No interior a gente não era muito sutil com as crianças que eram mais lentas ou menos “adaptadas” às regras e convenções, fosse na escola, no clube ou nas não tão saudáveis brincadeiras na pracinha, até a noite chegar. Apelidos politicamente incorretos eram apenas apelidos numa época em que bullying, afro-descendentes, diversidade sexual e igualdade de mobilidade não eram “hot topics” na agenda escolar nem nas conversas à mesa na hora do jantar.
O apelido mais bonzinho que alguem podia levar era “Cabeça-de-Vento”, numa clara alusão à sua despreocupação com o mundo e com as idéias trafegando sempre em outro planeta. Lendo o Estadão agora cedo resolvi que todos estes pilotos de Fórmula 1 são “cabeças-de-vento”, prá dizer o mínimo e me manter num terreno de correção que não me é muito comum.
Os caras vão prá India correr o 1º GP organizado no país e a maior preocupação de todos eles é limpar a boca com uísque depois de escovar os dentes, andar com gel desinfetante para passar nas mãos a cada 5 minuots e não tomar àgua, comer a comida e, se possível, respirar o ar vindo de algum tanque importado dos Alpes. Todos reconhecem que foram alertados para não consumir nada que “possa contaminá-los”, como se estivessem numa espécie de reality show “survivor”. Façam-nos o favor, senhores!
Caras ricos, viajados, multilingues e completamente ignorantes, só assim posso classificar as besteiras que li. Um bando de gente mimada que vai a um país correr mas preferia ter ficado no conforto de suas mansões onde tudo é conhecido previsível e limpinho, como se o mundo fosse uma grande bola de cristal onde eles pudessem circular incólumes. Faz mal ao turismo, faz mal aos mais jovens e demonstra uma irracionalidade e desrespeito enormes com seus anfitriões, para dizer o mínimo. Enquanto na Inglaterra teve gente que comeu vaca-louca e morreu e nos Estados Unidos até o melão já virou serial killer, os pilotos de Fórmula 1 se acham no direito de tratar a India e seus cidadãos como gente se segunda classe, simplesmente por preconceito e obtusidade.
Amplificar o turismo significa quebrar barreiras e idéias engessadas, também significa tomar muito cuidado em não estigmatizar aquilo que é diferente, surpeendente e muitas vezes chocante em nossa sociedade, mas perfeitamente aceitável em outras. Dada a dimensão e repercussão das declarações desta gente, mando nota zero prá esse bando de ventiladores!