Mais que cartão postal, um lugar sagrado

Para muita gente, o Cristo Redentor é sinônimo de Rio de Janeiro. Um lugar para admirar a vista, tirar fotos e sentir a grandiosidade da cidade aos pés do Corcovado. Mas quem sobe até lá com um pouco mais de atenção percebe que o Cristo é mais do que um monumento famoso. Ele é, antes de tudo, um espaço sagrado, onde a fé católica acontece de forma concreta, viva e cotidiana.

Em 2025, essa dimensão espiritual ficou ainda mais clara. Ao longo do ano, cerca de 2300 celebrações religiosas foram realizadas no Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor. Não se trata de eventos pontuais, mas de uma rotina de fé que inclui missas, batismos, casamentos e peregrinações, integrando o Cristo à vida espiritual de milhares de pessoas.

As missas foram as celebrações mais frequentes, com 1036 celebrações ao longo do ano, um crescimento expressivo em relação ao período anterior. As peregrinações também aumentaram e chegaram a 204, mostrando que muitas pessoas escolhem subir ao Corcovado não apenas por turismo, mas como gesto de devoção, agradecimento ou busca interior. Os casamentos celebrados no santuário somaram 128, revelando o desejo de muitos casais de viver esse momento em um lugar carregado de simbolismo e espiritualidade. Já os batismos se mantiveram em torno de mil celebrações, confirmando o Cristo Redentor como espaço de acolhimento para novas vidas e novos começos.

Por trás desses números estão histórias simples e profundas. Famílias reunidas, crianças apresentadas à fé, casais iniciando uma nova etapa da vida, grupos que caminham juntos em peregrinação. Entre turistas e fiéis, o santuário encontra seu equilíbrio, oferecendo tanto a beleza da paisagem quanto a experiência do encontro com o sagrado.

O Cristo Redentor também abriga espaços de oração e celebração que reforçam essa vocação espiritual, como a Capela de Nossa Senhora Aparecida e a Capela de Adoração Laudato Si’. Em 2025, foi inaugurada ainda a Sala da Gratidão, um espaço dedicado a testemunhos e agradecimentos, onde fiéis deixam mensagens, objetos e relatos como sinal de reconhecimento por graças recebidas.

Tudo isso ajuda a lembrar que o Cristo Redentor não é apenas um símbolo visto de longe. Ele é um lugar vivido, onde fé, cidade e pessoas se encontram. Um espaço onde a paisagem impressiona, mas onde o que realmente marca é a experiência de pertencimento, acolhimento e espiritualidade.

Muito além do axé: por que Salvador é um dos destinos espirituais do Brasil

2 de fevereiro em Salvador não é apenas uma data no calendário: é um portal simbólico que se abre para o encontro entre turismo, cultura e espiritualidade. No bairro do Rio Vermelho, a tradicional Festa de Iemanjá mobiliza moradores, devotos e viajantes do mundo inteiro, transformando a cidade em um grande palco de fé viva, música, cores e afetos.

Para o turismo contemporâneo , cada vez mais atento a experiências autênticas , a celebração oferece muito mais do que um evento pontual. É a chance de viver Salvador em profundidade, compreendendo suas matrizes culturais, sua religiosidade plural e a força simbólica do Atlântico como território sagrado.

Embora profundamente ligada às religiões de matriz africana, a Festa de Iemanjá extrapola fronteiras confessionais. Ela acolhe curiosos, pesquisadores, artistas e viajantes interessados em compreender como a herança africana moldou a identidade baiana. Não por acaso, cresce a cada ano o número de turistas praticantes do candomblé e da umbanda que planejam sua viagem para Salvador especialmente nesse período, em busca de pertencimento, devoção e reconexão ancestral.

Eu mesmo vivi essa experiência há três anos. Além da festa no Rio Vermelho, percorri um roteiro de Salvador negro, que ajuda a contextualizar a celebração dentro de uma história maior: de resistência, criatividade e sacralidade cotidiana.

