Fazendo as contas… o Grupo CVC

Com cerca de US$ 9 bilhões em receita de um total de quase US$ 70 bilhões em vendas, a gigante mundial Expedia é hoje uma referência quando se fala em atuação global, poderio econômico, força de vendas…

 

No Brasil, o Turismo ainda não tem esses números estratosféricos mas é preciso relativizar e levarmos em conta o tamanho de nossa região. Nossa CVC tem os mesmos 9 bilhões da Expedia, mas em reais e vendas totais (não em receita). Ou cerca de US$ 3 bilhões. Três vezes menos que a receita da Expedia e muitas vezes menos que as vendas da maior empresa global de Viagens e Turismo.

 

Os dados de 2016 da CVC incluem R$ 5,5 bilhões da operadora, R$ 2,9 bilhões da consolidadora e R$ 400 milhões da Submarino Viagens. Se somarmos os R$ 100 milhões da Experimento, adquirida no final de 2016, e os R$ 1,2 bilhão da Trend (comprada na semana passada), temos o almejado número de R$ 10 bilhões (cerca de US$ 3,2 bilhões), o que torna a empresa mais relevante na bolsa, mais atraente para investidores e mais forte para brigar com os players mundiais que já estão aí. Regionalmente, sem colocar o pé fora do Brasil, a CVC já é a maior operadora da América Latina. A internacionalização e a aquisição de mais empresas, além do crescimento orgânico, levarão o grupo a um novo patamar.

 

Uma nova CVC para concorrer com a própria Expedia, hoje um megaconglomerado de empresas e ex-concorrentes (do Trivago à Home Away, da Orbitz à Hotels.com), com a Booking, hoje o grande concorrente da Trend, a Decolar.com (US$ 4 bilhões de vendas na América Latina, onde atua como Despegar.com em países de língua espanhola) e que domina o on-line no Brasil, a Tui, entre outras gigantes.

 

Mas também uma gigante para trazer mais investidores para o Turismo e mais dinheiro para seus acionistas. Vida normal…

 

Ou seja, faz todo sentido a CVC se fortalecer financeiramente e ter empresas que representem toda a cadeia do Turismo (falta uma TMC, talvez uma locadora de veículos, uma operadora de luxo… mas elas virão, não se preocupem), e é bom para o País ter esse player forte na América Latina.

 

Uma questão que pode e deve ser levantada é: se para fora o tamanho da CVC ainda precisa de mais bilhões de dólares (e a internacionalização parece ser inevitável nesse momento), aqui dentro o valor é bastante alto e a diferença do grupo para o segundo colocado (o Grupo Flytour) fica ainda maior. O dobro do tamanho. E desses dois para os demais colocados, quase um abismo…

 

O que não é o fim do mundo. O gigantismo tem suas vantagens e seus pontos fracos, e é neles que surgem oportunidades para todos. É assim no mundo todo e nem as low cost acabaram com as empresas aéreas tradicionais, nem as OTAs com as agências… e por aí vai. Sim algumas empresas acabaram com o aparecimento de novas tecnologias, mas outras surgiram e o mundo está aí, mais dinâmico e com o Turismo ainda em potencial crescimento, especialmente as viagens de lazer.

 

Todo esse texto para dizer que hoje 50% do Grupo CVC tem suas vendas B2C e 50% nas vendas B2B para agências de viagens (Trend, Rextur Advance e mais R$ 1 bilhão de receita da CVC, o que é mais que o triplo que qualquer operadora do mercado, vendendo B2C e B2B juntos). O sucesso de um grupo como esse parece ser o de manter a identidade de cada player. Sua atuação. Seu atendimento. As melhorias devem se dar em processos e na escala, nas negociações, no poder de compra. Mas transformar tudo em CVC e virar as costas para o B2B não faria o menor sentido.

 

Pelo contrário, fortalecer cada marca e seus vendedores faz mais sentido. A própria operadora sempre conviveu bem vendendo para o público final (via suas lojas, que são agências de viagens e representam a força do off-line contra as OTAs) e para as agências multimarcas. Sim, ela adoraria converter todas as multimarcas em empresas CVC, mas sabe que isso não é possível, assim como não era, há 20 anos, para uma companhia aérea ter lojas no lugar de cada agência. Portanto faz sentido que uma ala dentro do Grupo CVC trabalhe para fortalecer o B2B, enquanto outra cuida do B2C (tendo o on-line ainda como um calcanhar de Aquiles).

 

É cada vez mais difícil concorrer com esses megagrupos? Sim, se for para vender o mesmo. Não, se for para agregar valor e buscar outra proposta de venda de viagens. Há várias oportunidades e há cases fora do Turismo para provar isso. Uma coisa não elimina a outra, pelo contrário, abre outras frentes.

 

Mais consolidação de empresas virá por aí, assim como mais tecnologias novas, mais passageiros que querem algo diferenciado e não apenas preço. De tudo um pouco.

 

Hoje o agente de viagens vende muito mais que há 20 anos, quando tinha 90% do mercado. Simplesmente porque o mercado aumentou consideravelmente e mesmo com um share menor, o B2B é bem maior.

 

Outro dia li uma reportagem vintage em que a autora Janete Clair comemorava os dez milhões de espectadores que acompanhavam sua novela, Pai Herói, que dava até 90% no Ibope. Hoje, dizem que a TV aberta acabou, mas os 30% da novela das nove significam 60 milhões de pessoas e muitos ainda assistem aos programas depois, seja por gravarem ou por assinarem plataformas como a Globo Play. Ou seja, não se tem mais 90% de audiência, mas fala-se para mais gente e em plataformas diversas…

 

O gigantismo da CVC pode assustar, mas ele também cria oportunidades para todos. E para o País é bom ter empresas que podem se tornar globais e líderes em diversos setores, estão aí as empresas de cerveja ou carne que provam isso. Quem é o dono aos poucos está deixando de ser o mais importante nesses grandes negócios; já nos nichos e na atuação em menor escala, é o olho do dono que faz a diferença.

 

Uma matemática complexa e angustiante. Mas quem disse que seria fácil?

 

 

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Artur Luiz Andrade

Artur Luiz Andrade é carioca, taurino, jornalista e nasceu em 1969. É editor-chefe da PANROTAS Editora e mora em São Paulo desde 1998

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