Todos estamos incomodados, algumas palestras e debates já rolaram sobre este assunto espinhoso, mas a pergunta que não quer calar continua na cabeça de todo mundo:
Afinal, de quem é a responsabilidade pelas fraudes na emissão de bilhetes aéreos, que inundaram o mercado de viagens e turismo em 2013?
As cias. aéreas, porta de entrada natural para a tentativa de invasão de hackers (por serem o prestador do serviço e vendedor final do bilhete aéreo), foram fraudadas na bagatela de R$ 300 milhões no Brasil em 2013 e não me perguntem de onde vem este dado, não comprovado.
As agências de turismo, em especial as OTA’s, já convivem com as fraudes há muitos anos, o que gerou um novo mercado de tecnologias preventivas, todas prometendo não fechar a porta, mas reduzir a fresta pela qual os fraudadores podem lesar a sua empresa.
As agências especializadas em gestão de viagens corporativas, de uma forma geral, acreditavam estar seguras em relação a este tipo de ação, mas acabaram sentindo na carne que o problema fraude é igual a ameaça à saúde pública: ninguém está imune e se nada for feito para evitar, é apenas uma questão de tempo quando uma epidemia vai pegar você.
Sim, as fraudes tornaram-se epidêmicas…
E corre todo mundo para fechar a porteira, sistemas integradores anunciam ferrolhos eficazes, outros desenvolvem cadeados “inovadores”, chaveirinhos, tokens, senhas, contra-senhas, algoritmos indecifráveis, tentando atestar via marketing que “aqui fraudador não tem vez”…
Penso que o caminho para divulgar um produto não passa por requisitos de segurança, que são obrigação (e não diferencial) de qualquer site de e-commerce, seja de viagens e turismo ou de qualquer segmento econômico.
Ou alguém já assistiu uma propagando do Itaú ou do Bradesco alardeando os recursos de segurança de seus portais?
Ocorrências relacionadas a segurança da informação impactam negativamente toda a indústria, independentemente de quem é afetado diretamente.
Enquanto existem no Brasil 4 grandes empresas aéreas, meia dúzia de sistemas integradores independentes, outros tantos vinculados a consolidadores e operadoras, ou seja, não mais que uma centena de cabeças pensando em como resolver o problema, estima-se que existam, no mínimo, 10 mil fraudadores eficazes (os não eficazes não preocupam), que estão pensando o contrário, exatamente neste momento, somente no Brasil.
Ou seja, há um contingente pelo menos 100 vezes maior de pessoas tentando fraudar sistemas (e elas estão focando agora nos sistemas de reserva e emissão de bilhetes aéreos), do que de especialistas esforçando-se para blindá-los.
O pior de tudo isso é que nada que seja desenvolvido por essas 100 boas cabeças poderá impedir os comportamentos inseguros dos usuários: “Somente eu e fulano temos a senha e fulano é da minha inteira confiança”…
A verdade é que o e-commerce vive este problema desde que nasceu, por volta de 1996.
Como validar uma intenção de compra, manifestada por alguém que não está presente e, portanto, não pode ter sua identidade comprovada diante do vendedor?
Esta pergunta reveste-se de maior dificuldade ainda, quando relacionada à comercialização por meio eletrônico entre empresas (B2B) e entre empresas, intermediários e consumidor final (B2B2C).
Agora imagine o caso do mercado de viagens corporativas, em que a cia. aérea disponibiliza portais e webservices para agências de viagens comercializarem reservas e emissão de bilhetes aéreos, para empresas consumidoras de viagens corporativas.
Sim, é o B2B2B…
Em qualquer dos casos, penso que as cias. aéreas devem se espelhar nos bancos, ou seja, focar em procedimentos para prevenir fraudes geradas pela pouca aderência dos usuários com o tema segurança da informação.
Este é o ponto, enquanto os sistemas das cias. aéreas, sejam portais de reservas ou webservices, não restringirem e controlarem seus acessos através de uma dúzia de procedimentos e recursos técnicos, comuns no mercado financeiro, não serão um dedo ou dois que impedirão que o furo no dique se transforme num rombo, comprometendo a integridade de toda a represa.
Não precisa reinventar a roda, as tecnologias e os procedimentos já existem, basta a decisão de implementá-los, pelo bem não de A ou de B, mas de todo mercado de viagens e turismo.
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