Salve a espiritualidade de rua

São Paulo, por incrível que pareça, também pode ser vivida como destino de viagens espirituais quando a experiência proposta conduz à transformação interior, à ampliação de consciência e ao encontro com formas legítimas de transcendência. Não estou falando do Mosteiro de São Bento, o Museu de Arte Sacra, Templo de Salomão, tampouco alguns dos mais tradicionais terreiros da cidade. No contexto urbano, a espiritualidade frequentemente se manifesta por meio da arte, especialmente quando ela atua como espelho crítico da sociedade e como espaço de elaboração simbólica, seja na quadra da Vai-Vai, seja em um teatro no melhor estilo Broadway. A temporada de 2026 de Ópera do Malandro, em cartaz no Teatro Renault, insere-se com força nesse tipo de percurso.

A obra parte de uma ambientação histórica situada nos anos 1940 para discutir temas estruturais da vida social brasileira, como marginalidade, desigualdade, autoritarismo, moralismo seletivo e resistência popular. Longe de oferecer caricaturas, o texto constrói personagens complexos que revelam as engrenagens simbólicas e políticas que sustentam relações de poder, exclusão e sobrevivência.

A nova montagem de Ópera do Malandro chega aos palcos em 2026 com proposta renovada e olhar contemporâneo sobre um dos títulos mais emblemáticos do teatro musical brasileiro. Dirigido por Jorge Farjalla marca quase cinco décadas da criação original de Chico Buarque, mas mantem-se vibrante, atemporal. Muito viva e imprescindível para se entender um Brasil decolonial.

A encenação atualiza a obra sem perder sua força crítica. Muito pelo contrário, evidencia a corrupção e hipocrisia em diferentes situações, articulando humor, música e comentário social em uma narrativa que dialoga com o Brasil dos anos 2020. A montagem aposta em uma estética exuberante, com cenários e figurinos que reforçam o caráter urbano e popular da história. O texto mantém sua ironia afiada ao tratar de temas como poder, dinheiro, corrupção, desejo e moralidade.

Ambientada na Lapa carioca dos anos 1940, Ópera do Malandro tem como eixo central a trajetória de Max Overseas, um contrabandista elegante e astuto que constrói sua fortuna explorando as brechas entre a legalidade e a corrupção. Max circula com desenvoltura entre cafetões, policiais, empresários e autoridades, mantendo uma imagem sofisticada que esconde práticas ilícitas e alianças oportunistas.

A trama se desencadeia quando Max se casa secretamente com Teresinha, filha de Duran e Vitória, proprietários de bordéis influentes na região. O casamento não é apenas um gesto amoroso, mas também uma estratégia que ameaça o equilíbrio de poder e os interesses econômicos dos pais da jovem. Sentindo-se traídos, Duran e Vitória passam a articular formas de desestabilizar o genro, expondo suas atividades ilegais e tentando retomar o controle da situação.

O elenco reúne nomes experientes do teatro musical brasileiro, responsáveis por dar nova vida a personagens já consagrados pelo público. A direção musical valoriza as canções conhecidas da obra, apresentadas com arranjos que preservam sua identidade e ampliam sua potência cênica. Pela primeira vez na história, Geni é interpretada por uma mulher transexual. Lembrando que Andrea di Maio, rainha da noite underground paulistana entre 1980 e 2000, esteve nos palcos substituindo temporariamente Emiliano Queiroz na primeira montagem.

Com temporada prevista até março, e apresentação extra, amanhã, quinta-feira, 5 de fevereiro, o espetáculo se consolida como um dos destaques da programação cultural paulistana, atraindo tanto admiradores da obra original quanto novos espectadores interessados em grandes produções nacionais.

A encenação reconhece a presença simbólica da rua, da festa e da coletividade como espaços de saber, organização e cuidado. Nesse horizonte, referências a tradições da chamada esquerda na Umbanda e em alguns rituais de Candomblé aparecem como expressões de força espiritual, inteligência ética e capacidade de mediação diante de contextos adversos.

