O SENHOR QUER UM TÁXI?

Com esta pergunta gentil, os recepcionistas de quase todos os hotéis de São Paulo, dirigem-se aos hóspedes tão logo concluem o checkout.

Digo de São Paulo, pois hospedo-me em Sampa pelo menos 5 a 10 noites por mês, o que acabou por tornar-me um crítico dos serviços de hospedagem desta que é nossa cidade mais cosmopolita, moderna e corporativa.

Ao hóspede distraído (e 80% deles o são), que responde agradecido que “sim, quero um taxi”, o recepcionista, invariavelmente, chama um senhorzinho, que fica sentado na sombra aguardando este momento psicológico ideal, para dirigir-se, célere e lépido, ao seu carro, estrategicamente estacionado na entrada do hotel.

São os chamados “táxis especiais” ou “táxis de luxo”, como insistem em chamar os recepcionistas dos hotéis, embora as duas únicas coisas que os diferem dos táxis comuns são a cor da pintura e a tarifa mais alta…

O interessante é o que os motiva a não informar o hóspede sobre o carater “luxuoso” do carro (geralmente um Polo ou um Astra!) é uma diferença de R$ 3,00 na propina que o taxista “especial” entrega ao recepcionista do hotel, sem o menor constrangimento, na frente do hóspede:

Táxi comum: R$ 2,00
Táxi de “luxo”: R$ 5,00

Por conta desses R$ 3,00 a mais na propina, o hóspede paga uma corrida 50% mais alta.

Chamo de propina (e não de gorjeta), pois ocorre entre dois fornecedores, sem a anuência do cliente, para acesso a um serviço que, em última análise, é oferecido pelo hotel como um diferencial, uma cortesia.

Como prefiro eu mesmo estabelecer se um serviço é merecedor de uma gratificação ou gorjeta e, em especial, qual deve ser o valor dessa gorjeta, esse tipo de procedimento que ocorre na portaria dos hotéis me desagrada como cliente.

E ainda fico imaginando como será esse “procedimento” e como estará esta “tabela” por ocasião da Copa do Mundo…

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MONSTRO

6,52% é a nova expectativa da inflação anual, acima da meta do Banco Central, que é de “apenas” 6,5%.

A última vez que a inflação anual superou efetivamente a meta, foi em 2003, e se o fato voltará a ocorrer, somente poderá ser confirmado no fechamento do ano.

Acho muito difícil que o Banco Central consiga, com medidas ortodoxas, segurar o dragão, justamente nos últimos 3 meses do ano, considerando:

– o aquecimento anormal da economia brasileira, ainda sem demonstrar os sinais de impacto provocados pela crise mundial.

– a pressão sobre os preços gerada pelo incremento usual das compras nos últimos 3 meses do ano, com dia das crianças, feriados, férias, Natal e reveillon.

– o aumento nos preços da indústria automotiva, provocado por um mal explicado incremento no IPI dos veículos importados, que servirá tão somente para beneficiar as montadoras multinacionais instaladas no país, agora com uma folga extra de ineficiência de 30%.

Em respeito à minha estranha mania de tentar antecipar tendências, preocupa-me o recrudescimento da espiral inflacionária, temor típico de quem viveu a hiperinflação e suas terríveis consequências econômicas e sociais.

Quem nasceu antes de 1980, sabe o que digo…

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INCRÍVEL INOVAÇÃO

Ontem à noite, na pizzaria do Bráz da Barra da Tijuca (sim, temos Bráz no Rio de Janeiro), ouvi que “o Facebook anunciou hoje diversas novidades para enfrentar o Google+”.

Zuckerberg, que estaria tentando reproduzir o estilo despojado do prematuramente aposentado Steve Jobs, anunciou, entre outras novidades que, agora, o usuário do Facebook pode ouvir música de um seu “amigo”, tornando possível compartilhar uma música com alguém, sem estar junto dessa pessoa.

Deu-se um silêncio na mesa…

“Quem vai querer ouvir música com alguém que não está presente?”, perguntaram na mesa ao lado.

“Muita gente”, respondeu um fã do FB.

Independentemente do fato de se esta funcionalidade será do interesse das pessoas, essa história lembrou-me o que aconteceu com a cia. Gillette, quando do lançamento do aparelho de barbear descartável.

É conhecido “case” de marketing o fato de que o lançamento do primeiro aparelho de barbear com lâminas descartáveis, em 1901, foi um divisor de águas nessa indústria, tal o fator disruptivo que esta ideia provocou no comportamento do consumidor, habituado há séculos, a barbear-se com navalhas afiadas e reutilizadas.

O sucesso foi tamanho que a Gillette encontrou-se, em dado momento de sua trajetória (meados do século passado), com dificuldades em inovar o produto e, após 20 anos e milhões de dólares em P & D, a cia. promoveu uma grande campanha de marketing, em 1975, para anunciar uma grande inovação:

Colocara uma segunda lâmina, paralela à primeira.

O feito parecia pouco inovador (duas lâminas onde antes havia uma), mas os marketeiros imortalizaram o produto:

“A primeira faz tchan, a segunda faz tchun e, tchan, tchan, tchan, tchan…”

Apesar do estrondoso sucesso que o aparelho GII obteve, o mais inacreditável estava ainda por vir…

Em 1998, após anunciar investimentos de USD 750 milhões em P & D, a Gillette iniciou uma agressiva campanha de marketing em escala mundial, que custou mais de USD 300 milhões, para anunciar uma espetacular e inacreditável inovação neste produto vencedor:

Inseriu uma terceira lâmina entre as duas anteriores…

Chega um momento da vida de um produto que, para manter o frescor da novidade sem correr o risco de mexer muito no time que está vencendo, altera-se uma gota e divulga-se um oceano…

Exatamente como faz (como ninguém) a Apple com seu iPad 1, 2 e, breve, o 3 e seu iPhone 1, 2, 3, 4 e 5…

Coloca uma câmera a mais, afina o produto, melhora um pouco o processamento, a memória, o brilho da tela etc., mas o produto é o mesmíssimo e continua com a imagem de inovador…

Por isso, hoje, sou um tanto cético quando escuto que determinado produto é inovador, em especial quando este epíteto é dado pelo próprio produtor e seguido de variados adjetivos.

Para mim, inovação é uma palavra muito cara e penso que, em muitos casos, as empresas se apropriam dela de forma equivocada.

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