FIFA TEM RAZÃO

19 de maio de 2010

Acabo de voltar da África do Sul onde participei da Indaba, a feira de turismo em Durban. A minha visita não tinha nada a ver com a Copa do Mundo, mas evidentemente o país vive um momento de animação total a menos de um mês do início dos jogos, e há evidência em todo lugar dos investimentos feitos (e completos) bem antes do prazo final.

No aeroporto de Johannesburg, o novo terminal internacional (construído em 5/6 anos) demonstra bem como o país abraçou esse desafio e conseguiu transformações impressionantes.

Na chegada, há 36 guichês no controle de passaportes com funcionários prontos para atender em quase todos. Ainda tem uma equipe de 3 ou 4 atendentes que distribuem os passageiros criando pequenas filas de uma ou duas pessoas em frente a cada guichê para efetivamente eliminar o tempo perdido entre o atendimento de um passageiro e o próximo. Naturalmente, as filas andaram com rapidez admirável. Os fiscais (antigamente quase 100% brancos) são 100% negros, bem treinados e até sorridentes!

Na alfândega, nenhuma fila, pois os africanos (como os europeus) não acham necessário utilizar as declarações detalhadas que as autoridades brasileiras exigem.

Este post no blog deveria tratar do evento Indaba, mas mudei de idéia após passar pelo aeroporto de Cumbica (junto com os demais passageiros chegando no vôo da South African Airways) na segunda-feira, dia 17 de Maio. Comentários sobre Indaba ficam para o próximo post.

Na imigração, tudo bem: o vôo chegou às 15:35 hrs. – horário que têm poucos vôos internacionais chegando. Uns 4 dos 12 guichês estavam funcionando – alguém já viu mais de 8 funcionando simultaneamente no horário de pico de manhã ? – mas foi suficiente para o movimento daquele horário. Mesmo assim, temos muito a apreender com os sulafricanos, conforme detalhado no terceiro parágrafo acima.

Porém, na entrada da alfândega, uma desorganização total. A fila de “nada a declarar” tinha uns 100 metros de extensão com aproximadamente 200 pessoas na nossa frente.  Não havia ninguém encarregado de organizar a fila dentro dos cordões de isolamento que estavam somente parcialmente funcionando. Os brasileiros e estrangeiros, mesmo assim, respeitaram a fila que estava crescendo a cada minuto, já contornando metade dos carrosséis das malas. Excepcionalmente, os angolanos (90% mulheres e 10% homens) – todos “sacoleiros” profissionais que sempre viajam nesta rota em grandes quantidades – evidentemente fizeram parte de uma ação coordenada de furar a fila sem o menor constrangimento!  Eles simplesmente furaram as filas de todos os lados com a maior cara de pau. Quando questionados, inclusive por mim, se diziam parte de uma delegação do governo de Angola. As mulheres davam desculpas esfarrapadas, se dizendo grávidas ou simplesmente cansadas. Tudo isso rindo dos outros passageiros que, como eu, aguardavam na fila.

Boquiabertos, olhávamos sem poder fazer nada. Uma senhora comentou que havíamos saído de um país de Terceiro Mundo para chegarmos num de Quinto Mundo !   Realmente a falta total de funcionários para organizar a fila e proibir os “fura-filas” era escandalosa: culpa da Infraero ou da própria Receita Federal??

Nessa altura não se avistava mais o fim da fila, que já deveria estar na ala de Imigração. Após 35 minutos chegamos perante uma senhora da Receita Federal muito mal humorada, que fiscalizava detalhadamente, uma a uma, as declarações. Uma única fiscal! De fato, ao mínimo na minha experiência, nunca tem mais do que um agente fiscalizando todos os passageiros com “nada a declarar” no terminal inteiro.

Com todo respeito, se é necessário exigir que todas as pessoas que chegam ao Brasil preencham estas declarações, é dever das autoridades escalar fiscais suficientes para recolher as mesmas sem atraso, para evitar a humilhação que todos os recém-chegados sofreram na segunda-feira e, presumo eu, em muitos outros dias do ano. Dizem que é a primeira impressão que fica mais; quantos turistas estrangeiros que recebem este tratamento ao chegar pela primeira vez no Brasil voltariam uma segunda vez no futuro?

