Istanbul é ali.

15 de julho de 2012

Semana vai ser curta e longa. Reuniões em Istanbul, depois Shanghai e finalmente chego no Rio a tempo de celebrar os 17 anos do meu filho Murillo que esta de ferias do verão europeu. Promessa é divida!

Istanbul é uma das cidades no mundo que intriga qualquer viajante global.  Primeiro por sua posição geográfica. Em seguida por sua história: durante 16 séculos foi a capital do império Romano, Otomano, Bizantino e Latino. Batalhas e bravura é o que não falta ao povo turco. Finalmente, a energia indescritível que vem do estreito do Bósforo que separa literalmente o mundo em dois: ocidente e oriente.

Tudo coexiste nessa cidade. Prédios modernos com mesquitas, cortiços com palácios, museus pré-históricos com galerias de arte, musica classica e pop com o mesmo ritmo inesperado que os musicos chamam de “syncopation”.

O turismo é assunto sério. Ele representa 15% do PIB da Turquia com quase 40 milhões de visitantes. A simpática e excelente Turkish Airlines esta voando para o Brasil com varias freqüências. Recomendo ao agente de viagem brasileiro a propor Istanbul como porta de entrada para qualquer viagem para Europa ou Asia. Voar daqui para Paris ou Frankfurt é extremamente pratico e leva menos de 3 horas.

Dentro de alguns dias Istanbul – e todo mundo islâmico – celebra o Ramadã. Um período de limpeza espiritual e material. A energia e o “spiritual sharing” estarão por toda parte. Restaurantes tem cartas especiais, a explosão de cores e cheiros dos temperos à mostra no Grande Bazaar relembram aos estrangeiros a importância das refeições do iftar.

Para quem gosta de arte contemporânea e jazz como eu,  os museus apresentam nessa época grandes mostras como a do Gerwald Rockenschaub no Borusan Contemporay. O 19º Istanbul Jazz Festival é tudo de bom, e traz  Marcus Miller, Keith Jarret, Erykah Badu ou a admirável e linda baixista de 25 anos que ganhou o Grammy em 2011, Esperanza Spalding.

Para terminar, a cidade dispõe de excelente – e nova – infra estrutura e oferta de hotéis. O meu preferido entre os nove  que administramos na cidade  é o contemporaneo Point Barbaros. E os turcos são extraordinários na maneira de interagir com os turistas e nos negócios. Gostam do olho no olho, de falar muito próximo do interlocutor e basear suas decisões, antes de tudo,  na confiança em quem esta do outro lado da mesa.

Brasileiros – ao contrário de americanos e europeus – não precisam de vistos.

Istanbul é ou não é ali ?

 

OTAs vão vencer a batalha da internet móvel ?

1 de julho de 2012

Vão pensar que sou inimigo das OTAs. Talvez seja mesmo.  Na verdade sou inimigo da concentração de poderes. Nenhum negócio no mundo corrompe tanto a cadeia produtiva do turismo quanto o que tem OTA no meio.

Um levantamento recente da Consultoria L2,  mostra que em 2010 os hotéis americanos repassaram 120 bilhões de dólares as OTAs. Se a transferência de receita já é ruim, muitas vezes ela é seguida do enfraquecimento da marca, pois via OTA o cliente busca em primeiro lugar o preço.

O ciclo vicioso e asfixiante termina no monstruoso volume de gastos com propaganda.  Em 2011 a Expedia Inc reportou uma despesa de 750 milhões de dólares somente com Adwords no Google.

Nenhum hoteleiro pode competir sozinho.  E são eles próprios que alimentam o dragão pagando comissões de 20% e se recusam –por medo, preguiça e miopia – a priorizar o equilíbrio de canais de distribuição e a trabalhar em clusters.

Um cluster interessante é o Room Key.  Trata-se do resultado da união de grandes redes como Choice, Hilton, Hyatt, InterContinental, Marriott e Wyndham.  Eles se deram conta que juntos seus websites geram mais de 1 bilhão de visitas que podem ser maximizadas através do “Interstitial traffic” . Falando em bom português o Room Key oferece todas as opções de hotéis em um destino procurado pelo internauta antes que ele abandone a busca no site de uma dessas redes e vá buscar uma OTA.

Outra batalha que está em risco é a das reservas via smartphones e tablets. Um relatório da PhoCusWright mostra que o volume – ainda pequeno – desses canais dobra a cada ano.  E a limitação do espaço da tela,  do teclado e de múltiplas janelas leva o usuário que busca avião, hotel e carro a procurar um canal “one stop shopping” como aquele oferecido pelas OTAs.

