Volta ao tempo nas Aldeias do Xisto, em Portugal

Talasnal e a Serra da Lousã, no Centro de Portugal

Muitas palavras em Portugal podem causar estranheza aos ouvidos brasileiros, seja por possuírmos termos diferentes para os mesmos objetos, seja pela divergência de significados. Mas esse não é o caso aqui. Apesar de ser um tanto quanto inusitado, quando você lê no título “Aldeias do Xisto”, sim estou falando das rochas metamórficas. Literal que é, o português deu tal nome a esse tipo de vilarejo porque ele é construído absolutamente inteiro utilizando as rochas que são conhecidas pelo tom acastanhado.

Espalhadas pelo Centro de Portugal, atualmente 27 aldeias formam a “Rede de Aldeias do Xisto”. Como estão situadas no coração do país, a visita a um desses vilarejos é uma excelente opção para quem viaja de carro entre Lisboa e o Porto (ou vice-versa). Eu cito especificamente viagens de carro porque uma das características das Aldeias do Xisto é que elas estão instaladas em locais inóspitos, afastadas de grandes cidades da região e, não raro, no topo de áreas montanhosas.

Xisto em todos os detalhes

Antes de comentar a experiência de visitar uma Aldeia do Xisto, uma breve explicação do que são exatamente essas vilas. Eu começaria escrevendo “Em meados do século…”, mas não se sabe bem desde quando comunidades vivem nos locais que hoje conhecemos como Aldeias do Xisto. É sabido que romanos, bárbaros e árabes por lá estiveram e, dada a presença de gravuras rupestres (como na região de Zêzere), é possível aferir que haviam moradores até mesmo antes disso. O que é certo é que as Aldeias do Xisto se expandiram ao longo do período medieval, por estarem em meio a rotas comerciais, mas principalmente pela característica agrícola e pastoril das comunidades que ali viviam.

A abundância de xisto na região moldou a arquitetura das vilas, com rochas compondo os passeios, as escadas, os pátios e, obviamente, as grossas paredes que dão corpo às Aldeias. O projeto que sustenta a Rede de Aldeias do Xisto destaca a presença humana como o grande monumento desses vilarejos, “um elemento simbioticamente ligado ao território que o envolve e à comunidade que o sustenta”.

Tal presença, aliás, segue por lá. Apesar do abandono no meio do último século, atualmente as Aldeias do Xisto presenciam um movimento de retomada, com habitações passando por reformas e novos moradores escolhendo a rotina quase que monástica desses locais – para quem busca exatamente esse sossego, uma busca dessas regiões no Airbnb lista diversas opções de hospedagem em casas autênticas de xisto.

A manutenção do vilarejo é bem supervisionada

Aqui entra o relato da minha visita a uma Aldeia do Xisto. A escolhida foi a graciosa Talasnal, em meio a Serra da Lousã, mas falar somente do vilarejo é perder um tanto da experiência. Tudo começa muito antes de chegar a Talasnal, mais precisamente quando da entrada na estrada que leva até ela (estou sendo bem generoso chamando a via de estrada). Por cerca de 30 minutos, um caminho de duas mãos, com espaço para um veículo por vez, em subidas e descidas e extremamente sinuoso. Ao mesmo tempo, cenários incríveis que mesclam mata fechada com pinheiros altíssimos e encostas abertas com vista para as montanhas que abraçam a região. O que eu via desde a estrada já era muito exótico e bonito, e era uma introdução para o que estava por vir.

Ao chegar em Talasnal, a sensação é de volta no tempo. O cenário homogêneo e monocromático, de um repetido tom castanho-acinzentado, me engole conforme vou acessando as ruelas, uma mais estreita que a outra. A Aldeia vive, tem um comércio à disposição dos turistas (alguns que fazem a pé a trilha de 6 km que fiz de carro) e até senhores trabalhando em um tipo de reforma evidenciam isso. Cruza-se portas tapadas por trepadeiras, casas que há muito foram abandonadas. E da solidez do xisto que me cerca por todos os lados surge uma espécie de limite da Aldeia. As casas e ruelas que se amontoavam param em um pátio e dele se vê a vastidão de montanhas à frente de Talasnal.

Aldeias do Xisto se consolidaram durante o período medieval

Dos pés da Aldeia, com vista livre, é que se tem noção de quão afastada do resto do mundo está a comunidade. É desse mesmo ponto também que eu compreendo o resultado de tantas ruelas e tantas paredes levantadas em xisto. Não é preciso se afastar muito para conseguir visualizar Talasnal em sua totalidade (e exuberância), postada no alto da Serra da Lousã, com vista privilegiada daqueles que lá embaixo vivem uma outra realidade (ou que vivem em outro tempo).

Apesar do valor histórico, as Aldeias do Xisto não são museus, parques ou coisa parecida. São vilarejos reais e, por isso, não se cobra entrada para visitá-los. O site da Rede de Aldeias do Xisto reúne sugestões de rotas de visita e até trilhas para aqueles mais ativos. Além da Serra da Lousã, as Aldeias também estão espalhadas pelas regiões de Serra do Açor, Zêzere e Tejo-Ocreza, sempre na macrorregião de Centro de Portugal.

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12 milhões de passageiros: Porto bate recorde em 2018

Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto (Divulgação/ANA Vinci)

Os terminais do aeroporto do Porto movimentaram 11,94 milhões de pessoas em 2018. O número é recorde histórico para a segunda maior cidade de Portugal e é um dos indícios de que a Cidade Invicta viveu no ano passado sua temporada mais movimentada de todos os tempos (ou “de sempre” como costumam dizer os portugueses).

Durante todo o último verão estive no Porto e, como relatei aqui em alguns posts, era claro que a cidade estava bombando de gringos. Amigos locais ou que moram lá há muito tempo eram enfáticos ao dizer que nunca haviam visto o Porto cheio daquele jeito.

