Mais um causo de viagem, daqueles que eu havia prometido guardar a 7 chaves mas que resolvi perder a vergonha e vou contar. E dessa vez acabou mal, mas podia ter sido pior:
Em 2003 decidi tirar férias do trabalho e ir viajar com meus pais pela Europa. Como eles tinham bastante tempo livre foram 10 dias antes para a Itália e dali seguiram para Madrid. Cheguei a Barcelona já com a viagem pela metade e me juntei a eles para mais 12 dias de passeios. Depois de comer muitas tapas e vaguear pela linda capital catalã tomamos um trem e seguimos a Perpignan, de onde alugamos um carro até Carcassone.
Tudo ia às mil maravilhas, comida boa, tempo firme e paisagens lindas. Subimos todo o centro da França até Blois e ali fizemos nossa base para conhecer o Vale do Loire em 4 dias. Dirigimos por muitas estradinhas antigas, cercadas por muros baixos de pedra cobertos de hera e lindas flores; tomamos muito vinho e pulamos de um castelo para outro sem pressa.
Para terminar a viagem seguimos de Blois a Versailles e no mesmo dia até Paris. Ao chegar em Paris devolvi o carro na locadora e ficamos a pé, que para mim é a melhor forma de experimentar a cidade. Estávamos hospedados num pequeno hotel perto do Boulevard St Germain e podiamos tanto seguir a pé a Montparnasse como à Ille de La Cité, Ille de St Louis e todas as atrações de Rive Gauche. No penúltimo dia na cidade tínhamos combinado de sair para jantar bem em um bistrô e comemorar a jornada, mas com o calor de verão e o sol a pino às 9 da noite decidimos pegar um taxi. Depois de muito esperar no meio da rua parou um táxi Citroen na nossa frente, com um motorista africano (talvez nigeriano) que não falava uma palavra de inglês. Indiquei que íamos à Opera, do outro lado do Sena e passei o endereço.
O motorista olhou o papelzinho, ligou o taxímetro e lá se foi. Quando achei que ele ia cruzar a ponte em direção à Rue de Rivoli ele entrou à esquerda e foi seguindo o rio. Achei estranho mas fiquei quieto, mas logo em seguida ele deixou passar mais uma ponte e quando me dei conta já haviamos passado até a Torre Eiffel. Fiquei injuriado e perguntei se não tinhamos que voltar, mas o cara se fingiu de morto e deu mais umas voltas até pegar o caminho certo. Resolvi não estragar minha noite por causa daquilo, apesar do taxímetro já marcar uns ¢30 Euros numa corrida que não daria mais de ¢15.
Quando paramos na esquina da Opera o taxímetro marcava ¢33. Meu pai me deu uma nota de 20 e eu fui pegar o restante no bolso enquanto minha mãe e ele desciam. Quando entreguei o dinheiro ao taxista ele disse que estava errado e que o valor certo era ¢43! Eu olhei na cara do indivíduo (o cara era grande, muito grande!) e disse: “Você tá louco?” Isso ele entendeu e começou a disprar um monte de coisas em francês e disse que o extra era “taxa de verão”. “Taxa de verão? Você deve achar que eu sou trouxa, companheiro, isso não existe!”. A quizumba tava armada!
O bate-boca foi prá fora do táxi, meu pai dizendo pra eu pagar logo o cara (meu pai, sempre sensato e apaziguador) e minha mãe já pensando em ir prá cima do indivíduo (minha mãe, sempre deixando o sangue italiano ferver ao menor sinal de contratempo, não sei prá quem puxei), a esquina enchendo de gente e eu simplesmente ultrajado pela cara-de-pau do taxista.
O problema é que a gente se perde na raiva e esquece de olhar pro lado, e quando eu olhei vi a encrenca que tinha me enfiado: tinha uns 7 ou 8 taxistas parados em volta e aí caiu a ficha que era melhor recuar. Como eu não queria dar o braço a torcer peguei a grana e um monte de moedas e joguei prá dentro do carro do cara, dizendo: “vc quer dinheiro? Então toma dinheiro, tá aqui sua grana” e fui me afastando de fininho e indo pro outro lado da rua, enquanto o cara xingava e esbravejava.
Quando cheguei do outro lado eu tava tão nervoso que resolvi descarregar a raiva dando um chute num daqueles postinhos baixos de ferro que ficam no meio fio, mas poste de ferro é duro pacas e a dor foi insuportável! Quando a adrenalina baixou me dei conta do vexame e não sabia onde me enfiar, tinha sido realmente vergonhosa minha atitude como viajante, principalmente colocando em risco meus pais que estavam do meu lado. Entrei no restaurante acabrunhado e envergonhado, depois de tomar uns vinhos dei uma relaxada e no final da noite a gente já tava rindo da situação.
No dia seguinte quando levantei e coloquei o pé no chão vi que tinha feito uma enorme besteira: além de ter entrado em briga com taxista em pleno centro de Paris acabei quebrando o dedo médio do pé esquerdo, só prá largar de ser nervosinho. Posso dizer que a viagem de volta foi um suplício e a cada latejada no pé eu lembrava do poste e do taxista. E assim foi uma das minhas incontáveis passagens em Paris, cidade que amo como nenhuma outra, mas na qual, por via das dúvidas, eu sempre evito tomar um táxi.