Os analistas da PhoCusWright afirmam ainda que o predomínio das OTAs nas reservas pelos smartphones oferece mais desvantagem no longo prazo para os fornecedores.  Os usuários  são mais jovens e estão no incio do ciclo de vida de consumo. Uma vez fidelizados, fica ainda mais difícil convence-los a mudar.

 

Apple revela mais um passo em direção ao iTravel

17 de junho de 2012

Semana cheia para repercutir. Eleições na Grécia e o segundo turno das legislativas na França podem parecer insignificantes para quem está no Brasil. Mas o resultado delas antecipam o futuro do Euro e da União Européia. A partir de agora, com maioria histórica para governar, o novo presidente francês vai começar efetivamente a aprumar seu governo: ou vai em direção a austeridade alemã ou do laxismo espanhol ou cria uma terceira via como todos os socialistas gostam de fazer. Mas as margens são pequenas. Na Grécia é a eleição do dá ou desce.

Aí mais perto, na Rio+20 diplomatas do mundo inteiro se esforçam para desatar o nó do tal “princípio das responsabilidades comuns porém diferenciadas” tentando criar uma agenda comum de crescimento dos países mais pobres sem destruir o planeta como fizeram os ricos. Brasil: pais que nos orgulhamos tornou-se uma potência agroindustrial. Da Rio 92 até a Rio+20, destruímos uma vastidão de florestas equivalente à soma dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Somos a segunda maior taxa de desmatamento do mundo depois da Indonésia. Outros emergentes como a China, Rússia e Índia são considerados os vilões da sustentabilidade quando o assunto é emitir gases de efeito estufa. Haja impasse…

Mas o que gostaria de repercutir é a revelação da Apple semana passada no seu fórum de desenvolvedores do novo sistema operacional iOS6 para iPhone e iPad. O Passbook carrega uma versão eletrônica de todos os cartões que o cliente possui na carteira.

Analistas do mundo inteiro afirmam que o Passbook é o primeiro passo concreto em direção ao tão esperado iTravel. iPhone e Mobilidade são os principais  componentes dessa revolução anunciada há vários meses aqui nesse blog. Não se trata de mais uma OTA querendo vender passagens ou um Google querendo faturar Adwords. Trata-se de uma completa apropriação do ciclo de experiencia do cliente enquanto se movimenta: pessoas a encontrar e coisas a fazer nas redondezas, transporte público, cartões de embarque, check in, porta moedas, tradutor eletrônico, compras, serviços de urgência e avisos vitais como cancelamentos de vôo e hotéis, acidentes de rota e tudo mais relacionado aos recursos de geolocalização.

Outra novidade anunciada no WWDC2012:  Os mapas com “3D flyover”: o usuário faz literalmente um sobrevôo virtual sobre as cidades e “pousa” onde quiser no mapa. Obtém ratings através do Yelp e localiza enderecos com dicas verbais do Siri. Perder-se nas grandes cidades nunca mais sera um problema.  Imagine – caro leitor – o impacto no negocio das DMCs, dos guias de destinos, dos concierges dos hotéis…

Nao deixe de acompanhar neste blog mais novidades. Viagens definitivamente serão diferentes – e mais divertidas –  depois da Apple.

 

Crise dos jovens europeus: culpa da geração atual

3 de junho de 2012

Mês passado dois relatorios produzidos pela International Trade UnionCongress (ITUC) e Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) mostraram o impacto catastrófico da crise junto aos jovens europeus: 22% daqueles entre 15 e 24 anos encontram-se sem emprego e sem perspectiva sobre o futuro. O numero sobe para 51% na Espanha e Grécia.

Se a situação permanecer assim o risco de implosão de manifestações de jovens é iminente. E isso não é bom. Na época que fazia meus estudos de sociologia, tive a oportunidade de participar de um debate sobre a União Europeia daqui a 20 anos . Fiquei estarrecido com a visão daqueles estudantes (que serão os lideres do futuro) das duas mais prestigiosas escolas de economia e sociologia da Europa, a London School of Economics e a SiencesPo.:  ” Para que serve a União Europeia ? Para que pessoas do Leste venham roubar os empregos no meu pais“ disse um aluno francês.