Números absolutos do Turismo da cidade ainda não foram divulgados, mas com esses dados publicados pela ANA/Vinci, gestora dos aeroportos portugueses, a expectativa de recorde é alta. De 2017 para 2018 foram registrados 1,15 milhões de passageiros a mais no aeroporto.

A alta no número de viajantes é a maior entre aeroportos portugueses, com 10,7% no comparativo ano a ano. Também é o crescimento mais forte de movimentações (aterrissagens e decolagens) no país, em 7,9%, ou 92 mil operações no ano.

A escala e a realidade não são as mesmas, mas acho válido o comparativo com o cenário do Brasil. Se fosse um aeroporto brasileiro, o Porto estaria atrás apenas de Guarulhos, Congonhas, Brasília e Galeão. Sua movimentação é maior que a de Confins, Viracopos e Santos Dumont.

O Porto colhe hoje os frutos de ações recentes em prol do Turismo. Dentre elas estão políticas de fomento à indústria de viagens (que englobam, mas não se limitam, à promoção); a abertura para novas abordagens e plataformas que dão corpo à infraestrutura local; e à aposta da iniciativa privada no projeto de desenvolvimento do destino.

Fica evidente que o Porto alcançou o primeiro (e mais difícil) passo da empreitada de uma cidade turística, que é a de ocupar espaço de destaque em vitrines, redes sociais e imaginários mundo afora.

Feito isso, a cidade agora terá que lidar com uma nova demanda por infraestrutura e, localmente, com uma população que nem sempre é afetada positivamente pela chegada de dinheiro estrangeiro. Mas essas são cenas de outros capítulos, outras postagens.

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Em Tomar, a janela mais famosa de Portugal

A Janela do Capítulo, no Convento de Cristo, em Tomar

Não é raro topar com países que possuem uma cidade como Tomar. Um lugar um tanto remoto, um tanto pequeno, mas que por um motivo ou outro tem o seu lugar cravado no imaginário de um povo. No caso de Tomar, essa imagem na cabeça do português muito provavelmente é a de uma janela.

Qualquer um em visita ao país logo percebe que portugueses apreciam uma boa conversa debruçados em batentes. De bairros tradicionais em cidades grandes a minúsculas aldeias, as notícias correm quando as venezianas se abrem. Mas não é de qualquer janela que falo.

Convento de Cristo

Há mais de 500 anos, uma janela em especial foi escolhida para colocar em rocha toda a ostentação que a megalomania de sua era foi capaz de desenvolver. Na fachada ocidental do Convento de Cristo, no ápice do estilo manuelino, está exibida a Janela do Capítulo (ou Janela Manuelina).

Encravados na parede estão temas caros à época, como as navegações e a igreja. É como se a imponente obra descrevesse os passos dos portugueses no período. Aos olhos do espectador, a janela encarna a liderança que Portugal assumia perante o mundo ocidental.

As diversas “fases” do complexo se permeiam

O passeio pelo Convento de Cristo, no entanto, não se resume à Janela do Capítulo. Complexo finalizado apenas no século 18, mais de 600 anos depois de seu início, a Igreja/Fortificação/Castelo retoma diversos momentos da história do país. Nele, períodos da trajetória de Portugal se aglomeram – por vezes fisicamente, com corredores tapando fachadas e escadas estranhamente beirando janelas.

O orgulho de Tomar, cidade de pouco mais de 40 mil habitantes no centro de Portugal, é hospedar esta que foi a sede da Ordem dos Templários, intimamente ligada aos primórdios da nação lusitana e com construção iniciada no século 12. Desde 1983 o local é tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco – tema que já foi abordado pelo Viajante 3.0 em outro momento.

A fachada ocidental, com a Janela Manuelina e seus dois contrafortes

A visita ao local é paga, com bilhetes a € 6 – residentes de Portugal têm entrada gratuita em domingos e feriados até as 14h. Há também uma trilha pelos muros do castelo que eu acho indispensável. Além de uma vista espetacular dos entornos de Tomar, há todo um clima medieval que só fortificações com tanto tempo e história são capazes de oferecer. De quebra, para quem estiver por lá no inverno, dá pra fazer um lanchinho com as laranjas que dão nos jardins do convento.

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Vista da muralha do Convento de Cristo

Entendendo o “encerrado para férias”

Antes de sair de férias, floricultura faz promoção para desafogar o estoque

Parece inconcebível para os que passam por Portugal em agosto que, em pleno verão, comércios troquem turnos duplos e casas cheias de turistas endinheirados pela tranquilidade de suas próprias férias. Agosto é o mês que escancara a maneira própria dos portugueses em gerir seus negócios, algo um pouco difícil de entrar na cabeça daquele brasileiro, digamos, mais capitalista.

Por aqui, muitos e muitos bares e restaurantes são geridos por famílias. Mesmo aqueles pontos mais tradicionais, que se tornaram clássicos ou “visitas obrigatórias”, não raro têm no comando até hoje os fundadores originais ou parentes próximos. É uma mistura de orgulho, zelo e desconfiança que impede que eles deixem seus negócios nas mãos de terceiros.

Ao mesmo tempo, como qualquer bom profissional que ralou durante o ano todo – e já enfrentou (e faturou) os movimentados meses de maio, junho e julho -, há de se reservar algumas janelas do calendário para o próprio descanso, que em geral acontece ao longo do mês de agosto.

Aí que surge o conflito. Há quem, racionalmente, com números e fórmulas, irá argumentar que é preciso se manter aberto o maior tempo possível na alta. Talvez até aumentar o horário de funcionamento e contratar temporários para maximizar os lucros da temporada.

