ONDE ESTÁ O NOVO?

Faltando pouco mais de um mês para as eleições, resolvi postar o texto do cientista político Nelson Paes Leme, escrito no início de julho, a respeito do risco iminente de tudo continuar absolutamente igual ao que sempre foi…

ONDE ESTÁ O NOVO?

Mais do mesmo, infelizmente, é o que teremos dessas urnas que, inocente e idealisticamente, imaginava-se que seriam plebiscitárias, renovadoras.

A menos de três meses das eleições, as pesquisas e a mobilização partidária retratadas pela mídia demonstram claramente que teremos as mesmas caras da velha política, os mesmos caciques e coronéis e a mesma ordem perversa que nos fez chegar ao descalabro jurídico-policial na práxis da representação popular a que chegamos nestes estertores da Nova República — inaugurada há 30 anos com a Constituição erroneamente congressual de 1988.

O único partido realmente inovador, com propostas concretas de mudança, o Partido Novo, não tem merecido qualquer atenção dos meios de divulgação e comunicação. Seus candidatos simplesmente são ignorados pela mídia, que só cobre e só dá espaço à velha politicagem de alianças espúrias e barganhas de conveniência, não ideológicas e não programáticas, em torno apenas de maior tempo na televisão, por exemplo.

De outro lado, o TSE silencia, irresponsável e conivente, com o status quo ante. Não entendeu a História nem as mudanças exigidas pela esmagadora maioria do povo brasileiro. Nenhuma mudança se vê nas regras antigas que nos levaram ao caos eleitoral responsável por impeachments e prisões de autoridades por malversação de fundos públicos, roubalheira deslavada de “caixas 2” e outros expedientes espúrios notórios.

O eleitor grita, berra, estrebucha, mas não mostra forças suficientes para mudar o nefasto cenário político brasileiro

Com exceção da aplicação da Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, não se vê um gesto do tribunal para tentar melhorar o sistema de eleições e essa vergonhosa propaganda eleitoral “gratuita” herdada dos grilhões da ditadura militar, como se fosse a coisa mais natural e corriqueira em democracias consolidadas, com seu vergonhoso escambo escancarado para a exposição pública dos candidatos.

Mais do mesmo, infelizmente, é o que teremos dessas urnas que, inocente e idealisticamente, imaginava-se, seriam plebiscitárias, renovadoras e de grande mobilização popular. Ao contrário, a decepção generalizada com a política faz com que o “candidato” mais cotado nas pesquisas seja a o voto nulo. Ou a abstenção. Ou ambos, pouco importa, o que é ainda mais terrível para a democracia.

Veja-se o quadro atual: a esquerda se aglutina em torno de um personagem de fancaria, completamente descompensado, com propostas mirabolantes de um socialismo do século passado, enquanto a direita se reúne em torno de um capitão de tropas reacionário e igualmente destemperado, que nunca apresentou um projeto de lei razoavelmente plausível em anos a fio de presença no Legislativo e defende as ideias mais retrógradas e reacionárias possíveis, chegando à apologia explícita da tortura.

Ambas em busca desesperada do apoio de um assim chamado e notório “centrão”, fisiológico e pragmático em termos de assalto sistemático ao butim de um Estado paquiderme e centralizador. Sobra o multipresidenciável e multiderrotado ex-governador de São Paulo, insosso como só ele, como opção ao centro. Nenhuma proposta de mudança da Constituição. Nenhum enfrentamento das questões estruturais que travam o país a despeito de sua pujante economia potencial.

O Brasil é hoje a oitava economia do planeta, com mais de 200 milhões de almas. O FMI já o coloca na quinta posição em termos de PIB até meados do século, tendo apenas China, Índia, EUA e Indonésia (nessa ordem) à nossa frente. À frente da Rússia, Japão, Alemanha, Reino Unido e França. Temos menos de 6%, em média, de população favelada e uma classe média pujante e sólida. Nossa indústria aeronáutica é reconhecida como uma das mais bem-sucedidas do planeta e é cobiçada pela Boeing e congêneres. Mas importamos caças suecos e franceses para nossa defesa…

Seremos brevemente o maior exportador de commodities do mundo, como já somos hoje o maior exportador de proteína animal e um dos maiores de soja. Mas insistimos numa política de republiqueta de bananas. Na manutenção de uma infraestrutura modal de transportes, portuária e de armazenamento anacrônica. Numa divisão federativo-tributária da República Velha e em regras inacreditáveis de representação política como essa vergonhosa barganha de segundos de televisão.