O grande culpado dessa situação é a geração atual. Segundo o relatório da ITUC eles parecem não se importar com o legado que estão deixando.

A juventude é a mais atingida pela crise e os lideres de hoje tem dificuldade de colocar de pé uma agenda alternativa de crescimento sustentado e equitável. Os governos devem atacar imediatamente essa questão antes que seja tarde“ afirma o relatório .

Outros dados interessantes do estudo:

  • A crise financeira iniciada em 2008 é a pior desde a Segunda Guerra Mundial;
  • Milhares de empresas pequenas e medias quebraram e continuam quebrando, aumentando ainda mais o desemprego, reduzindo contribuições sociais e ocasionando um circulo de pobreza e exclusão;
  • O problema se agrava a cada ano: 45 milhões de jovens ingressam no mercado de trabalho sem perspectivas;
  • Atualmente os jovens europeus estão sem condições de construir um projeto de vida . Muitos necessitam permanecer mais tempo na casa dos pais, ou extender seus estudos. Mas muitos também são obrigados a abandonar a universidade e buscar um emprego de baixa qualificação para sobreviverem.

Os políticos estão inquietos.  Todos sabemos que na historia moderna onde tem revolução tem jovem. São eles que pintam as caras e enfrentam com bravura e determinação o sistema que os impede de ser feliz.

 

Para quem tiver interesse,  clique aqui para ter acesso ao estudo completo.

 

Facebook e a hora da onça beber água

19 de maio de 2012

Agora chegou a hora da onça beber água.

Abre parênteses: Estou há alguns anos longe do Brasil. E falo constantemente outras línguas que não o português. Às vezes me da saudade de certas expressões como essa da onça bebendo água. Fecha parênteses.

Segundo cálculos dos analistas financeiros o Facebook vai ter que gerar entre 35 e 40 bilhões de dólares de receita publicitária para dar o retorno esperado aos que apostaram no IPO da ultima sexta feira.  No ano passado a receita do FB foi de 900 milhões de dólares.

Vejam o seguinte cálculo: o mercado mundial de  publicidade é de 1 trilhão de dólares. A publicidade on line representa 20% desse montante. Ou seja, 200 bilhões de dólares. Então o Facebook vai precisar roubar 20% dessa fatia do bolo que hoje pertence majoritariamente a  mastodontes como Google e Microsoft.

O mercado publicitário SONHA em poder usar esse verdadeiro oceano de informações sobre a vida das pessoas: sexo, idade, o que gosta e o que não gosta etc… Basta saber se agora o FB vai ultrapassar a tênue linha divisória do respeito à privacidade dos seus usuários ou a satisfação de seus investidores.

No post passado havia comentado que as oportunidades para a longevidade do Facebook seriam a a telefonia móvel e as buscas.

Falando das buscas, o Bing da Microsoft lançou nos EUA um piloto que  integra o resultado das pesquisas do usuário ao conteúdo dos avisos das redes sociais. O press release da Microsoft diz que o  “”Bing sugere amigos do Facebook que talvez saibam a resposta sobre a sua pergunta baseado nos „likes“ do perfil de quem esta perguntando ou fotos e informações compartilhadas

“Por exemplo se procuramos sobre mergulho na Costa Rica pode ser que um de nossos amigos conheçam muito sobre o lugar baseado nas fotos da ultima viagem etc... “

Essa parceria resulta do fato que a Microsoft possui 2% das ações do FB adquiridos em 2007.  Assim que o FB decidir ir nessa direção pode rapidamente apropriar-se de 25% do bilionário mercado das buscas alcancando de imediato os 20% de market share publicitario que acabo de me referir.

Quando a onça acabar de beber água, a coisa vai virar briga de cachorro grande.

 

Vem ai um FACEBOOK de 100 bilhões de dólares

13 de maio de 2012

Se você não está pagando você não é  um cliente, você é  um produto.

Essa frase pode parecer contundente mas resume o modelo de negócio que o Facebook está vendendo para os investidores no IPO do dia 18 de Maio, que promete ser o maior da historia do capitalismo: 100 bilhões de dólares de valorização fazendo a empresa valer mais do que a Amazon ou a Dell e HP juntas.

