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Cabeça de Vento

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

No interior a gente não era muito sutil com as crianças que eram mais lentas ou menos “adaptadas” às regras e convenções, fosse na escola, no clube ou nas não tão saudáveis brincadeiras na pracinha, até a noite chegar. Apelidos politicamente incorretos eram apenas apelidos numa época em que bullying, afro-descendentes, diversidade sexual e igualdade de mobilidade não eram “hot topics” na agenda escolar nem nas conversas à mesa na hora do jantar.

O apelido mais bonzinho que alguem podia levar era “Cabeça-de-Vento”, numa clara alusão à sua despreocupação com o mundo e com as idéias trafegando sempre em outro planeta. Lendo o Estadão agora cedo resolvi que todos estes pilotos de Fórmula 1 são “cabeças-de-vento”, prá dizer o mínimo e me manter num terreno de correção que não me é muito comum.

Os caras vão prá India correr o 1º GP organizado no país e a maior preocupação de todos eles é limpar a boca com uísque depois de escovar os dentes, andar com gel desinfetante para passar nas mãos a cada 5 minuots e não tomar àgua, comer a comida e, se possível, respirar o ar vindo de algum tanque importado dos Alpes. Todos reconhecem que foram alertados para não consumir nada que “possa contaminá-los”, como se estivessem numa espécie de reality show “survivor”. Façam-nos o favor, senhores!

Caras ricos, viajados, multilingues e completamente ignorantes, só assim posso classificar as besteiras que li. Um bando de gente mimada que vai a um país correr mas preferia ter ficado no conforto de suas mansões onde tudo é conhecido previsível e limpinho, como se o mundo fosse uma grande bola de cristal onde eles pudessem circular incólumes. Faz mal ao turismo, faz mal aos mais jovens e demonstra uma irracionalidade e desrespeito enormes com seus anfitriões, para dizer o mínimo. Enquanto na Inglaterra teve gente que comeu vaca-louca e morreu e nos Estados Unidos até o melão já virou serial killer, os pilotos de Fórmula 1 se acham no direito de tratar a India e seus cidadãos como gente se segunda classe, simplesmente por preconceito e obtusidade.

Amplificar o turismo significa quebrar barreiras e idéias engessadas, também significa tomar muito cuidado em não estigmatizar aquilo que é diferente, surpeendente e muitas vezes chocante em nossa sociedade, mas perfeitamente aceitável em outras. Dada a dimensão e repercussão das declarações desta gente, mando nota zero prá esse bando de ventiladores!

Goteira

domingo, 28 de agosto de 2011

Ando um pouco injuriado com essa mania das empresas, pessoas e associações de desmentir assuntos que vazam, prá depois a verdade ser confirmada em poucos dias ou horas. No turismo isso tem acontecido com uma enorme frequência, servindo a interesses ou propósitos que ainda não consegui identificar muito bem.

Se a notícia que um profissional vai deixar (ou será deixado) uma empresa vaza, fico sempre na dúvida se é o profissional/empresa que plantou a notícia para: 1) alertar seu atual empregador de forma agressiva em troca de benefícios; 2) alertar quem esteja brigando por seu passe e porventura ainda não tenha feito uma oferta final; 3) balizar sua real importância e valor no mercado; 4) para “melar” o negócio que esteja em fase final de costura.

Se é notícia sobre o cancelamento de uma rota, fechamento de uma sucursal, dificuldades financeiras ou qualquer outro fator negativo, tenho a nítida sensação que a negativa pura e simples por parte dos envolvidos (sem uma explicação do “porque” tal suspeita tenha surgido) acaba trazendo mais estragos que benefícios, mesmo porque os jornalistas estão cada vez mais cuidadosos e raramente publicam “barrigas” (mesmo aquelas plantadas propositalmente por algum lado envolvido na história).

Para terminar, tem as notícias ultra-positivas, os números arrebatadores e as metas extraordinárias que foram superadas mais uma vez, como se estivessemos falando de verdadeiras máquinas de captar turistas com seus poderosos ímãs (não que não existam, mas tudo tem limite). Estas vem carregadas de dados vazios, do tipo “crescemos 35%” (sobre quanto cara-pálida?) ou “dobramos o faturamento da surcursal” e blá blá blá.

Vejo que os leitores estão cada vez mais sofisticados, informados e críticos e este tipo de lenga-lenga já não pega muita gente, ao contrário, ajuda a reforçar o verniz de pouco profissionalismo e falta de assunto que permeia nossa indústria, onde o mais barulhento acha que está por cima na mesma onda surfada pelos menos boquirrotos.

Voltando aos desmentidos seguidos da confirmação quase imediata da informação, as pessoas envolvidas precisam entender que se sua palavra pode ser dobrada com tanta facilidade como um bambú ao vento  nestas circunstâncias, ela também poderá ser dobrada novamente conforme seja conveniente, útil ou de interesse destas pessoas e grupos. Ao final a verdade subliminar embutida nos infindáveis “desmentidos confirmados” é: fique bem esperto na palavra de quem você confia, ok? Ótima semana a todos!

Mentiras

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Como todo bom inglês a revista Economist (www.economist.com) pauta-se pela sobriedade e fleuma 99% do tempo, e quando tenta ser engraçada possui um senso de humor indecifrável para a grande maioria dos habitantes de fora da ilha.

Na edição online de hoje eles tem uma matéria com o título “As melhores mentiras para se contar a turistas”, que é uma compilação de falácias produzidas pelo guia Time Out London para confundir, mesmerizar e render boas risadas (será?) aos habitantes da cidade. Nada super-engraçado para nosso padrão mais escrachado e direto, são bobeiras como “se você adotar uma espécie não ameaçada de extinção no zoo de Londres você poderá comê-la no Natal” ou “A Starbucks favorita de Winston Churchill era a de New Oxford Street, pois tem os banheiros mais limpos”.

O interessante é que eles também criaram o guia com a maiores mentiras para se contar ao turista ao redor do mundo, e lá aparece com destaque a mentira para se contar a quem vai ao Rio de Janeiro:

“Cariocas são fascinados por brinquedos caros. Você deve usar seu melhor relógio e caminhar abanando sua máquina fotográfica caríssima enquanto caminha por Copacabana.”

Não estou inventando nem mentindo, está lá e pode ser checado através do link http://www.economist.com/blogs/gulliver/2011/06/tourist-advice?fsrc=scn/fb/wl/bl/liesdamnliesandtourists . Quando escrevi meu post “Preconceito” na semana passada também tinha esse tipo de atitude em mente e como vocês podem notar, muita gente que prega o politicamente correto adora pautar-se pelo oposto. Boa semana a todos!