VALET PARKING NO SDU…

Muito se fala do espírito empreendedor do brasileiro, de nossa fama de aproveitar oportunidades e até de criar situações e gerar demandas.

Tive mais uma comprovação desta característica, ao estacionar o carro hoje de manhã, no aerporto Santos Dumont, quando uma equipe de auxiliares uniformizados, buscava valorizar o serviço de encontrar uma vaga, em meio ao local quase lotado.

Bem sintonizados, os funcionários da concessionária do estacionamento faziam questão de comunicar-se com o motorista e, de forma simpática e proativa, direcionavam para o colega mais próximo, que prontamente informava:

– “Bom dia, sua vaga especial está aguardando o senhor. Acompanhe-me por gentileza”.

Animado com o fato, simplório mas efetivo, de encontrar uma boa vaga para o carro pernoitar, em tempo recorde, fui ainda surpreendido com o guarda-chuva prontamente aberto na porta do carona, seguido da frase “As senhoras primeiro”.

Quando tentamos devolver o guarda-chuvas na saída do estacionamento, outra surpresa:

– “Podem devolver-me dentro do saguão do aerporto, para os senhores não se molharem”.

Era a dica: praticamente um “passe no caixa” que, por acaso, fica fora do local de trabalho.

Embora não houvesse uma cobrança formal pelo serviço ou pela gentileza, estava evidente o esquema montado pelos empresários do jeitinho, da informalidade, do levar vantagem.

Confesso que dei a gorjeta, o rapaz simulou surpresa e agradeceu, ou seja, seguimos ambos um script não acordado de “trate-me bem que você será remunerado”.

Fiquei entre contente (como usuário), surpreso (como empresário) e crítico (como cidadão), afinal o estacionamento é um empreendimento privado, cujo serviço é caro, os funcionários são assalariados e estão explorando uma atividade econômica (simulada como gorjeta) durante o horário de trabalho, e naturalmente sem qualquer compromisso fiscal.

Se houvesse um Valet Parking formal, não estou certo se eu usaria, tampouco se os funcionários seriam atenciosos, nem mesmo se este é o ponto a ser analisado aqui neste post.

No fundo, o fato apenas comprovou o que estamos cansados de saber: onde existe demanda, haverá sempre quem ofereça o produto ou serviço.

A forma de fazê-lo é um mero detalhe.

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DOIS COMETAS HALLEY

Tentei não voltar a escrever sobre os grandes eventos esportivos no Brasil, pelo menos não tão próximo do texto anterior – LEGADO DA COPA: SOLUÇÃO CARIOCA PARA O TRÂNSITO – mas está difícil ficar longe das discussões sobre esta incrível oportunidade desperdiçada por nosso país.

Neste fim de semana, estive num encontro entre amigos, para comemorar o aniversário de um deles, em sua casa na Tijuca, um evento intimista, familiar e bem carioca.

2 Cometas Halley
Copa do Mundo e Jogos Olímpicos: é agora ou daqui a 76 anos…

Por uma coincidência, num terraço populado por 30 pessoas, estavam uma médica de um hospital “referência” da Copa, um engenheiro funcionário da Infraero, um agente de viagens desiludido com a Copa, uma diretora da construtora de uma das arenas da Vila Olímpica e um ex-empresário que fechou sua empresa de engenharia para fazer um concurso público.

A certa altura do campeonato, o assunto inevitável surgiu e, entre defesas inflamadas sobre a união da nação em prol de um objetivo de Estado (embora não esteja claro se este objetivo é vencer a Copa ou iludir o mundo sobre como de fato é o Brasil), ouvimos também:

1 – Esclarecimentos sobre os motivos pelos quais as reformas nos aeroportos não serão concluídas no prazo e teremos de conviver com aeroportos maquiados, “guaribados” e “acochambrados” durante a Copa, de preferência sorrindo para demonstrar que somos um povo simpático e receptivo.

2 – Explicações sobre o significado de ser o segundo “hospital de referência” da Copa, em especial por referir-se ao Hospital do Andaraí, o qual, para quem não sabe, encontra-se praticamente em ruínas, faltando menos de um mês para o evento.

3 – Comentários preocupados sobre as dificuldades em encontrar hospedagem no Rio de Janeiro, para turistas e clientes corporativos que não têm qualquer interesse em futebol, mas desejam ou precisam vir à Cidade Maravilhosa, durante o período da Copa.

