{"id":266,"date":"2026-08-31T23:22:00","date_gmt":"2026-09-01T02:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.panrotas.com.br\/espaco-alagev\/?p=266"},"modified":"2026-08-31T23:22:00","modified_gmt":"2026-09-01T02:22:00","slug":"quando-a-seguranca-da-mulher-viajante-ainda-depende-dela-mesma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.panrotas.com.br\/espaco-alagev\/2026\/08\/31\/quando-a-seguranca-da-mulher-viajante-ainda-depende-dela-mesma\/","title":{"rendered":"Quando a seguran\u00e7a da mulher viajante ainda depende dela mesma"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"669\" height=\"522\" src=\"https:\/\/blog.panrotas.com.br\/espaco-alagev\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2026\/08\/image-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-272\" srcset=\"https:\/\/blog.panrotas.com.br\/espaco-alagev\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2026\/08\/image-5.png 669w, https:\/\/blog.panrotas.com.br\/espaco-alagev\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2026\/08\/image-5-300x234.png 300w\" sizes=\"(max-width: 669px) 100vw, 669px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Agosto foi marcado pela campanha Agosto Lil\u00e1s, dedicada \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o e ao enfrentamento da viol\u00eancia contra a mulher. Foi um per\u00edodo que refor\u00e7a a import\u00e2ncia de ampliar o debate sobre seguran\u00e7a, preven\u00e7\u00e3o, acolhimento e responsabilidade coletiva. E essa reflex\u00e3o tamb\u00e9m precisa alcan\u00e7ar diferentes espa\u00e7os e contextos da vida das mulheres, inclusive aqueles relacionados \u00e0s viagens.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns meses, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DYf0GTcCPdP\/?img_index=1\">publiquei no Instagram duas fotos <\/a>tiradas durante viagens corporativas. As imagens chamaram aten\u00e7\u00e3o porque mostravam uma situa\u00e7\u00e3o incomum: uma t\u00e1bua de passar roupas posicionada atr\u00e1s da porta do quarto de hotel, funcionando como uma barreira improvisada de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>As fotos s\u00e3o reais. A primeira foi registrada em 2024 e a segunda em 2026. Foram feitas na mesma cidade, mas em hot\u00e9is diferentes. E, embora a cena tenha despertado curiosidade e at\u00e9 surpresa em algumas pessoas, a verdade \u00e9 que ela retrata uma realidade bastante conhecida por mulheres que viajam sozinhas com frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem observa a fotografia pode enxergar apenas um objeto apoiado na ma\u00e7aneta. Eu enxergo algo maior. Vejo a materializa\u00e7\u00e3o de um sentimento que acompanha muitas profissionais ao redor do mundo: a necessidade constante de avaliar riscos e criar mecanismos pr\u00f3prios de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio do Turismo, 4 em cada 10 brasileiras (41,8%) j\u00e1 viajaram sozinhas, enquanto 31,4% realizam viagens solo com frequ\u00eancia. Em n\u00edvel global, as mulheres representam a maioria no segmento de viagens independentes, compondo entre 75% e 84% de todas as viajantes solo do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate tamb\u00e9m come\u00e7a a ganhar espa\u00e7o fora do setor de viagens corporativas. A <a href=\"https:\/\/forbes.com.br\/forbes-life\/2026\/06\/hoje-eu-nao-tenho-do-mundo-um-guia-de-sobrevivencia-para-mulheres-que-viajam-sozinhas\/\"><em>Forbes Brasil<\/em><\/a> dedicou uma reportagem \u00e0s experi\u00eancias de mulheres que viajam sozinhas, reunindo relatos, estrat\u00e9gias de autoprote\u00e7\u00e3o e um dado que merece aten\u00e7\u00e3o: 62% das brasileiras afirmam j\u00e1 ter deixado de realizar uma viagem solo por quest\u00f5es de seguran\u00e7a. A publica\u00e7\u00e3o utilizou como base a pesquisa do Minist\u00e9rio do Turismo em parceria com a Unesco, que deu origem ao Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lan\u00e7ado pelo governo federal com orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para viajantes e recomenda\u00e7\u00f5es direcionadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias mais seguras. Mais do que um material informativo, o documento representa um reconhecimento institucional de que a seguran\u00e7a da mulher durante a viagem deixou de ser apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o individual para se tornar uma pauta relevante para todo o ecossistema do turismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E eu fa\u00e7o parte desses n\u00fameros. Viajo regularmente para participar de feiras, congressos, reuni\u00f5es