Relações duradouras

“Acreditamos em relações duradouras…”

Com esta frase simples, Solange respondeu a pergunta da vendedora de uma loja do Rio Design Barra, para preencher o cartão que acompanharia o presente para os noivos.

Diante da cara de incredulidade da vendedora, Solange acrescentou: “Sejam felizes.”

Lembrei-me de um delicioso bate-papo que tivemos com Guillermo e Helô, no Lawry’s de Chicago, durante a NBTA 2006 (antes de Heloisa trabalhar no Panrotas), em que, entre outras pérolas, e não sei bem o motivo, comentamos que discursos de agradecimentos, homenagens e similares, sejam ditos ou escritos, podem virar uma tremenda chatice quando são longos e pomposos.

Guillermo imediatamente nos brindou com sua fórmula muito pessoal de tratar o assunto: “Nesses casos, menos é mais. Todos nós prestamos mais atenção e valorizamos uma homenagem simples, curta e direta, desde que dita ou escrita de forma sincera, autêntica”.

“O que impacta as pessoas é a verdade contida no texto”, acrescentou.

A verdade do texto acima da Solange é justamente o fato de que nós, efetivamente, acreditamos que as relações, sejam comerciais, pessoais, afetivas e outras, podem ser duradouras com qualidade e sem o conhecido desgaste provocado pelo tempo.

Percebi o mesmo quando resolvemos homenagear, neste final de ano, alguns parceiros que nos prestam bons serviços há muito tempo, e a lista foi grande.

Nosso contador é o mesmo há 16 anos, da mesma forma o engenheiro de telecomunicações e o arquiteto que trata do mobiliário de nossos escritórios, nossos advogados nos prestam assessoria jurídica há vários anos, como também a administradora de imóveis, o engenheiro que cuida das reformas, obras e ampliações, a empresa que hospeda nosso data center, entre muitos outros…

O fato comum a esses prestadores de serviços é que nossa relação comercial transformou-se, ao longo do tempo, em relação pessoal e, independentemente da empresa que estejam representando, são essas pessoas que sempre contratamos.

Na mesma linha, temos alguns profissionais trabalhando conosco há mais de 10 anos (e muitos outros com quase isso), numa relação que transcende o “capital x trabalho”.

Da mesma forma, cultivamos sincera amizade com muitos de nossos clientes, alguns com longo histórico de relacionamento e confiança pessoal, que acaba por influenciar positivamente os negócios.

Nas associações em que participamos, os integrantes de comitês, conselhos ou grupos de trabalho, independentemente de serem ou não, clientes, fornecedores ou mesmo concorrentes, acabam por formar uma verdadeira rede social (nada virtual) em que as relações pessoais fortalecem os objetivos a serem alcançados.

Sei que estamos na contramão do “não se deve misturar negócios com amizade” ou do “amigos, amigos, negócios à parte”, mas é nisso que acreditamos e praticamos todos os dias.

Confiamos em pessoas e nos sentimos mais confortáveis em fazer negócios com amigos, mesmo que tornemos amigos aqueles com quem fazemos negócios.

De preferência, por muito tempo…

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Geração 3D: dispersa, desfocada e distraída?

Há um embate mudo no ar.

Gustavo, Sidney, Mauricio, Viviânne e eu, já postamos sobre a nova geração de profissionais, com abordagens que mostram vantagens e desvantagens desses novos trabalhadores, para as empresas e para eles mesmos.

Travo, volta e meia, diálogos estimulantes com meu filho, Vabo Jr., legítimo integrante dessa nova geração, sobre as diferenças desses dois mundos, obrigados a conviver e compartilhar projetos, serviços, produção, relacionamentos etc. no dia-a-dia laboral e na vida.

Agora o assunto tomou a atenção de 2 pesquisadores, ambos especialistas no tema: Steve Johnson, autor de “Where good ideas come from” e Nicholas Carr, que acaba de lançar “The Shallows”.

