Duty of Care: a gestão de riscos começa antes do embarque

Quando uma viagem corporativa sai do previsto, a diferença entre improvisar e responder bem costuma estar no que a empresa fez antes de o viajante sair de casa.

Um voo é cancelado no fim do dia. Uma tempestade fecha um aeroporto. Uma manifestação muda o acesso a uma região. Em poucas horas, uma viagem que parecia simples pode exigir novas rotas, decisões rápidas e contato imediato com quem está viajando.

É nessas situações que o Duty of Care deixa de ser um conceito de gestão e se torna bastante concreto.

O termo, que pode ser traduzido como dever de cuidado, trata da responsabilidade das empresas de criar condições para que seus colaboradores viajem com informação, suporte e segurança. E há uma mudança importante de perspectiva aqui: gerenciar riscos não é apenas saber reagir quando algo acontece. É chegar a esse momento preparado para reagir.

E essa preparação começa muito antes do embarque.

Uma política de viagens, por exemplo, não deveria existir apenas para definir limites de gastos ou regras de aprovação. Ela também precisa responder perguntas menos frequentes, mas decisivas: quem o viajante procura em uma emergência? A empresa consegue localizar rapidamente quem está em determinado destino? Os responsáveis pela gestão têm acesso aos itinerários? Há orientação para locais que exigem cuidados específicos?

São questões que parecem secundárias enquanto tudo ocorre como planejado. Até o dia em que deixam de ser.

O mesmo vale para a informação. Hoje, o desafio dificilmente é a falta de alertas. Empresas podem acompanhar condições climáticas, interrupções de transporte, manifestações, questões sanitárias e diferentes acontecimentos ao redor do mundo praticamente em tempo real.

O desafio está em transformar informação em contexto para decidir.

Se ocorre uma situação crítica em determinada cidade, não basta saber que ela aconteceu. É preciso identificar se há colaboradores naquele local, quem são eles, quando estarão lá, qual pode ser o impacto e se alguma ação precisa ser tomada.

É justamente nessa conexão entre risco, localização, itinerário e contexto que os dados passam a apoiar uma gestão mais preventiva.

Tecnologias de monitoramento e inteligência artificial podem ajudar bastante nessa leitura, especialmente ao cruzar grandes volumes de informação e destacar situações que merecem atenção. Mas velocidade, sozinha, não resolve tudo. Uma ferramenta pode sinalizar que existe um problema; decisões mais delicadas continuam exigindo avaliação, comunicação clara e, muitas vezes, atendimento humano.

Há ainda uma etapa pouco lembrada: o que acontece depois que o viajante retorna.

Ocorrências deveriam alimentar a própria gestão. Um problema recorrente em determinada rota, uma falha de comunicação ou uma dificuldade no atendimento pode indicar que algum protocolo precisa mudar. Empresas que analisam essas situações transformam imprevistos em aprendizado e ficam menos dependentes de improvisação na próxima vez.

Nenhuma política elimina todos os riscos de uma viagem. Também não existe tecnologia capaz de antecipar cada mudança de cenário.

Mas existe uma diferença enorme entre ser surpreendido por um problema e ser surpreendido sem saber o que fazer.

Talvez essa seja uma das melhores formas de entender o Duty of Care: não como uma resposta à crise, mas como a estrutura que permite responder melhor quando ela acontece.

Porque, em viagens corporativas, cuidar do viajante começa muito antes de perguntar se ele chegou bem.

Alessandro Silveira
CTCXO | Biosfera Copastur

Viajar a trabalho virou um mercado de R$ 205,6 bilhões no Brasil

*Por Joyce Macieri

Durante muito tempo, falar em viagens corporativas significava falar de passagens aéreas, hotéis, deslocamentos e prestação de contas. Essa visão já não corresponde ao tamanho nem à complexidade que o setor adquiriu. Em 2026, o mercado brasileiro de viagens corporativas caminha para movimentar R$ 205,6 bilhões, crescimento de cerca de 5% em relação ao ano anterior, segundo projeção do Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), realizado pela Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV) em parceria com a FecomercioSP. É um volume que ajuda a dimensionar uma atividade que está diretamente relacionada ao funcionamento das empresas, à geração de negócios e à circulação de profissionais pelo país.