Fui almoçar e…

No outro lado da argumentação, além do cansaço acumulado por tocar uma operação em ritmo frenético nestes cerca de quatro meses, trabalhar até o fim do verão significa ter para as férias pessoais o outono (que é lindo, mas…), um período menos convidativo, de dias cada vez mais curtos e temperaturas cada vez mais baixas.

Confesso que não foi fácil entender de cara essa opção pelas férias. Mas, pessoalmente, eu respeito muito essa escolha. Fechar seu estabelecimento no meio da alta temporada é tanto um reconhecimento aos funcionários que deram duro nos meses anteriores, quanto um recado a todos de que ali há pessoas que priorizam conforto e bem-estar ao invés de dinheiro.

Dei como exemplo bares e restaurantes, mas isso acontece de uma forma meio que geral pelos mais variados tipos de serviços. Fecham-se papelarias, drogarias e floriculturas (como a da foto). É difícil encontrar dentistas ou advogados atendendo, por exemplo.

Enfim, pode ser bem frustrante dar de cara com a porta fechada e um recado comunicando a data de retorno, mas eu não vou julgar aquele que só quer tirar um tempo para descansar e estar com os seus.

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Os 14 patrimônios culturais da Unesco em Portugal

Os patrimônios naturais e culturais da Unesco nasceram para atestar a importância e a relevância de determinados locais e, sobretudo, para garantir sua longevidade por meio de ações de conservação. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura colocou em prática essa ideia na década de 1970 e, desde então, mais de mil áreas, em 167 países, entraram na lista.

Além do evidente ganho em preservação, entrar no grupo da Unesco também faz com que essas regiões façam uso de uma vitrine capaz, por si só, de alavancar o Turismo e atrair um público que até então desconhecia certos destinos. A cidade de Elvas é um exemplo. Listada em 2012 por hospedar uma fortaleza do século 17, em pouco mais de cinco anos a região viu o fluxo turístico local crescer 300%.

Espalhados por todos os continentes, a maior concentração de patrimônios está na Europa. Aqui em Portugal não é difícil topar com a plaquinha que identifica áreas tombadas como patrimônio pela Unesco. Por ter cruzado com algumas nos últimos meses, resolvi listar todas as 14 áreas identificadas pela entidade no país. Confira a lista abaixo (entre parênteses, o ano em que as regiões foram tombadas pela Unesco):

(Turismo Açores)

Angra do Heroísmo (1983)
No distante arquipélago dos Açores, região autônoma portuguesa no meio do Oceano Atlântico, está a cidade de Angra do Heroísmo. Parada estratégica durante as expedições ultramarinas, a cidade se desenvolveu desde o século 16. A importância de seu centro histórico e das fortificações militares fizeram de Angra do Heroísmo uma das primeiras cidades portuguesas a integrar a lista da Unesco.

(Flickr/Oscar Cuadrado Martinez)

Convento de Cristo, Tomar (1983)
O complexo do Convento de Cristo, em Tomar, é um dos maiores exemplares de construção religiosa da Europa. Com obras entre os séculos 12 e 18, o convento reúne elementos arquitetônicos românicos, góticos, manuelinos, renascentistas, maneiristas e barrocos. Um dos destaques da construção é a charola, inicialmente um oratório privativo, com o tempo o espaço se tornou a capela-mor do Convento de Cristo.

(Flickr/Pedro Caetano)

Mosteiro da Batalha (1983)
Em 1385 a Batalha de Aljubarrota definiu a vitória definitiva dos portugueses sobre os castelhanos. Para celebrar o feito e em agradecimento à Virgem Maria, o vitorioso rei D. João I mandou construir o Mosteiro da Batalha – que só foi finalizado quase dois séculos depois. A marcante presença do estilo manuelino, com traços do gótico final europeu, é a credencial para que o Mosteiro figure na lista da Unesco.

(Visit Lisboa)

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém (1983)
Talvez o Patrimônio Cultural mais visitado pelos brasileiros em Portugal, o Complexo de Belém se divide entre a Torre, nas margens do Tejo, e o Mosteiro dos Jerónimos. Ambos datados do século 16, as edificações construídas na dinastia de Avis são uma mostra do poder de Portugal durante a Era das Descobertas: a Torre, pelo caráter defensivo; os Jerónimos, pela pomposidade da construção.

(Flickr/François Philipp)

Centro Histórico de Évora (1986)
Évora, no Alentejo, já foi a segunda cidade mais importante de Portugal. Era o século 15 e os reis desses tempos costumavam passar períodos na região, motivo pelo qual a cidade ganhou construções históricas como os conventos de Santa Clara e dos Lóios ou o Palácio de D. Manuel. Uma cidade-museu, Évora também guarda memórias de um passado longínquo, da presença dos Mouros (rua da Mouraria) e dos romanos (Templo Romano), por exemplo.

(Flickr/Angel de los Rios)

Mosteiro de Alcobaça (1989)
Em 1153 foi fundada a Abadia de Santa Maria de Alcobaça, que 20 anos mais tarde iniciou as construções de seu mosteiro. Por muito tempo a cidade no Centro de Portugal foi uma das poucas no país a hospedar um templo de arquitetura genuinamente gótica. Ficam lá os túmulos de D. Pedro I e Inês de Castro, amor proibido retratado por Camões nas páginas de Os Lusíadas.

(Visit Lisboa)

Sintra (1995)
Refúgio da aristocracia portuguesa e de ricos estrangeiros no século 19, Sintra se desenvolveu como um dos centros da arquitetura romântica na Europa. Lá estão obras tocadas pela realeza lusitana, como o Palácio Nacional de Sintra e o Palácio Nacional da Pena, mas também construções de moradores abastados, como o Palácio de Monserrate e a Quinta da Regaleira. A singularidade e a conservação dos palácios foram alguns dos motivos para que a cidade entrasse na lista da Unesco.

