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Lucky Buda

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Uma das caracteristicas mais presentes nos homens e mulheres ocidentais eh (com “h” pq continuo no teclado capenga) a eterna insatisfacao com o que somos, o que temos, onde estamos e por aih vai a coisa. Aqui no Vietna descubro a cada dia que as pessoas parecem ser muito felizes com bem pouco, sem grandes aspiraces materiais. O importante para eles eh uma vida digna, um casamento animado, viver junto dos parentes e poder ter sua motoca pra ficar buzinando sem parar o dia todo.

O unico traco de vaidade aparente eh o uso incessante de mascaras cirurgicas pelas mulheres, em tempo integral. Achei que fosse por causa da poluicao, mas descobri que uma mulher com o menor traco de sol na pele eh considerada de classe inferior. Desta tradicao tambem vem o fato de usarem luvas, mangas compridas e meias pesadas no calor escaldante, sem treguas. Outra coisa muito interessante no Vietna eh que aqui nao existem pessoas gordas, exceto turistas como eu, o que me espanta e deixa um pouco incomodado, mas sem grandes neuras.

De qualquer forma, ha uns 3 dias pasei a me sentir importante aqui no pedaco. Estava no hotel em Mui Ne e falei alguma coisa sobre comer muito no cafe-da-manha pra uma das garconetes. Ela me olhou zombeteira e disse “lucky budah!” (buda da sorte) e tentou esfregar a mao na minha barriga. Dei um pulo pra tras rindo meio constrangido, sem entender muito bem a piada.

Perguntei pra nossa guia o lance do “lucky budah” e ela disse que aquela personificacao de buda gordo com a barriga de fora eh uma representacao de prosperidade, vida longa e felicidade, o que significa que sorte na vida. O interessante eh que as pessoas perderam o repseito com minha barriga e comecaram a me chamar de lucky budah direto, mas o mais engracado eh que quando eles passam a mao na minha barriga eles dizem “luck for you, luck for me”, ou seja, eu sou o “sortudo” mas eles querem um pouco da sorte pra eles tambem.

Acho que a partir de hoje vou comecar um escambo diferente com eles: “lucky for us, kilos for you!”, quem sabe assim nao transfiro um pouco do excesso de peso pra esse bando de magrelos? Seria o regime mais que perfeito, nao eh mesmo? Lucky Carnaval pra todos voces!

Hmmm….

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tenho várias manias cotidianas que ficaram cada vez mais agudas conforme veio chegando a idade. Algumas delas são notórias entre familiares e amigos próximos, como a de me inclinar levemente sobre um prato que me é servido, apenas para sentir o aroma da comida antes de iniciar a refeição. Não consigo dissociar a comida de seu aroma, a deliciosa combinação de ingredientes que se transforma em um prato saboroso.

Outra coisa que não consigo dissociar são notícias e propósitos. Para cada nota publicada num jornal, revista ou post num blog eu tento visualizar a 2ª verdade, a notícia oculta que está escrita em caracteres invisíveis nas entrelinhas. Algumas notícias recentes me fazem fritar o cerebelo, mas como não tenho as respostas deixo aqui meras conjecturas:

1 – A Associação de donos de franquias da CVC já tem 500 associados: Parabéns! Mas qual o real propósito desta associação (não quero a resposta de release, essa não vale)? Seria pressionar por condições iguais na comercialização? Seria para reivindicar melhorias nas relações com os distribuidores e mais receita com menos royalties? Seria negociar em bloco tanto com a CVC quanto com suas concorrentes uma hipotética troca de bandeiras no futuro? Nunca vi uma associação ser montada para servir como ponto de “confraternização”, portanto, fico imaginando se franqueados da TAM Viagens já estão montando seu clube e se outros seguirão um mesmo caminho. Uma coisa é certa: Com 500 membros famintos e decididos essa turma aí de cima é uma “mini-ABAV” nacional com um bom poder de fogo, ou não é?