O encanto de Salvador está também na convivência entre tradições. No mesmo roteiro, visitei igrejas católicas históricas, o Santuário de Santa Dulce dos Pobres, espaço de fé, acolhimento e impacto social e a Mansão do Caminho, fundada pelo médium Divaldo Pereira Franco, referência no espiritismo brasileiro.

Essa costura entre catolicismo popular, espiritismo e religiosidades afro-brasileiras não é exceção: é marca estrutural da experiência soteropolitana. Para o visitante atento, trata-se de uma aula viva sobre sincretismo, tolerância e diversidade espiritual.

Nenhuma imersão cultural em Salvador estaria completa sem a visita , sempre respeitosa e consciente, aos terreiros de candomblé. É importante lembrar que o tradicional Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê (Gantois) encontra-se fechado até maio, em razão do falecimento de Carmen de Oxaguian, filha da lendária Mãe Menininha de Oxum. A informação é essencial para o planejamento responsável do roteiro e reforça a importância de compreender que esses espaços são, antes de tudo, casas de tradição, luto, continuidade e axé.

Oferecer Salvador no 2 de fevereiro é propor ao viajante algo que vai além do espetáculo: é convidá-lo a participar, a observar com sensibilidade, a aprender. É turismo cultural, espiritual e ético capaz de gerar impacto positivo, fortalecer identidades e criar memórias que permanecem.

Para quem busca destinos com alma, poucos lugares no mundo entregam tanto quanto Salvador. E poucos dias revelam tão bem essa alma quanto o dia de Iemanjá, quando a cidade inteira parece lembrar que viajar também pode ser um ato de escuta, reverência e transformação.

turismo vira narrativa: Santo Antônio e o poder das histórias inacabadas

Antes de se tornar notícia, a história da estátua inacabada de Santo Antônio, em Caridade, no interior do Ceará, já havia atravessado a literatura e está a caminho do cinema. O projeto, iniciado em 1984, nasceu com a ambição de transformar o pico do morro em um polo de turismo religioso, inspirado no sucesso da vizinha Canindé. A obra, no entanto, foi interrompida em 1986, deixando o corpo da imagem erguido no alto do morro e a cabeça, montada no chão, esquecida por décadas. Esse detalhe improvável chamou a atenção da escritora cearense Socorro Acioli, que enxergou ali uma potente metáfora e criou o romance A Cabeça do Santo. A história ganhou projeção internacional, abriu portas em oficinas literárias e avançou para a linguagem audiovisual, com adaptação cinematográfica em desenvolvimento, inclusive com diálogo para possíveis filmagens no próprio município. Um projeto turístico interrompido acabava, assim, transformado em patrimônio simbólico.

Poucas histórias ilustram tão bem a força da persistência e da fé quanto a de Caridade. Após 39 anos, a cidade finalmente assistiu à conclusão da imagem monumental de Santo Antônio, com a instalação definitiva da cabeça no alto do Morro do Serrote. O gesto, acompanhado com emoção pela população, foi rapidamente compartilhado nas redes sociais e carrega um significado que vai além da engenharia ou da estética: trata-se da materialização de um sonho coletivo que atravessou gerações.

Durante décadas, a separação entre corpo e cabeça não foi apenas uma obra inacabada, mas também uma narrativa aberta. A cabeça de concreto, esquecida em outro ponto da cidade, acabou se tornando um símbolo curioso, atraindo visitantes, despertando histórias e alimentando o imaginário local. Sem planejamento formal, Caridade já vivia, ali, um tipo de turismo espontâneo, baseado na curiosidade, na oralidade e na força das histórias.

A conclusão da estátua marca agora um novo momento. A imagem integra um projeto mais amplo de criação de um complexo religioso, com espaços de contemplação, infraestrutura para visitantes e um mirante com vista privilegiada da região. A proposta reposiciona Caridade no mapa do turismo religioso do Ceará, ampliando o diálogo com outros destinos de fé já consolidados e oferecendo novas possibilidades de circulação turística pelo interior do estado.