As velhas raposas posam de vestais enquanto atuam em conluio visando sua perpetuação no poder

E o que fazem os tribunais superiores? Situam-se sistematicamente na direção do atraso. Do gongorismo e do barroco, quando suscitados esses quesitos. O Brasil das ruas e da economia real nada tem a ver com o Brasil do Plano Piloto de Lúcio Costa. Ali se situa a mais retrógrada, régia e medieval burocracia. Aqui se produzem riqueza e impostos escorchantes para a manutenção daquela máquina obsoleta. Onde estão esses dados nos discursos dos candidatos que se apresentam e que são diariamente expostos por uma mídia sem imaginação nem criatividade? Mais do mesmo é o que teremos com esses nomes que a imprensa irresponsavelmente abana e insufla. Nada de novo no front. Lamentavelmente.”

Nelson Paes Leme é cientista político.

BOLSONARO É O NOVO LULA?

Como sei que este assunto costuma gerar reações acaloradas nos leitores, antes de mais nada declaro aqui o meu voto no candidato João Amoêdo, do Partido Novo.

Fujo do que Vabo Jr chama de “profecia autorrealizável”, que é quando o eleitor escolhe o seu melhor candidato, mas não vota nele por achar que tem pouca chance de vencer…

Mas o assunto aqui é o Bolsonaro, este personagem político que representa muito mais do que querem desacreditar seus detratores e bem menos do que acreditam seus seguidores.

Pelas entrevistas recentes em que participou (no Roda Viva e na GNT), Bolsonaro confirmou o que todos nós já sabíamos, seus conhecimentos limitados a respeito dos grandes problemas nacionais, sua formação conservadora, seu patriotismo exacerbado, sua intolerância com a desonestidade e o crime, seus conceitos muito pessoais (que alguns chamam de arcaicos, outros de tradicionais), sua doutrina militar, suas opiniões a respeito da ideologia de gênero, do aborto, das drogas, e de outros temas polêmicos etc etc etc.

Mas o que não sabíamos é que ele subiria nas pesquisas amparado justamente nas mesmas 2 premissas fundamentais que elegeram Lula:

1) Bater de frente com a imprensa

Bolsonaro descobriu que brigar com a imprensa pode não dar ibope de imediato, mas rende voto ao longo da campanha.

Apesar de não ser um bom orador e de sua conhecida inflexibilidade política, Bolsonaro foi o entrevistado que melhor usufruiu do espaço dessas entrevistas, pois se expôs abertamente (autêntico), sempre foi direto ao ponto (objetivo), sem fugir das verdades (genuíno), mantendo a coerência até nos absurdos (obstinado), reafirmando a todos que “gostem ou não, eu sou assim”. Cheguei a lembrar da famosa “profecia de Zagalo”…

Do outro lado, jornalistas muito bem preparados para tratar com gênios da política (aquelas velhas figuras poderosas e plastificadas), mas que não sabem entrevistar um sujeito simplório, sem meias verdades, que fala o que lhe vem à cabeça (a exceção entre os entrevistadores foi o Gabeira, que percebeu e considerou a personalidade do entrevistado desde o início).

Bolsonaro segue os passos de Trump até no relacionamento com a imprensa, pois quanto pior a relação com os jornalistas, tanto melhor a aceitação popular

A Miriam Leitão passou pelo maior constrangimento de seus 40 anos de carreira, ao repetir, igual a um papagaio, o que ouvia pelo ponto eletrônico, afirmando que “O Globo mudou de opinião”, apesar de Bolsonaro não ter se referido aO Globo em nenhum momento, mas sim ao Roberto Marinho.

Cheguei a sentir pena da Miriam Leitão, uma ex-guerrilheira que se destacou no jornalismo econômico brasileiro, ter que pagar um mico desta magnitude ao vivo…

São entrevistas como estas, com jornalistas em cima do sapato alto, com falas rebuscadas e doutorados em ciência política, que fazem com que um candidato como este suba nas pesquisas.

A fórmula é tão simples quanto óbvia: o jornalista, preocupado em parecer perspicaz, faz uma pergunta que o povo não entende e o candidato, um homem simples de classe média, responde algo que o povo entende, e ainda aproveita para falar o que o povo quer ouvir.

Pronto, são mais 100 mil votos pra contagem…

2) Falar a linguagem simples, óbvia e direta que o povão entende

Embora situados nos extremos opostos do espectro político brasileiro, Bolsonaro e Lula reúnem características pessoais muito parecidas.

Calma, eu vou explicar !

Bolsonaro me parece tão despreparado quanto Lula há 20 anos (quando o molusco entrou pra valer na corrida presidencial).

Lula também aproximou-se de lideranças de esquerda que o inspiram até hoje, sob o argumento de que o socialismo é maior do que todos os seus personagens.

Ambos (Bolsonaro hoje e Lula há 20 anos) têm o mesmo discurso moralizador (de honestidade e caça aos corruptos), falam em acabar com o desemprego (embora com estratégias bem diferentes), dizem ter a solução para a segurança pública (sem detalhar o que será feito), prometem investir em saúde e educação (sem explicar de onde virão os recursos) e resolver o rombo da previdência (apesar da conta não fechar), mas garantindo aposentadorias dignas (seja lá o que isso significa), além de divulgar que são apegados às suas famílias e amigos (o povo entende isso como honradez), que são muito trabalhadores (embora ambos sejam aposentados), que acreditam no valor de resgate do passivo social (um diz defender a doação do peixe, o outro diz que ensinará a pescar) da população desassistida.