2 – “Somos a classe executiva dos mares”. Esta frase bonita da turma da Oceania Cruises (que estreeou oficialmente esta semana no Brasil) é prá lá de confusa na minha cabeça simplista. Deixando explicações (que foram dadas) de lado, o passageiro da executiva quer pouca criança fazendo barulho enquanto ele come, nenhum barulho enquanto dorme e pretende chegar com muita classe e distinção a seu destino. O “xis” da questão é que a executiva é cara prá xuxu e geralmente quem tá pagando a conta são viúvas alegres, ricas e com grandes contas bancárias, também conhecidas pelo apelido de “empresas”. Como criar um “flair” de exclusividade sem deixar colar a imagem que seu produto é caro ou “diferente demais”? O site, os roteiros e os preços mostram uma preocupação bastante adulta com foco em gastronomia, pequenos luxos (chuveiros Grohe, por exemplo) e elegância. Temos mercado e fôlego para ocupar as 650 cabines destas charmosas naves a cada saída? Quero acompanhar, gosto de novidades!

3 – “Trend lança adesivos valorizando agentes de viagens”: muito legal, apesar de ser ultra-antigo. Me lembra a briga que era conseguir os bonitos adesivos da Pan Am, SAS, Varig/Cruzeiro, Ladeco e o mais bonito de todos, o grande cisne vermelho da JAL. Você olhava para a vitrine de uma agência e só conseguia ver os adesivos, era um sinal de poder ostentar na sua fachada um luminoso (ou vários) com os logos de seus fornecedores. Tirando as agências das grandes operadoras em shoppings, quantas agências temos hoje na rua, com vitrines expostas para seus potenciais clientes? Vários irão dizer “milhares”, mas sabemos que uma parcela significativa das compras está migrando da forma “cara-a-cara na loja” para um modelo mais sofisticado e consultivo. Para o cara ver um adesivo na sua janela ou no vidro do seu carro ele vai ter que chegar perto, não é mesmo? Não critico a atitude da Trend (ao contrário, se está fazendo isso é porque acredita no canal), mas sugiro ações mais agressivas, tais como disponibilizar banners eletrônicos em sites de grande tráfego valorizando as agências; inserir botões de “distribuidor Trend” nos websites das agências (elas mesmas podem baixar o app) e outras coisas que já devem pasar pelas boas cabeças da operadora. A questão agora é quanta grana e em quanto tempo a Trend pretende gastar para fazer o consumidor final conhecê-la e pedir por seus serviços, pois na minha visão meio “torta” estes adesivos servem muito mais para ajudar a Trend a promover sua marca do que o contrário. Quanto às cores (amarelo e azul) não sei onde já vi isso antes, será que é alguma mensagem subliminar?

Free Lunch?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pergunta pertinente e inteligente, feita pelo Guto Rocha http://blog.panrotas.com.br/likeandshare/ no seu Twitter há alguns dias: “Por que a gente consegue Wifi de graça com um café de R$5 mas não consegue com um quarto de hotel de R$200?” Tentarei responder sob uma ótica bastante simples: Guto, os hotéis cobram pela internet porque ainda tem gente que paga, principalmente estrangeiros a trabalho que não possuem planos de dados das operadoras locais.

Além da resposta acima podemos descer um puco mais ao centro da questão e analisar detalhadamente: enquanto nos “cafés” a internet é gratuita, a margem de comercialização do simples cafezinho é astronomicamente alta, ou seja, a internet é a isca que leva as pessoas a entrarem e consumirem enquanto navegam. Isso também funciona para bares, livrarias e outros estabelecimentos comerciais que desejam atrair consumidores através do acesso à conectividade.

No caso da hotelaria a internet é um serviço que compõe o leque de ofertas em conjunto com a hospedagem, mas há uma gama de critérios adicionais que são levados em conta, tais como localização, conforto, limpeza, café-da-manhã e preço. Uma vez determinado este “pacote” de qualidades, a oferta de alguns ítens como cortesia (ou com seu custo embutido no valor total da diária) passa a ser uma decisão mais simples, geralmente derivada da competição com outros hotéis, sazonalidade e necessidade de ampliar ocupação ou receitas.