Centro Histórico do Porto (1996)
A Ribeira, a Ponte Luís I e o Mosteiro da Serra do Pilar compõem, juntos, o famoso cenário das tantas fotografias tiradas pelos turistas que visitam o Porto. O coração da segunda maior cidade de Portugal é tombado pela Unesco por ser a representação física, com seus prédios e construções históricas, do desenvolvimento ocasionado pela herança comercial da região.

(Flickr/Nmmacedo)

Vale do Côa e Siega Verde (1998, 2010)
Único parque arqueológico na lista portuguesa, o Vale do Côa (listado pela Unesco em 1998) e a jazida de Siega Verde (2010) ficam localizados no Norte de Portugal, próximos da fronteira leste com a Espanha. Representante do passado pré-histórico da região, foram encontrados no vale gravuras em pedra datadas do Paleolítico Superior (22 mil a 10 mil anos a.C.).

Alto Douro (2001)
Apesar do nome, a produção do vinho do Porto nunca foi feita nesta cidade. As uvas são cultivadas e o vinho processado a mais de 100 quilômetros dali, no vale do rio Douro, ou Alto Douro. As montanhas talhadas por quase dois mil anos de produção vinícola criam um cenário único, assim como é única no mundo a produção do vinho fortificado da região.

(Guimarães Turismo)

Centro Histórico de Guimarães (2001)
“Portugal nasceu aqui” é uma frase comumente ouvida em Guimarães. Não é exagero dizer que a identidade e a língua portuguesa nasceram na cidade do Norte, primeira capital do país, no século 12. O bem conservado centro histórico de Guimarães, com edificações originais que datam desde o século 10, mostra a relevância que a cidade teve em diferentes momentos da história portuguesa.

(Turismo Açores/M Rocha)

Ilha do Pico (2004)
O português é alguém intimamente ligado ao vinho. Para onde fosse o levaria e a Ilha do Pico, segunda maior do arquipélago dos Açores, é prova disso. Lá a cultura foi implementada desde o século 15 e existe até hoje. As características únicas das vinhas centenárias, que exigiam cuidados específicos como a proteção contra a água do mar, colocaram a cidade na lista da Unesco.

(Flickr/Oscar Cuadrado Martinez)

Fortaleza de Elvas (2012)
Diante de séculos de invasões mouras e muçulmanas, a estratégica cidade de Elvas, no interior de Portugal, foi ganhando importância militar com as Guerras de Reconquista. A necessidade de se defender foi traduzida na construção da maior fortificação em estrela da Europa. O complexo, que contém castelo, praça-forte, fortes, aqueduto e muralhas, é exemplar único de seu tipo no continente.

(Turismo do Centro)

Universidade de Coimbra (2013)
Os mais de 700 anos de história fazem da Universidade de Coimbra uma das mais antigas instituições de ensino superior europeias ainda em operação. Além da importância histórica e a relevância atual (são 25 mil estudantes), o complexo possui construções notáveis, como o Paço das Escolas, a Biblioteca Joanina e o Jardim Botânico.

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Os termômetros chegaram a 40 graus na Europa

Praia de Matosinhos, em Portugal (Flickr/alopzm)

Quem não lembra das notícias sobre a série de altas temperaturas que dominou o verão europeu no ano passado? Em 2017, Portugal sofreu muito com o calor, seja no desconforto para a população (e visitantes), seja nos devastadores incêndios em áreas florestais. O que parecia ser ato isolado, “temperaturas mais altas dos últimos anos” ou acidente de percurso, ganhou uma incômoda sequência neste 2018.

Essa introdução toda para dizer que está um calor quase que insuportável por aqui. A onda chegou de vez na Europa e, em um primeiro momento, mostra que será tão extrema quanto a anterior. Aqui no norte de Portugal a situação é até mais “amena”, com termômetros chegando aos 35 graus, mas não indo além disso.

Temperaturas em Portugal nesta sexta-feira, 3 (Reprodução/O Tempo.pt)

Mais ao sul do país a situação piora. A máxima de hoje para Lisboa é de surreais 42 graus, com a manutenção das temperaturas acima dos 40 graus por todo o final de semana. Nas regiões vizinhas de Ribatejo, Alto Alentejo e Baixo Alentejo, os termômetros podem marcar até 43 graus!

O mesmo acontece na Espanha, com altas por todo o país. O Norte, assim como em Portugal, está um pouco menos severo. Em Zaragoza, por exemplo, termômetros marcam 38 graus. Na região central, a capital Madri enfrenta 41 graus, enquanto que no sul, de Sevilha, as temperaturas estão em 42 graus.

Todo o noticiário local tem focado nas temperaturas extremas, divulgando focos de incêndios controlados (ou não) ou repetindo os alertas de segurança passados pelas autoridades. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) declarou que o país está e irá se manter pelos próximos dias em alerta vermelho, o mais grave da escala.

Além dos possíveis focos de incêndio, a preocupação do órgão é com o risco elevado de exposição à radiação ultravioleta (UV). Por isso, a recomendação é de que a população utilize óculos de sol, chapéu, camisetas, guarda-sol e protetor solar.

Se você está a caminho da Europa, principalmente Portugal e Espanha, se prepare. A massa de ar seco e quente proveniente do Norte da África, razão pela qual as temperaturas estão tão extremas, deve se manter pelo continente por mais alguns dias. Se proteja do calor, bebam muita água, procure atividades internas (como museus) e deixe para caminhar a céu aberto quando o sol estiver mais baixo (por volta das 20h/21h).

Para aqueles que viajam por esses países de carro, não deixem de checar o portal fogos.pt. O site mostra em tempo real a situação em áreas de risco de incêndio, que podem fechar estradas ou ameaçar regiões povoadas.

