Semana passada em São Petersburgo fizemos uma maratona de museus e palácios belíssimos. A cidade se descortina numa enorme galeria à disposição dos turistas ávidos por capturar as belezas da Rússia pré-revolucionária, em especial do período compreendido entre os séculos XVIII e XIX.
Em minhas andanças pelos corredores intermináveis de cada museu comecei a notar que as “monitoras” ou “seguranças” de cada sala eram dignas senhoras vestidas com o recato e correção que o ambiente pede. Todas (ou quase) maquiadas, quietas e de certa forma solenes, mas sempre com uma característica inquietante: ares extremamente tristes. Sim, não consegui ver um sorriso sequer naqueles rostos marcados pelo tempo impiedoso e vento gélido das tundras. De todas estas mulheres a percepção mais nítida é o olhar um pouco embaçado, quase suplicante por alguma emoção tentadora que vire suas vidas de cabeça prá baixo, que faça do Hermitage apenas um lugar longínquo em suas lembranças.
Com minha observação veio o desejo incontrolável de fotografá-las, mas ao tentar fazê-lo de forma amistosa fui rechaçado por duas vezes, como se tivesse pedindo para que se despissem. Comecei então a fazer fotos de longe, sorrateiras e às vezes mal focadas. Sei que incorri no pecado da intromissão alheia, mas creio que o fiz por uma boa causa. Após recolher todas as fotos e dar um tratamento mínimo nas mesmas estou postando um mosaico com as “vovós do museu”, parte do meu “Projeto X”, ultra-secreto, na Rússia.
Assim como coloquei as fotos, fiquei imaginando uma história que faça sentido na vida destas senhoras, e ela é mais ou menos assim: todas as tardes um grupo de senhoras russas se reúne num pequeno pub da Nevsky Prospect para uma rodada de vodca após o almoço. Uma vez terminados os brindes elas saem sorrateiramente em direção ao Museu Hermitage, onde aproveitam as horas livres da tarde para um pequeno cochilo e manter seu álibi de pensionistas de parcos recursos e pouca vitalidade. Quando batem 18 horas no grande relógio do salão principal elas deixam discretamente o museu, sozinhas ou em pares, e dirigem-se a uma estreita e escura casa que margeia os jardins de inverno do palácio. Neste local secreto deixam seus pesados casacos e luvas no térreo e sobem animadamente pela escada ao piso superior, onde a luz estroboscópica e o globo de espelhos dão o tom para a pesada música eletrônica que sai das caixas no teto. Esparramam-se pelos sofás e divãs à volta do palco, pedem mais vodca e petiscos de arenque defumado; quando o torpor começa a formigar seus dedos e afrouxar suas vergonhas batem palmas e assoviam, enquanto um stripper entra na sala vestido de oficial do exército vermelho e começa seu show sensual. Voltam para casa novamente sós e agasalhadas, voltam para suas pequenas salas e cozinhas com cheiro de repolho e batata; enquanto o mundo as olha com um misto de pena e compaixão elas guardam um sorriso secreto de vontade saciada em seus rostos gelados.








































































