Na Europa a cobrança da internet é quase compulsória nos hotéis, assim como em vários hotéis nos Estados Unidos e na Ásia. Os hotéis e aeroportos parecem ser os últimos “bastiões” da conectividade paga, mas a tendência é começarem a mudar de postura, principalmente em função das políticas de massificação de acesso patrocinadas por governos. Em Frankfurt (Alemanha) a internet é gratuita em todo o perímetro urbano, um oferecimento da municipalidade a moradores e turistas; basta que o usuário cadastre-se no provedor público e refaça seu login a cada 24 horas.

Aos “hiperplugados” como o Guto cabe um aviso: aproveitem quando a conexão for paga ou ruim para desligar os laptops, pads e celulares, concentrem-se em ouvir o som do silêncio e ver as luzes da escuridão. Estas experiências vão ficar cada vez mais raras, e um dia todos nós vamos ter muita saudade da “paz desconectada”…

$$$ Sobrando?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Eu sempre fui fascinado por números, apesar de nunca ter sido um “às” da matemática. Talvez o encanto acadêmico tenha se perdido quando começaram as raízes, constantes e logarítimos, mas a essência dos números sempre me foi amistosa. Não esqueço que um dia lí que várias grandes empresas multinacionais fazem perguntas absurdas em seus testes para admissão de trainees e gerentes, coisas como “quantos grãos de areia cabem numa caixa de sapatos?” ou “quanto tempo você levaria para ir de bicicleta de São Paulo a Buenos Aires?”. Lógico que respostas exatas e absolutamente corretas para estas questões não existem, mas o que interessa é saber como as pessoas fazem os cálculos e tentam chegar a um resultado.

Faço isso diariamente, a ponto de ser um pouco maníaco. Fico pensando quantas pessoas já dormiram naquele quarto de hotel, quantas já se sentaram na mesma poltrona do avião, enfim, minha calculadora mental não para. Esta semana resolvi exercitá-la de forma um pouco diferente, desde o domingo quando recebi o Estadão com aquele anúncio enorme de 4 páginas cobrindo sua capa, patrocinado pela XYZ. Hoje fui brindado com outro no mesmo estilo, desta vez da ABCD.com. Não resisti à tentação e resolvi usar este último anúncio para fazer minhas contas malucas. Venho aqui dividir o resultado com vocês:

1) O preço médio dos produtos anunciados hoje pela ABCD.com são R$588 (aéreo) e R$132,50 (hotel). Já considerei o fator “ida-e-volta” nos tkts nacionais e no caso dos hotéis estou estimando uma estada média de 2.5 noites por venda.

2) O Estadão de hoje circula com aproximadamente 229.000 exemplares. Tomando-se uma média de 1.5 leitores para cada exemplar e um “encalhe” de 5%, temos por volta de 326.000 leitores.

3) O preço estimado para este anúncio é de R$320.000, já considerado um bom desconto “facial” na tabela do jornal.

4) O retorno médio em ações promocionais de midia impressa, malas-diretas, encartes e afins fica em torno de 2% quando o anúncio é muito bom (mas MUITO BOM mesmo!) e oportuno. Desta forma podemos supor que 6.500 leitores vão comprar os produtos da ABCD.com em função do anúncio de hoje.

Agora vamos aos números finais.

A) Supondo que o comprador leve aéreo + terrestre numa só tacada, teremos uma venda bruta de R$720 para cada pessoa que comprar produtos (tiquete médio), e se multiplicarmos esse valor por 6.500 a empresa fará um faturamento bruto de R$4.680.000.

B) Supondo novamente que a margem bruta sejam astronômicos 17% e subtraindo desta margem uns 12% para custos diretos, despesas financeiras com cartões-de-crédito, reserva para inadimplentes, etc., chegamos a um resultado líquido igual a R$234.000 indo para o caixa da empresa. Deste valor ainda serão subtraídos posteriormente os custos de amortização do capital investido, imposto de renda e investimentos.

