Retiro espiritual na provence: Lubéron e a sua abadia

No coração do Luberon, entre colinas suaves, vinhedos e vilarejos medievais, encontra-se um dos cartões-postais mais emblemáticos da Provence: a Abadia de Notre-Dame de Sénanque. Fundada em 1148 por monges cistercienses, essa abadia românica permanece até hoje como um monumento histórico vivo, onde beleza natural, arquitetura austera e espiritualidade se entrelaçam de forma rara. Cercada por campos de lavanda que florescem no verão, Sénanque recebe cerca de 400 mil visitantes por ano e se tornou uma imagem-símbolo da região.

O que faz esse lugar ser tão especial e atrair um fluxo tão intenso de visitantes é, sem dúvida, o cenário proporcionado pelos extensos campos de lavanda ao redor da abadia, especialmente entre meados de junho e meados de julho, quando a floração atinge seu auge. Em anos mais quentes, a lavanda pode florescer um pouco mais cedo; em anos mais frios, pode se estender até o fim de julho. A imagem da abadia cercada por um mar roxo de lavanda é tão icônica que virou símbolo da Provence e figura em postais e fotografias de todo o mundo.

Apesar dessa fama turística, a Abadia de Sénanque é muito mais do que um simples cartão-postal fotogênico. Ao contrário de muitos monumentos antigos que existem apenas como museus, Sénanque ainda é um mosteiro em pleno funcionamento. Vivem ali atualmente seis a sete monges cistercienses que seguem a Regra de São Bento, dedicando sua vida à oração, ao trabalho manual e à leitura. Essa presença viva confere ao local uma atmosfera de silêncio, serenidade e recolhimento que diferencia profundamente a experiência de visitação.

A abadia foi construída nos séculos XII e XIII, com uma arquitetura que reflete os princípios cistercienses de sobriedade, funcionalidade e harmonia com a natureza. Visitantes podem explorar espaços como a igreja, o claustro, o antigo dormitório dos monges, a sala do capítulo e outros ambientes que ajudam a contar a história desse lugar singular. Para preservar a vida monástica e o trabalho agrícola, os campos de lavanda, que são propriedade dos monges, não são acessíveis ao público. Em determinadas áreas, o silêncio deve ser respeitado e as fotografias no interior são restritas.

Atrás da abadia existe ainda uma casa de acolhida onde é possível fazer retiros espirituais ou períodos de recolhimento, vivendo em sintonia com a rotina monástica. Esses retiros permitem que viajantes desacelerem o ritmo, participem dos momentos de oração, experimentem a vida contemplativa e se reconectem consigo mesmos em um cenário de rara tranquilidade. Essa possibilidade, pouco conhecida entre turistas brasileiros, transforma a passagem por Sénanque em algo que vai muito além da contemplação estética, oferecendo uma experiência de profundidade, silêncio e interiorização raras na Provence.

Para quem deseja visitar a abadia durante a temporada da lavanda, convém planejar com antecedência. O período entre meados de junho e meados de julho é o mais concorrido do ano. Para evitar multidões e luz dura nas fotografias, o ideal é chegar cedo, logo na abertura, ou no fim da tarde, quando a luz é mais dourada e o fluxo de visitantes diminui. Em julho, especialmente, vale comprar os ingressos com antecedência. O estacionamento é limitado e a estrada de acesso, estreita, pode ficar congestionada nos horários de pico.

Uma alternativa agradável é deixar o carro em Gordes e seguir a pé ou de bicicleta até Sénanque, em uma descida suave de cerca de três quilômetros, com vistas muito bonitas ao longo do caminho. Essa pequena caminhada já faz parte da experiência e permite uma aproximação mais sensível da paisagem e do ritmo do lugar.

A Abadia de Sénanque se encaixa de forma natural em um roteiro pelo Luberon. Logo acima está Gordes, uma das aldeias mais belas da França, com ruas de pedra, mirantes espetaculares e pequenas galerias. Roussillon, a cerca de 20 minutos de carro, impressiona pelas falésias de ocre e pelo contraste cromático com a lavanda e o verde da vegetação. Bonnieux, Lacoste e Ménerbes completam um circuito harmonioso de vilarejos medievais, vinhedos e paisagens rurais.