Caso esteja pela região, deixe nos comentários os seus relatos de como têm enfrentado esse calor. Acompanhe a jornada do Viajante 3.0 pela blogosfera da PANROTAS e também pela conta no Instagram.

10 Festas Populares para conhecer melhor Portugal (parte II)

Como prometido, aqui está a segunda parte da lista de festas populares portuguesas que eu criei para o Viajante 3.0. No primeiro post, que você pode acessar neste link, apresentei celebrações como o São João (Porto), Sebastianas (Freamunde), Feiras Novas (Ponte de Lima), Festa dos Tabuleiros (Tomar) e Festa dos Remédios (Lamego).

Em homenagem a entidades religiosas diversas, essas comemorações têm entre si pelo menos uma coisa em comum: todas representam a data (ou uma das datas) mais importantes para estes locais. Participar de festas populares em Portugal significa estar presente no melhor dia do ano para uma grande parte da população, seja pelo viés religioso, seja pelo profano.

Abaixo apresento cinco outras celebrações que completam essa lista, escolhidas a dedo para que o leitor possa se programar e conhecer a fundo a mais autêntica experiência portuguesa.

Os desfiles na Av Liberdade são um dos pontos altos da festa de Santo António (Facebook/Visit Lisboa)

Santo António (Lisboa)

Junho é sinônimo de festa em Lisboa e a capital portuguesa não poderia ficar de fora. Santo António é o homenageado e as comemorações se espalham pelos cantos da cidade do primeiro ao último dia do mês. Em 12 de junho, no entanto, é quando a cidade realmente para em nome do santo.

A Avenida da Liberdade vira passarela para o desfile das marchas populares, cada uma representando uma área da capital. Todos coloridos, bairros tradicionais se enfeitam com luzes, guirlandas e balões, seja na Alfama, em Bairro Alto, Ajuda, Graça ou Mouraria.

Nestes locais, aliás, palcos são montados para a realização dos divertidíssimos arraiais e bailaricos – todos regados a muita cerveja e, é claro, acompanhado de sardinhas na brasa. A parte religiosa novamente está presente, com procissões nas cercanias da Sé no dia seguinte (13).

Jovens reunidos durante o Pinheiro, uma das etapas das Nicolinas (Divulgação/Município de Guimarães)

Nicolinas (Guimarães)

Fugindo ao padrão das comemorações que se aglomeram no verão europeu, as Nicolinas são festas estudantis realizadas entre 29 de novembro e 7 de dezembro, em Guimarães. Como o nome indica, o homenageado da vez é São Nicolau de Mira, padroeiro dos estudantes.

Os nove dias de festa são divididos por temas e formas de celebrar diferentes: Pinheiro e Ceias Nicolinas; Novenas; Posses e Magusto; Pregão; Maçãzinhas; Danças de São Nicolau; Baile Nicolino; e Roubalheira.

Destas, destaco três datas. O Pinheiro, dia em que os estudantes saem para jantar e no fim da noite entoam cânticos pelas ruas de Guimarães. A roubalheira, madrugada em que estudantes vão às ruas para zombar comércios, trocando placas de lugar ou tomando pertences esquecidos ao léu. E as Maçãzinhas, quando estudantes mulheres se postam em janelas e varandas para ouvir as serenatas românticas e ganhar pequenas maçãs de seus pares.

Os assustadores Caretos das Festas dos Rapazes (Flickr/Visit Porto and North/Associação Grupo de Caretos de Podence)

Festas dos Rapazes (Trás-os-Montes)

Os últimos dias do ano em Trás-os-Montes são reservados para um importante rito local. Entre Natal e Dia de Reis, os jovens da região do extremo nordeste de Portugal se vestem de forma peculiar (e, de certa forma, assustadora) para marcar a passagem para a vida adulta.

Originalmente pagã, celebrada no solstício de inverno, a festa secular foi apropriada pela igreja e hoje homenageia Santo Estevão. Nela, os garotos da cidade se vestem de Caretos, personagem que assusta os presentes com sua máscara rudimentar e roupas coloridas em verde, vermelho e amarelo.

Para marcar o momento, os rapazes vão às ruas para brincar, provocar e assustar os presentes. Muito celebrada no distrito de Bragança, a festa está espalhada por toda região de Trás-os-Montes. Por isso, vale pesquisar pequenas cidades da área e suas respectivas datas de desfiles.

De cima de carros, pétalas são atiradas no público durante a divertida Batalha das Flores, na Festa das Cruzes (Flickr/Município de Barcelos)

Festa das Cruzes (Barcelos)

Se não há santo a ser celebrado, não tem problema. Em Portugal, dá-se um jeito para comemorar. Em Barcelos, a misteriosa aparição de uma cruz negra no campo, em 1504, foi motivo para a criação de um mito que alcançou devoção e, posteriormente, ganhou sua própria festa.

A Festa das Cruzes é a “mais famosa e mais conhecida das festas minhotas” (da região do Minho), como se gabam os locais. As datas de início e término das comemorações variam de ano a ano, mas em 2018, nos primeiros minutos de 25 de abril (data que tem grande valor simbólico para Portugal), uma Salva de Morteiros marcou o início das festividades.

A programação dura até 6 de maio, cheia de cerimônias oficiais e religiosas, com missas e a Grandiosa Procissão da Invenção da Santa Cruz. O templo do Senhor das Cruzes, com seus tapetes de pétalas naturais, é visita indispensável.  Também são realizados concertos, espetáculos, arraiais e, claro, shows pirotécnicos.