Espero não ter sido maluco demais nos meus cálculos nem “pesado a mão” nos custos da empresa ou no seu potencial de receita, mas esqueci de computar nos custos do ítem B o valor pago pelo anúncio no jornal. Corrigindo esse lapso chego a um resultado final para a empresa de -R$86.000 para o anúncio veiculado hoje, novamente sem considerar as amortizações e impostos que descrevi anteriormente.

Conclusão: Uma empresa investe R$320.000 para obter um retorno líquido negativo de -R$86.000, isso num mundo absolutamente côr-de-rosa onde tudo deu maravilhosamente certo. Como sou ruim de matemática vamos propor que exista aí o efeito “colateral” de utilizar o anúncio para vender outros produtos, fortalecer a marca, ampliar a penetração em outros segmentos de consumidores, etc. e que esta receita “intangível” zere o resultado negativo. Ainda assim, que investidor, empresário ou simples economista consegue justificar a relação entre investimento e receita?

De novo, sei que sou ruim de matemática e a empresa em questão já fatura uma fábula por ano e se tornou uma potência de vendas na internet, mas tem algo na minha conta (ou talvez na conta deles) que não fecha…

5 K

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ontem à noite encontrei o Martin Jensen e fiquei feliz por saber que ele não só lê meus posts como andou dando risada com algumas passagens mais “obscuras” da minha história, principalmente quando adolescente. Martin, volte a escrever!

Uma turma grande anda pedindo histórias mais inusitadas e étnicas, então vou abrir o baú para uma que duvido que muitos de vocês saibam. Esta aprendi hoje cedo numa reunião (o Rajeev contou e eu anotei):

O “Sikhismo” (oriundo de Sikh) é uma corrente do hinduismo muito religiosa e seguidora de preceitos rígidos. Você identifica um Sikh pela longa barba e o turbante muito arrumado sobre a cabeça, quase como uma coroa. O que é mais inusitado é que os Sikhs seguem uma doutrina conhecida como “Cinco Ks”, sendo que o “K” neste caso está no idioma local. Valendo uma bala Chita, o que significam os CINCO Ks?

Kesh – quer dizer “cabelo”. Um Sikh trata seu cabelo como presente divino (sorte deles que tem cabelo, pobre de mim). Jamais cortam a juba e a tratam com toda a deferência e cuidado. São realmente super-cabeludos e barbados (cabelo da barba tá incluído nesse “K”)

Khanga – é “pente”. Nesse caso um pequeno pente carregado o tempo todo, em qualquer lugar, e muito usado para manter o Kesh em dia, sem nós e arrumado.

Kharra – literalmente é “algema”, mas no caso deles é uma argola usada como bracelete no punho direito. Significa a ligação inquebrável (ou seria inquebrantável?) entre o gurú e seu seguidor, um símbolo de dominação e aceitação de seu destino e religiosidade.

Kachha – são uns “shorts longos”, quase iguais umas ceroulas (ceroula é coisa muito antiga!). Todo Sikh usa um Kachha por debaixo da roupa e é muito útil em dias de verão, podendo ser usado sem nada por cima e também para nadar em uma piscina ou rio, sem causar embaraços ou constrangimentos.

Kirpan – é “espada” em sentido literal. Nunca chame um Sikh prá briga, você vai se arrepender! Todo Sikh carrega essa pequena lâmina curva (é uma ofensa passível de briga chamá-la de “faca” ou “adaga”) de 12 a 20cms de comprimento junto ao corpo. É sinal de honra, respeito e confiança; todo Sikh deve usá-la após seu batismo.

Pronto. Mais uma história legal prá contarmos pros nossos passageiros, amigos ou tomando uma cervejinha no happy hour. Um fim-de-semana espetacular prá todos, vejo vocês 2ª feira no FÓRUM PANROTAS com pouco Kesh, sem Kharra ou Kachha e meu Kirpan vai ficar em casa.

Um Sikh Sorridente!