Uma sugestão prática é dedicar um dia inteiro a essa parte do Luberon. Pela manhã, visita à Abadia de Sénanque, aproveitando a luz suave e o menor movimento. Em seguida, subida até Gordes para almoço e passeio. À tarde, seguir para Roussillon e, se houver tempo, encerrar em Bonnieux ou Ménerbes para um aperitivo ao pôr do sol. Para quem aprecia vinhos, vale incluir uma vinícola das denominações Ventoux ou Luberon no trajeto.

Fora da temporada da lavanda, entre setembro e maio, a abadia continua encantadora e muito mais tranquila. No outono, as cores dos vinhedos substituem o roxo dos campos; no inverno e início da primavera, o silêncio e a luz difusa realçam ainda mais a atmosfera contemplativa do lugar. Para viajantes que valorizam calma, espiritualidade e autenticidade, esses meses podem ser até mais interessantes do que o auge do verão.

Sénanque, portanto, não é apenas um ponto fotográfico da Provence. É um lugar onde história, paisagem e vida espiritual convivem de forma viva. Integrá-la a um roteiro pelo Luberon é uma maneira elegante e sensível de experimentar uma Provence que vai muito além do turismo superficial, revelando uma dimensão mais profunda, silenciosa e inspiradora da região.

Sainte Baume, gruta de Maria Madalena

Maria Madalena : a Nova (?) santiago de Compostela?

No último dia 23 de setembro, o Papa Francisco visitou Marselha, capital da Provence, marcando a primeira visita papal à região em mais de 500 anos. A escolha de Marselha como destino papal tem múltiplos objetivos, incluindo a união dos povos do Mediterrâneo e a recuperação da fé católica na Europa, onde o número de pessoas sem religião está em crescimento.

A visita do sumo pontífice também teve outros objetivos, entre eles, promover o papel das mulheres na igreja, com a valorização do culto a Maria Madalena em 2016, ao indicar 22 de julho, data da apóstola dos apóstolos, como data essencial no calendário litúrgico da Igreja Católica e reafirmado com sua benção sobre a rota histórica da santa, que recebeu investimentos importantes do governo francês nos últimos anos.

Papa Francisco tem se preocupado em resgatar a história do Cristianismo primitivo, isto é, a vida dos cristãos nos dois primeiros séculos da era comum. Dizem as lendas que os primeiros cristãos a chegar na Europa e começar um trabalho intenso de evangelização foram Madalena, Marta, Lázaro, Sara Kali, Maria Jacó e Maria Salomé (tias de Cristo e irmãs de Maria de Nazaré). Isso porque Marselha é um importante porto no Mediterrâneo, há 2600 anos.

A rota de Maria Madalena, semelhante à rota de Santiago de Compostela, emergiu como a nova estrela do turismo francês, embora no passado, principalmente na Idade Média, era um dos caminhos mais importantes para a Cristandade. Não só para se ver os restos mortais daquela que São Tomás de Aquino e Papa Bento XVI afirmaram ser a apóstola dos apóstolos, mas também por conta dos sítios arqueológicos, como uma imensa piscina para batismos coletivos.

Compostela ganhou notoriedade na contemporaneidade graças a Paulo Coelho no final do século passado. Fora o destino de Tiago, outro discípulo de Cristo. Mas até a publicação do livro “Diário de um Mago”, a rota de Maria de Madalena, até então, era a mais importante.

O percurso começa em Saintes Maries de la Mer, uma cidade litorânea encantadora que inspirou obras de Van Gogh, santuário dos ciganos de todo o mundo, principalmente entre 24 e 26 de maio. Os peregrinos seguem, então, para Martigues, passando por paisagens deslumbrantes, restaurantes peculiares e construções medievais muito bem preservadas.

Em Marselha, eleita capital cultural da Europa em 2013, é possível visitar pontos de interesse entre eles a gruta Cosquer- para apaixonados por arqueologia e história; o MUCEM- a plataforma cultural mais importante do sul da França e maior museu dos povos mediterrâneos; a Basílica de Notre Dame de la Garde e a abadia de São Vitor, essas duas últimas igrejas com fortes conexões históricas e relíquias ligadas a Maria Madalena.

