2 de fevereiro em Salvador não é apenas uma data no calendário: é um portal simbólico que se abre para o encontro entre turismo, cultura e espiritualidade. No bairro do Rio Vermelho, a tradicional Festa de Iemanjá mobiliza moradores, devotos e viajantes do mundo inteiro, transformando a cidade em um grande palco de fé viva, música, cores e afetos.
Para o turismo contemporâneo , cada vez mais atento a experiências autênticas , a celebração oferece muito mais do que um evento pontual. É a chance de viver Salvador em profundidade, compreendendo suas matrizes culturais, sua religiosidade plural e a força simbólica do Atlântico como território sagrado.
Embora profundamente ligada às religiões de matriz africana, a Festa de Iemanjá extrapola fronteiras confessionais. Ela acolhe curiosos, pesquisadores, artistas e viajantes interessados em compreender como a herança africana moldou a identidade baiana. Não por acaso, cresce a cada ano o número de turistas praticantes do candomblé e da umbanda que planejam sua viagem para Salvador especialmente nesse período, em busca de pertencimento, devoção e reconexão ancestral.
Eu mesmo vivi essa experiência há três anos. Além da festa no Rio Vermelho, percorri um roteiro de Salvador negro, que ajuda a contextualizar a celebração dentro de uma história maior: de resistência, criatividade e sacralidade cotidiana.
O encanto de Salvador está também na convivência entre tradições. No mesmo roteiro, visitei igrejas católicas históricas, o Santuário de Santa Dulce dos Pobres, espaço de fé, acolhimento e impacto social e a Mansão do Caminho, fundada pelo médium Divaldo Pereira Franco, referência no espiritismo brasileiro.
Essa costura entre catolicismo popular, espiritismo e religiosidades afro-brasileiras não é exceção: é marca estrutural da experiência soteropolitana. Para o visitante atento, trata-se de uma aula viva sobre sincretismo, tolerância e diversidade espiritual.
Nenhuma imersão cultural em Salvador estaria completa sem a visita , sempre respeitosa e consciente, aos terreiros de candomblé. É importante lembrar que o tradicional Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê (Gantois) encontra-se fechado até maio, em razão do falecimento de Carmen de Oxaguian, filha da lendária Mãe Menininha de Oxum. A informação é essencial para o planejamento responsável do roteiro e reforça a importância de compreender que esses espaços são, antes de tudo, casas de tradição, luto, continuidade e axé.
Oferecer Salvador no 2 de fevereiro é propor ao viajante algo que vai além do espetáculo: é convidá-lo a participar, a observar com sensibilidade, a aprender. É turismo cultural, espiritual e ético capaz de gerar impacto positivo, fortalecer identidades e criar memórias que permanecem.
Para quem busca destinos com alma, poucos lugares no mundo entregam tanto quanto Salvador. E poucos dias revelam tão bem essa alma quanto o dia de Iemanjá, quando a cidade inteira parece lembrar que viajar também pode ser um ato de escuta, reverência e transformação.