Recentemente li numa publicação que a FIFA possui um “plano B” para levar a Copa do Mundo para Inglaterra em 2014, caso o Brasil continue não cumprindo literalmente todos os prazos combinados. 30 meses já se passaram desde que o Brasil foi escolhido como sede para 2014 e só faltam 50! Nenhuma empresa bem administrada desperdiçaria 30 dos 80 meses disponíveis antes de iniciar as muitas construções e mudanças de comportamento tão necessárias para que o Mundial tenha chance de ser o sucesso que todos esperamos.

MARTIN JENSEN

ANUÁRIO DE OPERADORAS

14 de maio de 2010

Acabo de receber um exemplar do “Anuário de Operadoras 2010”, mais um produto bem elaborado pelo Panrotas. De acordo com o Panrotas, nós já temos umas 230 empresas que são “operadoras” no Brasil! Tudo isso sem contar as operadoras de turismo receptivo que não estão contempladas neste Anuário.

Lembrando que a BRAZTOA tem somente umas 70 associadas, a grande diferença nos números é, a primeira vista, surpreendente. O Panrotas não define exatamente o critério utilizado para diferenciar entre agências de viagens que são “operadoras” e aquelas que não são, mas eu suspeito que existem muito mais agências de viagens que, de fato, “operam” viagens, e ainda muitas outras que se identificam como “operadoras” quando convém – na hora de solicitar tarifários de fornecedores no exterior, por exemplo.

Somente na semana passada, o diretor de uma conhecida agência de viagens (que não consta no Anuário do Panrotas) me ligou para perguntar quanto é o salário de uma operadora internacional com bastante experiência, pois ele estava contratando uma para trabalhar com ele. Minha resposta não ajudou muito, pois temos diversas categorias de operadora na minha empresa, cujos salários são baseados em vários fatores (como, por exemplo, o número de anos de experiência). Fica evidente que esta agência, atualmente um cliente fiel nosso, não estará comprando com tanta frequência no futuro!

Frequentemente, um ou outro de nossos fornecedores no exterior nos informa que acabaram de receber um pedido direto de uma agência (que se justifica dizendo que vendeu muitos programas para aquele destino através da Queensberry e que os clientes sempre voltaram super satisfeitos). Eu me pergunto o que aquela agência faria se nós entrarmos em contato com seus clientes, sugerindo que comprassem a partir de agora diretamente conosco (sem a intermediação da agência habitual)!!

Há muito tempo não existe mais uma linha clara que separa “operadoras” de “agências de viagens”. Será que já estamos chegando ao ponto onde todas fazem tudo??

MARTIN JENSEN

P.S.: Parabéns, Artur e Equipe Panrotas por mais uma publicação bem feita. Somente gostaria de sugerir que, em 2011, vocês identifiquem (com certo destaque) aquelas operadoras que fazem parte da BRAZTOA – que é de fato a Associação oficial para todas que são realmente “operadoras”.

QUANDO EM ROMA

5 de maio de 2010

O provérbio “Quando em Roma, faça como os Romanos” é um dos mais conhecidos provérbios da língua portuguesa. Procurando sua origem no Google, encontrei palavras atribuídas ao Howard Rattlin (1836) “Do in Rome as the Romans do is the essence of all politeness”.

Lendo as respostas ao meu recente post neste blog sobre os hábitos de brasileiros na hora de pagar gorjetas, tem várias citando exemplos que confirmam a minha observação que brasileiros, em geral, tem fama de ser os menos generosos na hora de pagar gorjetas (ficando atrás até dos Argentinos e Chilenos!).

Há outras respostas, algumas até bastante emocionadas, culpando os americanos e europeus por terem criado e universalizado a “prática de gorjeta”, como argumento para justificar a recusa de pagar mesmo por um serviço muito bem prestado.

Eu prefiro considerar o pagamento de uma gorjeta como a maneira eficaz de reconhecer e agradecer o prestador de um serviço muito bem prestado e, assim, incentivar o mesmo a continuar se esforçando desta forma. Se os Europeus fazem isto na Europa, então quem opta por tirar férias na Europa deveria “fazer como os Europeus”.

VENDENDO ROTEIROS DIFERENCIADOS – POR QUE É TÃO DIFÍCIL?

