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O Mendigo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Existem situações cotidianas que nos fazem repensar valores. São fragmentos da vida comum que passam à frente de nossos olhos e jamais descolam da retina, penetram no cérebro e se fundem à nossa alma tornando-se de alguma forma parte de nós. Semana passada presenciei uma destas situações, assisti ao vivo um momento de pura poesia, magia, dor e compaixão, um emaranhado de coisas em uma fração de tempo, uns poucos segundos que se evaporaram mas deixaram sua marca.

Estava em Istanbul no dia 1º de Maio e no fim da tarde nosso grupo se dispersou para fazer algumas compras no luxuoso distrito de Niçantasi. Fui sozinho até uma loja comprar algumas coisas para meus filhos e depois iniciei a caminhada de volta ao hotel Divan, um percurso de uns 2km pela principal avenida de Taksim. As ruas ainda estavam fechadas com cavaletes e grades de ferro, uma precaução da polícia local para evitar os frequentes tumultos do dia do Trabalho em Istanbul, onde os turcos despejam sua ira contra os imperialistas, reformadores, capitalistas e todos os outros demônios que regem nossa vida cotidiana.

Na minha caminhada a passos não muito rápidos cruzei com estudantes, trabalhadores, senhores portando bandeiras vermelhas e panfletos de protesto, policiais ainda tensos e cansados pelo longo dia de vigilia e uma enorme fauna de tipos comuns ou nem tanto. Também passaram por mim indo na mesma direção que eu mulheres jovens com seus cigarros, estudantes barulhentos e os mesmos bichos que vinham em sentido contrário, como se todos fossem a mesma pessoa refletida num enorme espelho. Fui ultrapassado por um jovem alto, magro e barbudo de calças jeans surradas, tênis sujos, jaqueta de couro e cabelos longos. Tinha uma barba grande e levava um cigarro aceso entre os dedos enquanto dava passos largos e firmes. Só pude ver suas costas mas imaginei um desses milhões de tipos urbanos grunges, meio roqueiros e meio publicitários, um filho talvez amoroso ou um raivoso cantor de rock. Fui andando uns 10 passos atrás do cabeludo quando a cena aconteceu.

Detrás de uma mureta baixa de pedra que ladeava uma pracinha gramada saltou um mendigo muito sujo e maltrapilho, um desses tipos que nos fazem ter a repulsa como primeira reação. O mendigo foi na direção do barbudo e vendo o cigarro preso entre seus dedos fez aquele gesto universal de pedir uma bituca ou, quem sabe com muita sorte, um “crivo” novo em folha para saciar sua vontade. Olhando a cena de uns 10 metros de distância, diminuí o passo e pensei rapidamente: “Esse mendigo tá pedindo cigarro prô cara errado”, e já fiquei esperando uma reação entre indiferença ou rechaço, mas nada além daquilo.

O barbudo parou. O barbudo grunge tirou um maço do bolso da jaqueta de couro e puxou uns 5 cigarros com a mão ossuda de dedos longos. Entregou o tesouro nas mãos do mendigo que olhava vidrado e surpreso o outro homem. O mendigo pediu fogo. O barbudo grunge e cabeludo tirou um isqueiro do mesmo bolso, acendeu o cigarro do mendigo e juntos deram longos tragos em seus cigarros. Passei por eles neste instante e fui brindado com o sorriso de satisfação do mendigo. Eram dois amigos unidos pelo vício, pessoas de mundos tão distantes e tão próximos em seus desejos primários.

Continuei andando em direção ao hotel, preferi não olhar para trás a fim de evitar quebrar a magia do momento. O jovem barbudo não passou mais por mim, deve ter tomado outro caminho ou talvez ficou trocando uma idéia com seu novo chapa. Apertei o passo e refiz todos os momentos em minha cabeça, filmei cada quadro com precisão para evitar perder a história que viria para este blog. Hoje ela está aqui, do outro lado do mundo, eternizada em sua simplicidade e poesia. É sempre muito bom voltar prá casa!