Para agentes de viagens e operadores, o caso de Caridade é especialmente revelador. Ele mostra como o turismo contemporâneo não se sustenta apenas em infraestrutura ou grandes investimentos, mas também em narrativas autênticas, capazes de conectar território, cultura, fé e imaginação. A cidade reúne todos os elementos que hoje mobilizam o viajante: espiritualidade, literatura, cinema, memória coletiva e uma história real que parece ficção.

Em tempos em que o turismo busca experiências com sentido, pertencimento e identidade, Caridade ensina uma lição valiosa ao trade: destinos não se constroem apenas com obras concluídas, mas com histórias bem contadas. E, às vezes, é justamente o que ficou inacabado que cria os vínculos mais profundos ; até o momento em que o ciclo, finalmente, se fecha.

Como o trade deve aproveitar os 800 anos de São Francisco de Assis em 2026

A celebração dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis, em 2026, abre uma das mais promissoras oportunidades para o mercado brasileiro de turismo religioso, cultural e experiencial. Para aproveitar esse momento de grande mobilização global, operadores, agências e DMCs precisam trabalhar com estratégia e antecedência.

O primeiro ponto é a organização logística: a veneração pública dos restos mortais do santo, algo inédito em oito séculos, ocorrerá entre 22 de fevereiro e 22 de março de 2026, mediante agendamento prévio. Isso exige que grupos e peregrinos façam reservas com muitos meses de antecedência, considerando hospedagem na Úmbria, transporte regional e ingressos oficiais.

Outro aspecto decisivo é a criação de produtos híbridos, combinando espiritualidade, cultura, história, natureza e gastronomia. O peregrino contemporâneo busca, além da devoção, uma experiência de sentido, contemplação e conhecimento. Por isso, roteiros que integrem visitas a santuários franciscanos, refeições típicas, atividades ao ar livre, museus e vivências guiadas tendem a atrair públicos mais amplos e qualificados. Vale lembrar que Assis é Patrimônio Mundial da UNESCO, o que amplia seu apelo para viajantes interessados em arte medieval, arquitetura e patrimônio histórico.

Guias especializados fazem toda a diferença nesse tipo de viagem. Profissionais com formação em história da arte, turismo religioso ou teologia agregam valor ao produto, aproximam o passageiro da narrativa franciscana e elevam a percepção de exclusividade do roteiro.

Além disso, o mercado brasileiro deve ser tratado como prioritário: o país tem forte tradição católica e cresce rapidamente no consumo de viagens de significado, especialmente entre grupos paroquiais, terceira idade, escolas confessionais e viajantes em busca de espiritualidade.

Como a procura por Assis tende a ser intensa, é essencial considerar a infraestrutura da Úmbria. Hospedar passageiros em cidades próximas como Perugia, Foligno, Spello ou Bastia Umbra, oferecendo transfers diários, pode ser uma solução eficiente para garantir conforto e disponibilidade mesmo nos períodos mais concorridos. Preparar o cliente também é fundamental: materiais educativos: vídeos, e-books, textos explicativos e lives ajudam a contextualizar a viagem, contar a história de São Francisco, esclarecer a importância da data e explicar como funcionará a visitação extraordinária aos restos mortais.

Outro diferencial competitivo está em conectar a viagem a temas contemporâneos associados ao legado franciscano: ecologia integral, economia solidária, diálogo inter-religioso e preservação do patrimônio. Esses eixos conversam com o público jovem, com segmentos culturais e com viajantes interessados em causas sociais, expandindo o perfil tradicional do peregrino.

Além disso, o ciclo dos Centenários Franciscanos não se limita a 2026; há demanda crescente por viagens pré-jubilares e pós-jubileo, o que permite aos operadores trabalhar o destino de forma contínua ao longo de 2025, 2026 e 2027.