30 de abril de 2010

Quando eu comecei recebendo turistas brasileiros na Inglaterra e Europa nos anos 70, quase todos os pedidos recebidos através das Agências de Viagens eram semelhantes e “básicos”.  No caso de Inglaterra, por exemplo: 3 ou 4 noites em Londres com traslados aeroporto/ hotel/ aeroporto, 2 passeios de meio dia em Londres e 1 tour de dia inteiro para Stratford-upon-Avon.  Eu imaginei que, com o passar do tempo, receberíamos cada vez mais pedidos diferenciados, tais como viagens de 2 a 4 dias para o interior da Inglaterra (regiões maravilhosas tais como os Cotswolds, o West Country ou a Região dos Lagos) ou, claro, para Escócia ou Irlanda.

Enquanto ainda recebemos pedidos do tipo “básico” (normalmente para turistas na sua primeira viagem para Europa), a grande maioria dos pedidos tende a ser ainda mais “básicos”: simplesmente 3 ou 4 noites de hotel em Londres, sem traslados e sem tours. Pedidos diferenciados continuam sendo muito raros.

Já levamos nossos melhores clientes em fam-tours para Escócia e para Irlanda (nos anos quando era fácil conseguir passagens “free” das Companhias Aéreas), mas, apesar de todos terem adorado a viagem, resultaram poucas vendas.

A mesma coisa acontece com todos os grandes destinos do mundo. Como exemplo, 99% dos brasileiros que visitam Austrália limitam seus itinerários a Sydney, Melbourne e algum lugar no Grand Barrier Reef (normalmente Cairns ou Hayman Island);  Ayer’s Rock e Tasmânia nem pensar!  No caso da África do Sul, eu me sinto frustrado com o pífio resultado de nossos 20 anos divulgando detalhadamente (com folhetos coloridos lançados anualmente) as grandes atrações da África do Sul e dos seus países vizinhos (Maurício, Quênia e Tanzânia, Botsuana, Zâmbia, Namíbia e Moçambique).

Concretizamos vendas de todos estes destinos maravilhosos, é claro, mas, ainda hoje, 90% dos clientes que viajam até Johannesburg se limitam a roteiros simples na própria África do Sul.  Esta porcentagem chega a 95% se incluímos a bela ilha de Maurício, muito procurado (com toda razão) para viagens de Lua-de-Mel.

Num caso mais recente, o grande aumento em viagens para Turquia (resultado da inauguração do voo direto da Turkish Airlines no ano passado) demonstra que todo mundo quer conhecer Istambul e Cappadocia, com possível extensão a Éfeso; quase nada da bela “Riviera” que extende desde Bodrum até Kekova (perto de Antalya), e que tem acomodações de alta qualidade de todos os tipos (desde hotéis “butique” até grandes resorts) e um mar azul para dar inveja a França e Itália, menos ainda o vasto interior do país com tanta história para revelar.

Quarenta anos atrás não havia revistas de turismo nas bancas de jornais no Brasil; hoje o número parece infinito,  todos cheios de reportagens sobre destinos inclusive lugares realmente desconhecidos.  Tem cada vez mais “operadoras” internacionais que distribuem folhetos de todos os tipos e mantem seus sites cada vez mais completos e informativos. Mas, mesmo assim, os pedidos que recebemos continuam sendo relativamente básicos.

Somos nós, as operadoras, que não conseguimos divulgar as novas opções diferenciadas da forma correta?  Ou falta coragem às agências para recomendar algo diferente aos seus clientes?  Ou é o brasileiro que, no fundo, não quer arriscar viagens fora das rotas tradicionais?

MARTIN JENSEN

O PAGAMENTO DE GORJETAS – O BRASILEIRO É PÃO DURO, OU SIMPLESMENTE MAL ORIENTADO?

27 de abril de 2010

Duas conversas recentes me fizeram ponderar porque os Brasileiros em geral são aparentemente cada vez “menos generosos” na hora de pagar gorjetas.

A Queensberry opera mais de 300 viagens em grupo todo ano e sempre informamos os clientes que todas as gorjetas (aos guias locais, aos motoristas e aos carregadores) são incluídas no preço publicado, com a única exceção da “tradicional gorjeta” ao guia permanente no final da viagem, que fica a critério de cada passageiro. Conversando com um dos nossos mais experientes guias, ele me informou que os valores que ele e seus colegas recebem são cada vez menores, mesmo que os passageiros continuam dando “nota 10” à atuação do guia permanente nos ”opinários” que completam no final de cada viagem.