São Petersburgo

sábado, 5 de maio de 2012

Saímos hoje de São Petersburgo rumo a Moscou. Deixamos atrás de nós uma belíssima cidade com ares venezianos e parisienses, palácios de famílias abastadas na memória e um vento contínuo e cortante nos rostos gelados. Trazemos conosco boas memórias, fotos e risadas.

Minha Istanbul

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Foi minha 5ª viagem a Istanbul nos últimos 4 anos. Foi a mais rápida delas. Foi surpreendente, como sempre. Imagens valem mais que mil palavras, aí vai uma seleção diferente para vocês, espero que todos gostem.

Doha & Dubai

terça-feira, 6 de março de 2012

Miss Saigon

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A noção de distância é algo que demoramos a assimilar, diferentemente das afinidades prematuras com familiares, comidas, cheiros, sons e sabores. É como se nossa habilidade espacial seja propositadamente retardada pela natureza, com o intuito de fazer com que nos preocupemos com tudo o que está perto de nós antes de esticarmos as asas sobre o mundo. Talvez daí venha nossa vontade de viajar, nossa forma estabanada de imitar os outros animais da natureza que se movem durante estações e cumprem seus ciclos migratórios com precisa regularidade. Quando eu era moleque (ainda bem pequeno no interior) pegava minha bicicleta e saia explorando a vizinhança, cruzava bairros desconhecidos e me aventurava a descobrir novas ruas e praças. Minha mãe ficava surpresa e até um pouco preocupada quando eu chegava em casa e contava que havia ido até um determinado lugar, como se eu estivesse me aventurando além do normal. Hoje percebo como eram curtas estas viagens, quão efêmeras as “excursões”, mas como foram importantes para despertar meu gosto pela vastidão do mundo. Sempre lá, com minha bike e muita vontade de pedalar…

Passei os últimos 20 dias em férias, primeiro numa longa incursão pelo Vietnã e depois pelos Emirados Árabes e Qatar. No sudeste asiático pude retornar às origens e me encantar com os milhões de bicicletas e pequenas motocicletas, principalmente com as ecologicamente corretas bikes elétricas que passavam zunindo por nós em cada cidade, como se fossem possantes máquinas de esqueletos frágeis como borboletas. Sua beleza poética, perfil esguio, rodar silencioso e design retrô me faziam parar e ficar adimirando seu trânsito, as pessoas e seus movimentos. No último dia em Ho Chi Minh (Saigon) fomos conhecer os túneis criados pelos vietcongues para se esconder durante os terríveis anos de combate entre norte e sul, principalmente durante  o período mais pesado da ocupação americana no começo da década de 1970. Quando voltávamos para o centro da cidade perguntei casualmente para nosso guia quanto custava uma biicleta elétrica e ele respondeu que não devia ser mais de U$150. Tomei o preço como um exagero de barato e disse: “se custar só isso mesmo então eu vou comprar uma!”

Pronto, estava lançado o maluco desafio! A partir daquele momento e pelas próximas 5 horas fizemos uma combinação de “tours” por bairros na periferia de Saigon, lojas de motos e bazares. Eram 3 da tarde quando entramos numa lojinha e encontramos o que queríamos: uma bela bike Yamaha usada e reciclada, fabricada nos anos 1990, pneus finos e uma pesada bateria acoplada ao quadro. A vendedora não falava nada além de vietnamita e demoramos na negociação, pois a bike custava U$200 e não tinha caixa, manual ou nota fiscal, além de pesar meros 38kgs (!), o que se tornava um enorme desafio para o transporte por mais de 16 mil quilômetros até São Paulo. Não desistimos da empreitada, com certeza como resultado do apoio incondicional da Priscila, que inclusive fez questão de pagar pelo brinquedo e me ofereceu como presente, um dos melhores que já ganhei!

Compra feita, tivemos que ir a uma loja que faz caixas de embalagem sob medida e encomendamos uma caixa para ser entregue às 18 horas no Hotel Rex, mesmo horário marcado para a chegada de nossa bike, que passaria por adaptações na bateria para poder ser despachada pelo avião. No horário combinado a cena era insólita: sob a chuva fina de Saigon estava eu, o entregador da loja e o rapaz da embalagem desmontando a magrela sob a marquise, dividindo o espaço da calçada com finos turistas que passeavam em frente às lojas da Chanel e Cartier instaladas no átrio do hotel. Colocamos tudo na caixa, embalamos da melhor maneira possível e 8 da noite seguimos para o aeroporto.