Figuras como Exu, Zé Pelintra e Maria Padilha são evocadas não como símbolos de ambiguidade moral, mas como potências de equilíbrio, proteção, resistência e transformação. Representam a sabedoria dos cruzos e das encruzilhadas, a capacidade de transitar entre mundos, negociar conflitos e restaurar dignidade em contextos marcados por opressão, resistência e re-existência. Nesse sentido, a espiritualidade apresentada pela montagem é afirmativa, ética e profundamente humana, enraizada na experiência histórica do povo brasileiro.

Do ponto de vista da produção, o espetáculo se destaca pela escala e pela qualidade técnica. A realização é assinada pela Solo Entretenimento em parceria com a Palco 7 Produções, com cenografia e iluminação de grande impacto visual, figurinos elaborados e direção musical de Gui Leal, que atualiza os arranjos mantendo a identidade original da obra. O elenco reúne nomes amplamente reconhecidos da TV e do teatro musical brasileiro, entre eles José Loreto, Valéria Barcellos, Totia Meirelles, Ernani Moraes e Amaury Lorenzo, compondo um conjunto cênico de grande força expressiva.

A recepção do público tem destacado a intensidade emocional do espetáculo e sua capacidade de gerar identificação coletiva. A experiência não se limita à contemplação estética, mas produz deslocamentos internos, convidando à reflexão sobre ética, justiça social, cuidado comunitário e responsabilidade histórica. É justamente esse movimento que aproxima o espetáculo de uma proposta de turismo espiritual urbano. Mexeu profundamente comigo e com milhares de pessoas da plateia.

Para o turismo espiritual, esse tipo de experiência é particularmente relevante porque desafia a ideia de espiritualidade como conforto ou elevação abstrata. Aqui, o recolhimento e a transcendência acontecem pelo incômodo produtivo, pela confrontação com dilemas éticos reais e pela exposição de estruturas de opressão, hipocrisia e desigualdade que seguem operando no presente. Não é ( ou talvez seja principalmente) para o jovem místico imaturo. A peça não oferece respostas fáceis, mas cria um espaço simbólico onde o espectador é convidado a refletir sobre responsabilidade, escolha, redenção e humanidade.

Inserir Ópera do Malandro em um roteiro cultural, de entretenimento e sobretudo espiritual em São Paulo significa reconhecer o teatro como espaço sagrado, ritual, a arte como instrumento de consciência e a cidade como território simbólico de passagem. A montagem de 2026 oferece uma travessia que afirma a espiritualidade como força de vida, resistência e reconstrução, mostrando que, mesmo em cenários marcados por conflito, existem saberes capazes de sustentar, proteger e transformar os personagens, os atores e nós próprios.

QUANDO ASSISTIR

Local
Teatro Renault – Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, República, São Paulo, SP, Brasil. A casa tem capacidade para cerca de 978 pessoas, acessibilidade para cadeirantes, bilheteria com funcionamento regular e estacionamento nas proximidades.

Temporada
De 23 de janeiro a 15 de março de 2026.

Horários das sessões
Sextas-feiras às 21h
Sábados às 17h e 21h
Domingos às 15h e 19h

Ingressos
Ingressos podem ser adquiridos online pelo site oficial de vendas ou na bilheteria do teatro, com opções de valores que variam conforme setor e tipo de assento.

Faixa de preços
Os valores dos ingressos vão aproximadamente de R$25 a R$350, dependendo do setor e do tipo de entrada (inteira ou meia).

Classificação indicativa
Recomendado para maiores de 14 anos.

Duração estimada
Cerca de 120 minutos.

Como comprar
As entradas estão disponíveis pelo site oficial de vendas e também diretamente na bilheteria do teatro, sem taxa de conveniência, durante o horário de funcionamento.