Quando um executivo visita um cliente, uma equipe técnica se desloca para acompanhar uma operação, profissionais participam de uma feira ou uma companhia reúne seus colaboradores, existe uma cadeia de serviços mobilizada para tornar esse deslocamento possível. Aviação, hotelaria, transporte terrestre, tecnologia, meios de pagamento, alimentação, eventos, agências e uma série de fornecedores fazem parte dessa engrenagem. Mas o impacto das viagens corporativas não termina no consumo desses serviços. Elas existem, sobretudo, porque empresas precisam encontrar clientes, negociar, capacitar equipes, visitar unidades, participar de eventos, desenvolver mercados e manter suas operações em movimento.

É justamente por isso que observar as mudanças desse setor também ajuda a compreender algumas das transformações pelas quais passam as organizações. Durante a GBTA Convention 2026, realizada em agosto, em Chicago, ficou evidente que a discussão internacional sobre viagens corporativas se afastou definitivamente de uma agenda concentrada apenas em preço e logística. Inteligência artificial, segurança, sustentabilidade, integração de dados, gestão de riscos e liderança ocuparam parte relevante dos debates.

A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais evidente. Se há pouco tempo aparecia como uma possibilidade para o futuro, agora já está presente no atendimento ao viajante, na análise de dados, na prevenção a fraudes, nos pagamentos e na personalização de serviços. A discussão começa a migrar da adoção da tecnologia para a forma como ela será incorporada às empresas, com atenção à governança, à segurança da informação e aos ganhos efetivos de eficiência.

Ao mesmo tempo, cresce a pressão para reduzir a fragmentação das operações. Reservas, pagamentos, hospedagem, transporte e gestão de despesas ainda podem passar por diferentes sistemas, gerando retrabalho e perda de informações. A integração desses processos tende a ganhar espaço justamente por sua relação direta com produtividade, controle e custos.

A gestão de riscos também avançou na agenda das empresas. Conflitos geopolíticos, mudanças nas regras de imigração, eventos climáticos e questões de segurança exigem capacidade de localizar, informar e prestar suporte aos profissionais durante os deslocamentos. A experiência do viajante passa, portanto, não apenas por conveniência, mas pela capacidade da empresa de responder a situações que podem afetar seus colaboradores e suas operações.

Na sustentabilidade, o movimento é semelhante. Descarbonização, combustíveis sustentáveis para aviação e critérios ESG começam a ser analisados também sob a ótica da eficiência e da competitividade. A tendência é que esses indicadores sejam cada vez mais incorporados às decisões sobre os programas de viagens.

E, em meio ao avanço da automação, a liderança humana permanece no centro dessa transformação. Influência, julgamento, negociação, desenvolvimento de equipes e tomada de decisão ganham importância justamente porque a tecnologia assume uma parcela maior das tarefas operacionais. O desafio não será escolher entre pessoas e tecnologia, mas definir como ambas podem contribuir para melhores decisões.

Essa transformação também amplia o papel do gestor de viagens corporativas, que passa a dialogar com áreas como finanças, tecnologia, recursos humanos, segurança e sustentabilidade. Em um mercado que caminha para movimentar mais de R$ 200 bilhões no Brasil em 2026, decisões sobre deslocamentos estão cada vez mais relacionadas à gestão dos negócios.

Talvez seja essa a principal mudança em curso. O setor começa a deixar para trás a pergunta sobre quanto custa fazer uma viagem para discutir qual resultado ela gera, quais riscos envolve, como pode ser mais eficiente e de que maneira tecnologia e pessoas podem trabalhar juntas para melhorar essa equação.

Joyce Macieri é presidente da Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV)

Quando a segurança da mulher viajante ainda depende dela mesma

Agosto foi marcado pela campanha Agosto Lilás, dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Foi um período que reforça a importância de ampliar o debate sobre segurança, prevenção, acolhimento e responsabilidade coletiva. E essa reflexão também precisa alcançar diferentes espaços e contextos da vida das mulheres, inclusive aqueles relacionados às viagens. 

Há alguns meses, publiquei no Instagram duas fotos tiradas durante viagens corporativas. As imagens chamaram atenção porque mostravam uma situação incomum: uma tábua de passar roupas posicionada atrás da porta do quarto de hotel, funcionando como uma barreira improvisada de segurança.