Para encurtar uma história bem longa (que inclui duas entradas adicionais no Qatar, um vôo quase perdido e custos adicionais de transporte) hoje cedo montei a bike aqui em São Paulo. É uma beleza! Roda macia e estilosa, já foi batizada de “Miss Saigon” e será minha companheira em reuniões nas regiões dos Jardins, Brooklin e Itaim quando o tempo estiver bom, me liberando de carro, trânsito e estacionamentos lotados. O que me deixa mais feliz é o gostinho de infância, o prazer de transgredir os limites territoriais e poder novamente me aventurar por ruas diferentes usando um meio de transporte sensato, ecologicamente correto e “cool”. Não se surpreendam se me encontrarem com a Miss Saigon por aí um dia desses, e se tiverem vontade de dar uma voltinha é só falarem, não sou ciumento! Estou de volta, pessoal!

Barça en el meu cor

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Barcelona 1.0

sábado, 26 de novembro de 2011

 

 

 

 

 

 

Encuesta

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Eu adoro a palavra “encuesta”. Em espanhol quer dizer pesquisa, mas o som em português é bem gostoso e remete a “não encuesta” ou “encuesta aqui” ou “encuesta caro”, “dor nas cuestas”…e aí eu dou aquelas minhas viajadas de sempre. Também gosto muito de “por supuesto”, “mientras” e “además”. Falando em viagem e encuesta, preciso da ajuda dos meus leitores para desanuviar idéias e tentar tomar decisões muito importantes!

No ano passado eu fui à festa de inauguração do vôo da Qatar Airways pro Brasil e ganhei 2 passagens no sorteio que fizeram ao final, para qualquer destino operado pela companhia no mundo. Além do beijinho da Fernanda Lima e minha carta-prêmio, também recebi a instrução que precisava usá-la dentro de um determinado prazo senão ia caducar. Prá encurtar uma história longa, o prazo está no seu limite e preciso definir de uma vez por todas para onde ir, de preferência em Janeiro e/ou Fevereiro.

É aí que entram vocês! Vai ser minha primeira tentativa de decidir as férias por interatividade. Tenho 20 dias (contando os vôos) e quero descansar bastante. Vale qualquer destino, desde que não esteja frio demais e lembrando que tenho que conectar em Doha na ida e na volta. Please, me ajudem!

Gringo + Domingo

terça-feira, 28 de junho de 2011

Diz o ditado que a necessidade é a mãe das invenções, mas se você perguntar pro Steve Jobs ele vai dizer que as invenções criam a necessidade. No meu caso afirmo que a internet é hoje a mãe de quase tudo, e se tornou o grande “bombril” so século XXI.

Estou com visitantes estrangeiros em São Paulo desde Sábado (2 sul-africanos e 1 espanhola) e encurtei meu feriado no interior para fazer uma programação diferente com eles no Domingo. No sábado à noite passei uma hora na internet e fechei a agenda do pessoal, que foi um sucesso. Vou replicar aqui:

1) No Guia da Folha fiz uma varredura nas opções culturais da cidade e vi que, além da Parada Gay (o grande evento do fim-de-semana) haveria concerto de Domingo no Teatro Municipal, brunch de fim-de-mês no Mosteiro de São Bento, concerto na Sala São Paulo e o clássico (para o qual já havia comprado ingressos na 4ª feira) entre Corinthians e São Paulo.

2) Chequei no site do Mosteiro que após a missa das 10:00hs começaria o brunch, que só acontece no último Domingo de cada mês e é composto de todas as delícias produzidas na padaria dos monges, além da presença dos monges cantores com seu repertório de canto Gregoriano

3) No site do Teatro Municipal pude comprar ingressos de R$20 para o concerto de Domingo, apesar de ter certeza que íamos chegar atrasados…rs.

4) Vi o esquema de trânsito para a Parada Gay no site da CET e me certifiquei das opções para ir buscar meus convidados na Paulista.