Patrocínio : Petrobrás

Rota de Paulo de tarso atrai turistas religiosos

Peregrinação internacional percorre locais sagrados na Turquia, Grécia e Itália e revela a trajetória do apóstolo Paulo em suas missões pelo mundo antigo

A fé e a história se entrelaçaram em um dos roteiros mais simbólicos do turismo religioso internacional: a Rota de São Paulo . Inspirado nas viagens missionárias do apóstolo Paulo de Tarso, o percurso atrai peregrinos, estudiosos e turistas em busca das origens do cristianismo e da cultura mediterrânea. Entre paisagens arqueológicas e cidades modernas, o itinerário passa por três países-chave — Turquia, Grécia e Itália — e reconstitui o itinerário descrito no Novo Testamento.

Paulo, considerado um dos grandes divulgadores da fé cristã no mundo greco-romano, percorreu milhares de quilômetros em missões evangelizadoras durante o século I. Seu legado é celebrado por meio de igrejas, ruínas, sinagogas e centros culturais que contam sua história com profundidade e emoção.

Na Turquia , os visitantes podem conhecer Tarso , cidade natal de Paulo, além de importantes polos da Ásia Menor como Éfeso, Icônio, Listra, Derbe e Antioquia da Pisídia . Esses locais preservam ruínas romanas e memoriais cristãos que testemunharam os primórdios da fé no Oriente.

O roteiro segue para a Grécia , onde Paulo realizou sua primeira grande missão europeia. Em cidades como Filipos, Tessalônica, Berea, Atenas e Corinto , ele esconde debates filosóficos, exclusivos e perseguições. Hoje, igrejas ortodoxas, sítios destruídos e museus narram esses momentos cruciais da história cristã.

A jornada culmina na Itália , com destaque para Roma , onde, segundo a tradição, Paulo foi preso, escreveu cartas e acabou martirizado. A Basílica de São Paulo Extramuros , a Via Ápia e a prisão de Mamertino são paradas obrigatórias para quem deseja reviver seus últimos passos.

Mais do que uma simples viagem, a Rota de São Paulo é uma tradição espiritual e cultural. Ela oferece não apenas a chance de explorar lugares históricos, mas também de reflexão sobre fé, resistência e transformação — valores universais que ainda ecoam nos caminhos do apóstolo.

Turquia – As raízes e as primeiras missões

A atual Turquia, na Antiguidade conhecida como Ásia Menor, abriga o início da jornada paulina.

  • Tarso : cidade natal de Paulo. Visite a Igreja de São Paulo e o poço tradicionalmente ligado à sua infância.
  • Antioquia da Pisídia : onde Paulo teria pregado em uma das primeiras comunidades gentílicas. Ruínas da basílica e do teatro romano revelam a imponência do lugar.
  • Éfeso : uma das cidades mais importantes do mundo antigo. Paulo viveu ali por três anos. O grande teatro, a Biblioteca de Celso e a Igreja de São João compõem o roteiro.
  • Icônio, Listra e Derbe : cenário das primeiras perseguições e especificidades. Guias locais ajudam a localizar os pontos de relevância bíblica.

Experiência recomendada : Trilhas históricas e visitas reflexivas com guias especializados em cristianismo primitivo.

 Grécia – Debates filosóficos e as primeiras comunidades na Europa

Paulo desembarcou na Europa por Filipos e iniciou uma jornada que mescla fé e debates intelectuais.

  • Filipos : local do batismo de Lídia, a primeira convertida europeia. O rio Zygaktis permite vivenciar renovações simbólicas de fé.
  • Tessalônica : ruínas e roupas mostram a tensão entre a mensagem cristã e a vida urbana helenística.
  • Berea : onde os bereanos, elogiados por Paulo, investigavam cuidadosamente as Escrituras.
  • Atenas : palco do famoso discurso no Areópago, onde Paulo confronta os epicuristas e estoicos sobre o “Deus desconhecido”.
  • Corinto : centro comercial onde Paulo viveu por 18 meses. Visitas ao tribunal (bema) e à estrada romana de Cencréia marcam a viagem.

Experiência recomendada : Leitura pública de Atos 17 com vista para a Acrópole, em Atenas, ou estudos bíblicos guiados em Berea.