O GPS da Vaca

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sou fascinado por lendas, anedotas, ditados populares e realidade fantástica. Nem sempre fui assim, era bem mais cartesiano até debulhar “100 Anos de Solidão” há quase duas décadas. Dali em diante passei a acreditar que existe a realidade das notícias e a outra realidade, que inclui o resto. Um dos lugares que mais aguçam meu fascínio pela realidade “multidimensional” é a Índia. Já fiz vários posts sobre as curiosidades daquele país e tenho certeza que daria prá encher vários livros se eu resolvesse compilar a miríade de histórias que os indianos tem prá contar.

Hoje me atenho a uma história que pode ser comprovada, mas que se a gente conta ninguém acredita. Em minha 1ª viagem a New Delhi fiquei impressionado com a quantidade de pessoas morando às margens das estradas, nas calçadas ou até no meio-fio. Para o indiano não existe isso de se locomover para o trabalho. Os muito pobres, quando arrumam um trabalho decidem morar no canteiro de obras. Dessa forma, a gente vê construções sendo tocadas noite adentro, enquanto uns trabalham outros dormem em pequenas barracas de plástico ou lona, mesmo com todo o barulho infernal.

Além de “acamparem” nas ruas, os indianos levam seu animal de estimação para viver com eles, sendo que esse animal é, muitas vezes, uma vaca. Não é anormal ver uma vaca ao lado de uma barraca, dividindo comida com seu dono ou simplesmente deitada ali, descansando. O que eu não sabia é que as vacas são animais com um apurado senso de direção.

Pela manhã, enquanto seus donos vão trabalhar e cuidar da vida, as vacas saem sozinhas ou em grupo para procurar comida e sobreviver. Como bichos sagrados não são importunadas e podem ser vistas vagando pelas ruas e avenidas, brigando por espaço com carros, pesoas e bicicletas. A grande curiosidade é: uma vaca chega a ir até 10km longe de sua casa num dia e, o mais impressionante, sempre acha o caminho de volta! Naquele caos urbano ocupado por multidões é um grande barato saber que ao cair da tarde as vacas não estão vagando ali à toa, mas sim, estão voltando prá casa depois de um dia de intensas atividades. Fiquei impressionado com a história, mas comprovei que é verdade. Há alguns anos pesquisadores indianos colocarem chips em vacas e verificaram seus trajetos, e chegaram inclusive a descobrir que elas memorizam mais de 20 ou 30 caminhos diferentes a partir de sua “casa”.

Era isso. Ainda não comecei minhas viagens de 2011 (semana que vem eu inauguro Cumbica) mas já estou entrando no clima de um ano que promete ser bastante ativo e divertido, com ou sem vacas no caminho!

Queria Ser Águia…

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ontem fiz um bate-e-volta em Buenos Aires. Fui levar presentes de Natal e conhecer o Felipe, filho da Rosina, gerente da Avant Garde porteña e que nasceu há 2 semanas. Menino bonito, saudável e feliz, pena que vai ser torcedor do River…

Na volta foi voo atrasado e a já normal espera sobre Santos, mas dessa vez havia uma lua linda e sua luz iluminava o mar e a cidade com muita intensidade. Fiquei muito impressionado com a quantidade de navios fundeados na região, provavelmente esperando para serem carregados ou para descarregar suas preciosidades. Em uma conta rápida foram mais de 50, fácil-fácil…

Me lembrou a baia de Mármara, na entrada do Bósforo, onde os petroleiros e outros cargueiros ficam esperando sua vez de subir ou descer o estreito. Foi uma cena linda, porém inquietante: será que estavam ali porque não havia mão-de-obra ou infra-estrutura suficiente para atracarem? Seria uma anomalia de Natal ou é sempre assim? E aqueles pobres marinheiros, estariam todos ali inquietos debruçados sobre a amurada de suas naus ou já estariam na boca-do-lixo se encharcando de alcool forte e aspirando o perfume barato e inebriante das putas?

