
Agosto foi marcado pela campanha Agosto Lilás, dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Foi um período que reforça a importância de ampliar o debate sobre segurança, prevenção, acolhimento e responsabilidade coletiva. E essa reflexão também precisa alcançar diferentes espaços e contextos da vida das mulheres, inclusive aqueles relacionados às viagens.
Há alguns meses, publiquei no Instagram duas fotos tiradas durante viagens corporativas. As imagens chamaram atenção porque mostravam uma situação incomum: uma tábua de passar roupas posicionada atrás da porta do quarto de hotel, funcionando como uma barreira improvisada de segurança.
As fotos são reais. A primeira foi registrada em 2024 e a segunda em 2026. Foram feitas na mesma cidade, mas em hotéis diferentes. E, embora a cena tenha despertado curiosidade e até surpresa em algumas pessoas, a verdade é que ela retrata uma realidade bastante conhecida por mulheres que viajam sozinhas com frequência.
Quem observa a fotografia pode enxergar apenas um objeto apoiado na maçaneta. Eu enxergo algo maior. Vejo a materialização de um sentimento que acompanha muitas profissionais ao redor do mundo: a necessidade constante de avaliar riscos e criar mecanismos próprios de proteção.
De acordo com o Ministério do Turismo, 4 em cada 10 brasileiras (41,8%) já viajaram sozinhas, enquanto 31,4% realizam viagens solo com frequência. Em nível global, as mulheres representam a maioria no segmento de viagens independentes, compondo entre 75% e 84% de todas as viajantes solo do mundo.
O debate também começa a ganhar espaço fora do setor de viagens corporativas. A Forbes Brasil dedicou uma reportagem às experiências de mulheres que viajam sozinhas, reunindo relatos, estratégias de autoproteção e um dado que merece atenção: 62% das brasileiras afirmam já ter deixado de realizar uma viagem solo por questões de segurança. A publicação utilizou como base a pesquisa do Ministério do Turismo em parceria com a Unesco, que deu origem ao Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lançado pelo governo federal com orientações práticas para viajantes e recomendações direcionadas à construção de experiências mais seguras. Mais do que um material informativo, o documento representa um reconhecimento institucional de que a segurança da mulher durante a viagem deixou de ser apenas uma preocupação individual para se tornar uma pauta relevante para todo o ecossistema do turismo.
E eu faço parte desses números. Viajo regularmente para participar de feiras, congressos, reuniões estratégicas e encontros de negócios. Conheço destinos, hotéis, aeroportos e centros de convenções dos mais diversos perfis. E justamente por estar inserida nesse universo há tanto tempo, percebo que existe um tema importante que ainda recebe menos atenção do que deveria.
Falamos sobre tecnologia, personalização da experiência, sustentabilidade, inteligência de dados, eficiência operacional e inovação. Todos esses assuntos são fundamentais para o desenvolvimento do nosso mercado. Mas existe uma questão que atravessa a experiência de milhares de viajantes e que ainda aparece de forma tímida nas discussões do mercado: a segurança da mulher que viaja sozinha.
Quando uma mulher entra em um quarto de hotel, sua percepção do ambiente muitas vezes é diferente daquela experimentada por outros hóspedes. Enquanto algumas pessoas observam a decoração, a vista da janela ou as comodidades disponíveis, muitas de nós fazem uma análise quase automática do entorno. Avaliam a robustez da fechadura, verificam os acessos ao andar, observam quem circula pelos corredores, identificam rotas de saída e procuram entender se há vulnerabilidades que possam comprometer sua segurança. Esse comportamento não surge por paranoia. Surge pela experiência.
Basta iniciar uma conversa sobre o assunto para perceber o quanto essas histórias se repetem. Em diferentes países, cidades e contextos, mulheres compartilham estratégias semelhantes. Algumas evitam informar que estão viajando sozinhas. Outras pedem quartos próximos aos elevadores. Muitas carregam dispositivos portáteis de segurança. Há quem utilize alarmes para portas, travas adicionais ou aplicativos de monitoramento.
São hábitos que foram incorporados à rotina não porque tragam conforto, mas porque oferecem uma sensação mínima de controle diante de situações que nem sempre dependem delas.
O mais curioso é que essa demanda já é percebida pelo mercado consumidor. Hoje, basta fazer uma busca rápida em plataformas de comércio eletrônico para encontrar uma infinidade de produtos direcionados à proteção durante viagens.
