Durante anos, o setor de eventos e viagens corporativas aprendeu a lidar com um sistema tributário complexo, fragmentado e, muitas vezes, imprevisível. Era difícil, mas, de certa forma, já conhecido. A reforma tributária muda esse cenário. E não é exagero dizer que estamos diante de uma das transformações mais profundas da forma como as empresas operarão no Brasil.
A discussão já deixou de ser teórica. Em um webinar promovido pela Alagev em abril, reunindo quase 250 profissionais do mercado, ficou claro que os impactos começaram, ainda que muitos ainda não tenham se dado conta da dimensão dessa mudança.
Existe uma percepção inicial de que a reforma trata apenas da simplificação de impostos. Mas, na prática, ela altera a lógica de funcionamento das empresas. A substituição de tributos como Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto Sobre Serviços (ISS) por um modelo de IVA dual, com Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), traz mais transparência, porém, também exige uma revisão completa de processos, contratos e estratégias comerciais.
Um dos pontos que mais chama atenção é a mudança na forma como o imposto aparece. Ao deixar de estar embutido no preço, ele passa a ser explicitado. Isso muda a conversa com o cliente, altera a percepção de valor e, inevitavelmente, transforma a maneira de precificar.
Outro tema que destaco é o chamado split payment. Embora ainda esteja em fase de implementação, ele modifica diretamente o fluxo de caixa das empresas. O imposto passa a ser retido no momento da transação, reduzindo o espaço de gestão financeira que muitas companhias utilizavam no modelo atual. Na prática, exige mais organização, mais previsibilidade e menos margem para improviso.
Mas talvez o maior desafio não esteja na área fiscal e sim na integração entre áreas. A reforma exige que financeiro, jurídico, tecnologia e comercial conversem como nunca. Empresas que ainda operam em silos tendem a sentir mais dificuldade nesse processo. Não por falta de capacidade, mas por falta de alinhamento.
No setor de turismo e eventos, há ainda nuances importantes. Apesar de avanços, como a redução estimada de alíquotas para algumas atividades, o impacto na carga tributária ainda preocupa. Além disso, a lógica de créditos passa a ter um papel central. Saber de quem comprar, como contratar e como estruturar a operação deixa de ser apenas uma decisão operacional e passa a ser estratégica.
Isso pode, inclusive, redesenhar o mercado. Modelos de terceirização podem ser revistos, estruturas internas devem ganhar força e a escolha de fornecedores passa a considerar não apenas custo e qualidade, mas também eficiência tributária.
Outro ponto relevante é o fim da chamada guerra fiscal entre estados. A tributação passa a ocorrer no destino do consumo, o que tende a equilibrar o ambiente competitivo, mas também exige uma revisão das estratégias logísticas e comerciais de muitas empresas.
Diante de tudo isso, uma frase é certa: não existe mais espaço para postura reativa. Esperar a regulamentação completa para começar a agir pode custar caro. As empresas que saírem na frente estruturando processos, capacitando equipes e revisando suas operações, terão uma vantagem competitiva importante nos próximos anos.
É nesse contexto que o papel das entidades ganha ainda mais relevância. Na Alagev, temos trabalhado para promover debates qualificados, compartilhar informação e, principalmente, apoiar o setor na construção de caminhos possíveis diante desse novo cenário. A criação de um squad dedicado ao tema e a ampliação das iniciativas da Alagev Educa caminham exatamente nessa direção.
A reforma tributária não é um evento pontual. É um processo longo, com transição prevista até 2033. Mas seus efeitos já estão em curso e vão se intensificar.
No fim do dia, a discussão não é apenas sobre pagar mais ou menos imposto. É sobre quem estará mais preparado para operar melhor dentro de um novo sistema. E, nessa situação, adaptação deixa de ser diferencial e passa a ser condição de sobrevivência.
* Luana Nogueira, diretora-executiva da Alagev
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