Existem situações cotidianas que nos fazem repensar valores. São fragmentos da vida comum que passam à frente de nossos olhos e jamais descolam da retina, penetram no cérebro e se fundem à nossa alma tornando-se de alguma forma parte de nós. Semana passada presenciei uma destas situações, assisti ao vivo um momento de pura poesia, magia, dor e compaixão, um emaranhado de coisas em uma fração de tempo, uns poucos segundos que se evaporaram mas deixaram sua marca.
Estava em Istanbul no dia 1º de Maio e no fim da tarde nosso grupo se dispersou para fazer algumas compras no luxuoso distrito de Niçantasi. Fui sozinho até uma loja comprar algumas coisas para meus filhos e depois iniciei a caminhada de volta ao hotel Divan, um percurso de uns 2km pela principal avenida de Taksim. As ruas ainda estavam fechadas com cavaletes e grades de ferro, uma precaução da polícia local para evitar os frequentes tumultos do dia do Trabalho em Istanbul, onde os turcos despejam sua ira contra os imperialistas, reformadores, capitalistas e todos os outros demônios que regem nossa vida cotidiana.
Na minha caminhada a passos não muito rápidos cruzei com estudantes, trabalhadores, senhores portando bandeiras vermelhas e panfletos de protesto, policiais ainda tensos e cansados pelo longo dia de vigilia e uma enorme fauna de tipos comuns ou nem tanto. Também passaram por mim indo na mesma direção que eu mulheres jovens com seus cigarros, estudantes barulhentos e os mesmos bichos que vinham em sentido contrário, como se todos fossem a mesma pessoa refletida num enorme espelho. Fui ultrapassado por um jovem alto, magro e barbudo de calças jeans surradas, tênis sujos, jaqueta de couro e cabelos longos. Tinha uma barba grande e levava um cigarro aceso entre os dedos enquanto dava passos largos e firmes. Só pude ver suas costas mas imaginei um desses milhões de tipos urbanos grunges, meio roqueiros e meio publicitários, um filho talvez amoroso ou um raivoso cantor de rock. Fui andando uns 10 passos atrás do cabeludo quando a cena aconteceu.
Detrás de uma mureta baixa de pedra que ladeava uma pracinha gramada saltou um mendigo muito sujo e maltrapilho, um desses tipos que nos fazem ter a repulsa como primeira reação. O mendigo foi na direção do barbudo e vendo o cigarro preso entre seus dedos fez aquele gesto universal de pedir uma bituca ou, quem sabe com muita sorte, um “crivo” novo em folha para saciar sua vontade. Olhando a cena de uns 10 metros de distância, diminuí o passo e pensei rapidamente: “Esse mendigo tá pedindo cigarro prô cara errado”, e já fiquei esperando uma reação entre indiferença ou rechaço, mas nada além daquilo.
O barbudo parou. O barbudo grunge tirou um maço do bolso da jaqueta de couro e puxou uns 5 cigarros com a mão ossuda de dedos longos. Entregou o tesouro nas mãos do mendigo que olhava vidrado e surpreso o outro homem. O mendigo pediu fogo. O barbudo grunge e cabeludo tirou um isqueiro do mesmo bolso, acendeu o cigarro do mendigo e juntos deram longos tragos em seus cigarros. Passei por eles neste instante e fui brindado com o sorriso de satisfação do mendigo. Eram dois amigos unidos pelo vício, pessoas de mundos tão distantes e tão próximos em seus desejos primários.
Continuei andando em direção ao hotel, preferi não olhar para trás a fim de evitar quebrar a magia do momento. O jovem barbudo não passou mais por mim, deve ter tomado outro caminho ou talvez ficou trocando uma idéia com seu novo chapa. Apertei o passo e refiz todos os momentos em minha cabeça, filmei cada quadro com precisão para evitar perder a história que viria para este blog. Hoje ela está aqui, do outro lado do mundo, eternizada em sua simplicidade e poesia. É sempre muito bom voltar prá casa!





















