A imagem da Mãe Soberana, durante procissão da Festa Grande (Divulgação/Munícipio de Loulé)

Mãe Soberana (Loulé)

Tratada por Mãe Soberana durante sua comemoração anual, a festa em homenagem a Nossa Senhora da Piedade é “a maior manifestação religiosa a Sul de Fátima”. O concelho de Loulé, no Algarve, hospeda o santuário que recebe romeiros de todo o Portugal para a celebração, que acontece no domingo de Páscoa.

Como na criação de expectativa para um ápice final, a Mãe Soberana se divide entre a Festa Pequena e a Festa Grande. De início, nesta primeira parte, a imagem da Nossa Senhora desce de seu posto no santuário, participa de uma marcha com a Filarmónica de Minerva e ruma então para a Igreja de São Francisco – onde, por 15 dias, é acompanhada de novenas e sermões.

Após essa quinzena, chega o dia da Festa Grande. Uma missa é celebrada pelo Bispo do Algarve, em Faro, e assim a imagem está pronta para retornar à casa, em nova procissão que termina com a subida da Nossa Senhora a seu posto no santuário.

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10 Festas Populares para conhecer melhor Portugal (parte I)

Mês passado o Porto parou para comemorar o Dia de São João, de longe o feriado mais importante do ano na cidade. A minha visão dessa festa vocês puderam ler neste post aqui. Eu gostei tanto dessa coisa de farrear na rua que resolvi me aprofundar no tema, já que em cada rincão de Portugal as cidades possuem seus próprios santos e padroeiros a serem homenageados.

Fui então celebrar a festa de Freamunde, a 50 quilômetros do Porto. Assim como no Rio de Janeiro, São Sebastião é o padroeiro da pequena cidade do concelho de Paços de Ferreira, onde entre 5 e 10 de julho são comemoradas as Sebastianas – por conta do inverno, a data é empurrada para julho, ignorando o habitual 20 de janeiro.

Essa experiência foi incrível por me mostrar o quão importante são essas reuniões populares por aqui, independentemente do tamanho da cidade. Era nítido que as pessoas haviam passado o ano esperando para brincar sua festa favorita, fosse no Porto, a grande cidade, fosse em Freamunde, a terrinha de menos de 10 mil habitantes.

Por isso resolvi pesquisar outras festas e lugares para visitar em Portugal durante o verão, período em que as comemorações explodem em cada canto do país. Neste post, dividido em duas partes, eu listo as 10 festas populares portuguesas que você não pode deixar de fora do seu calendário:

Os famosos bailaricos de São João, que embalam os portuenses até a madrugada

São João (Porto)

Tá bem, eu sei que eu tenho um post inteiro só sobre o São João no Porto, mas eu me recuso a fazer uma lista como esta e não incluir a festa que participei somente uma vez e já sou grande fã.

Martelos de borracha em mãos, sardinhas na grelha, cerveja no copo e todos na rua. É assim que o Porto vive o dia 23 e, principalmente, a virada para o dia 24 de junho, dia de São João (que, aliás, não é o padroeiro oficial do Porto). As festas se espalham pelas freguesias da cidade e as pessoas saltam de bairro em bairro, como em uma via sacra, para comemorar. O ápice do São João ocorre à meia noite, quando todos se aproximam da margem do Douro para apreciar um incrível show de fogos de artifício.

As famosas vacas de fogo de Freamunde (Divulgação/Associação Sebastianas Freamunde)

Sebastianas (Freamunde)

Diferentemente das grandes festas do país, que têm reuniões espalhadas por toda a cidade, as Sebastianas acontecem em local determinado, no centro de Freamunde, durante o segundo final de semana de julho.

Está lá todo o arsenal de entretenimento português para festas populares. Isso inclui comidas salgadas e doces, muita cerveja e vinho, divertimentos (brinquedos temáticos) e shows.

O viés religioso da festa ocorre durante o dia, em procissões. Mas é de noite que a grande marca das Sebastianas acontece, com uma ensurdecedora queima de fogos de artifício e as tradicionais “vacas de fogo” – que envolve uma pessoa carregar nas costas um barril cortado ao meio (a vaca) que dispara foguetes a todo lado para a diversão (e temor) dos presentes.

A tradicional corrida de garranos, em Ponte de Lima (Flickr/Rui Pedro Costa)

Feiras Novas (Ponte de Lima)

No extremo norte de Portugal, perto da divisa com a Espanha, uma ponte corta o rio Lima. Literais que são, os portugueses fundaram ali a cidade de Ponte de Lima (quase 900 anos atrás!). Essa é a terra das Feiras Novas, que acontecem todo segundo final de semana de setembro.

Com quase 200 anos de história, a celebração em homenagem a Nossa Senhora das Dores surgiu de um decreto de Dom Pedro IV (que no Brasil é o nosso Dom Pedro I). A festa se volta para a cultura popular de Portugal, por isso música e folclore são pontos altos das Feiras Novas.

Como é praxe, também há show de fogos de artifício, além de concursos pecuários, corrida de garranos (uma raça portuguesa de cavalos), cortejos, grupos de bombos (tambores tradicionais) e os familiares gigantones e cabeçudos, que para o olhar brasileiro carregam grandes semelhanças com os bonecos de Olinda.

Flores e pães ornamentam os tabuleiros de Tomar (Flickr/Jaime Silva)

Festa dos Tabuleiros (Tomar)

Assim como a Copa do Mundo, a Festa dos Tabuleiros também é realizada de quatro em quatro anos. Por conta disso, a expectativa para cada edição é enorme conforme se aproxima o ano de desfilar pelas ruas da cidade do Centro de Portugal. Para a sorte do leitor que está programando férias futuras, a próxima Festa dos Tabuleiros ocorre já em 2019.

