E zebras, elefantes, girafas, gnus… leões. Tudo dentro da Reserva Natural Pilanesberg, onde você entende muito bem por que o safári é considerado uma espécie de “jogo” entre os animais e os visitantes
Maria Izabel Reigada
* Especial para a Vamos Lá
O despertar ocorre diariamente às 5h30 no Ivory Tree Game Lodge para saída às 6h. Café da manhã por volta das 10h, almoço às 13h e nova saída às 16h. O retorno é na hora do jantar, a partir das 20h. No dia seguinte, tudo igual, e no próximo, também. O que pode parecer tedioso à primeira vista revela-se uma daquelas experiências que o “dinheiro não pode comprar”.
Ok, o dinheiro compra a primeira parte da experiência: a viagem até a África do Sul, a hospedagem em um dos cerca de 800 game lodges do país, aqueles hotéis em meio a selvas ou savanas sul-africanas que oferecem os safáris fotográficos. Daí em diante, preparado para sair para um dos safáris diários oferecidos pelo Ivory Tree, game lodge a duas horas e meia de Joanesburgo e a 30 km de Sun City, começam as experiências “sem preço”.
Jogo
No caso do Ivory Tree, as duas saídas – ao amanhecer e ao entardecer – têm o objetivo de permitir que se aviste a maior quantidade possível de animais dentro da Reserva Natural Pilanesberg, endereço do game lodge. Game? É exatamente assim que o safári é apresentado: como um jogo entre os animais e os visitantes, conta o guia Mike, um dos mais experientes do Ivory Tree.
Mas também a palavra “game” se refere à caça propriamente dita, proibida atualmente nas reservas. “O safári é um jogo com os animais. Nós jogamos com eles. Às vezes ganhamos, às vezes eles ganham”, diz o ranger, definição utilizada para os guias dessas expedições. E se ganhar é encontrar pelo caminho boa parte da fauna da Reserva Pilanesberg, “perder” é voltar para o lodge sem vê-los. Mas será que isso acontece?
Pontuação
Nos jogos, pontuar é fundamental. Assim, os safáris têm nos “big five” o máximo da pontuação. Avistar elefantes, búfalos, leopardos, rinocerontes e o rei de todos eles, os leões, é alcançar a pontuação máxima. Ok, é puro marketing, porque os guepardos (cheetahs) e os lobos selvagens são ainda mais difíceis, mas entremos no jogo. É divertido. A bordo dos veículos 4X4 com assentos adaptados em formato arquibancada, para que nenhum dos nove passageiros transportados atrapalhe a visão do outro, começa o safári, com duração que varia conforme a “disponibilidade” dos animais.
Aos montes
E eles aparecem aos montes no Pilanesberg, lar de aproxidamente dez mil animais, entre aves, mamíferos e répteis. Os impalas, kudus e springboks (estes dois últimos são variações de cervos e veados e o sprinbok um símbolo nacional na África do Sul) são os primeiros a aparecer, sem timidez. Em bandos, é fácil avistá-los alimentando-se próximos às pequenas estradas – algumas asfaltadas – que atravessam o parque. Ao todo, são cerca de 180 km de caminhos e estradas no Pilanesberg e, em cada safári, cerca de 30 a 35 km são percorridos.
Olhos de lince
Mas não são todos os animais que andam em grupo. Para tornar o “jogo” mais emocionante, também não todas as espécies esbanjam a mesma desinibição dos impalas, indiferentes à presença do veículo, mas atentos à aproximação de qualquer felino. Para encontrar alguns animais, é preciso “olhos de lince”, como os do ranger Mike, que avisa: “se alguém observar algum movimento, basta dizer para pararmos o veículo”. A instrução é desnecessária: é sempre ele o primeiro a observar qualquer animal e apontar em direção a ele, dando início ao exercício dos passageiros, que procuram avistar o animal indicado.