A jornada continua para Saint-Maximin-La Sainte Baume, onde a Basílica de Maria Madalena exibe seu crânio em um altar e também as relíquias de Sidônio ( o cego curado por Cristo) e São Maximiliano. Imponente, é uma obra arquitetônica que causa admiração e emoção.

A região não atrai apenas católicos, mas também entusiastas da história, sendo atualmente um destino também para mulheres que fazem parte de um movimento que resgata o “Sagrado Feminino”. Comparado a Santiago de Compostela, esse destino também atrai aqueles em busca de turismo espiritual, focado em autoconhecimento e autodesenvolvimento, mas que não dispensam uma boa comida e paisagens notáveis.

A rota pode se tornar tão ou mais importante que o destino espanhol, atraindo diversos públicos, desde católicos devotos a pesquisadores universitários. A região da Provence, com sua rica história e paisagens deslumbrantes, pode se consolidar como um destino turístico espiritual nos próximos anos. O Sul da França é conhecido pela história como palco de grandes acontecimentos envolvendo religião. Avignon foi sede papal por mais de cem anos. Nostradamus nasceu naquela região. Uma série de movimentos – cátaros e templários- têm sua história conectada ao mediterrâneo francês, assim como escolas iniciáticas de magia, tradições ocultistas e seitas esotéricas lá surgiram.

Os viajantes não precisam fazer a rota a pé. Embora haja milhares de pessoas que o façam. Muitos são associados de uma organização chamada “Caminhos das Santas e Santos Provençais“. Esses peregrinos não pagam por hospedagem. São acolhidos por devotos dos santos da região. Aliás , não faltam entusiastas dessa jornada. Há também a associação de apoio ao santos provençais e a associação para o desenvolvimento de Sainte-Baume.

Essas entidades foram criadas após o filme Código da Vinci, baseado no livro homônimo de Dan Brown. A obra, como bem especifica o autor, é uma ficção. Mas muita gente não entendeu isso. Surgiram muitas teorias de conspiração e lendas urbanas. É preciso lembrar que os restos de Maria Madalena sempre estiveram na região. Nunca foram parar na Grã-Bretanha, uma vez que a santa nunca botou os pés na Bretanha, e tampouco seus restos mortais nunca estiveram no subsolo do Louvre, guardados por uma ordem secreta. Do mesmo modo que não há nenhum registro histórico que justifique a ideia de uma ligação romântica entre Cristo e sua discípula. Nem mesmo os evangelhos apócrifos, incluindo aquele atribuído à própria Maria Madalena, trazem qualquer vaga menção a um relacionamento amoroso entre ambos.

A bem da verdade, Maria Madalena sempre foi um personagem envolto em fake news. A história de que ela fora uma prostituta não encontra respaldo em nenhum dos evangelhos. Atribui-se a ela também o papel de pecadora que lava os pés de Cristo com seus cabelos e óleos perfumados. Outra informação sem fundamento. Encontramos no Novo testamento, 14 menções a Madalena. Nenhuma delas indica nenhum pecado a ela. Fala-se que Cristo expulsou 7 demônios dela e, a partir daí, essa mulher rica tornou-se sua seguidora.

O papa Gregório Magno foi quem , no séc. VI, criou confusão ao dizer que a mulher que fora salva por Cristo do apedrejamento e Maria de Bethânia fossem também Maria Madalena. A Igreja Ortodoxa nunca aceitou tal ideia. E hoje, busca-se acertar as narrativas também na Igreja Romana.

Fazer essa rota é uma oportunidade de entender melhor as estórias acerca de Maria Madalena, que tem uma igreja belíssima em sua homenagem em Paris, vivenciar o melhor da Provence, seja na gastronomia, seja no estilo de vida. É também uma viagem com forte apelo histórico e artístico.

O Caminho de Maria Madalena pode ser um momento de reencontro espiritual, sem ser religioso. Esses caminhos sempre trazem muita reflexão e reconexão com nossa história e a história da humanidade. Nos conduzem a um mergulho em nossos próprios valores. Maria Madalena é, sem dúvida, um símbolo de lealdade e coragem. De renascimento e amor. Tudo o que as pessoas mais precisam encontrar nos dias de hoje.

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