No ano que vem, de 29 de junho a 8 de julho, Tomar estará colorida pelo povo carregando seus tradicionais tabuleiros. Sobre suas cabeças, as mulheres caminham com uma espécie de pilar adornado com flores, pães e espigas, algo que dizem ser uma lembrança das antigas festas das colheitas. Ao seu lado acompanham homens, trajados com roupas tradicionais.

Durante os dez dias de celebrações, diversos cortejos preenchem as ruas da cidade, que por conta da festa se fecham para veículos. Nestes desfiles se destacam o Cortejo dos Rapazes (para os pequenos das escolas locais), Cortejo do Mordomo (a entrada na cidade dos bois de sacrifício – que não mais são sacrificados, que fique claro) e o Grande Cortejo (no domingo final).

Na véspera do Grande Cortejo, os participantes se encontram no estádio municipal de Tomar para os Jogos Populares Tradicionais, que consistem em disputas de corrida de bilhas e pipas, tração de cordas (cabo de guerra), subida de pau ensebada e chinquilho (uma espécie de bocha com discos).

Lugar de destaque para Nossa Senhora dos Remédios, na Procissão do Triunfo, em Lamego (Divulgação/A Romaria de Portugal)

Festa dos Remédios (Lamego)

É preciso muita confiança de que sua festa é boa para chamá-la de “A Romaria de Portugal”. As festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, são assim conhecidas pela população local, que divulga esta ser “uma das mais grandiosas do país, na qual os rituais religiosos e profanos se misturam numa harmonia perfeita”.

Pois bem, aí está o resumo. As caminhadas religiosas têm papel fundamental, como no ápice das celebrações: a Procissão do Triunfo (8 de setembro), quando imagens sagradas são puxadas por carros de boi.

O outro lado da comemoração conta com uma programação de shows e desfiles, como a Marcha Luminosa e a Batalha das Flores. Neste ano, a festa de Nossa Senhora dos Remédios acontece entre 23 de agosto e 9 de setembro. Lamego, para quem não sabe, é uma cidadezinha do Norte de Portugal, não muito distante do Porto e bem próximo do curso do rio Douro.

Estas foram as primeiras cinco festas populares portuguesas que resolvi destacar. Como o post ficaria muito longo com todas as celebrações que pesquisei, acabei por dividi-lo em duas partes. Fique ligado no blog para a próxima postagem!

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Mimo, um jeito brasileiro de fazer música na Europa

Público em peso para o show do Baiana System no Mimo Festival 2018

Originalmente pernambucano, orgulhoso olindense por nascimento, o Mimo Festival ganhou o Brasil desde sua estreia, há 15 anos. Batucou também por Recife, João Pessoa, Ouro Preto, Tiradentes, Paraty e Rio de Janeiro antes de desembarcar em terras portuguesas, em 2016.

Escolheu como sede a extremamente aconchegante Amarante, a nordeste do Porto. Sua terceira edição aconteceu neste final de semana e com um line up incrível (e, importante, gratuito), foi impossível dizer não para essa viagem de apenas 45 minutos de ônibus (Rodonorte, € 8 por trecho).

Rio Tâmega visto da área em que parte do público acampou

Amarante por si só já é um baita destino turístico, principalmente pelo centro histórico, pelas construções medievais, pelas igrejas barrocas e pelo Mosteiro de São Gonçalo, que tem uma igreja em que a visita é tida como obrigatória. A calma que a cidade transpassa, refletida nas águas do rio Tâmega e no ritmo interiorano do amarantino também valem o destaque.

É neste cenário em que se encontra o Mimo e seus três dias de intensa programação, com apresentações musicais toda noite e dias compostos por tantas outras atividades, como uma mostra de cinema (com 13 filmes nesta edição), fórum de ideias, poesia, oficinas, workshops e exposições.

Como muitos fazem, acampar na própria cidade de Amarante foi a minha escolha. O Parque de Campismo de Penedo da Rainha é o único camping local (€ 10 por dia) e tem uma estrutura exemplar, com restaurante, bons banheiros e chuveiros, além de acesso direto a uma área remota do rio Tâmega. O único porém é a caminhada de 30 minutos para o palco do Mimo, o que pode ser estafante ao final dos shows, lá pelas 3h da madrugada.

No camping de Penedo da Rainha, acesso direto ao rio

Muita gente também acampa em áreas abertas da cidade, às margens do Tâmega e mais próximos do centro. Para os dias do festival as autoridades locais fazem vista grossa e permitem a estada. Apesar da falta de estrutura que o camping proporcionaria, o lugar privilegiado e o clima de segurança que a pacata Amarante oferece validam essa possibilidade de alojamento. Hotéis, hostels e o bate e volta desde o Porto são outras opções.

Apesar de totalmente gratuito, o Mimo possui estrutura que não perde em nada para os grandes e caros festivais da alta temporada. Isso é sentido na grande oferta gastronômica, com food trucks de todos os tipos, nos banheiros quase sempre sem fila e num sistema de som respeitável.

Como minha presença em Amarante foi especificamente voltada à música, é também de música que falo neste texto. O cartaz do festival prioriza artistas que cantam em língua portuguesa, com representantes em 2018 de Brasil, Portugal e Moçambique, mas não exclui participantes de outros locais, como China, Mauritânia, Israel e Estados Unidos, por exemplo.

Dona Onete, rainha

O Brasil foi destaque na primeira noite do festival, com as apresentações marcantes da entidade paraense Dona Onete e seu delicioso carimbó, seguida pelo frenético batuque eletrônico do Baiana System. Compartilharam o palco neste dia, mantendo alto o nível das exibições, os moçambicanos do Timbila Muzimba e os portugueses do Dead Combo.

No dia seguinte, passaram pelo Mimo os brasileiros Almério e Otto, além do veterano e favorito dos portugueses Rui Veloso. Quem encheu os meus olhos, no entanto, com a proposta de mescla entre rock, pop e a música tradicional de seu país, a Mauritânia, foi Noura Mint Seymali.