Nessa hora pensei que queria ser uma águia, para voar sobre cada um daqueles barcos, para conhecer suas cargas, suas histórias e suas origens. “Srs passageiros, favor apertar os cintos e manter o encosto de suas poltronas na posição vertical”…é, pelo jeito vou ter que esperar outra ocasião!

Os Deuses da África

sábado, 4 de dezembro de 2010

Não eram nuvens! Aquelas enormes torres branco-azuladas vindo lá de baixo até a grande altura dos céus eram esculturas de água, fumaça e gelo. Assustadoras esculturas de marfim arredondado que contornamos ao cair da tarde, deixando o chão molhado e tempestuoso rumo ao leste do planeta. Pesadas, com certeza eram muito pesadas e apesar da aparência de algodão estavam inchadas e duras, no limite para condensar. Me deixei levar por sua silhueta grandiosa e viajei por cada forma, trazendo prá memória uma linda história que aprendi na Índia, sobre o maior e muitas vezes mais delicado animal terrestre.

Os elefantes são os únicos animais que se movimentam sobre quatro patas que movem as 2 patas de cada lado do corpo ao mesmo tempo e nunca alternadamente. Desta forma conseguem manter em equilíbrio sua enorme estrutura, livrando-se de letais tombos e escorregões. Herbívoro, sua enorme tromba é um espanador que, balançando à sua frente, “auscuta” o terreno e espanta possíveis pequenos animais que estejam em seu caminho, livrando-os de pisões e da morte certa; suas orelhas enormes são radiadores que constantemente abanados refrescam o sangue que circula por suas cabeças e cérebros de memória prodigiosa, mantendo-os alertas e despertos. Para os indianos o elefante é a reencarnação de vários deuses e é também um deus muito poderoso e sábio, incapaz em sua pureza de fazer o mal sem ter sido ameaçado. Um deus de força, tamanho, utilidade, docilidade e sabedoria que deixa na gente uma sensação de que ainda temos muito o que melhorar até sairmos da condição de humanos e nos tornarmos elefantes.

Estou chegando à África, terra dos elefantes e dos outros deuses reencarnados em animais. Nesta próxima semana repartirei meu tempo entre trabalho, meus amigos do mundo todo reunidos aqui no Cabo, a natureza e a magia de conhecer um pouco mais as fascinantes histórias desta gente. Escrevo prá pegar no sono a 11.300m de altitude e escrevo para agradecer pelo privilégio de viver esta vida plena, feliz e sem fronteiras que me foi presenteada. Amanhã tem mais.

Senhores da Areia

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Jordânia é um pequeno país do Oriente Médio que tinha muito prá dar errado. Escassos recursos naturais, encravado numa região com muitos atritos políticos e militares, fronteiras com uma miríade de países de interesses antagônicos. Apesar de tudo isso, a Jordânia se tornou uma espécie de “santuário” do mundo Árabe, um oásis de relativa tranquilidade e bom senso onde sempre reinou muito sangue quente.

Numa de minhas visitas aproveitei para conhecer em detalhes o país, sempre acompanhado de um bom guia local, articulado, motivado e experiente. Terminamos a viagem no deserto de Wadi Rum, pedaço arenoso e montanhoso que faz fronteira com a Arábia Saudita. Ali tive a oportunidade de conviver com os “reis do deserto”, os beduínos jordanianos. Ao saber do apelido curioso iniciei minhas pesquisas, primeiro através do meu guia Emad e depois com minha amiga Ghada Najar.

Quando o Rei Hussein assumiu o trono do Reino da Jordânia havia uma enorme dificuldade em estabelecer e respeitar fronteiras. Os povos do deserto não reconheciam nem entendiam os limites geográficos, para eles o areião não tem cercas e passaporte é documento de ficção. Como compromisso junto aos ingleses (principais patrocinadores da fundação do Estado), o Rei Hussein tinha que conseguir unificar o país sob uma mesma constituição, evitando que as numerosas tribos nômades minassem suas aspirações de soberania. Em uma atitude corajosa, ousada e inteligentíssima, o Rei chamou os principais representantes dos clãs nômades e ofereceu a eles o comando supremo do exército jordaniano, em troca de sua lealdade e respeito às regras daquela nova nação.

