anos. Sua filhinha é quase da idade dos meus, a mulher espera mais um rebento para breve; Mehmet continua com seu boteco, suas andanças, a cerveja e o cigarrinho. As histórias se multiplicam assim como os invernos frios e verões escaldantes. Dessa vez, depois de umas várias cervejas Mehmet me confessou: “Sidney, não entendo as mulheres!”. Senti a dor da afirmação e a súplica por uma resposta em seu olhar, mas ele teve que se conformar com a mais besta e trivial das contestações: “E quem entende Mehmet? Vamos logo andar, homem!”

Filha do Mehmet, loirinha de doer...

É Nóis!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quando comecei a escrever o SEM FRONTEIRAS fiquei na dúvida sobre o que é ou não é apropriado ao tema do blog, mas depois percebi que seu próprio nome me proporciona esta liberdade para experimentar e discorrer sobre temas variados. Hoje passei um tempão remoendo o tema “amizade” e assim que tive um tempinho sentei aqui prá escrever, antes que as idéias saiam de fininho. Não se quantifica amizade pela quantidade de vezes que se vê o amigo, pelo tempo passado junto ou pelas meras afinidades que podem ser listadas e checadas de maneira fria como uma lista de supermercado. Eu vejo a amizade como algo meio atômico, um estalo cósmico que rola ou não vai adiante, sendo que depois do “big bang” está no ar uma nova estrela que vai ficar ali oferecendo seu brilho por alguns milhões de anos-luz. Discordo das pessoas que dizem que amizade deve ser regada com frequência, como se fosse uma frágil planta prestes a morrer; discordo porque amizade cultivada me parece uma plantação, que em vez de espontânea tem hora para semear, regar, adubar e colher, com prazo de validade definido e propósito pré-estabelecido. Escrevo sobre amizade porque este mês tive a oportunidade de viajar de férias com um casal de amigos do peito que às vezes fico 1 mês sem ver ou falar, mas que ao nos encontrarmos parece que foi ontem que tivemos um longo e saboroso bate-papo; escrevo porque tive o prazer de cumprimentar à distância o Cássio e o Daniel por seus aniversários, e mesmo sem convivermos ou frequentarmos os mesmos lugares os considero sábios amigos; escrevo porque esta semana meu amigo Gamal Fathy está em São Paulo e pude retribuir uma micra de suas gentilezas quando ele me recebe de coração e braços abertos em Dubai; escrevo também porque meu amigo Carlos vai dar uma festa, meu amigo Nogueira se reelegeu deputado federal, meu amigo Paulo foi nas “Noites Brancas”, meu amigo Marcus veio jantar em casa, meu amigo Edgar me deu uma aula de Chapada, minha amiga Olga me ofereceu um Nespresso e meu amigo-irmão Ruy ligou prá me encher a paciência às 6 da manhã. Enfim, parei tudo e cheguei aqui com uma sensação muito legal que temos que administrar melhor nossas expectativas sobre o mundo e valorizar mais o presente, plantar mais amigos sem compromisso e esperar deles apenas o inesperado e surpreendente que cada ser humano guarda em si. Tô de volta, meus amigos!