Por fim, é possível ampliar ainda mais o potencial da data integrando Assis a outros destinos de relevância religiosa e cultural. Combinações como Assis e Roma, Assis e Toscana espiritual, ou extensões para rotas como Fátima, Lourdes e Santiago de Compostela criam itinerários mais completos e atraentes, posicionando o produto franciscano como porta de entrada para experiências espirituais europeias mais amplas.

Em síntese, os 800 anos de São Francisco não representam apenas uma efeméride religiosa, mas uma oportunidade de ouro para reposicionar produtos, inovar no turismo de fé e entregar experiências profundas e transformadoras. Com planejamento, conteúdo qualificado e integração de tendências atuais, o trade brasileiro tem tudo para ocupar um espaço privilegiado nesse momento histórico.

Fórum turismo religioso acontece esta semana

A nova edição do Fórum Nacional de Turismo Religioso se aproxima e será realizada nesta semana, nos dias 25 e 26 de novembro, no Cine Teatro Padre Jesus Flores, localizado no Santuário do Divino Pai Eterno. O encontro reunirá lideranças religiosas, representantes do poder público, universidades, empresas do setor turístico e diversas instituições brasileiras. Totalmente gratuito, o Fórum consolida-se como uma das principais plataformas de articulação, pesquisa e negócios dedicadas ao turismo de fé no país.

A programação contempla palestras, seminários técnicos, apresentações institucionais, rodadas de negócios e o lançamento e reconhecimento de iniciativas voltadas ao desenvolvimento territorial, inovação e governança do segmento.

No dia 25, as atividades estarão concentradas em debates sobre espiritualidade, governança, políticas públicas, dados e hospitalidade. Entre os palestrantes confirmados estão Padre Marco Aurélio, Padre Omar Raposo, Padre Manoel Filho, Adriane Rengel, Amadeu Castanho e Padre Rodrigo Castro. À tarde, o foco se volta para sustentabilidade integral e planejamento estratégico, sob condução do Padre Daniel Aguirre.

No dia 26, a programação integra o 2º Seminário Goiano de Turismo Religioso, promovido pelo SEBRAE Goiás, reunindo representantes da Arquidiocese de Goiânia, Goiás Turismo e operadoras como Catedral Viagens, TrieloTur, Peregrinos Brasil e Domus Viagens. O seminário discutirá desafios de mercado, integração regional e oportunidades de comercialização de rotas religiosas.

A programação inclui ainda o Palco Drops/Pitch, com rodadas e apresentações rápidas voltadas à conexão comercial entre destinos, santuários, agências e operadores. Entre os participantes confirmados estão Nova Trento (SC), Congonhas (MG), Santuário Dom Bosco (DF), SEBRAE-ES e Santuário de La Salette. O objetivo é aproximar projetos e roteiros religiosos do mercado, fortalecendo oportunidades de negócios e fomentando articulações institucionais.

O Fórum chega a esta edição respaldado por importantes instituições que reconhecem sua relevância para o desenvolvimento do turismo de fé no Brasil. O evento recebeu chancela da EMBRATUR – Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo e conta com apoio de entidades como a ABBTUR, SEBRAE, Ministério do Turismo e Confederação Nacional do Turismo (CNTur). Essas chancelas reforçam o Fórum como espaço estratégico de integração entre poder público, trade turístico, academia e Igreja, legitimando-o como ambiente de formulação, articulação e promoção do turismo religioso em escala nacional.

A edição também contempla a entrega do Troféu São João Paulo II – Caminho da Fé e da Cultura, que homenageia iniciativas e personalidades de destaque no turismo religioso, reconhecendo ações de impacto cultural, social e territorial. Eu serei agraciado com o troféu por conta da discussão que promovo nesse blog evidenciando a importância econômica e cultural desse setor.

Além disso, serão anunciadas as submissões aprovadas para publicação na Revista Científica de Turismo Religioso, fortalecendo o eixo acadêmico e a produção de conhecimento sobre o setor.

