Acabo de voltar da África do Sul onde participei da Indaba, a feira de turismo em Durban. A minha visita não tinha nada a ver com a Copa do Mundo, mas evidentemente o país vive um momento de animação total a menos de um mês do início dos jogos, e há evidência em todo lugar dos investimentos feitos (e completos) bem antes do prazo final.
No aeroporto de Johannesburg, o novo terminal internacional (construído em 5/6 anos) demonstra bem como o país abraçou esse desafio e conseguiu transformações impressionantes.
Na chegada, há 36 guichês no controle de passaportes com funcionários prontos para atender em quase todos. Ainda tem uma equipe de 3 ou 4 atendentes que distribuem os passageiros criando pequenas filas de uma ou duas pessoas em frente a cada guichê para efetivamente eliminar o tempo perdido entre o atendimento de um passageiro e o próximo. Naturalmente, as filas andaram com rapidez admirável. Os fiscais (antigamente quase 100% brancos) são 100% negros, bem treinados e até sorridentes!
Na alfândega, nenhuma fila, pois os africanos (como os europeus) não acham necessário utilizar as declarações detalhadas que as autoridades brasileiras exigem.
Este post no blog deveria tratar do evento Indaba, mas mudei de idéia após passar pelo aeroporto de Cumbica (junto com os demais passageiros chegando no vôo da South African Airways) na segunda-feira, dia 17 de Maio. Comentários sobre Indaba ficam para o próximo post.
Na imigração, tudo bem: o vôo chegou às 15:35 hrs. – horário que têm poucos vôos internacionais chegando. Uns 4 dos 12 guichês estavam funcionando – alguém já viu mais de 8 funcionando simultaneamente no horário de pico de manhã ? – mas foi suficiente para o movimento daquele horário. Mesmo assim, temos muito a apreender com os sulafricanos, conforme detalhado no terceiro parágrafo acima.
Porém, na entrada da alfândega, uma desorganização total. A fila de “nada a declarar” tinha uns 100 metros de extensão com aproximadamente 200 pessoas na nossa frente. Não havia ninguém encarregado de organizar a fila dentro dos cordões de isolamento que estavam somente parcialmente funcionando. Os brasileiros e estrangeiros, mesmo assim, respeitaram a fila que estava crescendo a cada minuto, já contornando metade dos carrosséis das malas. Excepcionalmente, os angolanos (90% mulheres e 10% homens) – todos “sacoleiros” profissionais que sempre viajam nesta rota em grandes quantidades – evidentemente fizeram parte de uma ação coordenada de furar a fila sem o menor constrangimento! Eles simplesmente furaram as filas de todos os lados com a maior cara de pau. Quando questionados, inclusive por mim, se diziam parte de uma delegação do governo de Angola. As mulheres davam desculpas esfarrapadas, se dizendo grávidas ou simplesmente cansadas. Tudo isso rindo dos outros passageiros que, como eu, aguardavam na fila.
Boquiabertos, olhávamos sem poder fazer nada. Uma senhora comentou que havíamos saído de um país de Terceiro Mundo para chegarmos num de Quinto Mundo ! Realmente a falta total de funcionários para organizar a fila e proibir os “fura-filas” era escandalosa: culpa da Infraero ou da própria Receita Federal??
Nessa altura não se avistava mais o fim da fila, que já deveria estar na ala de Imigração. Após 35 minutos chegamos perante uma senhora da Receita Federal muito mal humorada, que fiscalizava detalhadamente, uma a uma, as declarações. Uma única fiscal! De fato, ao mínimo na minha experiência, nunca tem mais do que um agente fiscalizando todos os passageiros com “nada a declarar” no terminal inteiro.
Com todo respeito, se é necessário exigir que todas as pessoas que chegam ao Brasil preencham estas declarações, é dever das autoridades escalar fiscais suficientes para recolher as mesmas sem atraso, para evitar a humilhação que todos os recém-chegados sofreram na segunda-feira e, presumo eu, em muitos outros dias do ano. Dizem que é a primeira impressão que fica mais; quantos turistas estrangeiros que recebem este tratamento ao chegar pela primeira vez no Brasil voltariam uma segunda vez no futuro?
Recentemente li numa publicação que a FIFA possui um “plano B” para levar a Copa do Mundo para Inglaterra em 2014, caso o Brasil continue não cumprindo literalmente todos os prazos combinados. 30 meses já se passaram desde que o Brasil foi escolhido como sede para 2014 e só faltam 50! Nenhuma empresa bem administrada desperdiçaria 30 dos 80 meses disponíveis antes de iniciar as muitas construções e mudanças de comportamento tão necessárias para que o Mundial tenha chance de ser o sucesso que todos esperamos.
MARTIN JENSEN