 Itália – Prisão e martírio

O roteiro culmina em Roma, onde Paulo teria sido prisioneiro e martirizado.

  • Basílica de São Paulo Extramuros : erguida sobre o local de seu suposto túmulo.
  • Prisão Mamertina : onde Paulo teria ficado preso com Pedro.
  • Via Ápia : estrada por onde entrou em Roma, hoje caminho de peregrinação.
  • Vaticano e igrejas paulinas : visitas às sete igrejas tradicionais incluem memórias das cartas paulinas.

Experiência recomendada : peregrinação guiada pelas sete igrejas de Roma com abordagem na missão de Paulo e sua influência no cristianismo ocidental.

Entre fé e história: uma viagem de transformação

Mais do que um trajeto turístico, a Rota de São Paulo propõe uma imersão espiritual, cultural e histórica. Em cada cidade, ruína ou paisagem, o visitante é convidado a revisitar os dilemas enfrentados por Paulo: fé e razão, tradição e inovação, confronto e conciliação.

Para muitos, essa peregrinação é também um reencontro pessoal — com a fé, com as origens e com um mundo que ainda carrega os ecos das palavras do apóstolo que disse: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7) .

Governo de SP lança Guia Turístico Judaico

A Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP), em parceria com a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), o Memorial do Holocausto e o Museu Judaico de São Paulo, lançou oficialmente o Guia Turístico Judaico durante o mês dedicado à celebração da imigração judaica. O evento de lançamento ocorreu na quinta-feira, 20 de março, às 14h, na sede da Setur-SP.

A publicação reúne mais de 50 atrativos turísticos relacionados à cultura judaica no Estado de São Paulo, incluindo museus que preservam memórias de resistência e superação, sinagogas históricas, restaurantes kosher reconhecidos, lojas especializadas e uma agenda de festivais. O guia visa fortalecer a valorização do legado judaico na identidade cultural paulista. A iniciativa integra um conjunto de ações previstas em protocolo de intenções firmado entre a Setur-SP e a Fisesp.

O Guia Turístico Judaico está disponível gratuitamente em versão digital, nos idiomas português e hebraico, por meio do portal oficial da secretaria: www.turismo.sp.gov.br/guia-de-turismo-judaico.

Durante o evento, o vice-governador Felício Ramuth destacou o papel do Estado na promoção da inclusão e no respeito à diversidade cultural e religiosa. O secretário de Turismo, Roberto de Lucena, reforçou que a contribuição da comunidade judaica é parte fundamental da construção de São Paulo como um estado plural e democrático. “São Paulo é essencialmente inclusivo, e não tolera preconceito, discriminação ou antissemitismo”, afirmou.

São Paulo recebeu a primeira comunidade judaica das Américas e, atualmente, abriga a segunda maior comunidade judaica da América Latina, composta por cerca de 110 mil judeus.

O guia integra o Programa de Turismo Religioso Paulista, que já lançou publicações voltadas a outras expressões de fé, como roteiros evangélicos, católicos e circuitos que destacam monumentos dedicados a Cristo no interior e litoral do Estado. O programa tem como objetivo promover a diversidade religiosa e valorizar as múltiplas manifestações de fé presentes na população paulista.

Marcos Knobel, representante da Fisesp, ressaltou o impacto cultural da iniciativa: “Este guia é um marco para o turismo cultural em nosso Estado. Ele contribui para tornar a herança judaica mais acessível, seja por meio da história, da gastronomia ou das vivências culturais. O turismo judaico é um segmento em expansão, e esta publicação será uma ferramenta valiosa para sua promoção”.

O Rabino Toive Weitman, diretor do Memorial do Holocausto, também celebrou o lançamento. “São Paulo foi o refúgio escolhido por inúmeros imigrantes judeus e sobreviventes do Holocausto, que aqui reconstruíram suas vidas e deixaram marcas profundas na cidade. Este roteiro representa uma oportunidade singular de imersão na memória coletiva, homenageando a resiliência e a contribuição dessa comunidade para o desenvolvimento da capital e do Estado”, concluiu.