Steve, um curioso criador de polêmicas, gosta de desmistificar as chamadas verdades absolutas e, com argumentação e embasamento científicos, garante que as grandes invenções da humanidade não são fruto de momentos de relaxamento e descontração, como alardeiam os defensores do “ócio criativo”…

Exemplificando com fatos e ideias geniais, como a teoria da relatividade ou a descoberta da gravidade, Steve comprova que essas e todas as grandes idéias, invenções e descobertas da humanidade, diferentemente do que se imagina, foram fruto de muito esforço, trabalho e determinação.

Indo além, o autor defende a tese de que o caos colabora para o processo de inovação, em especial quando propicia a participação de mais pessoas, o que explicaria a enorme vantagem da internet como ferramenta estimuladora do processo criativo.

Já Nicholas Carr aborda a superficialidade desta nova geração, todos multi-mídias e multi-funcionais, mas sem a necessária capacidade de aprofundar-se sobre determinado tema.

Alega que a internet estimula a troca rápida de informações, o ilimitado compartilhamento de dados, a busca incessante por terabytes de conteúdo…

Tudo muito bom, como todos sabemos, mas que estaria comprometendo a atenção e a capacidade de focar, analisar e refletir sobre questões mais complexas, prejudicando o pensamento crítico, cognitivo, lógico e conceitual.

É a vida levada em ritmo de video clipe.

Mal começamos a ler um email, toca o telefone celular. Antes de concluir a ligação, entra um torpedo (SMS) e uma mensagem no Skype. Quando estamos quase terminando de responder, alguém entra na sala com um assunto urgente ou o telefone fixo toca. Ao atendermos, entra outra ligação na espera. A hora da reunião se aproxima, mas não se encontra espaço para prepará-la, enquanto as notícias são atualizadas a cada instante no Globo.com, no UOL, no Terra ou no Panrotas…

Temos todos muito acesso a muitas informações (online, on time, real time, full time) e usamos ferramentas que nos permitem realizar muitas coisas ao mesmo tempo, mas devido justamente à velocidade e ao volume de dados e tarefas, acabamos nos dispersando, pois falta-nos a tranquilidade necessária às análises e reflexões, que subsidiam as grandes realizações.

Difícil dizer quem está com a razão. Prefiro acreditar que ambos estão certos… e errados…

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Caras de pau

Acho engraçados alguns termos cunhados por políticos brasileiros, verdadeiras obras-primas do ilusionismo político, em especial pela enorme distância entre o conceito que seus criadores pretendem emprestar à expressão e o seu real significado.

Nesta época de montagem da nova equipe de governo, em que rola um verdadeiro vale tudo por um lugar ao sol, os políticos tentam disfarçar seu voraz apetite por cargos, verbas e poder, utilizando o estado da arte em dissimulação.

Selecionei apenas 3 expressões muito utilizadas nestes dias que antecedem a posse do novo governo:

“Indicação técnica”
É quando um político justifica a escolha de um apadrinhado menos conhecido (com pouca ou nenhuma experiência política) para um cargo eminentemente político. “Fulano de Tal foi uma indicação técnica”. O interessante é que o termo é usado como argumento politicamente correto, afinal “ninguém gosta de político”…

“Luto pelo que acredito”
Usada quando o político deseja justificar à opinião pública uma decisão estranhamente contrária à maioria e ao bom senso. “Sei que posso ser mal interpretado, mas luto pelo que acredito”. São dessa mesma categoria o “Sou um homem de princípios” e o “Tenho minhas próprias convicções”.

“Cota pessoal”
Essa expressão, embora revestida de um espírito de justiça, (afinal pelo menos alguém pode ser indicado por escolha individual do governante…) é a que carrega a maior carga de escárnio. Nesta simples expressão estão contidos o nepotismo, o toma-lá-dá-cá, a mesa de câmbio da política brasileira. “Ok, Beltrano já é da cota pessoal, então não abrimos mão de X ministérios”.

Existem outras, muitas outras, mas eu considero essas 3, pelo seu uso indiscriminado por políticos de diferentes partidos e tendências, e pela própria imprensa, um bom resumo do atual “pensamento político nacional”…

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