Conversando com o Guest Relations Officer a bordo de um dos navios da Princess Cruises, ele me contou de um caso bem mais sério! Quase todos os navios grandes cobram gorjetas (em torno de US$ 10.00 por pessoa por dia) que normalmente são recebidas dos passageiros em envelopes na última noite do cruzeiro; estes valores são destinados às camareiras, aos garçons e ao maitre D, formando assim uma parte substancial da remuneração dos mesmos. Se, por algum motivo, um passageiro achou o atendimento a bordo inferior ao esperado, ele tem sempre o direito de recusar o pagamento, mas isso quase nunca acontece.  Mesmo que eu pessoalmente nunca concordei com esta política – acreditando que o preço do cruzeiro deveria incluir a remuneração total dos funcionários em todos os níveis – a política é quase universal e os passageiros sempre recebem informações sobre esta cobrança na hora de comprar o cruzeiro.

Alguns anos atrás, a Princess Cruises adotou a política de debitar este valor (US$ 120.00 por pessoa para um cruzeiro de 12 noites) na conta dos extras dos passageiros, em lugar de colecionar envelopes com dólares na última noite.  Da mesma maneira de antes, um cliente pode exigir o cancelamento deste débito se ele não estiver satisfeito com o serviço a bordo.

No caso em questão, o Guest Relations Officer me contou que, num cruzeiro recente que tinha mais de 500 brasileiros a bordo, um passageiro descobriu que o débito na conta dos extras poderia ser estornado se o passageiro exigir, e imediatamente disseminou a noticia entre um grande número dos brasileiros a bordo.  Logo se formou uma fila de brasileiros no Purser’s Desk, todos solicitando o estorno do referido débito – mesmo que ninguém tenha feito uma sequer reclamação quanto ao serviço a bordo.  Entendo que nunca houve um caso semelhante em qualquer navio da Princess Cruises.

Eu me pergunto se esta aparente “falta de generosidade” pode estar relacionado com a falta de conhecimento das práticas no mundo lá fora, que deixa o brasileiro tão desorientado na hora de decidir quanto pagar que ele acaba pagando nada!   Quem mora num país (o único do mundo?) onde taxistas nem esperam gorjetas, enquanto manobristas de restaurantes e flanelinhas recebem valores absurdamente altos, pode ser perdoado por faltar padrões lógicos sobre o valor a ser pago.

Como estrangeiro com residência permanente no Brasil, sempre achei e continuo achando os brasileiros o povo mais simpático e generoso do mundo – de fato o principal motivo pela minha decisão, há 29 anos, de emigrar da Inglaterra para morar aqui. Gostaria muito se alguém poderia explicar porque, então, não é bem assim na hora de pagar gorjetas !

MARTIN JENSEN

ÍNDIA – O SURPREENDENTE SUL

15 de abril de 2010

Após 9 dias no Norte da Índia (entre Delhi e Rajastão), região escolhida por  99% dos brasileiros quando planejando uma visita a Índia, nós embarcamos num vôo de 2 horas a partir de Bombaim para Cochin, a principal cidade do Estado de Kerala no extremo Sul do país.

A primeira impressão, visual ao mínimo, era de uma cidade mais rica que aquelas no Norte, com dezenas de coloridos prédios residenciais recém-construídos nos subúrbios e muitos outdoors anunciando novos lançamentos semelhantes.  Se não fosse o trânsito nas estradas tão caótico quanto no Norte da Índia, teria parecido que estávamos chegando a Salvador ou Recife .

Ao chegar ao centro antigo, Fort Cochin, numa ilha de frente ao Oceano Índico, 10 minutos de water-taxi ou 45 minutos de carro do centro moderno, descobrimos que estávamos num lugar histórico que está, felizmente, sendo conservado com rígidas restrições à construção de novos prédios.  Nosso hotel estava ao lado de uma linha de redes de pescadores chineses, montadas pelos chineses séculos atrás e utilizadas até hoje.  A igreja onde Vasco de Gama estava enterrado (antes do seu filho transportar seus restos para Portugal alguns anos depois) estava perto.  Álvares Cabral também estava lá no ano 1500, pois Cochin foi o principal centro do comércio de especiarias do mundo inteiro naqueles tempos e, assim, estava o destino final das viagens dos aventureiros portugueses atrás das riquezas deste comércio.