Não quero aqui destilar ceticismo, mas eu já vi esse filme e não gostei do final…

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CLASSE MÉDIA DESEJA SAIR DO BRASIL

De vez em quando é bom mudar o tema aqui no Blog B2BTech, pra arejar o espaço, sair do lugar comum, variar um pouco que seja.

Por conta disso, resolvi postar algumas frases do ex-presidente americano Ronald Reagan, que assim como a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, defendia um estado minúsculo e eficiente, e uma iniciativa privada forte e criativa, conceitos que acredito e defendo, apesar de serem diametralmente opostos à nossa realidade nos últimos 15 anos.

Leia e reflita sobre essas pérolas, conceitos globais que parecem inspirados nos problemas arraigados no Brasil:

Sobre programas sociais

“Não devemos julgar os programas sociais por quantas pessoas estão neles, mas por quantas estão saindo.”

“O melhor programa social é o emprego.”

No Brasil, os programas sociais visam tornar a população dependente das benesses da corte.

Sobre política e governo

“A política é supostamente a segunda profissão mais antiga do mundo, com incrível semelhança com a primeira.”

“As melhores mentes não estão no governo, pois se alguma estivesse, a iniciativa privada já a teria atraído.”

Sobre política econômica

“O governo é como um bebê: um canal alimentar com um grande apetite numa ponta e nenhum senso de responsabilidade na outra.”

“A visão do governo sobre economia pode ser resumida em frases curtas: se a coisa se move, deve ser taxada; se continuar em movimento, deve ser regulada; se ela parar de se mover, deve ser subsidiada, até voltar a se mover…”

“Contribuinte é o indivíduo que trabalha para o governo sem ter que prestar concurso.”

“Recessão é quando seu vizinho perde o emprego, enquanto depressão é quando você perde o seu.”

Sobre regimes de governo

“Comunista é alguém que lê Marx e Lênin. Anticomunista é alguém que entende Marx e Lênin.”

“O socialismo é um sistema que só funciona no céu, onde não precisam dele, e no inferno, onde ele já existe.”

Não sei qual a sua opinião a respeito, mas o fato é que a relação entre governo (incluindo políticos e servidores públicos de todas as esferas e poderes) e a população, continua muito similar à relação da corte com os plebeus nos antigos regimes feudais.

A plebe (nós todos) trabalhamos para nos sustentar e para sustentar o governo (incluindo políticos e servidores públicos de todas as esferas e poderes), o qual tem o poder de estabelecer unilateralmente (sem a participação da plebe) quanto precisa de contribuição de cada cidadão para poder manter os “direitos” crescentes, que só os membros do governo dispõem, além das mordomias dignas dos integrantes de uma corte imperial.

No Brasil, os políticos e servidores públicos formam uma casta que serve exclusivamente aos seus próprios interesses

No Brasil, este cenário é ainda um pouco pior, pois a parcela que contribui para sustentar a corte é apenas uma menor parte da população, também chamada de classe média (ou burguesia, no passado), cujo esforço, risco e trabalho, tem que manter também, além da corte, a outra parcela da população que não contribui, e que forma o maior grupo, de pessoas pobres, carentes ou dependentes de programas sociais (o proletariado), que assim é mantida (na pobreza e dependência), para permitir um maior controle pelos integrantes da corte.

Para piorar ainda mais (sim, pode piorar), o governo brasileiro entrega os piores serviços públicos que um cidadão poderia esperar, ao ponto de empurrar o contribuinte para a contratação de serviços privados de saúde, educação, transporte, segurança e previdência, aumentando ainda mais o peso econômico nas suas costas, devido à má qualidade ou mesmo inexistência desses serviços essenciais.

No Brasil, políticos e servidores públicos lutam por manter seus privilégios, inclusive os relacionados ao poder de aumentá-los sempre

Por este motivo, os impostos subiram de um quinto de tudo o que se produzia no Brasil Colônia (daí vinha a expressão “quinto dos infernos”), para dois quintos de tudo o que se produz atualmente no país (38,6% do PIB).

Como não há “burguesia” que suporte isto por muito tempo, a classe média brasileira está literalmente se mudando para outros países, a começar pela classe média alta, que já foi para Portugal, EUA, Canadá, Espanha etc.

No limite, poderá chegar o momento em que não haverá a quem explorar para sustentar a corte, que estará rodeada somente pelo proletariado, cada vez mais carente, por ter sido habituado a depender do Estado.

Na Europa do passado e na América Latina do presente, entre outros, temos exemplos práticos do resultado deste tipo de cenário.

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