As fotos são reais. A primeira foi registrada em 2024 e a segunda em 2026. Foram feitas na mesma cidade, mas em hotéis diferentes. E, embora a cena tenha despertado curiosidade e até surpresa em algumas pessoas, a verdade é que ela retrata uma realidade bastante conhecida por mulheres que viajam sozinhas com frequência.

Quem observa a fotografia pode enxergar apenas um objeto apoiado na maçaneta. Eu enxergo algo maior. Vejo a materialização de um sentimento que acompanha muitas profissionais ao redor do mundo: a necessidade constante de avaliar riscos e criar mecanismos próprios de proteção.

De acordo com o Ministério do Turismo, 4 em cada 10 brasileiras (41,8%) já viajaram sozinhas, enquanto 31,4% realizam viagens solo com frequência. Em nível global, as mulheres representam a maioria no segmento de viagens independentes, compondo entre 75% e 84% de todas as viajantes solo do mundo.

O debate também começa a ganhar espaço fora do setor de viagens corporativas. A Forbes Brasil dedicou uma reportagem às experiências de mulheres que viajam sozinhas, reunindo relatos, estratégias de autoproteção e um dado que merece atenção: 62% das brasileiras afirmam já ter deixado de realizar uma viagem solo por questões de segurança. A publicação utilizou como base a pesquisa do Ministério do Turismo em parceria com a Unesco, que deu origem ao Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lançado pelo governo federal com orientações práticas para viajantes e recomendações direcionadas à construção de experiências mais seguras. Mais do que um material informativo, o documento representa um reconhecimento institucional de que a segurança da mulher durante a viagem deixou de ser apenas uma preocupação individual para se tornar uma pauta relevante para todo o ecossistema do turismo. 

E eu faço parte desses números. Viajo regularmente para participar de feiras, congressos, reuniões estratégicas e encontros de negócios. Conheço destinos, hotéis, aeroportos e centros de convenções dos mais diversos perfis. E justamente por estar inserida nesse universo há tanto tempo, percebo que existe um tema importante que ainda recebe menos atenção do que deveria.

Falamos sobre tecnologia, personalização da experiência, sustentabilidade, inteligência de dados, eficiência operacional e inovação. Todos esses assuntos são fundamentais para o desenvolvimento do nosso mercado. Mas existe uma questão que atravessa a experiência de milhares de viajantes e que ainda aparece de forma tímida nas discussões do mercado: a segurança da mulher que viaja sozinha.

Quando uma mulher entra em um quarto de hotel, sua percepção do ambiente muitas vezes é diferente daquela experimentada por outros hóspedes. Enquanto algumas pessoas observam a decoração, a vista da janela ou as comodidades disponíveis, muitas de nós fazem uma análise quase automática do entorno. Avaliam a robustez da fechadura, verificam os acessos ao andar, observam quem circula pelos corredores, identificam rotas de saída e procuram entender se há vulnerabilidades que possam comprometer sua segurança. Esse comportamento não surge por paranoia. Surge pela experiência.

Basta iniciar uma conversa sobre o assunto para perceber o quanto essas histórias se repetem. Em diferentes países, cidades e contextos, mulheres compartilham estratégias semelhantes. Algumas evitam informar que estão viajando sozinhas. Outras pedem quartos próximos aos elevadores. Muitas carregam dispositivos portáteis de segurança. Há quem utilize alarmes para portas, travas adicionais ou aplicativos de monitoramento.

São hábitos que foram incorporados à rotina não porque tragam conforto, mas porque oferecem uma sensação mínima de controle diante de situações que nem sempre dependem delas.

O mais curioso é que essa demanda já é percebida pelo mercado consumidor. Hoje, basta fazer uma busca rápida em plataformas de comércio eletrônico para encontrar uma infinidade de produtos direcionados à proteção durante viagens.

A pergunta que me faço é: por que esse mercado cresce tanto? A resposta talvez seja simples. Porque existe uma necessidade real.Mas existe uma segunda pergunta que considero ainda mais relevante para a indústria de viagens e hospitalidade. Por que a responsabilidade pela segurança continua recaindo, em grande parte, sobre a própria viajante?