Após tudo visto e rechecado, vamos ao roteiro que fizemos no Domingo:

10:30 – Estava no L’Hotel Porto Bay após subir pela 23 de Maio à região da Paulista, evitando os bloqueios nos Jardins

10:45 – Após passearmos por uns 15 minutos pela Paulista e eles tirarem muitas fotos dos preparativos para a Parada Gay fomos de carro ao centro descendo pela Brigadeiro Luis Antonio

11:00 – Passei pelo Fórum, Sé, Pateo do Colégio e depois desci até 25 de Março pela ladeira Porto Geral. Voltei à Libero Badaró e estacionei no Mosteiro de São Bento

11:30 – Já tinhamos entrado no Mosteiro e vimos o fim da missa, comprei mini-bolos de frutas cristalizadas na lojinha local e vimos que o brunch estava lotado (ainda bem que eles haviam tomado café-da-manhã)

11:40 – Cheguei ao Teatro Municipal e entramos por uma das portas laterais da platéia para 20 minutos de concerto. A turma ficou embasbacada com o resultado da reforma, ficou realmente lindíssima

12:00 – Saímos do teatro e fui pela São João até Sala São Paulo, Luz e Pinacoteca. Subi por Higienópolis e depois Perdizes até a Vila Madalena, evitando a Av. Paulista

12:30 – Chegamos ao Bar Astor para um merecido chopp, canapés, bolinho de arroz…o pessoal curtiu o visual e resolvemos ficar ali mesmo para o almoço

14:30 – Devidamente satisfeitos saimos em direção a Higienópolis, novamente pela Av. Sumaré. Deixei o carro na garagem de um amigo ao lado da Praça Vilaboim e entreguei as lindas camisas do Corinthians para meus convidados

15:15 – Após um espresso na Padaria Barcelona chegamos ao estádio do Pacaembú e nos acomodamos nas cadeiras laranjas, à altura do começo da grande área do lado direito de quem assiste pela TV

18:30 – Depois do baile com direito a 5 comemorações e completamente extasiados, meus amigos voltam felizes comigo para a região da Paulista, onde a Parada Gay já havia terminado e o trânsito tinha sido liberado

20:00 – Após um suculento hamburger no América todos se despedem e vão repôr as energias

Os comentários ontem foram os melhores possíveis, apesar de terem encarado frio, chuva, trânsito pesado e multidões os estrangeiros foram categóricos: foi um dos Domingos mais legais que já passaram ora de seus paises. Até eu, que moro na cidade, achei o Domingão espetacular. Fiz uma galera feliz e me diverti bastante também! Bora trabalhar!

Mentiras

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Como todo bom inglês a revista Economist (www.economist.com) pauta-se pela sobriedade e fleuma 99% do tempo, e quando tenta ser engraçada possui um senso de humor indecifrável para a grande maioria dos habitantes de fora da ilha.

Na edição online de hoje eles tem uma matéria com o título “As melhores mentiras para se contar a turistas”, que é uma compilação de falácias produzidas pelo guia Time Out London para confundir, mesmerizar e render boas risadas (será?) aos habitantes da cidade. Nada super-engraçado para nosso padrão mais escrachado e direto, são bobeiras como “se você adotar uma espécie não ameaçada de extinção no zoo de Londres você poderá comê-la no Natal” ou “A Starbucks favorita de Winston Churchill era a de New Oxford Street, pois tem os banheiros mais limpos”.

O interessante é que eles também criaram o guia com a maiores mentiras para se contar ao turista ao redor do mundo, e lá aparece com destaque a mentira para se contar a quem vai ao Rio de Janeiro:

“Cariocas são fascinados por brinquedos caros. Você deve usar seu melhor relógio e caminhar abanando sua máquina fotográfica caríssima enquanto caminha por Copacabana.”

Não estou inventando nem mentindo, está lá e pode ser checado através do link http://www.economist.com/blogs/gulliver/2011/06/tourist-advice?fsrc=scn/fb/wl/bl/liesdamnliesandtourists . Quando escrevi meu post “Preconceito” na semana passada também tinha esse tipo de atitude em mente e como vocês podem notar, muita gente que prega o politicamente correto adora pautar-se pelo oposto. Boa semana a todos!