O Fórum adota diretrizes de responsabilidade socioambiental, incentivando o uso de QR Codes, materiais digitais e brindes sustentáveis, reduzindo o consumo de papel. As práticas dialogam com princípios de ecologia integral e com debates inspirados na encíclica Laudato Si, articulando sustentabilidade e turismo religioso.

Europa Sagrada chegando ao Brasil

Nos dias 26 e 27 de novembro, o projeto Sacred Horizons chega ao Brasil com uma proposta clara: aproximar alguns dos destinos espirituais e culturais mais emblemáticos da Europa do trade turístico brasileiro. Com apoio da European Travel Commission (ETC), a iniciativa promove encontros em Belo Horizonte e Curitiba, reunindo agentes de viagem, operadores e representantes oficiais de turismo da Itália, San Marino, Grécia e Croácia — um movimento estratégico para um segmento que cresce de forma acelerada: o turismo espiritual, cultural e experiencial.

Em Belo Horizonte, o encontro acontece no Hilton Garden Inn, reunindo autoridades locais, imprensa especializada e buyers convidados. A programação combina apresentações institucionais e rodadas de negócios (B2B meetings), favorecendo conexões diretas entre o mercado brasileiro e os expositores europeus.

No dia seguinte, é a vez de Curitiba sediar a segunda etapa do projeto, desta vez no Radisson Hotel. O formato se repete, com foco em fortalecer o diálogo entre fé, cultura e hospitalidade, além de consolidar o Sul do Brasil como um polo estratégico para viajantes qualificados. Na capital paranaense, os participantes também terão acesso a um almoço de networking, que une tradições europeias e a gastronomia local.

A delegação europeia chega ao país com um conjunto especialmente robusto de destinos e instituições. Da Itália e San Marino, participam representantes de Emilia-Romagna, além de cidades historicamente ligadas à peregrinação e ao patrimônio cultural, como Assis, Loreto e Chiusi Della Verna. A Grécia marca presença com cinco regiões — Florina, Kastoria, Monemvasia, Nafplio e Mystras — reconhecidas por seu profundo legado ortodoxo e bizantino. Da Croácia, o destaque é a ilha de Rab, famosa por suas paisagens intocadas, tradições autênticas e a serenidade de seu litoral.

As duas cidades , Belo Horizonte e Curitiba, foram escolhidas pelo forte potencial para o turismo espiritual na Europa. Que venham muitos negócios…

Impacto do apoio federal ao Círio de Nazaré 2025

O Círio de Nazaré já é um dos eventos religiosos mais emblemáticos do Brasil, atraindo multidões todos os anos, inclusive do exterior. Em 2025, no entanto, a celebração atravessa um momento especial: pela primeira vez, contará com R$ 2 milhões em investimentos federais para reforçar sua estrutura e promover ainda mais o turismo de fé.

A injeção de recursos não precisa ser vista apenas como um gesto simbólico. Ela tem impacto direto nos setores que compõem o ecossistema turístico: hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços auxiliares. Com uma infraestrutura melhor, os visitantes terão uma experiência mais confortável e segura, o que tende a aumentar a estadia média e o consumo local.

Em 2024, estima-se que o Círio tenha reunido cerca de 2 milhões de pessoas em Belém, gerando um impacto econômico superior a R$ 190 milhões. O desafio agora é aproveitar essa base e elevá-la ainda mais em 2025.

O investimento federal no Círio reforça uma tendência crescente: o turismo ligado à fé e espiritualidade tem se consolidado como um dos segmentos mais promissores no Brasil. Cidades como Aparecida (SP) e Juazeiro do Norte (CE) já comprovam que unir devoção com estrutura turística pode promover desenvolvimento regional.