Naturalmente, cada indivíduo deve adotar medidas de precaução. Isso vale para homens e mulheres. No entanto, quando observamos a quantidade de mecanismos de autoproteção criados especificamente por mulheres, percebemos que existe uma diferença importante entre sentir-se seguro e precisar construir sua própria segurança.

É justamente nesse ponto que acredito que o setor pode evoluir.

Quando falamos sobre segurança em hotéis, frequentemente pensamos em câmeras, controle patrimonial ou prevenção de perdas. São aspectos essenciais, mas talvez seja o momento de ampliar essa discussão e olhar para a experiência da mulher viajante sob uma perspectiva mais abrangente.

Quem pode acessar os andares dos hóspedes? Os controles de segurança são realmente eficazes? As equipes sabem como agir diante de situações suspeitas? E as necessidades das mulheres viajando sozinhas estão, de fato, contempladas nos protocolos internos? 

Essas questões não deveriam ser vistas como diferenciais. Deveriam fazer parte de uma reflexão permanente sobre hospitalidade, acolhimento e cuidado.

O Agosto Lilás nos lembra também que a prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher não podem ser responsabilidade exclusiva das próprias mulheres. Essa é uma responsabilidade coletiva, que envolve a sociedade, as instituições e também os diferentes setores que fazem parte de sua rotina.

No universo das viagens, essa reflexão se torna especialmente importante. Nos deslocamos sozinhas para trabalhar, estudar, participar de eventos, conduzir negócios e conhecer novos destinos. Garantir que esses deslocamentos aconteçam em ambientes cada vez mais seguros também deve fazer parte do compromisso de toda a cadeia.

O tema ganha ainda mais relevância quando observamos a crescente presença feminina em posições de liderança e a ampliação da participação das mulheres em viagens corporativas. Cada vez mais executivas, empreendedoras, gestoras, consultoras e profissionais especializadas percorrem o mundo representando empresas, conduzindo negociações e participando de eventos estratégicos.

Estamos diante de uma transformação importante do mercado de trabalho e, consequentemente, do perfil dos viajantes corporativos. Se o setor busca oferecer experiências cada vez mais personalizadas, precisa compreender também as preocupações que acompanham essas profissionais. 

Não se trata de criar privilégios ou tratamentos diferenciados, mas sim  de reconhecer realidades distintas e desenvolver soluções compatíveis com elas.

Essa reflexão também passa pela cultura organizacional das empresas. Programas de viagens corporativas costumam discutir orçamento, produtividade, política de deslocamento e gestão de despesas. Porém, ainda são poucas as organizações que incorporam de forma estruturada discussões sobre segurança sob a ótica feminina.

O dever de cuidado, tão presente nas pautas corporativas atuais, precisa considerar não apenas o deslocamento do colaborador, mas também a sua integridade física e emocional ao longo de toda a jornada.

Falo sobre esse tema porque já vivi situações que marcaram minha trajetória como viajante. Já tive minha privacidade invadida dentro de um hotel durante a madrugada. E experiências como essa deixam de ser episódios isolados para se tornarem referências permanentes na forma como passamos a avaliar cada novo ambiente.

A partir desse momento, a atenção se torna mais aguçada. Os protocolos pessoais aumentam. E a sensação de vulnerabilidade acompanha deslocamentos que deveriam ser encarados apenas como oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional. Por isso, acredito que o futuro da hospitalidade passa também pela construção de ambientes onde a segurança não seja percebida apenas quando algo dá errado. Ela precisa estar presente de forma silenciosa, eficiente e preventiva.

O que desejo para os próximos anos é que as mulheres possam viajar com mais tranquilidade, sem precisar recorrer a soluções improvisadas para garantir uma boa noite de sono. Que o setor de viagens, eventos e hospedagem continue avançando em inovação, mas sem perder de vista aquilo que sustenta qualquer experiência positiva: a confiança.

Porque uma viagem verdadeiramente bem-sucedida não é apenas aquela que entrega conforto, conectividade, conveniência ou a concretização de negócios. É aquela em que a viajante consegue fechar a porta do quarto, descansar e ter a certeza de que alguém já pensou na sua segurança antes mesmo de ela chegar.

*Luana Nogueira, diretora-executiva da Alagev