A pergunta que me faço é: por que esse mercado cresce tanto? A resposta talvez seja simples. Porque existe uma necessidade real.Mas existe uma segunda pergunta que considero ainda mais relevante para a indústria de viagens e hospitalidade. Por que a responsabilidade pela segurança continua recaindo, em grande parte, sobre a própria viajante?
Naturalmente, cada indivíduo deve adotar medidas de precaução. Isso vale para homens e mulheres. No entanto, quando observamos a quantidade de mecanismos de autoproteção criados especificamente por mulheres, percebemos que existe uma diferença importante entre sentir-se seguro e precisar construir sua própria segurança.
É justamente nesse ponto que acredito que o setor pode evoluir.
Quando falamos sobre segurança em hotéis, frequentemente pensamos em câmeras, controle patrimonial ou prevenção de perdas. São aspectos essenciais, mas talvez seja o momento de ampliar essa discussão e olhar para a experiência da mulher viajante sob uma perspectiva mais abrangente.
Quem pode acessar os andares dos hóspedes? Os controles de segurança são realmente eficazes? As equipes sabem como agir diante de situações suspeitas? E as necessidades das mulheres viajando sozinhas estão, de fato, contempladas nos protocolos internos?
Essas questões não deveriam ser vistas como diferenciais. Deveriam fazer parte de uma reflexão permanente sobre hospitalidade, acolhimento e cuidado.
O Agosto Lilás nos lembra também que a prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher não podem ser responsabilidade exclusiva das próprias mulheres. Essa é uma responsabilidade coletiva, que envolve a sociedade, as instituições e também os diferentes setores que fazem parte de sua rotina.
No universo das viagens, essa reflexão se torna especialmente importante. Nos deslocamos sozinhas para trabalhar, estudar, participar de eventos, conduzir negócios e conhecer novos destinos. Garantir que esses deslocamentos aconteçam em ambientes cada vez mais seguros também deve fazer parte do compromisso de toda a cadeia.
O tema ganha ainda mais relevância quando observamos a crescente presença feminina em posições de liderança e a ampliação da participação das mulheres em viagens corporativas. Cada vez mais executivas, empreendedoras, gestoras, consultoras e profissionais especializadas percorrem o mundo representando empresas, conduzindo negociações e participando de eventos estratégicos.
Estamos diante de uma transformação importante do mercado de trabalho e, consequentemente, do perfil dos viajantes corporativos. Se o setor busca oferecer experiências cada vez mais personalizadas, precisa compreender também as preocupações que acompanham essas profissionais.
Não se trata de criar privilégios ou tratamentos diferenciados, mas sim de reconhecer realidades distintas e desenvolver soluções compatíveis com elas.
Essa reflexão também passa pela cultura organizacional das empresas. Programas de viagens corporativas costumam discutir orçamento, produtividade, política de deslocamento e gestão de despesas. Porém, ainda são poucas as organizações que incorporam de forma estruturada discussões sobre segurança sob a ótica feminina.
O dever de cuidado, tão presente nas pautas corporativas atuais, precisa considerar não apenas o deslocamento do colaborador, mas também a sua integridade física e emocional ao longo de toda a jornada.
Falo sobre esse tema porque já vivi situações que marcaram minha trajetória como viajante. Já tive minha privacidade invadida dentro de um hotel durante a madrugada. E experiências como essa deixam de ser episódios isolados para se tornarem referências permanentes na forma como passamos a avaliar cada novo ambiente.
A partir desse momento, a atenção se torna mais aguçada. Os protocolos pessoais aumentam. E a sensação de vulnerabilidade acompanha deslocamentos que deveriam ser encarados apenas como oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional. Por isso, acredito que o futuro da hospitalidade passa também pela construção de ambientes onde a segurança não seja percebida apenas quando algo dá errado. Ela precisa estar presente de forma silenciosa, eficiente e preventiva.
O que desejo para os próximos anos é que as mulheres possam viajar com mais tranquilidade, sem precisar recorrer a soluções improvisadas para garantir uma boa noite de sono. Que o setor de viagens, eventos e hospedagem continue avançando em inovação, mas sem perder de vista aquilo que sustenta qualquer experiência positiva: a confiança.
Porque uma viagem verdadeiramente bem-sucedida não é apenas aquela que entrega conforto, conectividade, conveniência ou a concretização de negócios. É aquela em que a viajante consegue fechar a porta do quarto, descansar e ter a certeza de que alguém já pensou na sua segurança antes mesmo de ela chegar.
*Luana Nogueira, diretora-executiva da Alagev
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