Mark Zuckerberg, 27 anos e outros executivos “trainees” de bilionários foram recebidos como estrelas de holywood com direito a tiete, paparazzi e limousine nas cidades no ultimo road show que  apresentaram os planos de captação da empresa:

Mas todo cuidado é  pouco. IPOs de empresas de Internet sempre despertam mais entusiasmo do que pragmatismo. Exemplos dos últimos IPOs da Zynga (Games on line) e Groupon mostram que as acões ainda não conseguiram retomar o valor inicial da oferta deixando muitos investidores inquietos. Certo que o “upside” do Facebook é  justamente a massa de dados que possuem dos 900 milhões de usuários-produtos. Mas até onde eles são fieis ao FB ainda é uma incógnita. O Orkut, Myspace e Friendster habitam o cemitério das redes sociais simplesmente porque a manada decidiu trocar de endereço.

A turma do FB sabe disso e não está parada. Lançou o Timeline e comprou o Instagram por 1 bilhão de dólares incentivando as pessoas a ir além de estórias em fluxo continuo mas a inserir fotos e História da vida, mantendo-as ainda mais expostas e dependentes. O resultado é  visível: dos 900 milhões de usuários em 2012, 58% consultam suas paginas diariamente contra 55% no ano passado. E quanto mais ativos, mais eles clicam sobre anúncios,  aderem a jogos e outras baboseiras e parafernalias virtuais.

Os grandes desafios da sustentabilidade do Facebook – como ja disse aqui nesse blog – serão o da telefonia movel e o das buscas.

O primeiro diz respeito a mudar o DNA da empresa. Coisa difícil mas não impossível. A plataforma do FB foi criada a partir de um modelo de “desktop”  e não de “telefonia móvel”. Competir no mundo da telefonia móvel será tão difícil para eles quanto está sendo para o Google competir no mundo das redes sociais, para a Microsoft no mundo das buscas, para a Nokia no mundo dos smart phones e assim por diante…

Não basta ter dinheiro mas sim capacidade de  destruir paradigmas e inovar sobre o velho. “ Destruir as próprias charretes para construir  as próprias  locomotivas antes que alguém o faça” como dizem os gurus de marketing.

Por ultimo, investidores que  comprarem  acões do Facebook terão que aceitar que o Mark Zuckerberg vai permanecer na frente do negócio com mais de 50% da empresa. Algo perigoso para uma blue chip. Olhando para trás vemos o Jerry Yang, fundador do Yahoo! Em apenas 10 anos ele conseguiu deixar de ser o guru da Internet para se transformar no trapalhão de negócios. Por causa dele – e de acreditar em seus próprios méritos e paradigmas – o Yahoo! virou sucata virtual.

O assunto do Facebook e das buscas eu vou deixar para o próximo post.

 

Business Travel na Rússia

7 de maio de 2012

Estive em Moscou semana passada. Infelizmente não tirei fotos de trovadores, paredes de ouro, crianças bochechudas nem de hotéis 12 estrelas como faz o Sidney Alonso cada vez que vai para um lugar distante.

Alias o Sidney Alonso é um dos poucos que conheço que se diverte trabalhando. No turismo normalmente é o contrário. Certo que os fins justificam os meios. E rezo todos os dias para minha empresa contratar a Avant Garde para me levar a um daqueles lugares maravilhosos das fotos do Sidney.

De tanto se divertir trabalhando tenho a ligeira impressao que o Sidney também ganhou uns quilinhos nos últimos anos…

Mas deixa eu parar de implicar com o Sidney e voltar ao meu post: o turismo na Rússia esta explodindo e cresce mais do que na China.

Players locais com nomes estranhos como Ozon, Oktogo, Nabortu e Ostrovok dominam a cena on line e não deixam espaço para mastodontes como Expedia entrarem com seus modelos de negócio engessados. Assim como no Brasil, não existe empresa na Rússia que tenha feito sucesso com fórmulas pré determinadas e sem parceria local.

Apesar de multiplicar-se a cada ano o mercado on line ainda é incipiente e representa menos de 10%. As reservas corporativas via GDSs também são pouco representativas.

Os Russos gostam de viajar. Um Russo médio paga somente 13% de imposto comparado com os padrões europeus e brasileiro de 30/40%. Isso significa que eles têm mais economias mas cultivam o hábito de pagar tudo em dinheiro. 90% da economia funciona com pagamento “cash”.

As viagens são dominadas por consolidadores locais que facilitam a burocracia dos vistos (Russos só podem viajar sem visto para alguns poucos paises) e do sistema de pagamento. Um cliente que viaja a negócios reserva via agencia, que por sua vez passa por um consolidador que por sua vez compra de um operador que por sua vez negocia com os hotéis. Ao longo desse caminho a margem dos fornecedores diminui pela metade.