De Fort Cochin, fomos para os “Backwaters”, um labirinto de rios e canais de água doce em torno do Lago Vembanad, umas duas horas de carro ao sul da cidade. Têm mais de 500 barcos (das mais diversas qualidades imagináveis) à espera de turistas para passear pelos canais em passeios de 3 ou 4 horas até 7 noites de duração.  Nosso passeio proporcionou algumas horas de paz e tranquilidade num cenário paradisíaco de verdes exuberantes antes de terminar o passeio  num dos muitos resorts a beira do Lago.

A estadia num destes resorts foi realmente a maneira perfeita de terminar a viagem pela Índia e para recuperar as energias após os dias seguidos de passeios turísticos no Norte do país. Serviço impecável e comida variada, com muitas opções de pratos europeus  – muito bem-vindos  após dias procurando os pratos indianos menos apimentados possíveis !

Na Queensberry, temos tentado vender programas combinando o Norte e Sul da Índia durante anos, incorporando programas em nossos folhetos e oferecendo seminários sobre o destino, com quase nenhum resultado em vendas. Será que são nossos clientes que insistem em comprar as mesmas rotas que suas amigas já fizeram, ou será que somos nós no trade que não aprendemos ainda como convencer nossos clientes a comprar programas diferentes e mais completos?

De qualquer forma vai a recomendação aos leitores deste blog para acrescentar 4 noites ou mais no Estado de Kerala no fim dos programas de viagens para Índia.  Eu aposto que seus clientes irão voltar agradecendo; podem até concordar comigo que o programa deixou o melhor para o fim !  (É bom lembrar que, com Emirates, têm duas frequências diárias entre Cochin e Dubai, uma das quais permite uma conexão imediata para São Paulo).

MARTIN JENSEN

ÍNDIA – UM DESTINO MUITO ESPECIAL

12 de abril de 2010

Com quase quarenta anos como profissional de turismo desde que larguei o mundo financeiro para mergulhar na operação de viagens para brasileiros, descobri uns dez anos atrás, que quando planejo minhas viagens, estou sempre dando preferência àqueles destinos onde o turismo em massa ainda não chegou.  Pode ser que já tenho cansado de visitar muitos destinos tradicionais e famosos, onde o prazer previsto foi dizimado (se não eliminado totalmente) pelas imensas filas de turistas nas atrações e nas ruas em geral.  Surpreendentemente, ainda há lugares na Europa, sem falar no sul e leste da África, que conseguiram conservar suas identidades e evitar os estragos que normalmente resultam da corrida para atender e explorar seu potencial turístico.

Provavelmente por este motivo, eu tenho recusado diversos convites para conhecer a Índia, destino já visitado por milhares de turistas europeus todo ano, sem contar os 1.200.000.000 habitantes: 6 vezes a população do Brasil morando num país 60% menor!

Finalmente recebi um convite irrecusável para conhecer Delhi e as principais cidades do Rajastão a bordo de um novíssimo trem de alto luxo, o “Maharajas’ Express”. Sem entrar em detalhes, eu posso entender agora porque tantos amigos e colegas têm insistido comigo para conhecer esse país, especialmente levando em conta os onipresentes legados da era do Império Britânico! Pessoalmente, eu não achei nenhuma das cidades visitadas bonita, mas cada uma tem uma ou mais atrações imperdíveis, como o Taj Mahal e Fortaleza em Agra, o Amber Fort em Jaipur e o City Palace em Udaipur. Todas impressionam pelo tamanho, pela riqueza da sua decoração, pela evidência do incrivelmente opulente estilo de vida dos Marajás (até somente 70 anos atrás) e pelo surpreendentemente bom estado de conservação (graças ao ar seco dessa região desértica).  

