Causas de um “acidente aéreo”

As últimas notícias em relação à Avianca Brasil, que lemos tanto no Portal PANROTAS quanto em portais B2C e jornais de grande circulação, são, e não há outra palavra, ASSUSTADORAS. Lá em dezembro, o anúncio era de poucos voos cancelados. Depois todos os internacionais. Em seguida, poucas dezenas, tudo reajustável na malha da companhia. Passado o carnaval, o cerco (dos credores) se apertou e na semana passada as manchetes já falavam em mais de MIL voos cancelados. Pode repetir, por favor? Sim, o cancelamento de voos está na casa dos milhares. Um aperto no peito para os diversos fãs da companhia, e para quem já viveu situações como essa no passado. Por fim, a empresa decidiu focar em quatro aeroportos: Congonhas (SP), Santos Dumont (RJ), Brasília e Salvador. Além disso, na Colômbia, a Avianca Holdings, que faz questão de frisar que nada tem a ver com a empresa brasileira em crise, lida com a publicidade negativa vinda do Brasil, com corte de voos e a renúncia de seu presidente.

Como em todo acidente aéreo (ou na maioria deles) não há uma só causa para a fatalidade ou o transtorno. Sim, pode haver um erro com peso maior que os demais ou algo mais vultoso, mas geralmente há reação em cadeia, um misto de decisões erradas, falhas técnicas e até azar. Um dos fatores mais gritantes (no Brasil) no caso da recuperação judicial de uma empresa aérea (já vimos Varig, Vasp, Transbrasil passarem por processos similares ou iguais) é o timing/envolvimento do governo com o problema em si.

Se estamos falando de uma concessão pública, o governo deveria ser mais ágil, presente e assertivo nas decisões. Parece que apenas observa e anota. Observa e anota. E quando questionado, abre a pastinha de normativas da Anac e diz que o passageiro tem o direito de pedir reembolso blá blá blá.

Sabemos que a Justiça no País é lenta, que as decisões de governo são burocráticas, que aviação não é vista como prioridade ou uma força estratégica (apesar dos esforços da Abear)… Mas não dava para ter uma sala de crise para decisões rápidas e que gerem resultados? Para evitar esse triste quadro de milhares de voos cancelados, aeroportos pedindo pagamento adiantado, funcionários sem receber rescisões, passageiros desorientados e sem viajar, prejuízos para todos…

O pedido de recuperação é outro lado dessa figura de erros. Todos foram pegos de surpresa e parecia ser uma jogada para ganhar tempo. Uma briga com credores… Entra a culpa da administração da empresa: como deixam uma companhia chegar ao ponto de que ou pedia RJ ou perdia aeronaves? Quem negociou esses contratos? Quem estava falando com os credores? As autoridades nada sabiam? Não é uma concessão do governo?

Pouco antes (do pedido), um novo vice-presidente chegara na companhia e duvidamos que no processo de contratação tenham dito: venha para a Avianca Brasil, vamos entrar em recuperação judicial e até abril devolveremos a maior parte de nossa frota. Portanto, a cartada da recuperação foi mesmo tirada da manga, aos 45 do segundo tempo. É o que parece.

Pois bem, o começo da RJ foi um pouco angustiante, pela surpresa, mas os comunicados com o trade e a apresentação do plano deixaram a maioria entre realistas e otimistas. Não havia pessimismo e o trade continuou vendendo a empresa, na medida do possível. Houve até quem adiantasse dinheiro para a companhia, em mostra clara de boa fé.

Com o tempo, a assessoria de comunicação da empresa passou a se posicionar com a frase lacônica: “nada a declarar”. Ou ainda “não vamos comentar”. Estranho… Muito estranho.

O presidente da Avianca Brasil, que jamais havia se manifestado (e nesses casos pede-se um líder que no mínimo dê a cara a tapa ou acalme os clientes) saiu da companhia… E o otimismo foi se aproximando de um realismo receoso. Passado o carnaval, com a operação indo bem para uma empresa em recuperação, começaram os cancelamentos maiores, devolução ou retomada de aeronaves, e até a mão pesada do governo, via Anac, sem dó nem pena…

A proposta da Azul deu uma animada no cenário, mas já se previa então que a empresa não continuaria com as próprias pernas (ou asas) e que a companhia de Alphaville (SP) sairia fortalecida. Durante a WTM Latin America, no começo de abril, Latam e Gol entram na disputa e aí já era a claro o futuro fatiamento da Avianca Brasil, com um pedaço para cada player.

A demora para se marcar o leilão, a troca de farpas entre Azul e as demais concorrentes, o distanciamento do governo, o silêncio público do trade (quando nos bastidores só se fala nisso) e o “nada a declarar” da empresa não deixam dúvidas. A Avianca Brasil chegou onde ninguém queria (ou esperava lá em dezembro).

O que se conclui até agora? Aviação e Turismo ainda precisam de mais lobby político e visibilidade. Fato 1.

As companhias precisam de mais transparência em momentos de crise. Fato 2. E conversamos bastante com a empresa sobre isso no começo do processo, mas a estratégia de comunicação foi (não se sabe se propositalmente) muito equivocada. Até as reuniões com o trade eram sigilosas.

O governo não pode deixar um concessionário público escorrer pelas mãos e nada fazer, prejudicando passageiros, funcionários, vendedores, acionistas e toda uma indústria. E mesmo apontando para soluções que poderiam resolver a crise da Avianca (como 100% de capital estrangeiro nas aéreas nacionais), não agiu para que isso, e outras medidas, chegassem mais rapidamente. Fato 3.

E o silêncio oficial da empresa (à imprensa, aos passageiros, que ligam na PANROTAS para pedir conselhos!!!!!!!!!!, a quem interessa), não há como negar, não ajuda em um caso como esse. Se eu tenho dúvidas (em relação  a um produto), não compro. Se não tenho certeza, vou em outras companhias. E vem o efeito dominó de novo. Fato 4.

De quem é a culpa? Talvez um dia consigamos saber onde tudo começou… mas culpados há vários pelo caminho. Já vimos esse filme antes? Apostamos que não. Varig foi um caso diferente da Vasp, que também foi diferente da Transbrasil… A não ser pela passividade do governo. Mas o caso Avianca Brasil, que ainda não terminou (quando será o leilão? Dia 7 mesmo? Como a empresa chegará ao leilão? Como fica a participação do Brasil na Star Alliance? E a Avianca Colômbia? E o acordo com Copa e United? Muito a ser respondido ainda…), parece ter suas particularidades… Passos maiores que as pernas, no caso do internacional? Má gestão? Crise brasileira? Custos altos? Azar? O famoso efeito dominó? Que pode ter acontecido? Quem terá visto a primeira peça cair? E que medidas tomou (ou não) para evitar que todo a fileira de dominós desabasse na sequência?

Aguardemos, com um fio de otimismo, como todo bom brasileiro.

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Artur Andrade

Artur Luiz Andrade é carioca, taurino, jornalista e nasceu em 1969. É editor-chefe da PANROTAS Editora e mora em São Paulo desde 1998

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