O encerramento do festival foi em grande estilo. Havia muita expectativa sobre o concerto do bósnio (ou iugoslavo, como prefere se definir) Goran Bregović. O músico confirmou o porquê da excitação em torno de seu nome e fez um show que, de fato, mexeu com os presentes. Música pulsante, instrumentos em sintonia e vocais riquíssimos fizeram da apresentação uma das minhas favoritas de todo o festival – acabando com a deliciosa versão de Bregović da aclamada Bella Ciao.

Pôr do sol em Amarante

O Festival Mimo volta no ano que vem e já possui datas confirmadas. Ao longo do ano a programação será divulgada, mas é certo que em 26, 27 e 28 de julho de 2019 boa música estará mais uma vez tocando em Amarante. Para dar um gostinho do que foram esses três dias de shows, dá uma olhada no vídeo oficial do Mimo 2018.

Se o texto ainda não te convenceu, eu escrevo aqui sobre o quão rico de atividades como o Mimo são os verões na Europa. Não deixe de dar uma olhada em posts passados e acompanhe a jornada do Viajante 3.0 pela blogosfera da PANROTAS e também pela conta no Instagram.

O mapa da confeitaria portuguesa (parte II)

[clique no mapa para ampliar a imagem]
Como escrevi no post passado, a confeitaria conventual é um dos grandes símbolos da cultura portuguesa. Em qualquer tasca, bar ou restaurante que você for, independente da região em que esteja, certamente terá lá alguma receita envolvendo não muito mais do que açúcar e gemas de ovos.

A variação de doces portugueses é imensa e, como a ideia era produzir um mapa dessas criações, ficaria um tanto quanto difícil visualizá-las no enxuto território de Portugal. Ao todo, escolhi 12 receitas que têm ligação a um local específico, espalhados de Norte ao Sul do país.

Na Parte I do post, falei sobre os seis primeiros doces desta lista: Tigelada (da cidade de Abrantes), Pastel de Natal (Lisboa), Ovos Moles (Aveiro), Clarinha de Fão (Esposende), Pastel de Feijão (Torres Vedras) e Brisa do Lis (Leiria). Nesta Parte II, completo com a descrição de outras seis iguarias, tão gostosas ou mais do que as já citadas anteriormente.

Também não custa nada explicar novamente um pouquinho da confeitaria conventual portuguesa. “Conventual” porque, oras, muitos dos doces nasceram nas centenas de conventos e mosteiros da catolicíssima Portugal. E gema de ovos como base das receitas por conta do uso das claras como engomador dos hábitos religiosos. Para não desperdiçar as gemas que sobravam, a cozinha foi o destino.

Pão de Ló (Alfeizerão)

Pão de Ló é coisa séria em Portugal, mesmo. Existe até a Confraria Gastronómica do Pão de Ló Tradicional. São diversas as variações do bolo e uma das mais famosas é a de Alfeizerão, cidade situada em Alcobaça. A receita, como rege a Confraria, se resume a farinha, açúcar e ovos. No de Alfeizerão, a cozedura específica do bolo garante um interior espesso e cremoso.

Travesseiro de Sintra (Sintra)

Sintra foi por muito tempo destino de veraneio da corte e da aristocracia portuguesa. Não é porque tinham na cidade um lugar para dormir que foi dado ao doce o nome de Travesseiro. Obra de uma tradicional confeitaria local, a Piriquita, é o formato de almofada que batiza o bolinho. Segredos da receita são mantidos na família até hoje – é sabido, pelo menos, que ela envolve massa de pastel, doce de ovos e um “toque amendoado”.

Queijada de Évora (Évora)

Apesar do nome dar crédito a Évora, a mais tradicional das Queijadas é na verdade um símbolo da região do Alentejo como um todo – da qual Évora se destaca como maior cidade. Foi lá que ganhou fama nacional a Queijada, pequena torta feita com ovos, açúcar, leite e queijo. Seguindo a tradição, para ser considerado uma verdadeira Queijada de Évora, o queijo utilizado deve ser fresco e de ovelha.

Sardinhas Doces de Trancoso (Trancoso)

Distante mais de 100 km do litoral, uma das iguarias mais famosas da pequena Trancoso é ironicamente a sardinha. Nascido no Convento de Santa Clara, o doce é uma raridade portuguesa apenas pelo fato de levar na receita, além do usual açúcar e gema de ovo, o chocolate. O recheio ainda é acompanhado de canela e amêndoa, que garantem um amargor que é, juntamente do formato de sardinha, a assinatura da obra.

Rebuçados de Ovos (Portalegre)

Achou que era bala de coco? Achou errado…Os Rebuçados de Portalegre, cidade do Alto Alentejo, são o exemplo perfeito da confeitaria conventual: açúcar e gemas, nada mais. Três dias de manuseio dos ingredientes em tacho de cobre resultam nesta bolinha dourada com miolo úmido. Os Rebuçados são finalizados com uma fina e quebradiça camada de açúcar caramelizado e, por fim, embalados em papel de seda.

Dom Rodrigo (Lagos)

O fio de ovos turbinado com canela e amêndoas não é criação de algum Dom Rodrigo da história portuguesa. Na verdade, quem desenvolveu a receita foram as freiras carmelitas de Lagos em homenagem a Don Rodrigo, fidalgo que auxiliou no socorro de vítimas do grande terremoto de Lisboa (1755). O doce ganhou a região e é tradicionalmente apresentado envolto em papel metálico de diferentes cores.

Se perdeu a primeira parte do mapa da confeitaria conventual portuguesa, clique aqui. Também vale dar uma olhada nas últimas postagens e seguir o Viajante 3.0 pelo Instagram.