Para o trade turístico, isso significa que destinos de cunho religioso merecem atenção estratégica no planejamento — não apenas nas épocas tradicionais de festa, mas o ano todo, com roteiros, produtos turísticos e divulgação focada. Para refletir a importância de tal investimento:

  1. Planejamento integrado
    Operadores, hotéis, agências, guias e entidades religiosas podem unir forças para estruturar roteiros que explorem os arredores do evento, promovendo turismo complementar (turismo ecológico, cultural, gastronômico).
  2. Qualificação da experiência
    Investir em conforto, sinalização, acessibilidade, segurança e atendimento ao visitante diferencia o destino. Experiências positivas geram recomendações boca a boca e estimularão retornos futuros.
  3. Marketing segmentado
    Comunicar não só para devotos, mas também para turistas que têm interesse por cultura, história e religiosidade. Apostar em canais digitais, conteúdos visuais e parcerias com influenciadores pode ampliar o alcance.
  4. Monitoramento de impacto
    Mensurar os resultados em hospedagem, receita, fluxo de visitantes e emprego ajudará a ajustar ações para edições futuras e justificar novos investimentos públicos e privados.

O anúncio de um apoio federal significativo ao Círio de Nazaré em 2025 evidencia que eventos religiosos podem servir como fortes vetores de desenvolvimento turístico. Para quem atua no trade turístico, o momento é de olhar com atenção, planejar com integração e estar pronto para aproveitar o fluxo de visitantes com serviços de qualidade.

Peru lança Caminhos de Leão XIV

Caminhos do Papa Leão XIV, um roteiro para renovar sua oferta de viagens ao Peru

E o Peru se consolida mais uma vez como destino espiritual. Desta vez não é Machu Picchu o cenário principal. Nosso vizinho acaba de se posicionar de maneira estratégica com o lançamento da rota “Caminhos do Papa Leão XIV”. Inspirado na trajetória de Robert Prevost — missionário que fez do Peru sua segunda casa antes de se tornar o Papa Leão XIV —, o roteiro é muito mais que uma proposta espiritual: é um produto turístico completo, que combina fé, cultura, patrimônio histórico e identidade local. Para os agentes de viagens, trata-se de uma oportunidade rara de apresentar aos clientes católicos brasileiros um itinerário inédito e altamente atrativo, capaz de dialogar com diferentes perfis de viajantes.

A rota percorre quatro regiões peruanas — Piura, Lambayeque, La Libertad e Callao — reunindo 39 atrações entre igrejas coloniais, catedrais imponentes, conventos históricos, museus e sítios arqueológicos. Em Piura, o visitante pode reviver os primeiros passos missionários do Papa em cidades como Chulucanas, onde a fé se mistura à tradição artesanal das cerâmicas coloridas. Em Lambayeque, coração de sua atuação episcopal, a Catedral de Chiclayo e o Convento de Santo Agostinho dividem espaço com tesouros arqueológicos mundialmente conhecidos, como os Túmulos Reais de Sipán e o Complexo de Túcume. Já em La Libertad, a cidade de Trujillo oferece um mergulho no esplendor do barroco andino, com praças coloniais e conventos que preservam séculos de história. O trajeto se completa em Callao, próximo a Lima, onde igrejas e santuários se misturam à atmosfera cultural de um porto histórico.

O diferencial desse roteiro não está apenas na variedade de atrações, mas também no forte investimento público: estima-se que mais de 500 milhões de soles sejam aplicados em restauração de igrejas, ampliação de museus e melhorias de acesso, garantindo qualidade e segurança à experiência dos visitantes. Para os agentes, isso significa ter nas mãos um produto confiável, estruturado e pronto para ser comercializado de forma integrada aos roteiros já consolidados no Peru, como Lima, Cusco e Machu Picchu.

Além do aspecto religioso, os Caminhos do Papa Leão XIV oferecem múltiplas possibilidades de venda. Peregrinos e grupos paroquiais encontrarão no percurso uma vivência de fé e introspecção; famílias poderão explorar cultura, gastronomia e artesanato; viajantes curiosos terão a chance de descobrir um Peru diferente, autêntico e pouco explorado. Essa versatilidade torna o roteiro uma carta valiosa para ampliar a carteira de clientes, seja em viagens em grupo, pacotes personalizados ou extensões temáticas.