Binóculos
Na paisagem repetitiva, de árvores de altura média, mato alto, morros baixos e muitas pedras, tudo em tons amarelo-alaranjados, não é fácil identificar um elefante atrás de galhos secos, semiencoberto por uma pedra. Mas ele já foi descoberto pelo ranger, que sinalizou para os passageiros. Os binóculos começam a circular pelo veículo, ajudando quem ainda não conseguiu enxergar o distante elefante. O paquiderme contribui e, ao movimentar-se, todos podem vê-lo. Suspiros, elogios à beleza do animal e uma crescente vontade de vê-lo mais perto. Desejo que pode ser realizado na próxima curva: mãe e filhote elefantes atravessando a estrada. “Fofinhos, meigos, doçuras” dificilmente seriam adjetivos aplicados a elefantes mas, ali, não há dúvida: pode.
Elefantes
Há cerca de 220 elefantes na reserva e por conta dos hábitos alimentares, é bastante fácil encontrá-los no safári da tarde. Rastreá-los também não é difícil, já que os elefantes defecam a cada 40 minutos… Pode não parecer a trilha mais agradável a ser seguida, mas alcançar um elefante caminhando solitariamente pela estrada vale a pena. Depois disso, é só segui-lo, uma vez que ultrapassar um elefante é proibido: “não se pode imaginar a reação dele. E se ele quiser empurrar suas toneladas contra o veículo, nenhuma dúvida de que é o veículo que perde”, explica o ranger. Um “congestionamento” memorável. Ponto nosso.
Zebras, girafas…
Além de impalas e elefantes, zebras, girafas e gnus também são figuras constantes no Pilanesberg. No primeiro encontro com cada uma das espécies, um sem-fim de fotos as persegue. Rotina que se repetirá em todos os demais encontros. Fotográfa-los é irresistível.
Rinocerontes
Não tão comuns são os rinocerontes. Segundo o ranger Mike, é impossível precisar a população desses mamíferos na reserva. O que é certo é que a chance de encontrar um rinoceronte branco é 60 vezes maior que a de avistar um exemplar negro, este último uma das espécies africanas em maior risco de extinção. Mais reservados que os elefantes, os rinocerontes estão em maior número pelo parque. O primeiro que avistamos estava bastante distante e só com a ajuda dos binóculos foi possível localizá-lo, deitado, longe. “Ei, olhe, ele está se levantando”, avisou o ranger. “Não, o meu não.” Exatamente, o primeiro rinoceronte que “vi” era uma grande pedra horizontal. Ponto para ela.
Felizmente, os rinocerontes são muitos na reserva Pilanesberg. Apesar de não ter visto o distante rinoceronte, no safári da manhã seguinte lá estavam mãe e filhote, exibindo a… “retaguarda”, digamos assim, a quem circulava pelo caminho.
Retaguarda
A exibição da “retaguarda” é, inclusive, prática comum entre os animais, que não mostram incômodo com os veículos da estrada, mas ficam de costas para ela. Acanhados, os rinocerontes protegeram-se atrás da folhagem enquanto os observavamos. Mas a manhã era nossa e outras duplas de rinocerontes mostraram-se nos caminhos. O mais curioso deles, no entanto, era um rinoceronte solitário, que não hesitou em encarar por longos minutos o veículo parado. Sorte a nossa.
Rádios ligados
Com verões quentes e úmidos e invernos secos e frios – muito frio, especialmente durante os safáris –, a Reserva Pilanesberg tem paisagem árida no inverno, entre abril e setembro. É nesse período que ganha importância o principal lago da reserva, refúgio de crocodilos e hipopótamos, e também área de piquenique dos safáris. É ali que os rangers estacionam os veículos no meio do passeio para a utilização de banheiros da bem montada infraestrutura, com passarela e deque sobre o lago. O lugar é ideal para avistar pássaros e não é difícil observar algum crocodilo. Na volta ao veículo, ainda há tempo para saborear uma cerveja ou uma taça de vinho sul-africano.