estrat\u00e9gicas e encontros de neg\u00f3cios. Conhe\u00e7o destinos, hot\u00e9is, aeroportos e centros de conven\u00e7\u00f5es dos mais diversos perfis. E justamente por estar inserida nesse universo h\u00e1 tanto tempo, percebo que existe um tema importante que ainda recebe menos aten\u00e7\u00e3o do que deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>Falamos sobre tecnologia, personaliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, sustentabilidade, intelig\u00eancia de dados, efici\u00eancia operacional e inova\u00e7\u00e3o. Todos esses assuntos s\u00e3o fundamentais para o desenvolvimento do nosso mercado. Mas existe uma quest\u00e3o que atravessa a experi\u00eancia de milhares de viajantes e que ainda aparece de forma t\u00edmida nas discuss\u00f5es do mercado: a seguran\u00e7a da mulher que viaja sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma mulher entra em um quarto de hotel, sua percep\u00e7\u00e3o do ambiente muitas vezes \u00e9 diferente daquela experimentada por outros h\u00f3spedes. Enquanto algumas pessoas observam a decora\u00e7\u00e3o, a vista da janela ou as comodidades dispon\u00edveis, muitas de n\u00f3s fazem uma an\u00e1lise quase autom\u00e1tica do entorno. Avaliam a robustez da fechadura, verificam os acessos ao andar, observam quem circula pelos corredores, identificam rotas de sa\u00edda e procuram entender se h\u00e1 vulnerabilidades que possam comprometer sua seguran\u00e7a. Esse comportamento n\u00e3o surge por paranoia. Surge pela experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta iniciar uma conversa sobre o assunto para perceber o quanto essas hist\u00f3rias se repetem. Em diferentes pa\u00edses, cidades e contextos, mulheres compartilham estrat\u00e9gias semelhantes. Algumas evitam informar que est\u00e3o viajando sozinhas. Outras pedem quartos pr\u00f3ximos aos elevadores. Muitas carregam dispositivos port\u00e1teis de seguran\u00e7a. H\u00e1 quem utilize alarmes para portas, travas adicionais ou aplicativos de monitoramento.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o h\u00e1bitos que foram incorporados \u00e0 rotina n\u00e3o porque tragam conforto, mas porque oferecem uma sensa\u00e7\u00e3o m\u00ednima de controle diante de situa\u00e7\u00f5es que nem sempre dependem delas.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais curioso \u00e9 que essa demanda j\u00e1 \u00e9 percebida pelo mercado consumidor. Hoje, basta fazer uma busca r\u00e1pida em plataformas de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico para encontrar uma infinidade de produtos direcionados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o durante viagens.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que me fa\u00e7o \u00e9: por que esse mercado cresce tanto? A resposta talvez seja simples. Porque existe uma necessidade real.Mas existe uma segunda pergunta que considero ainda mais relevante para a ind\u00fastria de viagens e hospitalidade. Por que a responsabilidade pela seguran\u00e7a continua recaindo, em grande parte, sobre a pr\u00f3pria viajante?<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, cada indiv\u00edduo deve adotar medidas de precau\u00e7\u00e3o. Isso vale para homens e mulheres. No entanto, quando observamos a quantidade de mecanismos de autoprote\u00e7\u00e3o criados especificamente por mulheres, percebemos que existe uma diferen\u00e7a importante entre sentir-se seguro e precisar construir sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente nesse ponto que acredito que o setor pode evoluir.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos sobre seguran\u00e7a em hot\u00e9is, frequentemente pensamos em c\u00e2meras, controle patrimonial ou preven\u00e7\u00e3o de perdas. S\u00e3o aspectos essenciais, mas talvez seja o momento de ampliar essa discuss\u00e3o e olhar para a experi\u00eancia da mulher viajante sob uma perspectiva mais abrangente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem pode acessar os andares dos h\u00f3spedes? Os controles de seguran\u00e7a s\u00e3o realmente eficazes? As equipes sabem como agir diante de situa\u00e7\u00f5es suspeitas? E as necessidades das mulheres viajando sozinhas est\u00e3o, de fato, contempladas nos protocolos internos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas quest\u00f5es n\u00e3o deveriam ser vistas como diferenciais. Deveriam fazer parte de uma reflex\u00e3o permanente sobre hospitalidade, acolhimento e cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Agosto Lil\u00e1s nos lembra tamb\u00e9m que a preven\u00e7\u00e3o e o enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher n\u00e3o podem ser responsabilidade exclusiva das pr\u00f3prias mulheres. Essa \u00e9 uma responsabilidade coletiva, que envolve a sociedade, as institui\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m os diferentes setores que fazem parte de sua rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>No universo das viagens, essa reflex\u00e3o se torna especialmente importante. Nos deslocamos sozinhas para trabalhar, estudar, participar de eventos, conduzir neg\u00f3cios e conhecer novos destinos. Garantir que esses deslocamentos aconte\u00e7am em ambientes cada vez mais seguros tamb\u00e9m deve fazer parte do compromisso de toda a cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema ganha ainda mais relev\u00e2ncia quando observamos a crescente presen\u00e7a feminina em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e a amplia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das mulheres em viagens corporativas. Cada vez mais executivas, empreendedoras, gestoras, consultoras e profissionais especializadas percorrem o mundo representando empresas, conduzindo negocia\u00e7\u00f5es e participando de eventos estrat\u00e9gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o importante do mercado de trabalho e, consequentemente, do perfil dos viajantes corporativos. Se o setor busca oferecer experi\u00eancias cada vez mais personalizadas, precisa compreender tamb\u00e9m as preocupa\u00e7\u00f5es que acompanham essas profissionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de criar privil\u00e9gios ou tratamentos diferenciados, mas sim&nbsp; de reconhecer realidades distintas e desenvolver solu\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa reflex\u00e3o tamb\u00e9m passa pela cultura organizacional das empresas. Programas de viagens corporativas costumam discutir or\u00e7amento, produtividade, pol\u00edtica de deslocamento e gest\u00e3o de despesas. Por\u00e9m, ainda s\u00e3o poucas as organiza\u00e7\u00f5es que incorporam de forma estruturada discuss\u00f5es sobre seguran\u00e7a sob a \u00f3tica feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>O dever de cuidado, t\u00e3o presente nas pautas corporativas atuais, precisa considerar n\u00e3o apenas o deslocamento do colaborador, mas tamb\u00e9m a sua integridade f\u00edsica e emocional ao longo de toda a jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>Falo sobre esse tema porque j\u00e1 vivi situa\u00e7\u00f5es que marcaram minha trajet\u00f3ria como viajante. J\u00e1 tive minha privacidade invadida dentro de um hotel durante a madrugada. E experi\u00eancias como essa deixam de ser epis\u00f3dios isolados para se tornarem refer\u00eancias permanentes na forma como passamos a avaliar cada novo ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, a aten\u00e7\u00e3o se torna mais agu\u00e7ada. Os protocolos pessoais aumentam. E a sensa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade acompanha deslocamentos que deveriam ser encarados apenas como oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional. Por isso, acredito que o futuro da hospitalidade passa tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o de ambientes onde a seguran\u00e7a n\u00e3o seja percebida apenas quando algo d\u00e1 errado. Ela precisa estar presente de forma silenciosa, eficiente e preventiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O que desejo para os pr\u00f3ximos anos \u00e9 que as mulheres possam viajar com mais tranquilidade, sem precisar recorrer a solu\u00e7\u00f5es improvisadas para garantir uma boa noite de sono. Que o setor de viagens, eventos e hospedagem continue avan\u00e7ando em inova\u00e7\u00e3o, mas sem perder de vista aquilo que sustenta qualquer experi\u00eancia positiva: a confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque uma viagem verdadeiramente bem-sucedida n\u00e3o \u00e9 apenas aquela que entrega conforto, conectividade, conveni\u00eancia ou a concretiza\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios. \u00c9 aquela em que a viajante consegue fechar a porta do quarto, descansar e ter a certeza de que algu\u00e9m j\u00e1 pensou na sua seguran\u00e7a antes mesmo de ela chegar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Luana Nogueira, diretora-executiva da Alagev<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agosto foi marcado pela campanha Agosto Lil\u00e1s, dedicada \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o e ao enfrentamento da viol\u00eancia contra a mulher. 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