Mais do que vender uma viagem, os agentes de viagens têm aqui a chance de oferecer uma jornada transformadora: caminhar pelos mesmos lugares que moldaram a vida de um Papa e, ao mesmo tempo, vivenciar o encontro entre espiritualidade e cultura no coração do Peru. É a oportunidade de emocionar os clientes com um produto único, que une tradição, inovação e uma forte conexão com a identidade do povo peruano. E o melhor, com preços bem atrativos e sem grandes problemas burocráticos.

Ligúria: fé e dolce vita à beira do Mediterrâneo

A Ligúria é uma dessas joias do mapa que, à primeira vista, conquista pela elegância natural da Riviera Italiana: um desfile de vilas coloridas aninhadas entre o azul do mar e o verde das colinas. Mas basta se demorar um pouco mais para perceber que, por trás da sua dolce vita, pulsa uma alma profundamente espiritual e, por vezes, surpreendentemente mística. Aqui, a fé se expressa na pedra, no tecido, na água e até nas lendas que atravessam séculos.

Em San Fruttuoso, entre Portofino e Camogli, repousa uma das imagens mais singulares do Mediterrâneo: o Cristo degli Abissi. Esta estátua de bronze, colocada a 17 metros de profundidade em 1954, foi idealizada pelo mergulhador italiano Duilio Marcante como homenagem a todos aqueles que perderam a vida no mar. De braços abertos, a figura parece acolher os que descem até ela, mergulhadores ou fiéis em busca de um momento de introspecção. A atmosfera é tão intensa que inspira cada vez mais até casamentos submarinos, nos quais os noivos, equipados com cilindros, dizem “sim” com um coro de bolhas ao redor.

O coração espiritual de Gênova pulsa na Catedral de San Lorenzo, cuja história começa no século IX, quando uma modesta igreja foi erguida sobre ruínas romanas. Entre os séculos XII e XIV, ganhou sua forma atual, um imponente edifício gótico com fachada românica em mármore branco e negro; as cores que se tornariam um símbolo da cidade. Essa fachada, com colunas esculpidas e leões guardiões, é mais que um ornamento: é uma afirmação do poder e da riqueza de Gênova durante a Idade Média.

Mas o que realmente fascina é a coleção de relíquias e tesouros guardados no interior. Entre eles, um prato que, segundo a tradição, teria servido na Última Ceia, e fragmentos de ossos atribuídos a São João Batista, padroeiro da cidade. E, em meio a relicários e pinturas, está uma joia rara e inesperada: a Paixão de Cristo pintada sobre tecido denim. Sim, jeans! Produzido em Gênova desde o século XV, esse tecido azul, chamado bleu de Gênes, era exportado para toda a Europa e, séculos depois, daria origem à palavra “jeans”. Usá-lo como base para arte sacra era ousado, mas o resultado é extraordinário: o azul profundo realça as cenas dramáticas, criando um diálogo entre o sagrado e a vida cotidiana dos marinheiros e mercadores que vestiam o mesmo material.

Terra de bruxas? No século XVI, este vilarejo aninhado nas montanhas foi palco de um dos processos de bruxaria mais famosos da Itália. Acusadas de provocar fomes, tempestades e doenças, dezenas de mulheres foram interrogadas, presas e, em alguns casos, executadas.

O Museo Etnografico e della Stregoneria preserva essa memória em uma narrativa que vai além da caça às bruxas. Dividido em alas, o museu mostra a vida rural da Ligúria de montanha (utensílios, trajes e ferramentas agrícolas) antes de mergulhar no universo do misticismo. Há reproduções de celas, cópias dos registros inquisitoriais, receitas de poções e objetos usados em rituais de cura com ervas. Finalmente, o visitante descobre que muitas das “bruxas” eram, na verdade, parteiras, enfermeiras, benzedeiras, curandeiras e guardiãs de saberes populares que incomodavam homens poderosos e religiosos da época.

