Os governos federais dos últimos 20 anos bem que tentaram, alguns com mais e outros com menos empenho, mas pouca ou nenhuma evolução fizemos nas tão faladas reformas política, tributária e trabalhista.
Outras reformas não foram completas, mas foram suficientes, se não para resolver, ao menos para amenizar as questões de que tratam, como as reformas previdenciária, ambiental e, principalmente, a reforma social.
Não me refiro, no terceiro caso, ao Bolsa Família ou a outros planos assistencialistas do governo, apesar de reconhecer sua profundidade e importância na distribuição de renda às camadas mais pobres da população.
Acredito que a principal revolução com impacto social deu-se no inconsciente coletivo, na mentalidade e na atitude das pessoas em relação ao tema social.
Fato semelhante ocorre com o tema sustentabilidade, codinome da responsabilidade ambiental, conceito já existente em 8 de 10 objetivos, missão ou visão das empresas.
Já a questão social é ainda mais complexa, pois se o planeta precisa de ajuda nos próximos 50 anos, seus habitantes precisam de ajuda hoje, agora, já…
Penso que o compromisso social é, portanto, tão ou mais importante do que a responsabilidade ambiental, devido à sua urgência e, sobretudo, à seu carater irrecuperável.
Para ter-se uma ideia da carência absoluta de bons projetos nesta área, basta observar o extraordinário resultado nas populações onde o Bolsa Família foi implantado: melhora o IDH, reduz a evasão e a repetência escolar, aumenta o consumo de proteínas, aumenta a expectativa de vida, reduz o analfabetismo e cria oportunidades de trabalho.
Um plano com todas essas “virtudes” só não é unanimidade devido à impossibilidade de ser mantido eternamente e aos detratores do comportamento paternalista do Estado sobre o cidadão.
De qualquer forma, entre as reformas faltantes, a trabalhista parece-me a de maior impacto sobre a empregabilidade e, portanto, sobre a vida das famílias, o que, por si só, bastará para ajudar ainda mais o crescente desenvolvimento da economia brasileira.
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Prezado Luis Vabo,
Sou fã de carteirinha de seus posts e de seu estilo elegante de escrever. Entretanto, isso não me impede de discordar, ainda mais tendo a certeza de que, com sua competência e cultura, haverá de entender que ter opiniões diferentes sobre este ou aquele tema não nos coloca, necessariamente, em campos opostos. Posto isto sigo adiante com minha discordância com relação a umas poucas afirmações que você faz no seu texto basicamente correto (do meu ponto de vista, claro).
Coincidentemente sou um dos detratores do comportamento paternalista do Estado. Tenho minhas razões. Vivi muitos anos sob uma ditadura feroz e acompanhei de perto sua derrubada em 1974. Então, passei a viver sob a tutela de um Estado paternalista, socialista, convencido de que o povo, depois de passar 40 anos sob uma ditadura de direita, precisava de tutela ideológica para agir, pensar, lutar, enfim, viver. Saímos de uma ditadura de direita para uma de esquerda, mas no final era tudo a mesma coisa: DITADURA. Com o tempo as coisas tomaram jeito e hoje o país a que me refiro é um bom exemplo para o Brasil, embora continue com muitos e graves defeitos.
Bom, o que quero dizer é que não acredito num Estado paquidérmico e controlador, se metendo em todos os aspectos da vida do cidadão como se fosse um Big Brother político, interventor e paternalista. Tradicionalmente o governo é um péssimo administrador, todos comprovamos isso da forma mais amarga. Os planos assistencialistas como o Bolsa Fanília, com vários efeitos benéficos de curto prazo, não nego, são, na verdade, uma grande arapuca. servem, no médio prazo, para subjugar os mais humildes, escravizar seu espírito de sobrevivência para garantir a seara dos votos de cabresto. É o coronelismo do século 21. Basta viver aqui no nordeste para comprovar o que estou falando. Dar o peixe sem ensinar a pescar é uma estratégia que só interessa mesmo a um Estado paternalista, cujo governo tem como projeto principal a perpetuação no poder a qualquer custo. E haja custo! Não sou contra esses programas, mas eles precisam vir acompanhados de estratégias e ações que permitam ao cidadão desenvolver-se por seus próprios meios e isso só se consegue com educação e não com esmola. Sem isso, o que conseguimos são apenas melhoras pontuais nos índices de IDH, que servem mais como propaganda para perpetuar a situação, do que propriamente como sustentáculo do desenvolvimento responsável. Aqui no nordeste há centenas de pequenos empresários e comerciantes que não conseguem contratar mão de obra por dificuldade de encontrar trabalhadores dispostos a ter a carteira assinada, pois perderiam o subsídio do Bolsa Família. Parece piada, mas é a pura verdade. Distribuir esmola por tanto tempo e com tanta aplicação tática só vai servir para que o Estado mantenha o domínio sobre essas populações, impedindo seu desenvolvimento sustentável, mas garantindo votos fartos. É esse o principal resultado da política demagógica de um governo que, embora com muitos acertos no varejo, ainda erra demais no atacado. A conta virá, estamos criando uma geração de imbecis (na verdadeira acepção da palavra), e não tardaremos a descobrir que o Bolsa Família, depois de descontadas as vantagens, não passava de manipulação. Repito, reconheço os avanços levados a cabo pelo atual governo, é inegável que vivemos outro clima e abrem-se novas perspectivas, porém, grande parte disso é pura cortina de fumaça e o país vai pagar muito caro esse delírio assistencialista se não investir, urgente e maciçamente em educação básica. No mais, concordo com você que o povo está mais feliz e com melhor alimentação. Afinal, desde tempos imemoriais, o que o povo quer é mesmo pão e circo!
Prezado Rui,
Confesso que eu estava com saudades de seus comentários, sempre lúcidos e bem argumentados.
Parece-me que meu post é que não foi muito claro, pois não opinei sobre o paternalismo do Estado, do qual também sou um detrator !
Afirmei apenas que o Bolsa Família não é unanimidade devido à impossibilidade de ser mantido por longo prazo (refiro-me aqui a 20 ou 30 anos), justamente para impedir o que você bem denuncia a respeito de “pescadores que preferem comer as iscas à pescar” e devido a todas as pessoas, como nós dois, que são contra o comportamento paternalista do Estado.
Curiosamente, você elogia o meu texto, quando este não foi claro em expressar a minha opinião.
Agradeço por esta oportunidade de melhoria.
[]’s
Luís Vabo
Luis,
Na verdade o meu elogio referia-se ao seu texto (traço) como um todo, ou seja, exatamente à sua capacidade de fazer com que reflitamos a respeito do que escreve, o que faz com muita clareza. Desta vez, entretanto, confesso que depois de reler o post e o seu comentário duas vezes, cheguei à conclusão que eu é que me perdi na interpretação, pois agora ficou muito clara a sua opinião a respeito do assunto. É que a política é uma grande paixão (amadora, confesso) e devo ter-me deixado envolver pela impetuosidade característica dos apaixonados, o que acabou comprometendo minha capacidade de interpretação. Enfim, tudo está bem quando as pessoas se entendem, de resto, deve ser reflexo do clima de carnaval que se aproxima (embora eu goste tanto dele quanto de Estados paternalistas…rssss).
desculpe-me, por favor, pela falha na interpretação, e tenha um bom carnaval. Fico esperando ansiosamente seu próximo post. É sempre uma oportunidade de ter uma aula de lucidez.
Abraço.
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