A evolução do mercado, como em todos os países emergentes, somente é possível através das associações de classe. Tive a oportunidade de encontrar com dois atores conhecidos e importantes como o Vadim Zelenski, presidente da Russian Business Travel Association  e com o Philip Lookianenko da HRG.  A associação mantém um acordo estratégico com a ACTE e com uma entidade poderosa aqui na Alemanha, a German Business Travel Association (VDR)

A história e os desafios que eles contam lembram muito o que ocorreu no Brasil há 10 anos quando surgiram importantes associações como a ABGEV, ABRACORP, FOHB entre outras. Juntas ou separadas cada uma em seu setor, elas possibilitaram a construção de uma agenda e visão comum, o cruzamento e centralização de informações e estatísticas, lobby junto aos governos, capacitação e instrumentalização da mão de obra e a busca de processos e standarts que minimizem os custos operacionais.

Um longo caminho pela frente. Mas o esforço desses visionarios vale a pena quando vemos o tamanho do mercado.

 

Paridade tarifaria, o que é isso ?

28 de abril de 2012

Fernando Henrique Cardoso diz que a diferença entre um articulista e um cronista é que o primeiro argumenta logica e concatenadamente sobre um assunto qualquer. Ja o cronista pode divagar. Volto a ser articulista depois de divagar sobre os tapas e beijos de Paris.

Paridade tarifaria, o que é isso ?

Se você fosse fornecedor (tipo hotel e avião) diria que é uma maneira de controlar o equilíbrio dos canais de distribuição. Se você fosse um grande intermediário (tipo CVC e Trend) diria que é um dever de todos menos deles “pois temos poder de compra”. Se você fosse um intermediário pequeno (tipo agencia de viagens) diria que é algo que afasta o seu negócio da extinção. Finalmente, se você fosse um cliente você não diria nada. Apenas compraria no lugar mais conveniente e seguro.

Por trás dessa abordagem simplista está todo o equilíbrio do ecosistema do turismo. O fornecedor é o primeiro elo. Ele deve ter a inteligência de gerenciar os canais de venda pela margem e não pelo preço. Eu explico: praticando uma tarifa igual em todos os canais ele pode incentivar aqueles que oferecem mais margem de lucro, como a venda direta. Quanto mais ele gerenciar pelo preço mais será pressionado pelos fornecedores a oferecer menor preço em troca de volume.

E quanto mais volume mais dependência de um lado e arrogância do outro.

As companhias aéreas entenderam há anos essa maneira de gerenciar seus assentos. Infelizmente os hotéis não aprendem com elas. Na crise econômica de 2008 os hotéis nos EUA queimaram 8 bilhões de dólares dos seus ativos imobiliários ao transferir o inventário para as OTAs venderem barato e pagando comissão de 20%. Por outro lado a Expedia Inc valorizou seu “market cap” em 8 bilhões de dólares.

No último trimestre uma pesquisa recente da RateGain em grandes cidades como Chicago, Londres e Amsterdam constatou que somente 1 em cinco hotéis mostravam preços iguais em todos os canais pesquisados. Pior ainda, o preço mais barato encontrado era sempre da OTA.

Será que o Brasil está longe disso ?

Conforme a tecnologia avança a situação se complica e os hotéis estão tentando fugir dessa armadilha prometendo paridade mas reduzindo disponibilidade (conditions parity) ou limitando o acesso ao conteúdo (content parity) ou restringindo a paridade a um único canal de reservas (channel parity).

Tudo isso é tapar o sol com a peneira. Basta inteligência e coragem de gerenciar seu ativo mais precioso – que é o inventário – de maneira pragmática mas respeitando o equilíbrio do sistema.

Foi-se a era em que se pensava que o canal direto poderia ser imposto ao cliente como única forma de reservar um hotel ou comprar um avião. Mas também deixar que um intermediário cuide do posicionamento do seu produto também não é nada inteligente nem lucrativo.

 

Trilogia final: você já beijou em Paris ?

22 de abril de 2012

Eu já havia escrito sobre beijo há dois anos quando meu amigo artista plástico Flávio Ferraz despertou-me para o estado de felicidade das pessoas que beijam em pé.

Todos sabemos que parisienses são mau humorados por natureza. Eles AMAM esse estado de espírito.