4 – Relato surpreendente sobre a contra-ordem do prefeito carioca, para refazer o desenho do Velódromo Olímpico (circuito oval para bicicletas de corrida), apesar do projeto descartado ter custado alguns milhões aos cofres públicos, decisão que, segundo especialistas, atrasará a construção em alguns meses.

5 – Desabafo de um ex-empresário que, desiludido com as dificuldades de manter sua empresa “devido ao pouco comprometimento e a baixa produtividade dos funcionários”, resolveu inscrever-se num concurso público e hoje, como funcionário da prefeitura, gaba-se de agir da mesma forma que agiam seus ex-funcionários.

Para um país, a Copa do Mundo é um evento que ocorre com periodicidade próxima a da passagem do Cometa Halley pela Terra, ou você se prepara para o momento em que estiver passando, ou joga fora esta oportunidade e aguarda a próxima, que poderá ser daqui a 76 anos.

Da mesmíssima forma são os Jogos Olímpicos, também não costumam acontecer mais de uma vez, no mesmo país, num mesmo século.

Ou seja, apesar de um raio não cair no mesmo lugar duas vezes, teremos duas oportunidades, em uma mesma geração, e praticamente na mesma época, de promover dois eventos tão raros, que costumam ocorrer somente uma vez, durante uma vida, em determinado país.

Receio que já perdemos nosso Cometa Halley de 2014, e que se não corrermos contra o tempo já desperdiçado, também perderemos o de 2016…

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LEGADO DA COPA: SOLUÇÃO CARIOCA PARA O TRÂNSITO

Herança dos anos em que fui funcionário de empresa estatal, bem no início de minha carreira de engenheiro, a primeira coisa que faço quando acesso o calendário oficial de cada ano novo, é procurar os feriados e simular quais poderiam ser emendados em fins de semana, um comportamento típico de funcionários públicos.

Hoje, como empresário, buscando produtividade para o crescimento e perpetuidade dos negócios, incluindo-se aí, atender os clientes, pagar as contas e manter os empregos, continuo com este mesmo hábito de verificar os feriados, exatamente pelo motivo oposto.

Aliás, que beleza ficou 2014!

Além dos feriados de abril, todos estrategicamente situados próximos a fins de semana, também teremos a Copa do Mundo da FIFA, e o prefeito do Rio, num esgar de criatividade, decretou feriado municipal nos dias de jogos no Maracanã…

Nada mais maravilhoso para uma Cidade Maravilhosa!

Pense bem, faz todo o sentido: com essa medida, tão estratégica quanto inteligente, Eduardo Paes agrada a maior parte do eleitorado (por acaso, em ano de eleições) e cumpre seu nobre compromisso com a “mobilidade urbana”.

Um grande estrategista político!

Com feriados parciais nos dias de jogos à tarde e feriado integral numa sexta-feira, nosso grande estadista carioca garante que 6,4 milhões de habitantes (incluindo os que residem a 50 Km do estádio) deixem as ruas da cidade completamente livres para que 94 mil pessoas, ungidas com ingressos doados por empresas patrocinadoras do evento, não se atrasem para o jogo no velho novo Maraca.

Isso é que é planejamento logístico!

Imagino a cena: uma turba de amantes do futebol trafegando numa cidade deserta, para cumprir a nobre missão de torcer no “clássico” Bélgica x Rússia, enquanto a abnegada população de uma metrópole inteira permanece em casa, contribuindo, de forma motivada, para o esforço coletivo de mostrar ao mundo que, sim, podemos ter um trânsito “padrão FIFA”…

Já é um conceito político: a contribuição de todos pelo benefício de poucos!

Para resolver de forma definitiva o problema do trânsito, nosso grande líder ainda vai chegar a uma conclusão brilhante e convocará uma coletiva de imprensa para anunciar:

“No Rio, será feriado todo dia !”

Obs.: Somente hoje, esqueçam tudo o que escrevi aqui sobre empreendedorismo, realizações, produção e produtividade, eficiência e eficácia, carreira, crescimento e evolução profissional.

O Eduardo Paes é o especialista em gestão de pessoas, de recursos, de tempo e de espaço.

Agindo assim, ele ainda chega a governador…

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