Caminhar por Triora, com suas ruelas de pedra e portais medievais, é quase sentir o peso dessas histórias. Não à toa, o vilarejo cultiva uma atmosfera de mistério, celebrando festivais de bruxaria e atraindo curiosos do mundo todo.

A Ligúria é, portanto, mais do que um destino para prosecco à beira-mar. É um território que convida a mergulhar — seja no azul profundo que esconde o Cristo degli Abissi, seja nos arquivos seculares da Catedral de San Lorenzo, seja nas lendas de Triora. Aqui, a Riviera Italiana não é apenas cenário: é personagem de uma história onde fé, arte, mistério e prazer convivem lado a lado.

Romería del Rocío: fé, festa e tradição no coração da Andaluzia

Se existe uma celebração que sintetiza a alma andaluza, com sua mistura única de fé, música, devoção e alegria contagiante, essa celebração é a Romería del Rocío. Realizada anualmente na província de Huelva, no sul da Espanha, essa romaria atrai centenas de milhares de peregrinos vindos de toda a Espanha — e cada vez mais turistas do mundo inteiro curiosos por vivenciar uma experiência espiritual e cultural única.

A Romería del Rocío é uma tradicional peregrinação católica que leva os fiéis até a pequena aldeia de El Rocío, pertencente ao município de Almonte, em Huelva. O objetivo é venerar a imagem da Virgem do Rocío, também conhecida como “La Blanca Paloma” (A Pomba Branca), padroeira da região.

As origens dessa devoção remontam ao século XIII, mas foi no século XVII que a romaria começou a ganhar a dimensão atual. Hoje, mais de 120 hermandades (irmandades religiosas) organizadas partem de diferentes pontos da Andaluzia — especialmente Sevilha, Cádiz e Málaga — para fazer o percurso a pé, a cavalo ou em charretes enfeitadas, sempre acompanhados por cantos, guitarras e o famoso cante flamenco.

A peregrinação culmina no final de semana de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. O ponto alto da festa ocorre na madrugada de domingo para segunda, com a “salida” da Virgem em procissão — um momento carregado de emoção, em que multidões lotam a igreja do Santuário de El Rocío para testemunhar a saída da imagem em meio a aplausos, lágrimas e cânticos.

Participar da Romería del Rocío é mergulhar em uma Andaluzia profunda e vibrante. A viagem pelas trilhas naturais do Parque Nacional de Doñana, os trajes típicos, os aromas da culinária local e o som dos tambores e palmas criam uma atmosfera única, onde o sagrado e o profano convivem em perfeita harmonia.

Para o turista, trata-se de uma vivência autêntica, diferente de qualquer festa religiosa convencional. Mesmo quem não tem vínculo com a fé católica se encanta com a hospitalidade dos romeiros, a beleza da paisagem natural e a intensidade emocional da celebração.

A Romería del Rocío não é apenas um evento religioso. É um verdadeiro patrimônio imaterial da cultura espanhola, onde passado e presente se encontram em uma das manifestações mais vivas da espiritualidade popular europeia. Sua força simbólica, a beleza dos trajes, os rituais e a energia coletiva transformam El Rocío em um dos destinos mais marcantes para quem busca turismo com alma.

Se você deseja conhecer a Espanha para além dos roteiros tradicionais, incluir a Romería del Rocío em seu calendário de viagens é uma escolha inesquecível. Porque algumas experiências não se explicam — se sentem.

Algumas dicas:

Reserve com antecedência: El Rocío recebe mais de 1 milhão de visitantes durante a romaria, e as hospedagens na região esgotam rapidamente.

Prepare-se para a poeira e a dança: A peregrinação é intensa, mas também cheia de alegria. Sapatos confortáveis e espírito aberto são indispensáveis.

Experimente a gastronomia local: Prove pratos como o “ajo campero”, as tapas andaluzas e os doces típicos vendidos ao longo do caminho.

Respeite a cultura local: Vista-se com discrição, siga o ritmo das hermandades e aproveite para aprender com os habitantes locais sobre a tradição. Trata-se de um evento religioso e não de uma micareta.