Felinos
De volta ao safári, o rádio do ranger chama. Leão à vista. Encontrar os felinos – sejam leões ou leopardos – é difícil e sempre que algum ronda as proximidades das estradas do parque, todos os rangers são avisados. No safári da manhã, observamos o leão adulto, de aproximadamente dez anos, afastando-se da estrada. De costas e cada vez mais distante, ele já arrancou suspiros e mereceu dezenas de cliques fotográficos. Mesmo deitado, observar Ketumetsi, esse é seu nome, é um presente daqueles que fazem você pensar se merece tanto. No cenário, aproximam-se alguns impalas… Mas o bando logo detecta a presença do leão – deitado preguiçosamente – e muda a direção do passeio. Conferir isso ali, a alguns metros, é mesmo um presente.
Ponto para quem?
Não houve a mesma sorte com os leopardos. O aviso de onde circulavam a fêmea e seus dois filhotes foi dado e o ranger levou o veículo até o local. Procurá-los em meio às pedras e cavernas que servem de tocas é um exercicio de paciência, recompensado com qualquer movimento de folhas. A procura termina quando os impalas aparecem… Se eles estão por ali, é sinal de que a mamãe leopardo está bem longe… “Ponto” para os leopardos. Mas o rádio volta a avisar que o mesmo leão, Ketumetsi, visto naquela manhã, está por perto, embora a noite já esteja caindo. A continuação do safári noite adentro é possível com a ajuda dos focos vermelhos e brancos de luz utilizados pelo ranger para indicar os animais. Cinco veículos no mesmo local, todos seguindo a poucos metros o rei das selvas, que para e ruge. O ruído ensurdecedor pode ser ouvido a até cinco quilômetros, garante o ranger. Ninguém duvida.
O leão caminha…
Depois do rugido, o leão caminha, enquanto os veículos estacionam nas proximidades. Ao longe, um rugido abafado. Segundo o ranger, é a leoa indicando o caminho para casa. Sem pressa, o leão para e observa o local. Ao ouvir o segundo rugido da fêmea, volta-se para o outro lado e caminha em direção ao nosso veículo, passando a menos de dois metros do 4X4. Respiração suspensa, coração acelerado e olhos vidrados em cada passo do felino. A luz vermelha marca esses passos no meio da noite e quando cerca de 50 metros já nos separam de Ketumetsi, o veículo é ligado e nos movemos paralelamente a ele, cada vez mais distante. Mas mesmo na escuridão completa, incapaz de enxergar qualquer coisa além do veículo, os olhares dos passageiros continuam fixos ali, naquele horizonte onde um leão ainda caminha…
Vitória
No retorno para o lodge, a certeza absoluta: se esse era o jogo, eu ganhei.
O game lodge
Batizado com o nome de uma árvore nativa do sul do continente africano, o Ivory Tree abriu suas portas em 2004 e oferece 60 confortáveis chalés, para duas pessoas cada. O lodge é um dos quatro dentro da Reserva Natural Pilanesberg, dona de uma cadeia de montanhas e colinas não muito altas, resultado de erupções vulcânicas há 1,3 bilhão de anos. A reserva foi demarcada nos anos 80 e, desde então, teve início a introdução de animais no local.
Os dois safáris diários estão incluídos na diária do Ivory Tree, assim como as refeições – menos as bebidas. Menores de seis anos não participam dos safáris, mas há serviço de baby sitters. Com idade entre seis e 12 anos, é o ranger que decide se o pequeno pode ou não participar do safári.
Há alguns passeios alternativos. Visitar a aldeia vizinha ao lodge, por exemplo, dura até duas horas e custa 90 rands. Se a opção for ir até a vila em quadriciclos, o valor sobe para 350 rands a hora. Visitar o complexo de Sun City e seu cassino custa 175 rands (ida).
O que você precisa saber
Há vôos diretores entre São Paulo e a África do Sul pela South African Airways (SAA).
Hospedagem
Ivory Tree – www.ivorytreegamelodge.com




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