Os beduínos se reuniram e resolveram aceitar a oferta do Rei, que além do comando do exército lhes oferecia liberdade para continuarem sendo nômades e o controle de algumas áreas estratégicas do novo país. Uma dessas áreas é o deserto de Wadi Rum, onde qos manda-chuvas (neste caso não mandam chuva nenhuma!) são estes beduínos. Para fazer um passeio de 4×4 por suas areias, vales cercados de montanhas rochosas e vilarejos poeirentos e seculares é necessário agendar com eles e mais ninguém. São eles que controlam aquele espaço, que o exploram turistica e comercialmente e aplicam regras e leis milenares. Uma vida live, interessante e cheia de fantásticas histórias a desses caras. O que mais me impressionou foram suas casas de 2 andares construídas à margem das estradas, com antena “Sky”, Land Cruiser na garagem e, pasmem, várias tendas cheias de gente morando no quintal! Pois é, os beduínos não aceitam abrir mão de suas tradições, e apesar de terem moradas confortáveis eles se apinham do lado de fora, onde cozinham, convivem, dormem e procriam. As casas só servem quando o tempo fica muito frio e as tendas já não oferecem o conforto necessário para sua sobrevivência.

Quanto ao governo, jamais houve um motim na Jordânia sob o comando militar dos beduínos. Para eles a palavra empenhada é dívida eterna, que passa de geração em geração e que separa homens de honra dos “impuros”. É muito louco ver que a guarda de palácios e edifícios governamentais é feita por guardas vestidos em trajes tradicionais e armados de uma longa e curva espada beduína, uma ode à tradição desta gente. Quando for à Jordânia, tente conhecer um pouco mais desse povo fascinante, pois além de Petra, Mar Morto, Aqaba, Jerash e Aman existe uma cultura muito vasta e rica em cada pedra e recanto daquele país rico em homens de honra!

Influentes?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sou fascinado pela capacidade de algumas pessoas, marcas e empresas encantarem seus seguidores e manterem-se em evidência. De Madonna a Adidas, de Disney a Nespresso, de Havaianas a Manteiga Aviação o que faz que algumas “marcas” tenham tanta influência sobre nossa sociedade a ponto de se venderem sem grande esforço promocional? Li muito a este respeito nos últimos tempos e sintetizo (e simplifico) que o maior poder de influência é combinar INOVAÇÃO e EMOÇÃO de forma constante, alimentando uma legião de seguidores que se tornam porta-vozes fiéis dos valores e preceitos de uma marca. Escrevo sobre influência para pontuar que INFLUENCIAR e VENDER são coisas totalmente diferentes, mas que ao serem combinadas se tornam letais contra concorrentes de qualquer tamanho e expressão. A Apple é o maior exemplo da atualidade deste poder, colocando um enorme exército de fanáticos a seu serviço propagando Ipods, Ipads e Iphones; o Google segue caminho semelhante e todo produto ou conceito lançado pela empresa se espalha mais fácil que fogo em capim seco. No turismo não temos estas referências e ainda não são encontradas as marcas que fazem o público delirar e se apaixonar de forma ampla. A Virgin Air tem alcance geográfico limitado, os hotéis “W” são poucos em relação ao universo concorrente e o Club Med (ícone dos anos 80) perdeu um pouco do seu charme e brilho. Quais são as novas marcas que vão fazer as cabeças dos viajantes nos próximos 10, 20 e 30 anos? Quem está forjando um projeto de “influência” em vez de buscar as vendas imediatas e o lucro certo de hoje? Ao assistir esta guerra por comissões, conquista de rotas, abertura frenética de pontos-de-venda e diversificação desenfreada de canais de distribuição eu me pergunto: será que tudo isso fará as marcas se perpetuarem ou são apenas artifícios de quem consegue ficar bonito com uma boa plástica mas não tem conteúdo para envelhecer com dignidade?