Mas beijar em Paris é diferente de tudo. Estar em companhia de quem gosta na cidade mais bonita do mundo é um momento existencial perfeito. E para a maioria das pessoas, depois de muito economizar e sonhar…

Beijo em pé na plataforma de partida ou chegada do TGV, beijo na calçada em frente ao café. Beijo depois de sair do bistrô, beijo no metro, beijo nas 37 pontes que cortam o Sena. Beijo em frente ao Hotel de Ville para imitar a famosa foto do Doisneau. Ou então na Place des Abbesses ou na Place des Vosges. Ou em um dos bancos do Jardim de Luxembourg. Beijo em frente a igreja de Saint-Eustache ou saindo da catedral de Notre Dame ou em frente a qualquer igreja. Beijo nas centenas de fontes que jorram água potável. No cantinho da pirâmide do Louvre. No escurinho do cinema em Montparnasse. Beijo na Tour Eiffel. Beijo embaixo das cobertas de um hotel em Saint German de Prés (ou embaixo de qualquer coberta). No topo da Sacre Ceur ou em Montmartre. Beijo ao entardecer no Sena. Beijo nos Bateaux Mouches, nos ônibus, nas bicicletas e na garupa de uma scooter. Beijo na Avenida Champs Elysees entre um sinal fechado e outro. Beijo na roda gigante durante o inverno, no Jardim de Plantes na primavera, rolando na grama no verão e no meio das folhas amarelas no outono…

Esses beijos vão ficar na minha memória nos anos que morei em Paris. Eles foram feitos na companhia da minha querida e eterna Annita Romano. E também aqueles que vi com olhos de voyeur. Esbanjavam tanta ternura que não pude resistir de contemplar.

Leitor: se vier a Paris aproveite. E beije muito. A vida é curta. E em Paris ela não pode ser desperdiçada.

 

Trilogia de Paris parte 2: Tapas

15 de abril de 2012

Certas coisas desapareceram. Briga de rua por exemplo. Há muitos anos não via uma mizera briga de rua. Daquelas que os protagonistas soltam tapas e tabefes defendendo um ponto de vista banal (quem fechou quem, quem furou a fila de quem, quem olhou a mulher de quem).

Hoje em dia a violência dos revólveres, AR15 e metralhadoras acabou com essa cena nas cidades brasileiras. Mas historicamente – desde os tempos em que eramos colônia – o malandro conseguia tudo através dos tapas.

Quando morava em Paris presenciei algumas. Lembro de duas: a do taxista e a do motoqueiro.

Cena 1: o táxi dá seta para direita e pára. O motorista salta, caminha para trás, abre a porta do veículo e arranca um senhor de dentro na base de pescoçadas. Fora do automóvel o senhor se recompõe e parte para cima do taxista esbofeteando-o com a mão aberta. Tinha anos que eu não via tabefes de mão aberta. Daqueles que estalam. Em seguida salta uma distinta senhora, abre a mala do taxi e desce duas bolsas de viagem. Na pausa dos tabefes ela grita qualquer coisa para o senhor que termina com os sopapos e deixa o taxista entrar de volta no carro e ir embora calmamente. No fim da cena a senhora ajeita a camisa do senhor para dentro da calca do terno. Nenhum tiro. Nenhuma aglomeração. Apenas mais uma cena de Paris.

Abre parênteses: taxista em Paris é capaz de dar bofetada em passageiro que desconfia do valor da corrida. E olhem que os taxistas de Paris não estão no ranking dos mais honestos do mundo. Principalmente quando saem do aeroporto e ligam o taxímetro meia hora antes do passageiro entrar.

Cena 2: Na ponte Alexandre III o motoqueiro interrompe o percurso de um Peugeot . De dentro do Peugeot sai um executivo. Ele aguarda calmamente o motoqueiro tirar o capacete e em seguida começa a cobri-lo de pitombas.  O motoqueiro responde a altura desfechando vários socos de mão fechada no distinto executivo. Depois de satisfeitos, ambos se reposicionam em seus veículos e seguem educadamente cada um para o seu lado. Só faltaram dizer “merci beacoup”.

Abre parênteses: motoqueiros em Paris transgridem as normas de trânsito da mesma maneira que os de São Paulo. Trafegam nos corredores de onibus, consideram a via entre os carros como sendo DELES e estacionam as motocas em todos os lugares. A única diferença é que na hora da discussão, eles são extremamente educados ao distribuir tabefes. Nada de chutes no retrovisor nem capacetadas no capôt do veículo.