Imagino que todos que viajam à Índia já esperam o trânsito caótico – especialmente após  assistir a novela “Caminhos da Índia” (onde o congestionamento nas ruas de Jaipur chegou a ser artisticamente exagerado).  De fato faz parte da experiência turística, providenciando frequentes oportunidades de fotografar cenários inimagináveis até no Brasil. O país tem uma invejável malha ferroviária – a maior do mundo (outro legado dos ingleses) – mas é mais do que evidente que não é suficiente, pois a velocidade média nas principais estradas (rodovias realmente não existem) não passa de 40 kph. Não dá para entender porque o Governo deste país que cresce tanto (parceiro nosso no “BRIC”) não investe muito mais nessa malha rodoviária.

Duas surpresas contraditórias: a simpatia dos habitantes (de todas as raças e castas) e a quantidade de lixo em todas as ruas (papel, sacos e garrafas plásticas – raramente coisas piores) com as quais os habitantes convivem com se não existissem. Não deveria ser difícil criar um sistema de coleta de lixo  e limpeza das ruas – especialmente num país com tantos desempregados. 

Do Rajastão, resolvi seguir para Kerala, um Estado do extremo sul da Índia – já muito divulgado na Europa – porém, efetivamente desconhecido no Brasil. Descobri outra Índia onde o turista consegue, sim, fugir do turismo em massa e conhecer a natureza exuberante, relaxar em lugares paradisíacos e conhecer melhor o super-simpático povo indiano. Esta experiência fica para o meu próximo post neste blog.

Até breve!
MARTIN JENSEN

DUBAI – Uma cidade que se reinventa a cada dois anos

31 de março de 2010

Meus colegas que já são blogueiros “profissionais” me ensinaram que eu não deveria falar duas vezes seguidas sobre o mesmo assunto. Peço desculpas a todos por insistir em mais uma mensagem sobre minha recente visita a Dubai.

Quando estive em Dubai nas duas visitas anteriores  (2 e 3 anos atrás),  fiquei muito impressionado com o complexo turístico de Madinat Jumeirah – com três grandes hotéis de luxo interligados  a um shopping com dezenas de restaurantes à beira dos canais artificiais do resort.  Localizado ao lado do famoso Burj Al Arab, até então o cartão postal da cidade, ele parecia destinado a ser o centro da vida noturna e de lazer da cidade durante muitos anos.

Na época, o Burj Khalifa, agora o prédio mais alto do mundo, estava crescendo ao ritmo de um andar por semana, em um lugar até recentemente desértico (onde o novo centro financeiro representava o limite do avanço da cidade para o deserto da península arábica). Eu nunca imaginei que esta área totalmente sem atrativos se transformaria dois anos mais tarde no novo “point” da vida social e turística da cidade.  Batizado de “Downtown” – nome até então utilizado para descrever o centro antigo da cidade (Deira e Bur Dubai) – este novo bairro hoje se compõe do Burj Khalifa, o Dubai Mall (maior shopping do mundo com 1.100 lojas e 14  mil vagas de estacionamento), três hotéis de alto luxo, dois hotéis de 4 estrelas meio perdidos num novíssimo setor residencial  -  batizado “Old Town” (!) – e um lago artificial circundado por dezenas de restaurantes onde, a cada noite, entre 18h00 e 23h00,  há um show de chafarizes que dançam ao som de diversas músicas (durante 3 minutos a cada 20).  Este show, aos pés do Burj Khalifa e circundado pelo Mall e os 3 hotéis de luxo, é realmente imperdível.  Dizem que os chafarizes alcançam a altura de 200 metros – eu diria uns 80/100 metros (o que já muito alto!)

Vale a pena ler a reportagem na “Newsweek” desta semana (Mar 29 – Abr 05) com o título “The Future of Luxury”   – nás páginas 50/52. A foto grande mostra a festa de inauguração desta nova atração.

Eu fico me perguntando porque este tipo de ousadia não existe no Brasil.  São Paulo tem 10 vezes mais habitantes que Dubai, e a área da Cracolândia deve ser maior do que a área ocupada pelo novo bairro de Downtown em Dubai.  Imaginem como um complexo desta envergadura mudaria a vida de todos os paulistanos!

Abraços,

MARTIN JENSEN

DUBAI – AINDA UM MARAVILHOSO DESTINO TURÍSTICO

24 de março de 2010

Cheguei ontem à noite em Dubai, dois anos depois da minha última visita, e estava bem preparado para encontrar uma cidade mostrando sinais de decadência e depressão – após ler tantas reportagens negativas na imprensa desde meados de 2008.

Desde que saí do aeroporto eu pude comprovar mais uma vez o quanto a imprensa gosta de destacar as más notícias e ignorar as boas! Uma cidade limpa, ultramoderna e bem iluminada, com uma sucessão de imensos prédios recém construídos. Se alguma coisa mudou nestes últimos dois anos, é o fato que tem muito menos guindastes que no passado – pelo simples fato de que as centenas de prédios, em construção na época, agora finalizados, compondo uma paisagem ainda mais bela e bem acabada.

Ainda há prédios em construção, como em qualquer cidade moderna e saudável, mas não aquele número inacreditável de dois anos atrás. Por isso, a cidade realmente parece relativamente mais madura e muito mais agradável. Passamos pelo impressionante Burj Khalifa e outros tantos prédios de arquitetura ousada antes de entrar na rodovia que é o único acesso ao Palm Jumeirah, chegando finalmente ao Atlantis bem na extremidade do Palm Jumeirah, com o Golfo Pérsico (e Irã além do horizonte) de um lado e, do outro, o mar azul e tranquilo protegido pelo imenso aterro.

Apartamentos maravilhosos (são nada menos que 1.539 unidades), serviço excepcional, um gigantesco parque aquático e enorme praia particular: tudo funcionando graças à equipe de bem treinados e sorridentes funcionários. O Atlantis tem 76% de ocupação neste momento – após índices bem maiores na alta temporada de Dezembro/Fevereiro – e os hoteleiros em geral não estão reclamando mesmo as tarifas tendo caído uns 20/30% desde o ano atípico de 2007 (quando certos hotéis chegaram a cobrar 200% da tarifa publicada para as últimas unidades disponíveis).

É verdade que alguns projetos mirabolantes foram suspensos por enquanto – mas não vimos nenhuma construção abandonada e nenhum sinal claro que Dubai não vai continuar a ser uma das grandes histórias de sucesso do turismo mundial.

Martin Jensen

Tendências no mercado: Teoria versus Prática

18 de março de 2010

Temos lido muito sobre o fim dos “forfaits”, viagens montadas de acordo com o gosto dos passageiros individuais, perante as facilidades cada vez mais “user-friendly” da internet.   Não há como ignorar a potência das novas ferramentas, que devem ser levadas muito a sério, especialmente por empresas como a Queensberry, que nasceu, cresceu e ganhou seu nome como especialista nesta área de operação.

Já preparados para o “fim” desta atividade, continuamos sendo surpresos com o constante crescimento na procura por parte das agências de viagens (que respondem por 95% das nossas vendas) para viagens deste tipo. Ano após ano, a procura aumenta e, mesmo investindo fortemente na informática e na nossa equipe de 25 especialistas que somente operam este tipo de viagem, há meses em que não conseguimos responder a todos os pedidos em menos de 48 horas.

Assim, fica comprovado para nós que, mesmo que os dias desta atividade estejam contados, ainda há muito chão pela frente até sentirmos a queda na procura.

Paralelamente a isto, eu tenho lido muito sobre o futuro de viagens em grupo.  Baseado no argumento de que as pessoas estão envelhecendo mais lentamente e de que uma pessoa com 60 anos de idade em 2010 tem um espírito mais jovem (e mais independente) que aquele que chegou aos 60 no passado, a conclusão é de que haverá cada vez menos pessoas interessadas em viajar em grupo. 

Mais uma vez, na prática, essa tese não se confirma.  Vendemos cada vez mais passageiros em nossas viagens em grupo “Grupos Brasileiros no Mundo” e eu fico impressionado com o número de passageiros que comentam, no fim da viagem, que nunca imaginaram que, um dia, iriam viajar em grupo, mas que, pressionados por amigos, eles resolveram experimentar uma vez. Acabaram gostando muito da experiência e informaram que seriam clientes constantes da nossa empresa no futuro.

Certamente, temos que ficar atentos aos sinais de mudanças nos desejos dos passageiros, mas tudo indica que teremos muitos anos de crescimento no mercado, sem ter que abandonar o tipo de produto que comercializamos hoje.

Com um forte abraço a todos os verdadeiros profissionais de turismo,

MARTIN JENSEN